COMUNICAÇÕES LIVRES

 mesas redondas 
comunicações livres 
mostras e exposições 
inscrição 
contato
comissão organizadora 

 

 

Masculino/Feminino
Coord: Leila Assumpção Harris
Local:Auditório do Centro de Convivência
Data: 10/10/2002



Ana Maria Bueno Accorsi
- amaccorsi@terra.com.br
O Big Ben: ritmo e mapa da festa de Mrs. Dalloway
A primeira das três principais obras classificadas teoricamente sob o rótulo de romances de fluxo de consciência, "Mrs. Dalloway" (1925) de Virginia Woolf aparece num ano em que o reconhecimento da autora como romancista de valor está sendo solidamente estabelecido. É um romance da consciência, da nova psicologia e da experimentação, acalentada pela força do movimento modernista, muito próximo das também experimentais obras de seus contemporâneos Proust, Joyce e Faulkner. E é como uma escritora realmente moderna que Virginia Woolf desejava realizar-se. Autora de vários ensaios e resenhas sobre crítica literária, Woolf preocupava-se também muito com sua própria obra de ficção. O projeto ficcional de "Mrs. Dalloway", inicialmente intitulado "The Hours" (As horas),conforme anotações de Virginia Woolf, levou dois anos e foi bastante complexo e, segundo a crítica literária,é uma das mais importantes obras do modernismo e,provavelmente, a mais tipicamente inglesa de todas. Durante os dois anos de preparação, o projeto original do enredo foi se modificando; entretanto, dois temas importantes se mantiveram: vida & morte. Apondo elementos autobiográficos em sua criação, Virginia Woolf parece ter, ao escrever, tentado substituir ou justificar a vida pela obra e a criação como vida. Além da reflexão prévia sobre os processos de composição e de criação, as anotações de Woolf também apontam para o fato de que a autora, sob a provável influência de Joyce em "Ulysses", tinha intenções de tratar nessa obra o fluxo da consciência e de resolver o problema da estrutura da obra restringindo o espaço a um só lugar, Londres, e o tempo cronológico aos acontecimentos ocorridos em um único dia - o dia da festa de Clarissa Dalloway, em que o badalar do Big Ben, soando as horas, marca o passar das horas. A preocupação com os aspectos do tempo interior da personagem feminina e da ordem temporal exterior parecem ter sido importantes desde o início do planejamento da obra, como atesta a primeira escolha do seu título - "As horas".


Dirce Waltrick do Amarante - dwa@matrix.com.br
Anna Livia Plurabelle: a Irlanda de Joyce
Interpretações recentes de Finnegans Wake propõem uma análise pós-estruturalista da obra sob um viés feminista, uma vez que, na opinião de alguns estudiosos, em nenhum outro romance a obsessão antipatriarcal de Joyce é mais evidente do que neste. Em Finnegans Wake o "herói tradicional", Humphrey Chimpden Earwicker, morto já nas primeiras páginas do romance, é ressuscitado por Anna Livia Plurabelle, a figura feminina, geradora da vida. Anna Livia representa também a Irlanda, terra natal de James Joyce, e ambas - mulher e nação - são vítimas da autoridade patriarcal e colonizadora. Na minha comunicação, pretendo, a partir da figura de Anna Livia, discutir a questão irlandesa e alguns aspectos pós-coloniais do romance, traçando um paralelo entre ela e o "herói", H.C.E., que, no livro, representaria os colonizadores da Irlanda.


