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ST17 - Perspectivas interseccionais de gênero e classe

Coordenadoras:     Eliana Ávila (UFSC)
                               Laura Lomas (Rutgers University)
                               Vânia Beatriz Müller (UDESC)

Resumo

Uma das importantes contribuições da teoria feminista é perturbar o argumento de que os estudos de gênero e sexualidade não passam do âmbito “meramente cultural” (Butler), ou seja, não passam de um âmbito supostamente inferior ao dos estudos de classe – estes, tidos como parâmetro absoluto ou prioritário para se analisar, criticar e resistir à constituição do sujeito abjeto (portanto, materializado como objeto) do humanismo. Em contraponto a esse argumento, novas atividades culturais refletem o fortalecimento de perspectivas interseccionais que recusam qualquer redução de subjetividades históricas complexas a categorias identitárias e analíticas supostamente fixas, desconectadas entre si. Este simpósio buscará investigar a produção textual (incluindo-se teoria, literatura, cinema e outras artes, publicidade, leis, mídia, ativismo social e político) dentro de uma dinâmica que leve em conta a interseccionalidade de gênero e classe sem perder de vista as tensões e desigualdades entre esses e outros eixos conectados, ainda que distintos, de hierarquia.


Trabalhos

Aline de Mello Sanfelice, Eliana Ávila - UFSC
A antecipação da diferença entre sexo e gênero em Orlando, de Virginia Woolf
Proponho neste trabalho analisar como se dá a relação entre as categorias analíticas de classe e gênero na caracterização narrativa do/a protagonista de Orlando (Woolf 1928). Minha análise partirá do princípio de que, nos contextos históricos desse romance, a normatização das relações entre sexo e classe era legível, ao contrário daquelas entre sexo e gênero (Gilbert e Gubar 1979). O primeiro objetivo deste trabalho é verificar minha hipótese de que a caracterização de Orlando como transgressor/a da ordem patriarcal sobre as fronteiras de classe e nação é estratégica para tornar legível sua transgressão também das fronteiras da suposta equivalência sexo=gênero. Meu segundo objetivo é demonstrar que essa caracterização textual de Orlando antecipa a dissociação de sexo/gênero tornada pública pela teoria feminista (Rubin 1975; Butler 1990).
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Ana Maria Bueno Accorsi - PUC/RS
Sex and the City e Desperate Housewives: mulheres modernas e bem resolvidas?
Este trabalho analisa dois dos principais seriados norte-americanos, Sex and the City e Desperate Housewives como representantes de um modo de abordar os problemas e as representações femininas no período pós-liberação, principalmente com as chamadas “mulheres modernas e bem resolvidas.” Ambos tratam da vida de quatro mulheres, discutindo, entre outras questões, seus problemas pessoais, de relacionamentos com família, filhos e amigos, e sexo. Seguindo a tradição estabelecida por Thornton Wilder em Our Town (1934), os locais das histórias são também personagens do enredo e a trama tematiza, de modo geral, o ciclo da vida. Devido ao grande sucesso televisivo, a questão que se impõe é o de poder-se verificar a preferência da audiência para com o relato realista e o reforço da temática tradicional que preenche até hoje os espaços de preocupação feminina em nível sexual, doméstico e profissional.
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Ana Maria Veiga - UFSC
Mulheres em rádio e revista: Imagens femininas na Época de Ouro da música (Rio de Janeiro – 1930/1945)
Este trabalho aborda questões interseccionais de gênero e classe no período de 1930 a 1945 por meio do rádio e da revista feminina Jornal das Moças. Ele busca imagens idealizadas de mulheres em meio à disputa discursiva entre os elementos de duas camadas da população brasileira: de um lado encontra-se a camada média, representada pela revista, que repercute os planos do governo Vargas; do outro está a camada popular, com seu cotidiano exposto pelas letras das canções. Procuro rastrear conflitos sociais, entrecruzando as imagens femininas adequadas e inadequadas a essas duas camadas da população, apurando as diferenças e similaridades que perpassam os discursos elaborados por homens, no sentido de ditar normas de conduta e imprimir subjetividades, correspondentes a seus anseios hegemônicos, sobre as mulheres.
