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ST13 C - Ruídos na representação da mulher: preconceitos e estereótipos na literatura e em outros discursos

Coordenadoras:     Regina Dalcastagnè (UnB)
                               Tânia Regina Oliveira Ramos (UFSC)

Resumo

Objeto que sempre escapa às tentativas de definição, multifacetado, mutante, contraditório, a “identidade feminina” é construída e desconstruída numa teia de discursos onde não estão ausentes os preconceitos e os estereótipos – quer na posição de opostos, a partir dos quais se estabelecem a crítica e o questionamento, quer como permanências, menos ou mais veladas, que compõem um imaginário ainda atuante e um senso comum que resiste a se desfazer, revelando-se mesmo em discursos com verniz contestatório. O simpósio se propõe discutir a presença de tais estereótipos e preconceitos, bem como da crítica a eles, na representação da mulher, tomando como espaço privilegiado de análise a narrativa brasileira das últimas décadas. O recorte proposto inclui obras produzidas tanto por mulheres quanto por homens, uma vez que o olhar masculino também participa da construção das identidades femininas. A fim de permitir uma perspectiva comparada, o simpósio se abre também para a discussão da representação da mulher em outros discursos, aí englobados não apenas a narrativa estrangeira ou de outras épocas, mas também a poesia, a música, as artes plásticas, o teatro, o cinema, o jornal, a televisão, a publicidade e a política.


Trabalhos

Adeítalo Manoel Pinho - PUC/RS e UEFS
A condessa da maldade: formação da personagem feminina no romance brasileiro do século XIX
De forma alguma é incomum a literatura conceber modelos femininos negativos como oportunidade didática. Em A condessa Vésper (1882), o então escritor polêmico Aluísio Azevedo (1857-1913) constrói uma protagonista demônio. Ao feitio dos futuros vilões dos romances de João Ubaldo Ribeiro, em Ambrosina estão todos os atributos da maldade: ambiciosa, mentirosa, falsa, adúltera, ladra, prostituta, sedutora, homossexual. Ela é hiperbolicamente negativa. Chamá-la de dissimulada seria uma ironia, e não uma adjetivação. A questão não é estudar o caráter da maldade da protagonista do folhetim Memórias de um condenado (primeiro título), mas perceber nessa construção quase carnavalesca, as intenções de recepção do romancista, satisfazendo uma classe leitora cuidadosamente estudada e tentando, pelas entrelinhas da narrativa, escrever uma obra emancipatória, no dizer de Hans Robert Jauss. O jornal é o espaço onde se dará o conflito que, para acerto do teórico da recepção, atrai a história da literatura para ler as obras seguindo códigos sociais à risca.
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Beatriz Polidori Zechlinski - UFPR
A fidelidade feminina em questão: um estudo de contos da coluna A vida como ela é... de Nelson Rodrigues
Este trabalho preocupa-se em refletir sobre as representações sociais de gênero produzidas em contos de Nelson Rodrigues publicados na coluna A vida como ela é... do jornal Última Hora (RJ). Tal coluna teve longa duração neste jornal, de 1951 a 1961, e alcançou grande popularidade. Discutem-se as imagens do feminino, do masculino, do casamento e do amor que essas histórias apresentavam e a sua relação com os discursos de delimitação dos papéis sociais de homens e de mulheres desse período. Foram analisados sete contos selecionados, sendo eles: Uma senhora honesta, Sem caráter, Pecadora, O decote, A dama do lotação, A humilhada e Casal de Três. Buscou-se compreender o caráter e o papel destes na produção de imagens que divulgavam formas de pensar as relações amorosas e de gênero, que eram apreendidas pelos leitores.
