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Gênero e religiosidades I
Coord: Cristiana Tramonte
Local: Sala 604 - CED
Data: 9/10/2002



Idalina Maria Freitas Lima Santiago
- imfls@uol.com.br
O jogo do gênero e da sexualidade nos terreiros de umbanda x jurema
A umbanda X jurema é a religiosidade mais comum no contexto da cultura afro-índia-paraibana na região da grande João Pessoa/Pb. Neste universo foram estudadas seis casas religiosas, durante o período 1998-2000, procurando identificar aspectos relacionados à construção das identidades sexuais e de gênero. Para tanto, foi delimitado um grupo metodologicamente representativo composto por chefes(as) heterossexuais, homossexuais e bissexuais. Investigou-se as concepções míticas das entidades protetoras, os processos iniciáticos e as atribuições dos papéis de gênero. Percebeu-se que as opções sexuais dos chefes não foram indicadoras para aceitação ou proibição de práticas libertárias no referente à sexualidade; não há regras comuns que expliquem as direções tomadas por cada terreiro no tocante à sexualidade; as definições das identidades de gênero se alocaram na esfera naturalista vinculada aos atributos biológicos-reprodutores.


Joana Mendonça de Carvalho - juanitamc@bol.com.br
Mulheres de sari e homens de doti: relações de gênero entre adeptos do Hare Krshna na cidade de Florianópolis

Este trabalho refere-se às concepções e vivências envolvendo gênero entre devotos do movimento Hare Krishna em Florianópolis. Ele decorre de dois anos de pesquisa entre componentes dos dois grupos existentes na cidade, e vem sendo desenvolvido desde agosto de 2000. O primeiro ano da pesquisa abordou aspectos da noção de alimentação, ligada à filosofia védica que dá base aos princípios religiosos do movimento, e, sobretudo às maneiras como os adeptos vêem o mundo e vivem o processo de devoção. O segundo ano teve como foco a corporalidade no cotidiano dos adeptos, nos rituais e na cosmologia Hare Krihna. Em ambos os enfoques, questões de gênero apareceram como importantes na configuração das vivências dos devotos, sobretudo em relação à ocupação de determinados espaços de divisão de trabalho e de função ritual entre homens e mulheres.Entre essas questõesse destacam uma maior presença do masculino em oposição a uma menor visisbilidade da participação feminina nas ruas e em rituais públicos. Não há a princípio papéis sexuais definidos mas foi possível notar que geralmente as atividades do cozinhar são realizadas pelas mulheres e as do comércio ou conduções nos rituais, como tocar instrumentos e dar palestras e aulas, são predominantemente da esfera masculina. Pensar relações de gênero em outro sistema cultural traz não só uma visibilidade das visões de mulher e homem que se tem nele mas também na própria cultura, possibilitando, assim, um exercício de relativização da mesma. É nesta perspectiva que o trabalho dialoga com a proposta deste evento, pois o processo de politização envolve em um primeiro momento este exercício de compreensão e relativização do que é ser homem e ser mulher.


Paloma Vanderlei da Silva- flordejac@zipmail.com.br
Mulher negra e poder nos candomblés da Bahia (1870-1930)

Este trabalho objetiva perceber como as mulheres negras ganhadeiras utilizavam o espaço urbano no ato de mercadejar para a manutenção e reprodução dos candomblés de Salvador entre 1870-1930. No cenário onde ganho com comidas marcava o cotidiano da cidade, as ganhadeiras burlavam a ordem vigente e estabeleciam novos códigos de convivência para assumir o papel de zeladoras das tradições africanas: estabelecendo laços de solidariedade, comprando terrenos (as roças) através da comercialização; complementação financeira que mantinha as obrigações no candomblé. Utilizou-se jornais do período, iconografia, entrevistas, travando constante diálogo com a Antropologia Religiosa, percebendo assim a multiplicidade de papéis que as mulheres negras assumiam no mundo afro-brasileiro. Tais mulheres conquistavam espaços públicos em meio a tensas relações de poder, diferindo radicalmente das mulheres brancas pertencentes às classes dominantes, que viviam enclausuradas em seus lares sob as ordens masculinas de maridos, pais ou irmãos.


Priscila M. de Souza Dourado - priscilamdourado@newyork.com
Maria Bernadette Frota A. Silva
Maria Isolda Castelo Branco Bezerra de Menezes
Francisco Correia de Oliveira
A liderança feminina e sua forma de gestão no candomblé em Fortaleza
A religião para o povo negro no Brasil representa historicamente um mecanismo de luta, construção e valorização de sua identidade cultural frente a dominação. A participação das mulheres negras como mães-de-santo no candomblé manifesta-se como liderança religiosa, institucional e social. A presente pesquisa pretende analisar o processo de liderança feminina no candomblé na cidade de Fortaleza com os seguintes objetivos: a) pesquisar o perfil das mães-de-santo através de suas histórias de vida, priorizando os aspectos subjetivos no exercício do poder e a conciliação de suas vidas cotidianas e o sagrado; b) identificar os estilos de liderança e formas de gestão utilizadas pelas mães de santo. O estudo caracteriza-se como um estudo exploratório, de natureza qualitativa a partir de uma amostra não probabilística.


Yvone Inez Ricci Boaventura - yboaventura16@hotmail.com
Maria de Lourdes Bandeira
Revista Pomba Branca: a prevalência do machismo

O presente estudo é parte integrante minha tese de doutorado que investiga a concepção do papel feminino, a partir da análise crítico-compreensiva de artigos da Revista Pomba Branca do ano de 1998, publicados pela Seicho-No-Ie. Seicho-No-Ie. é uma organização religiosa que se difundiu no Brasil trazida pelas correntes migratórias de japoneses que aqui chegaram principalmente na década de 40. Seus fundamentos doutrinários sincréticos, calçados na tradicional cultura japonesa, são um misto de Budismo, Cristianismo e Confucionismo. Ao evidenciar o papel de submissão atribuído às mulheres, imposto pelo discurso confessional da revista, o que igualmente vem à tona é o outro pólo da díade que se complementa, o homem/macho. Assim, de acordo com a análise dos conteúdos semânticos da revista, cabe ao homem, tanto no interior da relação conjugal, quanto no meio social, prevalecer, ser o centro articulador e mobilizador da maioria das ações. Compete à mulher tratá-lo com respeito, obediência e submissão. Sendo assim, observa-se que, apesar de as lutas reivindicatórias de grupos feministas terem sido desencadeadas desde a década de 60 e terem promovido rachaduras no patriarcalismo, a Seicho-No-Ie continua sendo um núcleo remanescente de produção simbólica de gênero, formatadora de comportamentos machistas e sexistas.


Cristiana Tramonte - tramonte@ced.ufsc.br
As senhoras do povo-de-santo: tecendo a rede urbana entre tradição e modernidade

Na história das religiões afro-brasileiras da Grande Florianópolis, as mulheres tiveram o predomínio entre as primeiras praticantes, caracterizando um fenômeno de liderança e hegemonia. Considerando que a exclusão da mulher agrava-se conforme sua condição étnica e de classe, destaca-se a importância do espaço religioso afro-brasileiro para a condição social da mulher local, especialmente aquela pertencente a grupos afro-brasileiros e de classes populares que, desta forma, assume a liderança de uma densa rede urbana que articula valores da tradição - papéis historicamente reservados às mulheres - e da modernidade - a possibilidade de liderarem espaços sociais que congregam a amplitude social de gênero e classe.