Apresentação
 
Organização
 
Programação
 
Simpósios e Pôsteres
 
Autores
 



ST25 - Preconceitos que permanacem: Gênero nas ‘ciências naturais e exatas’

Coordenadoras:     Maria Margaret Lopes (UNICAMP)
                               Nara Azevedo (Fiocruz)

Resumo

As análises feministas e/ou de gênero das ciências sancionadas como naturais e exatas continuam ainda áreas emergentes e exploratórias, começando a delinear suas abrangências e a consolidar seus referenciais analíticos no Brasil. Predominam ainda, mesmo no interior dos campos de estudos de gênero e feminismo, concepções já contestadas por correntes dos estudos sociais das ciências, que continuam sustentando a objetividade, a neutralidade e a racionalidade de uma suposta ciência universal. O objetivo desse Seminário é problematizar tais questões, considerando que as análises de gênero voltadas para as ciências têm considerado internacionalmente não só aspectos institucionais da participação das mulheres nas práticas científicas, seus indicadores de produtividade, mas fundamentalmente aspectos contextuais, conteudísticos e de cultura científica de diferentes áreas disciplinares. Longe de constituírem apenas uma resposta aos novos arroubos da época, às correntes deterministas da Biologia e da Sócio-biologia determinista, as dimensões das análises de gênero, dos anos de 1980, quando se tornaram clássicas, voltaram-se para os pressupostos das ciências modernas, questionando, a marca dos preconceitos de gênero aí incorporadas. Para interiorizar o campo de estudos no Brasil, esse seminário se propõe a trabalhar sobre os indicadores científicos, tanto porque os pesquisadores continuam assumindo identidades de gênero como homens ou mulheres nos sistemas de Ciência e Tecnologia e, como tais, continuam sendo objetos de preconceitos, como porque a ausência desses indicadores perpetua o falso mito da ciência como reserva quase exclusivamente masculina. Quer problematizar também que a tão decantada invisibilidade das mulheres ao longo da História, particularmente das ciências, e no Brasil, é também uma construção historiográfica, que pesquisas atuais vem contribuindo para desmistificar.


Trabalhos

Bianca Cortes, Nara Azevedo, Luiz Otávio Ferreira
Educação e profissionalização científica feminina no Brasil: o caso da FFCL-USP e da FNFI-UB (1934-1968)
O objetivo deste projeto é compreender o papel das faculdades de filosofia na educação e profissionalização das mulheres nas áreas de história natural, física e química. Para isso, elegemos como foco de análise a Faculdade de Filosofia Ciências e Letras da Universidade de São Paulo (FFCL-USP), criada em 1934, e a Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil (FNFi-UB), estabelecida em 1939. Pretendemos caracterizar a importância destas instituições como locus privilegiado de formação e profissionalização feminina no período delimitado na pesquisa (1934-1968), investigando a origem social, familiar e étnica, a procedência escolar ao nível do ensino secundário, a forma de ingresso no ensino superior, os processos de treinamento para o ensino e pesquisa, os grupos e/ou tradições de pesquisa nos quais se inseriram, as estratégias de carreira, a produção científica, e a consagração acadêmica das egressas desses cursos.
PDF

Carla Giovana Cabral - UFSC
O conhecimento dialogicamente situado: consciência crítica de ciência, tecnologia e gênero
Engenharia e computação são a área de conhecimento mais masculina no Brasil. Somente cerca de 25% dos pesquisadores são mulheres. No Centro Tecnológico (CTC) da UFSC, a média de professo-ras-pesquisadoras não passa de 10%. Ao investigar as histórias de vida de um grupo de professoras desse centro, deparei-me com discriminações, notadamente tácitas, e microdesi-gualdades, o que as impele a estratégias como a de “ser/ fazer mais”. Nessa análise histórico-social, enlaço os relatos das primeiras professora e aluna do CTC. O que mudou da década de 60 para cá? As percepções de ciên-cia e de tecnologia e a incorporação de valores humanistas também foram analisadas. São dados que constroem a leitura da realidade ou não de uma consciência crítica na área tecnológica e a discussão da tese que desenvolvo na minha pesquisa de doutorado – a do conhecimento dialogicamente situado.
PDF

Elizabeth Farias da Silva - UFSC
Mulheres e matemática: uma questão de difícil resolução
No final do século XIX, o único saber legitimado pela modernidade era o saber científico. No decorrer do século XX toda a referência de ciências foi construída a partir das ciências, ditas, naturais, cujos fundamentos são as idéias de ordem, separação e identidade e as idéias de leis atemporais e de validade geral. A matemática será balizadora deste processo. A designação/separação britânica entre ciências “duras” e “moles” ( suaves, brandas ) implica além de uma hierarquia entre as ciências, uma hierarquia entre homens e as mulheres . Destarte mudanças na perspectiva interna da matemática, o mito do gênero na matemática permanece. Baseada, em estudos de metodologia de pesquisa na área de ciências humanas, pretendo com a comunicação comentar estas “sutilezas” apresentando situações em torno da questão.
PDF

Elyane Rangel
“Ela opera como um homem!” Trajetória e percalços das mulheres na medicina
Corolário de uma pesquisa piloto em Florianópolis sobre doenças sexualmente transmissíveis (D.S.T.) e geração “pós-pílula” através do discurso da ginecologista, a comunicação tem como meta, apresentar uma faceta obscurecida, pelo prestígio social positivo da profissão médica, isto é, a trajetória e percalços das mulheres que ousaram firmar-se na referida profissão. Na primeira parte apresenta-se o histórico conflituoso da entrada das mulheres em grande número em um campo calcado em um saber médico vinculado ao masculino e onde todo saber de cura, anteriormente praticado pelas mulheres foi escamoteado. Na segunda parte trabalha-se depoimentos de ginecologistas formadas nas décadas de 70 e 80, e respectivas barreiras para exercerem o “ato médico” condignamente.
PDF