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Carolina Geaquinto Paganine - UFSC
Thomas Hardy e a representação da mulher vitoriana: inovação, preconceitos e estereótipos
Escritor inglês do final da era Vitoriana, Thomas Hardy é bastante conhecido por seus retratos de olhar inovador sobre a figura feminina em romances como Tess of the D'Ubervilles e Jude, the Obscure. Dentre as suas inovações na literatura inglesa, está a caracterização de mulheres com perfis psicológicos elaborados e contraditórios, portadoras e conscientes de seus desejos sexuais e de sua própria opressão pela sociedade. Neste simpósio, pretendo discutir três contos de Hardy que focam em sua narrativa mulheres, cada uma representante de uma diferente classe social. São eles: “The Withered Arm”, “An Imaginative Woman” e “Barbara of the Grebe”. Aqui entrará em contraste a representação da mulher, já como produto de um novo pensamento alcançado pelo avanço do feminismo, com os conceitos morais vitorianos ainda presentes na escrita do autor inglês, revelando a reprodução de outros estereótipos e preconceitos dominantes à época.
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Cecil Jeanine Albert Zinani - UCS
Do gênero e seus labirintos: uma leitura de Nós que nos amávamos tanto
A construção da identidade feminina, evidenciada a partir dos Estudos Culturais de Gênero, está relacionada à recodificação do papel desempenhado pela mulher tanto no universo público quanto no privado, numa época em que os paradigmas estão se transformando, inviabilizando a permanência dos modelos tradicionais. Um dos méritos dessa transformação é tornar visíveis os preconceitos e estereótipos veiculados pela cultura dominante e, especialmente, pela literatura. Dentro dessa perspectiva, proceder-se-á a uma leitura da obra Nós que nos amávamos tanto, da autora chilena Marcela Serrano, com a finalidade de verificar em que medida são confirmados ou subvertidos os preconceitos e estereótipos de gênero vigentes, na representação da personagem feminina em obra escrita por uma mulher.
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Cláudia de Oliveira - FCRB e UCAM
Amor e sexualidade na Belle-Époque carioca - 1900-1930
O objetivo deste trabalho é discutir a relação entre sexualidade e erotismo na sociedade moderna carioca, nas três primeiras décadas do século XX, a partir de fragmentos retirados de revistas ilustradas editadas por intelectuais da tendência simbolista no Rio de Janeiro. Tomando duas imagens ícones da pintura, Salome e L'Apparition, discute-se sentidos importantes na história das mulheres e nas relações de gênero que emergem com a modernidade. Com a emergência da mulher urbana moderna novas experiências de moralidade passam a ser vividas. Estas ultrapassavam o ideal de feminilidade, então encapsulado, na noção de respeitabilidade doméstica. Estes novos comportamentos despertaram no masculino paixões e medos que parecem apontar para um novo erotismo, descrevendo-nos, assim, novas configurações do amor e do sexo.
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Dirce Waltrick do Amarante - UFSC
O masculino e o feminino na poesia e na prosa de Edward Lear
Na poesia vitoriana a representação da masculinidade é tema recorrente, uma vez que havia na época uma “ideologia doméstica dominante que funcionava como uma hegemonia, estabelecendo uma diferença sexual hierárquica entre homens e mulheres”, discurso esse construído “em resposta à industrialização e às mudanças do sistema sócio-econômico das classes”, quando as mulheres entraram no mercado de trabalho. Nesse contexto cultural, a poesia e a prosa do artista inglês Edward Lear (1812 –1888), um dos pais do nonsense vitoriano, vai de encontro a essa “ideologia dominante”. Não por acaso, encontramos na obra de Lear mulheres cujas atitudes deixam a sociedade perplexa, ou que reagem à altura contra o comportamento repressor masculino. Muitas vezes, porém, o nonsense do artista inglês não faz mais distinção entre os sexos, criando personagens neutros, ou que exalam uma essência ora masculina ora feminina.
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Eliane Campelo - FURG
A 'nova mulher' em The House of Mirth, de Edith Wharton
Em The house of mirth (1905), Edith Wharton enfoca a alta sociedade novaiorquina na virada do século XIX para o XX. A protagonista, Lily Bart, é a figura que catalisa o conflito entre a moralidade, a ética, a opulência, o casamento e o amor. Solteira, sem dinheiro, sem preparo para enfrentar a sociedade industrial em formação, Lily precisa lutar pela sua reputação, pela sobrevivência, pela paixão, para, enfim, vencer o preconceito contra esta ‘nova mulher´. Ou não.
