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ST13 A - Ruídos na representação da mulher: preconceitos e estereótipos na literatura e em outros discursos

Coordenadoras:     Regina Dalcastagnè (UnB)
                               Tânia Regina Oliveira Ramos (UFSC)

Resumo

Objeto que sempre escapa às tentativas de definição, multifacetado, mutante, contraditório, a “identidade feminina” é construída e desconstruída numa teia de discursos onde não estão ausentes os preconceitos e os estereótipos – quer na posição de opostos, a partir dos quais se estabelecem a crítica e o questionamento, quer como permanências, menos ou mais veladas, que compõem um imaginário ainda atuante e um senso comum que resiste a se desfazer, revelando-se mesmo em discursos com verniz contestatório. O simpósio se propõe discutir a presença de tais estereótipos e preconceitos, bem como da crítica a eles, na representação da mulher, tomando como espaço privilegiado de análise a narrativa brasileira das últimas décadas. O recorte proposto inclui obras produzidas tanto por mulheres quanto por homens, uma vez que o olhar masculino também participa da construção das identidades femininas. A fim de permitir uma perspectiva comparada, o simpósio se abre também para a discussão da representação da mulher em outros discursos, aí englobados não apenas a narrativa estrangeira ou de outras épocas, mas também a poesia, a música, as artes plásticas, o teatro, o cinema, o jornal, a televisão, a publicidade e a política.


Trabalhos

Adélia S. Procópio
Quando amar é sofrer: um estudo dos discursos sobre gênero e afetividade dos grupos de mulheres que amam demais anônimas
Esse trabalho visa apresentar uma pesquisa dos discursos sobre a relação entre gênero e afetividade de um grupo de Mulheres que Amam Demais Anônimas (MADA). MADA é um programa de recuperação de Doze Passos voltado para a dependência de relacionamentos, adicção considerada, pelo grupo e pela literatura especializada, especificamente feminina. A hipótese do trabalho é que o grupo, a despeito de buscar a saúde e autonomia das mulheres, reproduz “clássicos” discursos acerca da “feminilidade”, como a afetividade excessiva e o descontrole emocional. O estudo procura problematizar os discursos do grupo a partir das teorias que discorrem, principalmente, a respeito da relação entre gênero e vivências amorosas, enfatizando o “lugar” das mulheres no amor – com suas transformações e permanências – e da produção discursiva sobre a “feminilidade”.
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Ana Carolina de Araújo Abiahy
A narrativa de Clarice Lispector desestabilizando os estereótipos
Acreditamos que a narrativa clariciana é um espaço frutífero na literatura brasileira para estudos acerca da superação dos estereótipos fomentados pela sociedade patriarcal nos sujeitos femininos. Analisando contos de Clarice Lispector, percebemos a desestabilização do imaginário que hierarquizou os valores masculinos e inscreveu as mulheres, por boa parte da história ocidental, na passividade. Nos detendo nos discursos das protagonistas mulheres, notamos o viés contestatório do texto clariciano que atuava “na margem sexuada da representação”, caracterizada pela teórica Nelly Richard. Tal texto expressa os conflitos de mulheres encerradas na esfera doméstica e seus fracassos e estratégias para fugir de um papel social limitado. Assim, possibilita rediscutir e, segundo acredita Toril Moi, adotando a perspectiva feminista, até transformar as construções históricas das categorias de gênero.
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Ana Paula dos Santos Martins - USP
Entre encontros e desencontros: velhice e solidão em As horas nuas e Love, again
O objetivo deste trabalho consiste em analisar em As horas nuas (1989), de Lygia Fagundes Telles, e Love, Again (1996), de Doris Lessing, como a solidão configura-se em elemento que redefine a identidade das protagonistas femininas na chamada Terceira Idade como indivíduos da pós-modernidade. As horas nuas e Love, Again podem ser analisados como romances que tornam complexo o modelo de novel of rebirth and transformation no sentido de que tratam de uma reintegração social e espiritual das personagens. As protagonistas conseguem integrar-se socialmente na juventude, são bem sucedidas em suas carreiras profissionais e, até de certo modo, nos relacionamentos amorosos mas, com a chegada à Terceira Idade, elas passam por transformações em vários aspectos da vida– em especial, as mudanças inscritas no corpo - que as levam a uma espécie de renascimento.