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Ana Sílvia Laurindo da Cruz, Nicole Soares Pinto - UFPR
“Bola de Neve” e o ideal positivista na ação filantrópica de mulheres da burguesia curitibana de 1930
Este trabalho analisa a ação de mulheres burguesas no movimento chamado “Bola de Neve”, que visava arrecadar fundos para ajudar um asilo em Curitiba, Paraná, no início de 1930. O estudo é feito a partir de matérias do jornal Diário da Tarde, que deu especial destaque às reuniões de damas da alta sociedade curitibana e à “philantropia desses corações puríssimos”. O objetivo é levantar o debate sobre como essas ações filantrópicas das burguesas são uma inserção no espaço público e, ao mesmo tempo, compatíveis com a dedicação ao lar, de acordo, portanto, com um ideal positivista de mulher responsável pela “humanização” do capitalismo, papel condizente com a suposta “natureza” feminina.
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Brunilda Tempel Reichmann - UNIANDRADE
Mudez e verborragia em Lavoura Arcaica: uma questão de gênero?
Este trabalho analisa os preceitos da doutrina cristã na narrativa ficcional e fílmica Lavoura Arcaica. A diegese envolve uma família de descendentes libaneses que vive no interior de São Paulo nos anos 60. O pai é um patriarca bíblico, que faz sermões antes das refeições sobre trabalho, tempo e paciência. De acordo com André, segundo filho homem e narrador, à direita do pai estão os filhos corretos e à esquerda a esposa, fonte de corrupção, e os três filhos corruptos. André, com sua verborrágica sedução, acaba por envolver Ana, sua irmã, numa relação incestuosa e provocar a destruição da família. Às mulheres, cabe apenas a mudez.
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Daniela Leandro Rezende - UFMG
Redistribuição versus reconhecimento? A intersecção entre gênero e classe nas teorias da justiça de Fraser e Young
Algumas teorias feministas contemporâneas voltadas à questão da justiça social (Fraser 2000, 2003 e Young 2001) representam um avanço no debate sobre a relação entre classe e gênero e a questão das desigualdades, na medida em que propõem que uma concepção de justiça social mais apropriada deve partir da percepção de que classe e gênero (além de outros fatores como raça/cor, etnia e geração, etc.) estão relacionados e que estes aspectos se reforçam mutuamente, concebendo as desigualdades como fenômenos que apresentam causas múltiplas. Tal perspectiva, portanto, escapa das armadilhas colocadas por um lado, por concepções de justiça referentes a aspectos meramente redistributivos, e por outro, pelas análises que enfocam apenas a questão identitária ou cultural, sem considerar seus reflexos econômicos e políticos.
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Débora El-Jaick Andrade - UFF
Gênero, etnia e classe na perspectiva historiográfica de Dorothy Thompson
A obra da historiadora inglesa Dorothy Thompson não é tão conhecida no meio acadêmico quanto a de seu marido, o historiador Edward Thompson, mas suas trajetórias coincidem no que toca à participação no grupo de historiadores do Partido Comunista Britânico, no trabalho na educação de adultos, na pesquisa sobre as organizações dos trabalhadores, em especial do Cartismo, na militância durante a Guerra Fria e no movimento pacifista. Sua predileção pela história social, pelos “excluídos” da história contemporânea da Grã Bretanha, enfocando tanto a questão de gênero e etnia quanto a de classe, a tornou um importante expoente da “história vista de baixo para cima, e uma referência para gerações de historiadores sociais e para a historiografia atual. Este trabalho tem como objetivo apresentar uma perspectiva inovadora e profícua da metodologia de Dorothy Thompson que alia a preocupação com a condição feminina no século XIX à análise dos grandes movimentos da classe trabalhadora.
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Eliana Ávila - UFSC
Resistência interseccional: o testemunho haitiano de Danticat
Considerando a crítica feita por John Beverley à co-optação que a instituição acadêmica vem fazendo da “contraliteratura” de testemunho, este trabalho enfocará a resistência interseccional de The Farming of Bones (1998), da haitiana Edwidge Danticat. Meu argumento é que o texto de Danticat recusa o gênero institucionalizado: nem tanto o gênero textual, de testemunho, quanto a classe marginalizada desse gênero. Meu objetivo é demonstrar o potencial estético-político dessa recusa identitária para deslocar o epistema de leitura hegemônica que aliena o testemunho da realidade haitiana no imaginário de um (e)leitorado norte-americano que se depara com a reconstituição do genocídio de 20.000 imigrantes haitianos (1937) na República Dominicana sob o regime do ditador Rafael Trujillo (1930-60), apoiado pelo presidente Franklin D. Roosevelt (1933-1945).
