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Corpo e construção da diferença
Coord: Sônia Maria Martins de Melo
Local: Sala de reunião - Colégio de Aplicação
Data:10/10/2002



Fabíola Rohden
- fabiola@ims.uerj.br
A natureza instável da diferença
Este trabalho discute o argumento de que a diferença entre os sexos passa a ser considerada como natural e imutável pela ciência, por meio da análise da produção médica do século XIX. A ênfase na naturalidade estaria relacionada às transformações ocorridas a partir do fim do século XVIII (crescente industrialização e urbanização, entrada mais efetiva das mulheres no mercado de trabalho, surgimento de movimentos de reivindicação de direitos) que requeriam mudanças nas relações de gênero estabelecidas. Contudo, é exatamente através das tentativas de provar que a diferença era natural que se pode perceber o quanto ela era instável e ameaçadora. Intervenções como a educação e o trabalho da mulher, poderiam alterar e mesmo "perverter" a diferença, provando que o que era "natural" não era definitivo ou garantido.


Lucia de La Roque - luroque@ioc.fiocruz.br
Úteros bípedes: a reprodução humana sob o controle do patriarcado em The Handmaid's Tale, de Margaret Atwood e sua relação com as biotecnologias reprodutoras contemporâneas
Margaret Atwood, em seu romance distópico The Handmaid's Tale (1986), imagina um futuro próximo em que os Estados Unidos da América são transformados, através de um golpe de estado cristão-fundamentalista, na república de Gilead. Nessa teocracia, as mulheres são divididas em castas e a narradora, Offred, pertence à classe das Aias, mulheres jovens e férteis que são obrigadas a servirem de incubadoras humanas para os casais poderosos e sem filhos. No presente trabalho, o pungente relato em que Offred contrasta sua dolorosa situação atual como "'útero bípede" com memórias poéticas da família, da qual foi forçosamente separada, é lido à luz de sua relação com as biotecnologias reprodutoras contemporâneas que, a seu modo, também não deixam de servir a interesses patriarcais.


Mariana Meloni Vieira Botti - mariana@brocolisvhs.cjb.net
Espelho, espelho meu? Um olhar sobre os auto-retratos fotográficos de Lourdes Colombo
Esta comunicação tem como proposta apresentar uma breve análise das séries "Máscaras" (1999) e "Máscaras Brancas" (2000), auto-retratos fotográficos da artista plástica paulista Lourdes Colombo (1959). A partir destas imagens, pretende-se discutir algumas questões que perpassam a noção de feminilidade, principalmente através do uso da maquiagem, técnica e disciplina corporal específica do gênero feminino.


Tito Sena - titosena@cfh.ufsc.br
Uma análise a partir de Foucault: os discursos sobre Corpo e Gênero contidos nas enciclopédia sexuais das décadas de 80 e 90
Tomando como fontes documentais, as enciclopédias sexuais publicadas no Brasil nas décadas de 80 e 90, constata-se que os discursos sobre o corpo, sofreram alterações, transformações, emergências e rupturas, mas também permanências e continuidades. No tocante aos discursos sobre gênero, o "masculino" e o "feminino" estão tratados de maneira biológica diferencial, naturalizados, normatizados e normalizados. As dispersas relações de poder/saber, ainda sustentam práticas sociais que hierarquizam as relações entre homens e mulheres, sujeitando-os a uma "fixa" ordem do discurso. O constatado predomínio do discurso médico e sua estreita ligação com o discurso da sexualidade, praticamente ignoram os esforços dos discursos sobre gênero e sua perspectiva de superação de desigualdades políticas ancoradas na diferença sexual.


