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Gênero e docência I
Coord:Maria de Fátima Lopes
Local: Sala Henrique Fontes - BU
Data:10/10/2002

 

Agripino Alves Luz Junior - agripaluz@hotmail.com
Gênero e educação física: o que diz a produção teórica brasileira dos anos 80 e 90?

Ao olhar, atentamente, a produção acadêmica brasileira, relacionada com o campo de estudos de gênero e dos estudos feministas, constatei uma grande performance teórica e variadas tentativas de diálogo entre os diversos campos do saber, inclusive com o campo específico da Educação Física/Esporte (EF/Esporte). Isto tem se dado, sobretudo, nos últimos anos, considerando o caráter plural das concepções de feminino e de masculino vigente na atual sociedade globalizada, na qual o conceito de gênero tem permitido, entre outras instâncias, a compreensão de construções históricas em torno do sexo, enfatizando, os mecanismos e as instituições culturais e sociais que estão envolvidas nesta construção. Com a intenção de contribuir com esse debate, ao longo da trajetória deste estudo, discorro sobre algumas dimensões de gênero desenvolvidas para a EF/Esporte e suas contribuições na compreensão da organização social. Neste sentido, o texto que se segue, apresentado em três capítulos, intitulados: primeiro, o ponto de partida; segundo, nas teias do gênero; terceiro, gênero e educação física: refletindo sobre as pesquisas dos anos 80 e 90; diz sobre o que se convencionou chamar estudos de gênero na/para a EF/Esporte. Como esta se apropriou desse conceito, e como tem classificado como sendo estudos de gênero esse ou aquele trabalho. Enfim, como se encontra o estado atual do conhecimento sobre gênero na EF/Esporte? Como base de análise e interpretação, foi utilizado o material empírico relacionado à produção científica, na forma de dissertação e tese, oriundas dos programas de pós-graduação brasileiros em Educação e Educação Física, em nível de mestrado e doutorado, décadas de 80 e 90. Para tanto, é utilizada a técnica de análise de conteúdo, levando em conta algumas categorias selecionadas, entre as quais, a)Temáticas abordadas; b)Problemática e questões priorizadas; c)Concepções/abordagens; d)Relação sujeito/objeto, sexo do pesquisador; e)lugar onde foram produzidos os estudos; f)Orientação, co-orientação e composição de bancas examinadoras; g)Escolas de pensamento, propostas e sugestões. Observei que a produção acadêmico-científica, num primeiro momento, deteve-se em analisar os estereótipos e a existência do sexismo do ponto de vista bio-psico-fisiológico, mais recentemente, os estudos apresentam uma dimensão temática ampliada, situando-se em torno de três eixos: sexualidade, política e cultura. Ficou evidenciado, ainda, na leitura das dissertações e teses, um certo avanço a respeito das questões tratadas, no entanto, acredito que há de se cuidar sobre os rumos que poderão tomar as pesquisas neste campo teórico, pois freqüentemente tem sido utilizadas perspectivas teórico-metodológicas incompatíveis entre si, e aí são cometidos, então, alguns equívocos, onde certos conceitos são tidos como equivalentes, sem, no entanto, o serem.


Íris Maria Libonati - libonati@netpe.com.br
Gênero e atividade docente na universidade de Pernanbuco

Este trabalho estuda as relações de gênero e atividade docente na UPE, nos últimos anos da década de 90. Articula três campos de conhecimento: Universidade, Gênero e Trabalho. Metodologicamente, trata-se de um estudo de caso na perspectiva das pesquisas qualitativas, e tem por objetivos: Analisar o percurso profissional dos docentes através de suas histórias de vida; Discutir as representações sociais sobre gênero e trabalho docente. Os resultados preliminares confirmam as evidências de outras investigações (BOURDIEU, 1995; SCOTT, 1988; BRUSCHINI, 1994; CASTELO BRANCO, 2000; GONÇALVES, 1996; NOLASCO, 1995; PERROT, 1998; SORJ, 1992; SPINK, 1999), que apontam para a predominância na carreira profissional de papéis sociais baseados nos modelos de socialização diferencial por sexo.