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Ana Sílvia Laurindo da Cruz - UFPR
Mulheres em pauta: mitos de gênero em reportagens do jornal Hoje
Este artigo aborda representações de gênero em reportagens do Jornal Hoje, da Rede Globo, capazes de exercer uma opressão que é simbólica, silenciosa e aparentemente insensível. O telejornal é analisado a partir da estrutura significante. O objetivo é mostrar os mecanismos de linguagem que permitem a construção de um ideal de mulher e de relação que ela deve manter com o homem, buscando explicitar signos que manifestam a visão androcêntrica, com a contribuição da Mitologia proposta por Roland Barthes e dos estudos sobre a história das mulheres e do ideal moderno de feminilidade. Considerando a produção televisiva como potencial instrumento de manutenção da ordem simbólica, demonstra-se como os signos de uma matéria jornalística são parte do processo de construção histórica do papel de homens e mulheres.
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Anderson Luís da Mata - UnB
Sem surpresas: problemas na recriação de vozes infantis na narrativa brasileira contemporânea
Uma das formas de preconceito mais comumente encontradas na narrativa de ficção é a apropriação, por parte do escritor, da voz do outro, conferindo-lhe pensamentos e características que respondem aos seus próprios anseios, isto é, a seus pré-conceitos. O romance, O caderno rosa de Lori Lamby, de Hilda Hilst, representa tal processo no plano da ficção, a partir da elaboração de uma personagem feminina infantil cuja voz é construída como uma farsa, evidenciando de que modo ela foi seqüestrada por um escritor que deseja que o discurso da narradora de seu romance corresponda aos anseios de seu público alvo: os pedófilos. Dialogando com a tradição pornográfica, em que as vozes das narrado-ras libertinas não têm qualquer preocupação com o dia-a-dia das mulheres, estando apenas compro-metidas com a satisfação do prazer dos leitores, o romance se insere na discussão sobre o diário íntimo feminino, ligado à libertinagem, e sobre a discriminação da voz infantil, relegada ao silêncio.
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Daniela Resende Archanjo - UFPR
A mulher nos debates parlamentares sobre o divórcio (décadas de 1950, 1960 e 1970)
Os debates sobre o divórcio, travados no Congresso Nacional, intensificaram-se a partir de 1951, início da primeira legislatura do então deputado Nelson Carneiro e ano de apresentação do seu projeto 786/51 visando ampliar as hipóteses de decretação de nulidade de casamento. Acompa-nhando as transformações políticas e sociais, o acirramento dos debates sobre o divórcio culminou com a aprovação da Emenda Constitucional 9/77, em que a indissolubilidade do casamento deixou de ser princípio constitucional, abrindo passagem para que fosse aprovada a Lei 6.515/77, regula-mentando o divórcio no Brasil. A princípio, a discussão sobre a instituição ou não do divórcio permeava três áreas: no âmbito jurídico, o divórcio significava a ruptura com o princípio constitucional da indissolubilidade do casamento, resguardado desde a Constituição de 1934; na esfera religiosa, a aprovação do divórcio significava reconsiderar a interferência da Igreja Católica na dinâmica da vida civil, efetivando a separação Estado-Igreja decretada em 1890; por fim, no plano social, a dissolubili-dade do casamento poderia apontar para a resignificação da família e dos papéis a ela atribuídos. Todavia, apesar de defenderem teses opostas no que se refere à instituição do divórcio, divorcistas e antidivorcistas compartilham, em seus discursos publicados nos Anais do Congresso Nacional, representações sobre a família, seu papel social e os papéis sexuais. Representantes e integrantes de uma sociedade baseada no modelo nuclear de família e na forte divisão dos papéis sexuais a ele correspondente, o discurso parlamentar, produzido quase que exclusivamente por homens, é hegemônico quando pensa a mulher. A mulher referida é, na maior parte das vezes, apontada como vítima, tanto do divórcio quanto do desquite, em função de sua fragilidade, emotividade/irra-cionalidade e dependência. Afinal, estes são os atributos “naturais” da mulher mais adequada ao modelo de família que se quer – com ou sem o divórcio – preservar, a mulher mãe e esposa.
