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Gênero e Trabalho
Coord: Maria Salet Novellino
Local: Auditório da Biblioteca
Data: 9/10/2002



Dulce Magalhães
- dulce@work.com.br
Arquétipos de poder


Débora Alves Feitosa - debalves@portoweb.com.br
Mulheres recicladoras e escolarização: uma relação prenhe de sentidos
O trabalho que proponho trata de investigação realizada com mulheres separadoras de resíduos sólidos em um galpão de reciclagem localizado na cidade de Porto Alegre e apresentado como dissertação de mestrado ao Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. O problema investigado foi as construções imaginárias das mulheres a respeito da escolarização, ressaltando tanto a apropriação dos sentidos já instituídos quanto a produção de outros sentidos. Discuto ainda, a tensão produzida pelo encontro de sentidos diferenciados atribuídos ao processo de escolarização. Enquanto os programas e projetos para escolarizar os adultos têm como perspectiva principal as funções instrumentais da escola, as mulheres recicladoras queriam se apropriar deste aspecto mas, queriam aprender a ler e escrever para registrar suas histórias de vida, se comunicarem com os parentes, contribuírem na escolarização dos filhos, ler romances, entre outros desejos ainda não valorizados pela escola. A resistência exercida pelas mulheres as atividades curriculares oferecidas provocou uma tensão na relação entre a educadora e suas alunas, que produziu uma prática "dialógica" (Morin), acolhendo outras lógicas na medida em que se estabeleceu uma negociação entre o que desejavam as mulheres e o que a escola oferecia.Partindo do imaginário social das mulheres, priorizei a contribuição da escolarização para a construção das identidades individuais e coletivas delas, da sala de aula como local de expansão da subjetividade, da afetividade, da construção de relações sociais como a solidariedade e o estreitamento dos laços afetivos entre o grupo. Um espaço permissivo tanto para a discusão das questões coletivas referentes ao trabalho delas no galpão, quanto a compreensão de questões individuais referentes a sexualidade, as relações amorosas, os problemas familiares, dentre outros que surgiam na confluência do diálogo.A investigação foi realizada em um programa de alfabetização desenvolvido no interior do galpão, no horário de trabalho das mulheres, tratando-se, portanto de uma experiência inovadora de escolarização no local de trabalho, no caso dos galpões de reciclagem. Recorri aos procedimentos da Etnometodologia para a coleta de dados, utilizando a observação, diário de campo e entrevistas com as mulheres e com a professora. Tratei da imaginação como possibilidade criadora na perspectiva dos estudos realizados por Cornelius Castoriadis sobre o imaginário social como instância instituinte de sentidos. Procurei não tratar o imaginário social como representação, mas apresenta-lo na interlocução com os sujeitos a partir de suas palavras, de suas práticas sociais, não interpretando os dados, mas apresentando-os, nas falas das mulheres, na descrição dos movimentos dos corpos, das emoções desencadeadas pela visita à memória da infância. Neste sentido a subjetividade da pesquisadora e das pesquisadas teve trânsito livre, sendo a metodologia marcada pela intuição enquanto um saber incorporado a partir das experiências vivenciadas; a sensibilidade provocada por certas coincidências dos percursos de vida da pesquisadora e das mulheres pesquisadas; o afeto construído no decorrer da realização da pesquisa; e o devaneio que permitiu uma daquele universo sem a intencionalidade de encontrar respostas prontas e prescritivas, mas aberta para a compreensão dos fatos sociais, sabendo, no entanto que a realidade está além do que podemos de fato capturar. O que apresento é, portanto um resultado parcial, no sentido da impossibilidade de abarcarmos os acontecimentos em sua totalidade, sendo que esta não era a minha pretensão. Concluí que, no fluxo entre tensão e imaginação, se instituiu uma prática de escolarização que não está subjugada a um modelo único, a uma escola voltada para o atendimento do desejo de outrem, mas produzida numa relação de afetos dos atores que a constituem, vivificada por uma teia de desejos enraizados no passado, fazendo-se no presente, criando intenções para um futuro de possibilidades. Penso que as atitudes de autonomia que se observou ao longo da pesquisa foram provocadas também pelos sentidos e a funcionalidade que as mulheres produziram a partir de suas necessidades concretas, pelo trânsito do imaginário entre o vivido e o desejado, em um movimento constante de instituição do que desejam aprender, de como desejam aprender e, para que aprender a ler e escrever.