Jéssica Ferreira - jessicaf@uol.com.br
Mulheres e educação

Minha experiência em ensino superior nas cidades de Valença e Feira de Santana, sobretudo nos cursos de Pedagogia, vem mostrando que muitas mulheres têm feito questionamentos profundos sobre suas vidas, seus papéis de professoras, mulheres, mães, donas de casa, a partir de suas condições de alunas deste curso. Para além do desenvolvimento como profissionais do ponto de vista técnico, o que mais vem chamando a atenção são as transformações com as quais passaram a operar, agora não mais como pessoas inseridas e silenciadas em uma sociedade que não lhes deu muito espaço para o desenvolvimento, impondo-lhes um limite preciso de crescimento. "Estudar mais pra quê, já não passou no concurso e é professora do município/estado?" é o que muitas ouvem de familiares e amigos ao se decidirem por um vestibular, sobretudo as mais velhas. Recuperar ou reerguer suas auto-estimas tem sido o primeiro passo desta caminhada e ao se descobrirem capazes de vôos mais altos, buscam asas maiores. A conquista do espaço público por essas mulheres se dá, principalmente, pelo acesso ao conhecimento, em níveis superiores de ensino, sem que percam o vínculo com o espaço da casa, representado por DaMatta (1985) pelo símbolo & que deve ser levado em conta e explicitado. Analiso, então, na pesquisa, as transformações pessoais que ocorrem no cotidiano de mulheres de diversas cidades do interior baiano, na sua maioria professoras primárias com formação de magistério, a partir de suas inserções no ensino superior e como essas transformações podem provocar, em um curto prazo, transformações mais amplas na sociedade. Os estudos ligados ao cotidiano (Certeau, 1994) apontam como é possível constituir táticas e estratégias para ir ampliando o lugar estabelecido, o que no caso dessas mulheres parece vir ocorrendo, alterando a ordem de relações sob as quais estiveram inseridas por tanto tempo (Woortmann, 1995). Ampliar esse lugar passa a ser o novo objetivo dessas mulheres, caminhando em direção à rua, ao espaço da liberdade, mas também da insegurança, para, mais adiante, transformá-lo em mais um lugar de vida, em suas novas casas. Conquistam a paz de saber que passaram a ter voz, mas percebem que a transformação não se opera de forma tranqüila, sem conflitos. Sair de casa é difícil, doloroso, e requer boa dose de força de vontade; voltar para ela também o é. Principalmente em se tratando de mulheres de um extrato social no qual o papel feminino ainda é bastante delimitado. É preciso, então, dar atenção ao ponto de passagem existente entre a casa e a rua. O tema insere-se na problematização do papel político das mulheres na sociedade brasileira contemporânea, tendo como pano de fundo as transformações que vêm ocorrendo no interior do país no sentido de aproximá-lo das grandes cidades e de uma economia de mercado. Para os estudos atuais que venho desenvolvendo, parti de minha experiência inicial de trabalho no PAGU, Núcleo de Estudos de Gênero do IFCH, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp, Universidade Estadual de Campinas, como bolsista de Iniciação Científica e de Aperfeiçoamento no projeto integrado CNPq Histórias e Memórias Femininas, entre 1995 e 1997 e como pesquisadora do CECIP, Centro de Criação de Imagem Popular, no projeto Os impactos sobre o meio ambiente social na região metropolitana do Rio de Janeiro, Experiência piloto em Rancho Fundo, entre março e julho de 1996, quando atuei junto às mulheres de uma comunidade que participavam intensamente de movimentos sociais, trabalho já publicado em um artigo sobre a pesquisa realizada junto a elas (FERREIRA, Jéssica. A casa, a rua e as mulheres do Rancho Fundo. In: CECCON, Claudius e PAIVA, Jane (Coords.) Bem pra lá do fim do mundo: histórias de uma experiência em Rancho Fundo, Baixada Fluminense, Rio de Janeiro. CECIP, CCFD e União Européia. Rio de Janeiro: CECIP, 2000).


Milton Müller Rodrigues - mrodrigues@cpovo.net
Gênero masculino e a opção pelo magistério feita por alunos do curso de Pedagogia da ULBRA/Canoas/RS
Percebendo o reduzido números de alunos matriculados no curso de pedagogia da Ulbra/Canoas/RS (2001) investiguei os motivos dessa significação. Na análise dos dados colhidos observei que as razões da opção pelo magistério está diretamente ligada ao mercado de trabalho e não aos desejos internos de abraçarem a docência. Sendo o homem, ainda, valorizado, tão somente, por sua capacidade de ação, praticidade e objetividade, muitas vezes, abdica de sua capacidade crítica e abre mão da possibilidade de escolher um tipo de trabalho que o personalize e o identifique em sua singularidade. A intolerância velada exclui o professor homem da sala de aula nas séries iniciais do ensino fundamental permitindo-lhe tão somente a posição de treinador de crianças. A sociedade onde os meninos estão sendo educados os impede de serem professores de crianças.


Maria de Fátima Lopes - mflopes@mail.ufv.br
Mito Sociedade Gênero
Como os padrões de gênero masculino e feminino se inscrevem em um contexto acadêmico definido historicamente com base em dois conjuntos de conhecimentos: Ciências Agrárias, um saber masculino por excelência, e Ciências Domésticas, um saber estritamente feminino, constitui o objeto central deste trabalho. A narrativa sobre a criação do curso feminino foi analisada como um mito de origem dada a forma metafórica utilizada pela mãe fundadora para explicar o processo de implantação do curso, cujo significado bem revela o lugar atribuído a tal curso no plano simbólico. Não tomo o mito como um recurso adicional à interpretação dada ao estudo; ao contrário, vejo-o como estruturante de um modo de pensar e de ser da sociedade.