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Ermelinda Maria Araújo Ferreira - UFPE
De musa a medusa: o crime da escultora Camille Claudel
Procurando situar a obra de Camille Claudel no contexto de sua biografia e da sociedade de seu tempo, este ensaio considera – através da análise do diálogo “escultórico” que se elabora entre a artista e seu mestre Auguste Rodin – a angústia feminina pela busca de expressão num meio profundamente repressor, que reservava às mulheres apenas o papel de musas passivas, não perdoando aquelas que ousavam ir além. Condenada a viver num hospício como louca por trinta anos, durante os quais não exercitou mais a sua arte, o silêncio de Camille, na pedra e na vida, fala intensamente do drama da Medusa: o de ser uma artista presa a um corpo de mulher. O ensaio contempla ainda análises das obras de Camille Claudel feitas por críticos da época, inclusive pelo seu irmão, o poeta Paul Claudel.
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Fabiane Ferreira da Silva, Paula da Costa Ribeiro
Discutindo gênero na música ‘Ai que saudade da Amélia’
Este artigo refere-se a uma pesquisa de Mestrado, que tem como propósito investigar e compreender os discursos que inscrevem os corpos e constituem as identidades, tomando como referência as narrativas das mulheres que participam da Associação Movimento Solidário Colméia, Rio Grande-RS-Brasil. Neste trabalho, buscamos apresentar e analisar as narrativas dessas mulheres, que emergiram a partir da música “Ai que saudade da Amélia”. A opção por esse artefato cultural se justifica porque identificamos na letra da música a existência de uma pedagogia que, de alguma forma, está educando mulheres no que diz respeito à construção de suas identidades. Nesse sentido, estabelecemos conexões com os Estudos Culturais e de Gênero, nas suas vertentes pós-estruturalistas.
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Gilson Leandro Queluz - UTFPR
Heroínas, heróis e técnicas nos mundos utópicos de Menotti Del Picchia
Este trabalho pretende analisar, as relações de gênero que perpassam os discursos sobre a técnica e o trabalho nos romances utópicos de Menotti del Picchia: A República 3000 (1930), Kalum (1936) e Kummunká (1938). Ele, em seus romances, não parece preocupado com uma manutenção severa das fronteiras das esferas entre público e privado. Nem considera em suas construções simbólicas o domínio da tecnologia como um signo decisivamente masculino. Mais importante é que o desempenho do papel de liderança ou mesmo de domínio dos saberes, inclusive os técnicos pela mulher, só se justifique quando limitado pela passividade e submissão de todas aos seus amados, na aceitação integral do papel a elas estabelecido de mãe-mulher.no mundo utópico, nos novos paraísos, impera um modernismo conservador.
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Giovanna Aparecida Schittini dos Santos - UFG
Humanismo, direito e gênero: pontos de intersecção num discurso do século XVI em Portugal
A partir de meados do século XIV passa a ter lugar entre os meios intelectuais da sociedade européia um importante debate sobre a condição feminina, debate este tradicionalmente conhecido como Querelle des femmes. Neste contexto, esta comunicação pretende discorrer e analisar sobre um dos inúmeros discursos frutos deste período, um pequeno livro escrito em 1557 pelo jurista licenciado Rui Gonçalves e intitulado Dos privilégios e prerrogativas que o gênero feminino tem por direito comum e ordenações do Reino mais que o gênero masculino, no qual o autor, com base em fontes jurídicas e religiosas, como a Bíblia, irá defender de forma inédita em Portugal a igualdade e em alguns momentos até mesmo superioridade das mulheres em relação aos homens.