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Hulda Helena Coraciara Stadtler, Sônia Quintela - UFAL/UFRPE
Pescadoras: gênero e classe numa mesma articulação
Com o olhar a partir da articulação nacional das pescadoras em favor de seus direitos trabalhistas, reflito sobre o exemplo que são essas mulheres reunindo gênero e classe em uma mesma articulação reivindicatória. Muitas vezes os pescadores tiraram proveito da suposta participação das mulheres nas reivindicações para a categoria. Nessas ocasiões tentaram suplantar o gênero com a classe, mas as mulheres perceberam sua exclusão deliberada e resistiram. Os resultados obtidos das observações diretas foram gerados a partir de pesquisa-ação, de dentro da articulação que agora se torna nacional e a partir das próprias mulheres. Concluímos como resultado que a questão de classe ganha maior visibilidade que a de gênero na reivindicação dos pescadores, mas que as pescadoras perceberam esse mecanismo de exclusão e estão resistindo.
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Joana El-Jaick Andrade - USP/FFLCH
Máximo Gorki e a nova mulher revolucionária
Impressionado com o relevante papel desempenhado pelas militantes socialistas durante o período de ebulição revolucionária na Rússia do início do século XX, Máximo Gorki produziu obras permeadas de personagens femininas que fogem ao modelo convencional de heroínas adotado pelos literatos de seu tempo. O trabalho em questão pretende analisar as diversas representações da “mulher revolucionária” na obra de Gorki (particularmente no romance A mãe, escrito em 1907), reconhecendo as transformações introduzidas na concepção tradicional de mulher, relacionadas à sua visão de mundo e prática política. Tal empreendimento requer a compreensão das modificações estruturais em processo na Rússia, decorrentes da incipiente expansão das relações de produção capitalistas, bem como de suas repercussões sobre os costumes e valores ainda vigentes naquela sociedade.
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Kátia Elaine Muck - UFSC
Eixos interseccionais de hierarquia em July’s People, de Nadine Gordimer
July’s People, de Nadine Gordimer, oferece uma perspectiva relevante de análise do conflito hierárquico entre os eixos de classe, raça e gênero no contexto do apartheid sul-africano. Proponho analisar a instabilidade da prevalência hierárquica entre esses eixos intersceccionais que caracterizam os personagens Maureen e July. Na cidade dominada pelos brancos, a hierarquia de classe é determinada pela hierarquia de raça, situação esta que se inverte na aldeia dominada pelos negros. Nesse contexto, minha proposta é analisar momentos textuais em que as relações hierárquicas de gênero e classe são instabilizadas pelo deslocamento entre esses dois espaços geopolíticos que, de acordo com Maureen, parecem pertencer a tempos diferentes.
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Maria Albina M. Nunes - UFSC
Presença de mulher ou de “atributos femininos” na fábrica?
A discussão sobre a entrada da mulher no mercado de trabalho está quase sempre voltada para o debate das relações de poder entre os sexos e de suas devidas construções por meio de aspectos sócio-culturais. Isso tem provocado uma afirmação das mulheres nas suas diferenciações numa tentativa de desconstruir a histórica dominação da supremacia masculina. Apesar da relevância nas formas de “se pensar” a emancipação feminina, tal perspectiva tem afetado negativamente a consciência de classe de homens e mulheres, tão necessária nos dias atuais em que se assiste mundialmente a uma total desregulamentação dos direitos da classe trabalhadora em geral. O que era para ser uma reflexão em prol da emancipação feminina caminha para o vazio, quando não considera e compreende que ambos os sexos são atingidos pelas mesmas relações sociais de produção.
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Maria Isabel de Castro Lima - UFSC
Autobiografia: gênero feminino?
Apesar das novas leituras críticas de relatos autobiográficos a partir do New Criticism, as autobiografias femininas foram menosprezadas pelo discurso canônico, principalmente se os relatos eram de mulheres de classe baixa, lésbicas ou negras. Tomando como referência a autobiografia de Cassandra Rios, argumento como uma abordagem de gênero se torna insuficiente para dar conta da complexidade das relações existentes no relato de vida de uma escritora popular lésbica. Neste sentido, meu objetivo é discutir como as teóricas críticas feministas Sidonie Smith e Julie Watson, que se posicionam contra abordagens exclusivas de gênero, inter-relacionam gênero e classe, e como expõem a hierarquia dicotômica (masculino/feminino, inferior/superior) existente na visão canônica do próprio gênero literário-historiográfico da autobiografia.