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Fernanda Munhão Martins Silvestre - UNESP/Assis
A mulher através do olhar bilaquiano na revista A Cigarra (1895)
Em 1895, Olavo Bilac foi colaborador da revista A Cigarra em que publicou várias crônicas que destacavam a vida carioca, inspirada na Belle Epoque, além de outros aspectos do país naquele período. Entre esses destaques, a mulher serviu, por várias vezes, de inspiração para essas crônicas, já que grande parte dos leitores era formada pelo público feminino que se integrava aos costumes, aos hábitos e aos valores ditados pela sociedade da época. Tendo em vista a representação da figura feminina, o trabalho pretende analisar o olhar do cronista dirigido à mulher daquela contempora-neidade, assim como as personagens destacadas por ele. O estudo será centrado na seção “Crônica”, assinada pelo pseudônimo Fantasio de maio a outubro de 1895.
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Ivo Renato França - UFSC
A representação de Maria Moura: contradições e paradoxos
A proposta para apresentação ao VII Fazendo Gênero traz a representação da mulher na ficção da escritora Rachel de Queiroz, em específico a personagem Maria Moura, o romance Memorial de Maria Moura, e de sua adaptação à minissérie de televisão produzida pela TV Globo, com Gerbase. O conteúdo a ser exposto propõe elucidar alguns vieses dos constructos de criação e de ficcionalização de ambas versões, buscando apontar algumas realizações, contradições, parodoxos e marcas de escritura das duas narrativas e alguns distanciamentos e aproximações entre as representações construídas pelo romance e pela minissérie.
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Jacicarla Souza da Silva - UNESP/Assis
Um estudo sobre o texto: “expressão feminina da poesia na América” de Cecília Meireles
Sabe-se que há um crescente interesse em se estudar questões que permeiam a escrita de autoria feminina, constantemente questionam-se as formas pelas quais são lidas e criticadas as obras literárias produzida por mulheres. Desta forma, esta comunicação visa a apresentar um estudo sobre a conferência intitulada “Expressão feminina da poesia na América”, proferida por Cecília Meireles, em 1956, na Sala do Conselho da Universidade do Brasil. Trata-se de um ensaio que faz um panorama da expressão lírica feminina hispano-americana, em que são destacadas algumas representantes, bem como suas respectivas características. Pretende-se, portanto, por meio da mencionada conferência, abordar a postura pioneira da autora de Viagem diante os estudos literários da crítica feminista, bem como a sua relação com as poetisas hispano-americanas, em especial, as uruguaias.
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Jade Gandra Martins - UFSC
Sexo e morte em Nelson Rodrigues: a identidade feminina em Os sete gatinhos
Em toda a obra teatral de Nelson Rodrigues, é possível constatar a relação visceral que se estabelece entre o sexo e a morte, quase sempre a relação sexual se configurando como causa última de uma interrupção abrupta da vida. Se o amor sempre salva, garantindo o raro final feliz numa dramaturgia de tintura tão pessimista, o sexo quase sempre aparece como aquilo que a (pós) modernidade trouxe de mais degradante. Os sete gatinhos, peça definida por Nelson como uma “divina comédia”, traz ao palco com maior contundência a intricada relação entre os dois elementos, sexo e morte, que para o filósofo George Bataille associam-se justamente por serem ambos uma espécie de nostalgia da continuidade, continuidade esta que se esvai já no nascimento de cada indivíduo.