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Janaína dos Anjos Coutinho, Flávia Biroli - UnB
Visibilidade idiática e carreira política: uma análise das representações de gênero no discurso da imprensa sobre os ‘radicais do PT’
Este trabalho se constrói na intersecção entre três temáticas, mídia, política e gênero. Os problemas com os quais lida estão, portanto, vinculados a essas temáticas e delimitados pela seguinte hipótese: há, nas sociedades contemporâneas, uma correlação entre a representação ou sub-representação de indivíduos e grupos nos espaços institucionais e as formas de visibilidade de indivíduos e grupos na mídia. Isso se aplica, segundo nossa hipótese, à correlação entre a sub-representação das mulheres na política e suas formas de visibilidade, ou invisibilidade, na mídia. O objetivo específico é analisar a presença de senadoras e senadores brasileiros na mídia impressa, durante a legislatura atual. Mais do que uma quantificação dessa presença, interessa-nos observar o cruzamento entre represen-tações de gênero e representações do político, isto é, as sobreposições entre os sentidos atribuídos à presença de mulheres na política e, como tal, à própria política como espaço relevante de produção de sentidos e de afirmação/alteração de hierarquias, valores e julgamentos que são parte constitutiva das relações de poder. Para tanto, partimos de algumas observações mais gerais sobre as formas de visibilidade de senadores e senadoras na mídia, para nos determos, então, aos discursos referentes às duas senadoras com maior visibilidade no período, senadora Heloísa Helena (PT-AL e, posteriormente, PSol-AL) e senadora Patrícia Saboya (PSB-CE).
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Júlio César Lobo - Universidade do Estado da Bahia
Feroz pernambucana: análise de representações da migrante nordestina no ciclo da chanchada
(1958-1959)

Essa comunicação visa analisar representações da migrante nordestina no ciclo da chanchada como uma mulher que se destaca primordialmente pela valentia, na esteira da estigmatização “Paraíba, masculina, mulher-macho, sim, sinhô”. Toma-se como corpus filmes estrelados ou co-estrelados pela atriz cearense Nancy Wanderley, a saber: Quem Roubou meu Samba? (1959), O Camelô da Rua Larga (1958), No Mundo da Lua (1958) e Massagista de Madame (1959). Na operacionalização das análises, fazemos uso de um aporte, que se busca instrumentalizar nos referenciais teóricos-metodológicos dos Estudos Culturais, da Psicologia Social dos Estereótipos e da Sociologia da Modernização. Esse texto faz parte de uma pesquisa, iniciada em 2002 e que tem por título “Paraíbas, baianos e candangos (Representações do migrante nordestino em filmes ambientados no Rio de Janeiro, em São Paulo e em Brasília, 1952-2006)”.
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Luiz Augusto Carneiro de Campos, Fernanda Feitosa, Aline Marques Ohira, Luis Felipe Miguel - UnB
Falas femininas no congresso: gênero e nichos discursivos na câmara dos deputados
Dados de uma ampla amostra, de quase 10 mil discursos pronunciados nas duas últimas legislaturas, revelam que deputadas mulheres falam sobre temáticas diferentes dos homens – elas se pronunciam mais sobre família, infância ou educação, e menos quando o assunto é, por exemplo, política econômica. Trata-se de uma “perspectiva feminina” diferenciada que se incorpora ao parlamento, como querem alguns, ou o insulamento das deputadas nestas questões representa o reforço de um estereótipo que veda o acesso delas às posições centrais do campo político? Neste último caso, a diferença de ênfase na ação política das mulheres se deve não a uma “sensibilidade” diferente, mas às oportunidades abertas a elas no campo político. Ao mesmo tempo em que são mais permeáveis à presença das mulheres, tais temas estão associados a posições menos prestigiadas. Estabelece-se, assim, uma “divisão sexual do trabalho político”, em que correspondem às mulheres as posições menos propícias à acumulação de capital político.
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Maria Ângela de Faria Grillo - UFRPE
Evas ou Marias? As mulheres na literatura de cordel
Este trabalho tem como objetivo estabelecer as diversas maneiras como as mulheres aparecem no imaginário dos poetas de cordel nordestinos, na primeira metade do século XX, e qual o papel que elas representam para a sociedade da época. Percebe-se, nos folhetos, a recriação de imagens de anti-heroínas, de mulheres malcriadas e falsas, como também de mulheres puras e de boa conduta, identificadas como Eva e como Virgem Maria respectivamente. Nesse sentido fica evidenciada a presença de uma cultura misógina que permeia as representações femininas em distintas linguagens nos diversos segmentos sociais.