Sônia Maria Martins de Melo - smelo@newsite.com.br
Paradigmas de corporeidade e a formação de professoras
Buscar a compreensão da percepção de professoras ligadas a um Curso de Pedagogia em um Centro de Ciências da Educação de uma universidade pública sobre o significado da corporeidade em suas trajetórias de vida foi o tema gerador da pesquisa. Suas questões norteadoras enfatizaram a procura do desvelamento dos reflexos dessa percepção de corporeidade da mulher - professora como ser-corpo-sexuado no mundo junto a outros seres, bem como suas expressões na prática pedagógica. No mundo vivido pela mulher pesquisadora, pedagoga e docente em um Curso de Pedagogia, foram sendo definidos os rumos da caminhada investigativa, pautada principalmente na perspectiva do desvendamento do cotidiano de uma pedagogia que se propõe "assexuada". Foi também realizado um resgate crítico da jornada de construção da dicotomia corpo-mente pelo eixo paradigmático hegemônico no pensamento ocidental cristão, por entendê-lo como elemento fundante da dessexualização-descorporificação dos seres humanos em geral. Na busca dos cúmplices teóricos, a fenomenologia foi o ponto de partida da definição do método a ser utilizado, sendo Merleau-Ponty, principalmente na sua obra Fenomenologia da Percepção, a inspiração teórica preferencial, e conseqüentemente, a entrevista fenomenológica o caminho metodológico para a obtenção dos dados, e os passos propostos por Giorgi e Comiotto o apoio para sua análise. As entrevistas foram realizadas com dez mulheres educadoras, escolhidas segundo as seguintes características: duas professoras aposentadas e duas professoras em atividades na docência do curso, mais três ex-alunas e três alunas atuais do curso, todas atuando como professoras em escolas. Instigantes essências e suas dimensões emergiram da análise, que aponta para a imensa possibilidade humana da superação do dicotômico viés fragmentador da corporeidade vivenciado pelo ser humano, especialmente na questão do Ser mulher nos dias de hoje, apesar desse enfoque continuar muito presente ainda hoje nas expressões educacionais do mundo vivido pelos seres-corpos-sexuados no mundo. Entrelaçadas como os fios de uma tapeçaria tecida na trajetória de vida de cada uma daquelas mulheres, essas essências foram as seguintes: I A consciência de si como Ser corporificado: sou corpo no mundo; II A percepção da sexualidade como dimensão humana: sou corpo sexuado; III A consciência do processo de deseducação sexual: sou corpo negado; IV O ressignificar da vida na busca da utopia: sou corpo esperança. As dimensões constituintes de cada essência desvelaram pontos fundamentais na constituição desse ser "feminino", com destaque para a questão do ser corpo-mulher como marca de interdição: "onde perdi meu corpo?", bem como a do corpo materno como ninho desconhecido, onde a trajetória de vida foi ressignificada pelo mundo não vivido, além da questão nodal das vivências de uma pedagogia "assexuada", resultante de um "vigiar e punir" que buscava a construção de corpos dóceis. Mas todas mulheres pesquisadas apontam para um emergente e sólido processo de sua reconstrução como Seres corporificados grávidos de cidadania, com o movimento da existência no mundo delineando o seu caminho, que é o do recomeço pela liberdade de escolha. Por esses indicadores valiosos a pesquisa aponta para a necessidade urgente do resgate da corporeidade como eixo principal de decisões de políticas educacionais e dos seus correspondentes critérios e decisões pedagógicas que permeiam os vários currículos escolares brasileiros, em todos os seus níveis de ensino. O privilegiamento imediato de linhas de pesquisas que auxiliem no desvelamento dos paradigmas filosóficos sobre corporeidade e sexualidade subjacentes ao currículo oculto existente hoje no sistema educacional brasileiro é sugerido no trabalho, que procura também elencar princípios de ação emanados da pesquisa que podem subsidiar uma proposta de educação facilitadora do desenvolvimento pessoal de professoras e alunas no resgate de sua corporeidade como uma expressão básica de cidadania e de direitos humanos. Estratégias pedagógicas facilitadoras desse desvendamento são propostas aos cursos de formação de educadoras, especialmente ao curso de Pedagogia, para auxiliar na construção de uma escola cidadã.