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Letícia Fernandes Resck - UnB
Penélope e Eros Volúsia: em busca de uma estética da existência na composição para a cena
Penélope é uma personagem do nosso dia-dia; Penélope é diversas mulheres que conhecemos, que esperam a chegada do Ulisses de suas vidas; penélope é o nome de uma personagem de um monólogo que também se chama espera; Penélope é uma personagem da literatura grega, cuja existência não é possível sem a ausência do personagem principal da Odisséia: Penélope existe porque Ulisses não está. Penélope tece enquanto espera e destece para não correr o risco de terminar seu tecido antes daquele que deixou sob sua guarda seu arco e suas posses (inclusive ela própria) retornar e repossuir o que é seu. Penélope vivia em seu agora a expectativa de um futuro encontro. Eros Volúsia é um mito da dança no mundo, criadora do bailado brasileiro; eros é bailarina clássica que perambula pelos terreiros e pelas ruas pesquisando os corpos e seus movimentos; tecelã de uma vida quase mítica, viajando o mundo todo levando sua dança-tecido; mito e quase lenda, porque muitas/os ainda não sabem que ela realmente existiu. Eros existiu e existe no legado de sua dança. Eros não esperou Ulisses nenhum porque disse que não queria ser escrava. Eros dizia que o melhor momento de sua vida era hoje. O presente trabalho procura refletir como a vida, a existência, torna-se matéria para obra de arte a partir das personagens-conceituais Penélope e Eros Volúsia. Pretendo pensar em cena, numa composição teatral onde essas duas personagens se con-fundam, a possibilidade de uma estética da existência como prática em que o sujeito é capaz de estabelecer uma determinada relação consigo e esboçar resistência a poderes subjetivantes instaurando novas formas de vida.
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Linda Catarina Gualda - UNESP/Assis
Capitu: o monstro silenciado
Durante muito tempo, Capitu foi vista pelos críticos como o motivo da ruína emocional do narrador. Encarada como o protótipo da mulher devassa, sem caráter e impostora, a personagem é um produto do discurso falocêntrico, o qual enxerga a mulher a partir de uma cultura patriarcal impregnada de valores que só a desmerecem. Com base no exposto, propomo-nos a examinar até que ponto, nessa obra, a mulher está sujeita a um sistema moral, de que ela participa de forma passiva, na medida em que não detém a palavra, mas ao contrário é falada. A história de Capitu é contada por outro que, além de não lhe dar voz, a constrói segundo sua ótica misógina, aquela que vê a mulher como boa ou má, santa ou prostituta. Esses questionamentos nos levaram a perceber que Capitu foi construída a partir da idéia do duplo e, justamente pela necessidade em explicar porque e como isso ocorre, decidimos estudá-la à luz da teoria da primeira fase da crítica feminista que se preocupa em desmascarar a misoginia da prática literária – as imagens estereotipadas da mulher como anjo ou monstro. Acreditamos que a personagem é engendrada a partir de uma idéia concomitante de anjo e monstro, carregando dentro de si as duas faces da mulher, as duas motivações do ser humano – a do Bem e do Mal, a da Virtude e do Pecado. Vamos demonstrar que Capitu busca uma maneira de transpor o estabelecido; luta por emancipar-se, pois está cansada das obrigações sociais e familiares que lhes são impostas; quer experimentar algo que saia de si própria.
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Márcia de Almeida - UFJF
Denunciando preconceitos, uma leitura de Lettera a un bambino mai nato
O presente trabalho pretende investigar, sob a perspectiva dos Estudos de Gênero, a representação feminina em Lettera a un bambino mai nato, da escritora italiana Oriana Fallaci. Nossa leitura se propõe a mostrar a crítica da autora à distribuição estereotipada dos papéis femininos e masculinos promovida pelo sistema sexo-gênero tradicional, tendo por base a existência de duas forças contrárias que, partindo do senso comum da sociedade patriarcal, atuam sobre o personagem feminino e buscam influenciar sua decisão pela manutenção ou interrupção de uma gravidez não planejada. Escrito em 1975, o livro também pode ser tomado como um testemunho das inquietações das mulheres em busca de sua redefinição identitária após as conquistas do movimento feminista dos anos 60/70 e em face da permanência de uma hierarquia sexista.