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Maria Luiza Rodrigues Souza - UFG
Mulheres na tela: representações do feminino no cinema recente do Brasil e da Argentina
Que papel a filmografia brasileira e argentina dos últimos anos reserva às mulheres? Que personagens são elaborados? Quais os principais tropos que conduzem as narrativas fílmicas em relação ao feminino? Neste trabalho destaco as representações que personagens femininos assumem na cinematografia brasileira e argentina da última década. Procuro evidenciar alguns tipos comuns: a mulher-em-fuga, no caso argentino; a mulher-em-busca, no caso brasileiro. Tais tipos podem sintetizar categorias recorrentes definidoras das características que a mulher ocupa nas tramas do cinema narrativo-ficcional.
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Marina Barbosa de Almeida - UFPR
A representação da mulher sob o olhar moderno de Di Cavalcanti
Di Cavalcanti é membro privilegiado nas categorias estabelecidas pela história e crítica da arte brasileira. Sua obra é comumente associada a representações de figuras femininas - as mulatas de Di - de corpos sensuais, curvilíneos e volumosos. No entanto, anteriormente a sua produção modernista, Di se interessou pela representação da mulher aos moldes do simbolismo decadentista: a mulher fatal. Sua produção gráfica é marcada pelo estilo e tema da art nouveau e, só após retornar de Paris em 1925, que a mulher figura em suas telas sob o discurso nacionalista figurativo dos modernistas. Este trabalho pretende lançar algumas idéias sobre a presença da figura feminina na obra de Di Cavalcanti, ao meu ver, não simplesmente uma escolha estética e temática, mas fruto de um ideal moderno compartilhado por alguns artistas e intelectuais boêmios.
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Patrícia Mattos de Oliveira - UnB
As replicantes do outro lado do muro
As batidas do Funk muitas vezes repetem-se infinitamente em sons básicos, semelhantes, entretanto algo estabelece diferenças: as letras. São os textos produzidos pelos funqueiros, acompanhados pelo som eletrônico, que determinam a que grupo de interesse pertence a composição. É a letra que vai nos indicar se é um “proibidão”, cujo tema está relacionado a traficantes, se um Funk sensual ou se já chegamos à vertente tida como pornográfica, entoada por homens e mulheres. Importa notar que esse texto, ao configurar grupos, vertentes, toma forma de identidade, que muitas vezes afigura-se cambembe, difícil de compreender. O que nos interessa aqui é refletir a respeito das representações discursivas advindas da interpretação de papéis sociais femininos elaboradas por mulheres que entraram no universo tradicionalmente masculino dos MCs. Atualmente há composições femininas dirigidas às “da fé” ou às “amantes”, termos que designam as mulheres fiéis a seus companheiros, fixas – da fé – e aquelas que se consideram amantes assumidas. O apelo erótico presente nesses textos e o manejo manifesto da sexualidade podem revelar o que essas mulheres têm a nos devolver como réplica de suas inquietações, não no que são diferentes, mas na desconfortável semelhança que talvez nos ligue e nos arrede de tais figurações femininas.
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Quelem Ornel Soares - UFPel, Guiomar Freitas Soares - FURG
Reflexões sobre gênero e sexualidade na música gaúcha
O presente trabalho faz parte do Grupo de Pesquisa “Sexualidade e Escola” que vêm discutindo desde o ano de 2000, algumas questões relacionadas ao corpo, as identidades de gênero e sexuais, ao prazer, ao desejo entre outras temáticas vinculadas a sexualidade. A partir de estudos, emergiu a possibilidade de investigarmos as letras de musicas gaúchas veiculadas nas rádios locais (Rio Grande e Pelotas), fazendo uma reflexão a cerca das construções sobre o gênero e as questões sobre sexualidade. Neste estudo, estamos entendendo o gênero e a sexualidade como construções sócio-históricas. Na análise dos dados verificamos que a maioria delas se referem a mulher como alguém submissa, vinculada aos afazeres domésticos, também é retratada como a “china”, como a sedutora, feiticeira, pecadora, entre tantas outras maneira que pretendemos evidenciar.