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Moacir Francisco Pires - UFSC
Trabalho e relações de gênero no assentamento Sepé Tiaraju - MST
Esta pesquisa aborda as relações de trabalho e de gênero no assentamento Sepé Tiaraju (no município catarinense de Campos Novos), o qual articula o trabalho coletivo com o trabalho doméstico. Discutiremos os seguintes resultados: 1) homens e mulheres realizam dupla jornada de trabalho, e não inauguram um assentamento totalmente coletivo, pois combinam antigas formas individuais de trabalho com novas, provocando a emergência de conflitos de gênero; 2) a organização do trabalho coletivamente tem provocado transformações na vida dos assentados; 3) as responsabilidades pelo trabalho são de todas as famílias, fato que tem modificado a divisão sexual do trabalho e alterado algumas atividades atribuídas historicamente aos homens e às mulheres; 4) outros trabalhos perpetuam no assentamento determinados padrões relacionais cristalizados nos limites e possibilidades da sociedade capitalista. Palavras-chave: trabalho coletivo, trabalho doméstico, relações de gênero, MST, assentamento, divisão sexual do trabalho, trabalhadores rurais.
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Nilo Silva Pereira Netto - UFPR
Sociedade de classes, gênero e sexualidade: intervenções e construções corporais na educação física escolar
O presente trabalho é parte das aproximações realizadas para a conclusão do texto “Contribuições crítico-superadoras dos mecanismos de heterossexismo na Educação Física Escolar”. Os caminhos percorridos passam por uma primeira tentativa de articulação entre as categorias de classe, gênero e sexualidade ou diversidade sexual, apontando as investiduras sociais na educação dos corpos através dos mecanismos escolares, principalmente da Educação Física. Buscou-se a compreensão das clivagens entre as categorias apresentadas e as conseqüentes manifestações ideológicas na conformação corporal escolar, ressaltando a necessidade da construção de um projeto de educação emancipatória que admita o projeto histórico da livre expressão da sexualidade.
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Regina Przybycien - UFPR/UNIANDRADE
Sob a lei do pai: relações de gênero, classe e etnicidade em Lavoura arcaica de Raduan Nassar
A narrativa do romance Lavoura Arcaica se constrói sobre arquétipos do masculino e do feminino, encarnados na figura do pai, representante da lei e da ordem e, portanto, da cultura patriarcal, e da mãe, representante das pulsões eróticas, do princípio do prazer e do gozo narcísico. O feminino, no romance, está associado ao livre fluir da libido, ao passo que o masculino – a lei do pai – introduz a noção de culpa e freio dos instintos, indispensável, segundo Freud, para o processo civilizatório. Entretanto, a tensão entre o masculino e o feminino no romance está ligada à classe e à etnicidade, já que as personagens se movem num espaço circular constituído pela família patriarcal de fundo rural e étnico, uma comunidade arcaica, pré-moderna, baseada nos laços de sangue e, como tal, fechada em si mesma, condenada à entropia. Nesse sentido, gênero, classe e etnicidade são vetores que se interpenetram na tessitura romanesca, convidando a uma leitura que examine os desdobramentos dessa interpenetração.
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Robson Laverdi - UNIOESTE
Narrativas interseccionais de gênero e classe nas experiências de mulheres migrantes
Esta comunicação objetiva dialogar com narrativas de três mulheres negras migradas para a região Oeste do Paraná, no final da década de 1960. Oriundas de diferentes lugares do Brasil, estas mulheres versam sobre experiências migratórias rurais e urbanas permeadas por múltiplas itinerâncias no solo brasileiro. As narrativas, produzidas através da história oral, tecem os processos sociais da construção do enraizamento em Marechal Cândido Rondon, uma cidade que a partir do final da década de 1980 passou a marcar, no âmbito da memória oficial, uma identidade supostamente única alemã, herdada pelos ascendentes germânicos dos primeiros migrantes vindos do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, nos anos 1950 e 1960. Instigante observar como estas mulheres narram suas experiências de vida nas intersecções de gênero e classe, a despeito da força da memória dominante que insiste na identidade étnica.
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Sônia Roncador - University of Texas and Austin
Uma história política (movimentos de domésticas, testemunhos, e consciência profissional)
Esta comunicação objetiva dialogar com narrativas de três mulheres negras migradas para a região Oeste do Paraná, no final da década de 1960. Oriundas de diferentes lugares do Brasil, estas mulheres versam sobre experiências migratórias rurais e urbanas permeadas por múltiplas itinerâncias no solo brasileiro. As narrativas, produzidas através da história oral, tecem os processos sociais da construção do enraizamento em Marechal Cândido Rondon, uma cidade que a partir do final da década de 1980 passou a marcar, no âmbito da memória oficial, uma identidade supostamente única alemã, herdada pelos ascendentes germânicos dos primeiros migrantes vindos do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, nos anos 1950 e 1960. Instigante observar como estas mulheres narram suas experiências de vida nas intersecções de gênero e classe, a despeito da força da memória dominante que insiste na identidade étnica.
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