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Maria Ângela de Araújo Resende - UFSJ/São João Del Rey
Mater dolorosa, mães virtuosas: a representação feminina no jornal A pátria mineira
Tomando como referência os estudos sobre a história das mulheres e relações de gênero, pretende-se discutir as representações da mulher na imprensa do século XIX, especialmente no jornal republicano A Patria Mineira editado em São João del-Rei no período de 1889 a 1894 e de grande alcance na Província de Minas Gerais e no Brasil. Tratando-se de um órgão de propaganda republicana, além das notícias, artigos e editoriais de caráter doutrinário escritos pelos homens, observa-se, principalmente na seção Folhetim, romances, contos, cartas e crônicas que, além de objetivarem o entretenimento, evocam a participação feminina no processo histórico de mudança de regime. Entretanto, a análise dos discursos que consolidaram a formação da nascente sociedade republicana demonstram as estruturas básicas de um sistema moralizante e de caráter positivista, principalmente no que se refere à condição das mulheres, como filhas, mães e esposas, ausentes da vida pública e destinadas ao espaço doméstico. Desta forma, os discursos da elite intelectual e política procuravam adequar o comportamento feminino à ordem desejada. Cientes da necessidade da manipulação de símbolos que pudessem representar a República, a figura feminina aparece no imaginário republicano brasileiro desde as origens de uma rica iconografia que marcou a proclamação da República na França - o famoso quadro A liberdade guiando o povo, de Delacroix, até a imagem da Virgem-mãe adaptada ao ideário positivista. Pretende-se, assim, compreender o lugar ocupado pelo " bello sexo" na imprensa de Minas Gerais, na segunda metade do século XIX, como leitora, tema e, em alguns casos, como colaboradora.
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Maria da Conceição Pinheiro Araújo - CEFET/BA e PUC/RS
Leituras femininas: armadilhas para a perdição, caminhos para a salvação
Se a consolidação da leitura feminina na Europa caminhou lentamente, no Brasil — uma sociedade de perfil patriarcal, que considerava as mulheres como cidadãs de segunda categoria — se arrastou a passos de tartaruga. A representação literária dessa parcela da população foi se cristalizando em estereótipos que desqualificavam a mulher leitora. A desqualificação imposta às leitoras do século XIX, também faz parte de uma estratégia política que não queria incluir mulheres no universo letrado que queria continuar de alçada exclusivamente masculina. A representação da leitora e os compassos e descompassos da história da leitura feminina no Brasil será visualizado através dos romancistas Machado de Assis, Aluisio Azevedo, Coelho Neto e Adolfo Caminha, autores representativos desse rol de escritores que apresentam perfis de leitoras estereotipadas como protagonistas ou personagens secundárias das suas histórias. É preciso limitar o universo de leitura da mulher para que ela possa corresponder às expectativas exigidas pelo projeto nacional. As possibilidades de leituras apresentadas para as personagens são aquelas que estão inscritas na ordem moral e social estabelecida. Esses escritores-pedagogos sustentam seus argumentos na fragilidade das personagens e na preservação de sua inocência. Na verdade, temem o crescimento intelectual feminino, pois, a leitura irá conduzi-la a tão desejada libertação intelectual, cultural e política.
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Maria Lindamir de Aguiar Barros - UFSC
As figuras femininas na literatura popular
Este trabalho consiste em mapear como se dá a construção do feminino nesse universo literário demarcado, construindo os retratos das mulheres presentes nos folhetos e na literatura oral da região de Barra Velha, Santa Catarina, pois a mulher é tema que vem povoando o imaginário de muitas produções literárias. Esse mapeamento do ficcional nos conduzirá ao conhecimento do desempenho de muitas mulheres na construção do país, bem como a algumas raízes de comportamentos discriminatórios com relação à mulher, e dessa forma, o real e o ficcional poderão entrecruzar-se.