Luiz Manoel da Silva Oliveira - lumano@domain.com.br
A sombra de Caliban nas trajetórias das protagonistas da Jasmine, de Bharati Mukherjee, e de Alias Grace, de Margaret Atwood
A crítica literária e a produção ficcional contemporâneas têm sobremaneira propiciado verdadeiras revisões, releituras e reinterpretações de importantes obras literárias anteriores, assim como reavaliações de suas personagens. No caso em questão, a consideração ampla das idéias acerca do Caliban de A Tempestade abre espaço para o exame das questões coloniais e pós-coloniais e suas implicações em muitos dos escritos literários contemporâneos. Caliban é visto, analisado e reavaliado de várias formas. Com referência às dicotomias senhor-escravo, dominador-dominado e colonizador-colonizado, Caliban se torna metáfora ambivalente: tanto pode ser visto como “escravo selvagem e disforme” – como o próprio Shakespeare o descreve na lista dos nomes de personagens que encabeça a peça - , assim como pode ser visto como vítima inocente, objeto de um processo colonizador desenfreado, mas que é capaz de se exprimir poeticamente e de até desafiar o poder tirânico. Dessa forma, é possível vislumbrar esse legado – ou sombra – de Caliban em muitas obras literárias da atualidade. No caso de Jasmine e de Alias Grace, as duas protagonistas femininas, a saber, Jasmine e Grace Marks, respectivamente, têm, nas suas trajetórias, esse legado ambíguo. Todavia, por se tratar de dois romances pós-modernos que abordam diretamente as temáticas do colonialismo e do pós-colonialismo, existe também a noção da gradual superação da idéia do “Caliban disforme e escravo” e a instauração da noção do Caliban que simultaneamente se estiola, se refortalece e se metamorfoseia para ter direito à voz, lutando e estabelecendo padrões de sobrevivência e resistência. Em suma, Jasmine (oriunda da Índia) e Grace Marks (oriunda da Irlanda) são sujeitos coloniais/pós-coloniais femininos, imigrantes em solo estrangeiro – América e Canadá -, respectivamente, que vão lentamente adquirindo poder no terreno do inimigo e superando o estigma de Caliban. Misturam-se questões de poder, política, feminismo, metaficção historiográfica, alteridade e pós-colonialismo, em graus variáveis em um e outro romance, para as quais se utilizam as idéias e críticas de Homi Bhabha, Gayatri Spivak, Ania Loomba e Linda Hutcheon, dentre outros teóricos contemporâneos.


Susan de Oliveira
Dentro e fora do enunciado: as mulheres do Contestado
Pretendo problematizar a questão, propriamente narrativa, da história das mulheres do “Contestado”, no seguinte recorte: Proponho abordar a “região do Contestado” como zona discursiva, na qual operam signos de ausência de representação, ou por outro lado, na qual o “silêncio” historiográfico é o resultado da ativação de signos desde um discurso colonialista de “origem”.


Tereza Virginia de Almeida - virginiaalmeida@hotmail.com
Lapso e lugar do masculino: Three Guineas de Virginia Woolf
Em 1938 Virginia Woolf publica um interessante ensaio ficcional no qual responde, com três anos de atraso, a uma carta em que o remetente lhe pergunta como podem as mulheres ajudar a prevenir a guerra. A escrita se tece, longa e através de uma linha argumentativa em que a resposta, a solução, se adia em nome mesmo daquilo que demonstra: a pergunta originária como lapso. Entretanto, esta escrita, através da qual emerge a feminilidade, se constrói sobre um outro lapso: os três anos que separam a pergunta de sua resposta. Entre o interlocutor masculino da carta enquanto personagem marcado pelo erro e a função do caráter retrospectivo da escrita, pretendo desenvolver uma reflexão acerca da contemporaneidade das questões comunicacionais entre masculino e feminino provocadas pelo brilhante texto de Virginia Woolf.


Leila Assumpção Harris - laharris@uol.com.br
Massacre of the Dreamers: por um feminismo transnacional
A poeta, romancista e ativista social Ana Castillo publicou em 1995 Massacre of the Dreamers, uma coleção de ensaios que Sonia Torres caracteriza como “um trabalho interdisciplinar escrito na interseção da crítica cultural, das ciências sociais e da literatura imaginativa ”.Dentro de um contexto diaspórico que no passado incluiu conquista, anexação e colonização e que no presente envolve migração transnacional, Castillo examina as conseqüências da repressão da sexualidade e da energia espiritual da mulher de origem mexicano-ameríndia pelo poder patriarcal. Além das questões levantadas por Castillo, o trabalho pretende incorporar as perspectivas teóricas de Gayatri Spivack e Trinh Minh-ha.