Giovana Ilka Jacinto Salvaro - ilkajs@zaz.com.br
Mário Ferreira Resende - marioresende@hotmail.com
Gênero e trabalho: entre o público e o privado
Neste texto, parte-se da idéia central de que o trabalho é generificado. Trata-se de uma reflexão norteada por bibliografias de algumas áreas do conhecimento, que discutem a articulação entre relações de gênero e relações de trabalho, evidenciando que a força de trabalho é sexuada e que o capital dialoga com o gênero feminino e masculino genereficando ocupações. Focalizando o olhar sobre a noção de que a organização social do trabalho conta com a "preexistência" de relações sociais entre os sexos, engendradas no âmbito público e privado, buscar-se-á discutir como, historicamente, constituiu-se a divisão sexual do trabalho.


Moema de Castro Guedes - moguedes@yahoo.com.br
Sem título

As últimas três décadas na América Latina foram marcadas pelo aumento da participação das mulheres na força de trabalho. Este fenômeno vem se manifestando como uma tendência de longo prazo e caráter estrutural. No caso brasileiro, é clara a relação entre maior participação no mercado de trabalho e nível educacional das mulheres. As disparidades entre participação feminina e masculina diminuem na medida em que são comparados estratos mais elevados de escolaridade, chegando a uma diferença inexpressiva entre homens e mulheres com nível superior. Esse grupo é o foco da presente pesquisa, que busca desenhar a evolução dessas duas variáveis - escolaridade e inserção no mercado de trabalho - numa perspectiva de gênero, a partir dos dados fornecidos pelo IBGE, e articular essas ferramentas estatísticas com a literatura sobre o tema.


Reginilde Rodrigues Santa Barbara - reginilde@hotmail.com
Conflito de identidade no cotidiano de lavadeiras de Feira de Santana (1930-1950)
Esse trabalho visa observar o cotidiano de mulheres que entre 1930 e 1950 sobreviviam da lavagem de roupas em Feira de Santana e compreender o significado que elas atribuíam a sua experiência.Utilizou-se jornais locais e depoimentos orais, analisados sob a perspectiva da História Social. Verificou-se peculiaridades do trabalho das lavadeiras em seus variados métodos e dificuldades. Percebeu-se a complexidade das relações no espaço de trabalho compartilhado e recortado por constantes tensões e solidariedades. Identificou-se a existência de agrupamentos festivos - os "cordões" - compostos por lavadeiras, que compunham a festa da Padroeira da cidade. Entende-se que tais cordões indicam a existência de uma identidade entre essas mulheres que ultrapassa os momentos em que elas se encontravam na fonte para lavar roupas. Ao mesmo tempo, dado o constante conflito entre os diversos grupos sociais, o festejo religioso apresenta-se como um espaço de afirmação social da condição de negras, pobres e lavadeiras dessas mulheres.


Maria Salet Ferreira Novellino - novellino@ibge.gov.br
Feminização da pobreza no Rio de Janeiro, Brasil (1992-1999)
A representação feminina em Lavoura arcaica, de Raduan Nassar, aparece polarizada pelas marcas da tradição e da transgressão. As filhas Rosa, Zuleika e Huda compõem o elenco do estereótipo feminino em uma família de base tradicional e patriarcal. Formam com o patriarca e com o irmão mais velho, Pedro, o lado direito da mesa familiar. Ana, a filha transgressora, é extirpada do núcleo da família, punida com morte por explicitar sua sexualidade incestuosa e tem, em vida, lugar à mesa, à esquerda do pai, juntamente com as personagens que acolhem e, de certa forma, promovem a ruptura que há muito entranha-se naquele meio: a mãe e os irmãos André e Lula.