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Maurício Fonseca da Paz - UFPel
Percepções de uma história da prostituição feminina em Pelotas/RS
A pesquisa foca a prática da prostituição na cidade de Pelotas na década de 1970. Como não existe produção histórica alguma, pouco se sabe sobre o objeto em si, no entanto se sabe sua existência desde os primórdios da urbanização em massa e que pode ser então verificada quando tal fato torna-se registro em jornais do final do século XIX, onde personagens são desenvolvidos em uma narrativa que varia entre o cômico e o irônico ao tom cínico e sério, utilizados aqui como fontes. Também é preciso elucidar que o registro da imprensa dá-se quase exclusivamente na coluna policial, ou seja, quando a prostituição invade a esfera legal ou ameaça os bons costumes ou a segurança pública. Uma constante disputa entre meretrizes, assaltantes, polícia e imprensa que criaram uma imagem distorcida e perversa: de uma mulher dada a baixa conduta moral que decaiu na vida em consequência de seus próprios atos e tornou-se mal, incorrigível, irrecuperável.
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Miriam Denise Kelm - PUC/RS
Mulher e guerra através da representação ficcional de autoria feminina portuguesa (o abalo dos estereótipos)
A comunicação objetiva apresentar alguns dos aspectos que a análise de romances contemporâneos de autoria feminina sobre as guerras coloniais portuguesas (1961-1974) põem à mostra. Instadas pelo regime salazarista a compor uma retaguarda de apoio à permanência dos militares portugueses na África, muitas destas mulheres tornaram-se críticas do sistema imperialista, da guerra e de seus efeitos sobre a sociedade civil, como o fizeram Lídia Jorge, Joana Ruas e Wanda Ramos. O tema dos conflitos bélicos, via representação literária, leva a considerações sobre o modo como as guerras mobilizam, a seu favor, os estereótipos de gênero, tanto o masculino (o exercício da virilidade), quanto o feminino (a abnegação). A reflexão leva em conta, também, o fato de que as análises de conflitos não consideram central a questão das relações de poder hierárquicas e desiguais entre homens e mulheres, existentes nas sociedades que vivem uma guerra. Utilizaremos o apoio teórico e crítico das portuguesas Ana Paula Ferreira, Margarida Calafate Ribeiro, Tatiana Moura, Lígia Amâncio e outras, além da cientista política Cordula Reiman.
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Rodrigo da Costa Araújo - FAFIMA
Signos estilhaçados do corpo de Caio Fernando Abreu
Estudamos, neste trabalho, o processo de representação da estética camp, paralelo ao corpo escritural, que se levanta e que se questiona nos cenários dos textos: um corpo aquém e além do real, porque advindo da ficção, mas que, pelas leituras aqui abordadas, fazem lembrar da imagem-corpo do escritor que se constrói na recepção leitor em contato com sua obra. Corpo escritural e corpo autoral são os recortes desse olhar que constroem a “prática camp de escrever” e conceitua o que vem a ser a escritura do gaúcho transgressor Caio Fernando Abreu. O corpus deste trabalho será lido primeiramente como escritura em palimpsesto e a num segundo momento lido como escritura em fragmento. A semiologia, insere-se, portanto, como teoria para descrever e explicar o que o texto diz nesse olhar.
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Salete Rosa Pezzi dos Santos - UCS
A mulher escritora na imprensa sul-rio-grandense do século XIX
A história das letras no Rio Grande do Sul está atrelada à imprensa que desempenhou relevante papel no desenvolvimento da literatura sul-rio-grandense, pois o grande número de periódicos literários que começa a circular na segunda metade do século XIX foi fundamental para a publicação e divulgação de escritos dos primeiros autores gaúchos. Nesse contexto, chama a atenção a inexpressiva participação de mulheres de letras, uma vez que poucas são as notícias a respeito da presença de escritoras nos periódicos literários nesse período de final de século no Rio Grande do Sul. Assim, é relevante um trabalho que investigue a ocorrência de registro da participação/colaboração feminina nesses periódicos, buscando examinar como se configura essa presença/ausência.