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Raul José Matos de Arruda Filho - UFSC
Síndrome de Marsha Mellow (algumas observações sobre mulheres e sexualidade na literatura do século XXI)
Uma das características mais consistentes da literatura escrita por mulheres é a timidez em relação às descrições sexuais. O uso proposital de elipses e entrelinhas demarca um território proibido. A proposta é manter “tudo” no nível do subentendido, onde a elegância das sutilezas da linguagem supera, por longa margem, o barbarismo da pornografia. Em oposição, muitas narrativas do início do século XXI possibilitam a interpretação de que anular o desejo sexual – descrito por um ponto de vista diferente do “realismo” masculino – tem um propósito ideológico de mitificação de uma figura feminina inexistente: as mulheres possuem desejos sexuais e descrever esse desejo mostra-se fundamental para que a experiência feminina não se perca em um moralismo insípido e fora de contexto.
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Regina Dalcastagnè - UnB
Amélia não morreu: a mulher no romance brasileiro recente
Apesar de todas as transformações na condição feminina nas últimas décadas, as personagens femininas do romance brasileiro permanecem presas a papéis tradicionais. Seu espaço por excelência é o lar, onde aparecem na condição de donas de casa ou, então, empregadas domésticas. Quando desempenham alguma outra atividade remunerada, são professoras, artistas ou, ainda, prostitutas. O relacionamento amoroso heterossexual é o foco principal de suas preocupações. O trabalho analisa a sobrevivência dos estereótipos de gênero (entrelaçados a outros, de classe e raça) em romances de escritores e escritoras brasileiros, com base num amplo levantamento sobre mais de mil personagens da literatura contemporânea.
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Sara Almarza - UnB
O discurso da mídia em relação à mulher política
As minorias estão presentes na realidade de nossas sociedades seja como excluídas ou sub-representadas, seja como discriminadas positivamente. Como primeira interrogante me interessa discutir até que ponto é igualitário lutar pelas discriminações positivas no sentido amplo desta prática. Reflexão orientada à representação da mulher na política, especialmente no Brasil e no Chile. Como conseqüência do anterior avaliar também a situação política da mulher no mundo e como os discursos lidam com esta realidade. Hoje em dia, o número de mulheres em posições de tomada de decisão econômica é o dobro daquele de cinco anos atrás – há 20 Ministras de Finanças, 10 Ministras da Economia, Planificação ou Desenvolvimento Econômico, e 11 Ministras ou Secretárias de Estado responsáveis por temas como Orçamento, Imposto, Auditoria, Investimento e Receita. Aumento que é pertinente analisar.
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Sidney Francisco Reis dos Santos - Faculdades Estácio de Sá/SC
A representação da sexualidade feminina diante dos preconceitos e estereótipos do direito penal brasileiro
Este trabalho está baseado numa orientação interdisciplinar (historiografia, sociologia, e ciência jurídica). Ele trata da representação da sexualidade da mulher, presente no discurso jurídico do direito penal brasileiro.Ele faz uma crítica interdisciplinar aos valores epistemológicos (objetividade, neutralidade, a-historicidade) inerentes à ciência jurídica e aos modelos hermeneuticos tradicionais de direito penal.Neste sentido, ele procura analisar, certas condições históricas que contribuíram para a formação da lei, da doutrina e da jurisprudência penal brasileira que vêm tratando a sexualidade feminina de forma estereótipada e preconceituosa.
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Susana Moreira de Lima - UnB
Obscenidade da velhice feminina: rompimento do olhar na literatura
Pensar em velhice, num mundo que valoriza a imagem e associa o belo à juventude, requer pensar no olhar, pois a dificuldade dos idosos na relação com o outro dá-se pelo olhar contaminado por preconceito. Nos contos “Ruído de passos” e “mas vai chover”, de Clarice Lispector, observa-se a representação de uma face da velhice pouco discutida, a sexualidade feminina. O corpo degradado, em narrativas do envelhecer, é também forma de resistência; discute-se decrepitude, incomunicabi-lidade, desejo ou apatia e novos modos de estar nos espaços, de perceber-se nessa condição, como no conto “Significado oculto de um corpo velho”, da escritora portuguesa Maria Isabel Barreno, e em A obscena senhora d, romance de Hilda Hilst, nos quais as personagens apresentam postura diferente, tentando recuperar a dignidade desse corpo, chocar o outro, e fazê-lo ver de forma nova as marcas impressas pelo tempo no corpo velho.
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