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Thiago Leite de Barros - UFRN
Anjos parnasianos e súcubos e pré-modernos
As imagens idealizadas da mãe e da cortesã são muito recorrentes na poesia. Na obra de Olavo Bilac (1885-1918), poeta parnasiano, a hetaira tem sua beleza e sexualidade celebradas, enquanto a mãe é um anjo diáfano e etéreo. Ja em Augusto dos Anjos (1884-1914), pré-moderno, a mãe é uma figura fisicamente acolhedora e nutridora, enquanto a prostituta é símbolo de degenerescência e decadência humanas. Embora divergentes entre si, as representações de ambos têm em comum o fato de oporem as duas figuras. Com o auxílio do esquema que divide as imagens em regime diurno (que valoriza a etereidade e desvaloriza a carnalidade) e regime noturno (que valoriza o acolhimento e o prazer físicos), do livro As Estruturas Antropológicas do Imaginário, de Gilbert Durand, percebe-se que a ambivalência e a ambigüidade na representação do feminino e da mulher se mantêm em perspectivas discursivas diversas.
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Vanessa Amorim Milioli Bittencourt - UDESC
As imagens femininas representadas no jornal Penna Agulha e Colher (Florianópolis, 1917 a 1919)
Este trabalho analisa as imagens femininas idealizadas na imprensa dirigida à mulher, em Florianópolis, entre 1917 a 1919, através dos artigos e contos redigidos e editados por mulheres no jornal “Penna, Agulha e Colher”. Era um momento em que das mulheres se esperava um comportamento ditado pelas normas conservadoras, destinadas ao espaço privado e “rainhas do lar”, mas também quando as novidades da modernidade eram ansiadas por uma classe distinta numa cidade ainda provinciana em vias de modernização, sendo que a imprensa até então era toda de produção masculina. Nessa análise são percebidas as representações que faziam de si e da sociedade da época, os conceitos que reproduziam sobre a natureza feminina, a construção das imagens de mulheres mães e esposas. Para tanto, as análises perpassam a produção de discursos, o uso de conceitos, os estereótipos de gênero que eram reproduzidos e tidos como “verdades” nesse jornal.
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Zilma Gesser Nunes - UFSC
A culpa é da mulher: o estereótipo da mulher na cena de traição
A palavra estereótipo vem do grego stereós, que significa 'sólido' + tipo. Temos ainda que estereotipia é o processo pelo qual se duplica uma composição tipográfica, transformando-a em fôrma compacta por meio de moldagem de uma matriz. Já sob o ponto de vista da sociologia, estereótipo é "uma crença rígida, excessivamente simplificada, aplicada tanto aos indivíduos como categoria, quanto aos indivíduos isoladamente." (Johnson, 1995:93) O conceito de estereótipo aplicado à representação da mulher na literatura pode ser observado e largamente exemplificado com os mesmos contornos desde a antigüidade clássica até os dias de hoje. Tomando a obra da Literatura Clássica Latina As metamorfoses de Ovídio podemos perceber os diferentes traços na representação das mulheres, conforme o papel atribuído a cada uma das personagens. Quando na relação homem/mulher surge o componente traição, as duas mulheres são culpadas: a que traiu (porque seduziu) e a traída (que de alguma forma permitiu). A adúltera (palavra usualmente feminina) merece ser castigada. O exemplo mais corrente, da situação proposta, em Ovídio, é o da relação Júpiter x Juno. Júpiter é aventureiro e Juno sabedora do caráter de seu marido, o persegue. Ao se descobrir a traição, impreterivelmente, a moça (adúltera) é punida com os mais terríveis castigos, e quase sempre são metamorfoseadas em animais, como Io que é transformada em novilha, Sêmele, em árvore e Eco, privada de sua fala e por causa de muito sofrimento, transformada em rocha. O estereótipo da mulher como culpada na cena de traição perpassa tempo, espaço e diferentes culturas, a exemplo de Eva, Helena e Io. Na cultura judaico-cristã, essa culpa está associada a pecado e a punição. A mulher leva o homem ao pecado, assim como à traição, e por isso é culpada e punida por um deus ou pela sociedade.
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