Fabíola Rohden
Gênero nas ciências da saúde: aproximações do campo e distâncias da teoria
O trabalho propõe uma discussão teórico-conceitual a respeito da natureza da aproximação entre os campos dos estudos de gênero e das ciências da saúde. Acompanhando a produção e debate sobre o tema, seu objetivo é, em primeiro lugar, apresentar como o gênero tem sido incorporado de diferentes maneiras na sua interface com a saúde. Se, de um lado, gênero aparece como uma categoria que implica a adoção de uma determinada perspectiva teórico-metodológica, de outro, sua utilização se reduz a um mero descritor temático. No primeiro caso, em termos amplos, estaríamos diante da absorção da densa e problemática discussão em torno da construção social das características atribuídas a homens e mulheres ou aos dois sexos biologicamente distintos e do aspecto relacional aí implicado. Já no segundo, tratar-se-ia da referência ao termo gênero ainda como uma espécie de substituto de termo mulher. Nesse sentido, ele serviria apenas para descrever o grupo ou objeto de estudo em questão, não sendo consideradas as dimensões básicas da construção social e da relacionalidade implicadas em qualquer reflexão que tome o gênero como perspectiva analítica.
PDF

Guilherme Gantois de Miranda
Berta Lutz: cientista e feminista em luta pela emancipação da mulher
Berta Lutz, além de botânica e zoóloga, especializada em anfíbios anuros, foi também deputada e líder feminista. Representou o Brasil em diversos eventos internacionais e sua vida como cidadã e cientista fez dela um símbolo da capacidade das mulheres e de seus direitos à cidadania plena.
Com base em seu arquivo pessoal, será apresentada sua preocupação e propostas quanto aos direitos das mulheres e à sua inserção no mercado de trabalho. Contrária a qualquer privilégio e à limitação aos direitos da mulher casada, defendia sempre que mulheres e homens pudessem competir em igualdade. Como táticas de luta, Berta usava os desvãos da lei, como quando de seu ingresso no Museu Nacional e de sua defesa do direito de voto das mulheres, e propunha a educação como forma de promoção da mulher.
PDF

Lia Gomes Pinto de Sousa, Maria Margaret Lopes - UNICAMP
Mulheres nas ciências naturais: produção científica de Bertha Maria Júlia Lutz (1894-1976), a partir da década de 1940
A trajetória científica de Bertha Lutz tem sido por nós estudada desde o início profissional em 1919 e ao longo de toda sua vida. Ocorrendo juntamente com a militância feminista, já explorada em diversas teses, suas atividades nas ciências não receberam ainda igual destaque. Aquí focalizamos sua produção a partir da década de1940, quando consolidava sua autoridade como naturalista do Museu Nacional no Rio de Janeiro. Bertha apoia-se na experiência que tivera no Instituto Oswaldo Cruz com o pai, o microbiologista Adolpho Lutz, para obter auxilio do CNPq no resgate da obra do pai após seu falecimento. Publica inúmeros artigos e faz excursões a diversos estados do Brasil, mas também desenvolve sua própria carreira independente do laço familiar, produzindo trabalhos reconhecidos na área de botânica e zoologia.
PDF

Maria Conceição da Costa, Neide Mayumi Osada
A construção social de gênero na biologia: preconceitos e obstáculos na biologia molecular
O trabalho tem como objetivo analisar a presença de homens e mulheres nas ciências biológicas a partir do Projeto Genoma Fapesp – FGF. Baseado nos estudos de gênero em ciências, pretende-se entender as principais razões que levam a avanços mais lentos das pesquisadoras na academia, entender a participação das mulheres na construção das ciências e, por fim, conhecer os principais obstáculos impostos a elas. Para a análise desse texto, a primeira parte irá discutir a participação das mulheres na botânica vitoriana inglesa e, entender as razões da sua deliberada saída. A segunda parte irá discutir o surgimento da biologia molecular e o lançamento do FGF. Os dados do projeto indicam que as cientistas mulheres foram “esquecidas” no processo de construção do projeto. Como entender o fenômeno? São preconceitos que permanecem?
PDF

Maria de Cléofas Faggion Alencar - Embrapa
Relações de gênero e produção científica de pensadoras da EMBRAPA
A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária – Embrapa é a principal instituição de pesquisa agropecuária no Brasil e como tal participa do processo de construção do conhecimento desse campo com a sua produção científica. Este estudo tem como objetivo analisar o perfil das pensadoras (categorisadas em Pesquisadoras I, II, III) da Embrapa de modo a descrever em estudo exploratório e análise documental as relações de gênero e a produção científica indexada em termos de freqüência e fator de impacto bem como mapear a distribuição espacial de suas profissões e campos de atuação. Aspectos da evolução das carreiras científicas como as estratégias de profissionalização, dificuldades nesse percurso, a educação formal, o treinamento em pesquisa, postos ocupados, financimentos, a produção científica e perpectivas de sua participação no sistema de ciência e tecnologia da Embrapa, serão registrados por meio de entrevistas. Desse modo, pretende-se construir um conjunto de informações que servirão de ponto de partida para as análises iniciais de gênero e produção científica de mulheres na Embrapa e contribuir para o fortalecimento da área de estudos de gênero no Brasil.
PDF

Maria Lucia Mott, Olga Sofia Fabergé Alves
Mulheres farmacêuticas em São Paulo (1901-1919)
Em 1907, Leonor de Aguiar, ganhou o prêmio Bráulio Gomes, instituído por Emílio Ribas para o melhor aluno da Escola de Farmácia de São Paulo. No ano seguinte, novamente outra aluna é contemplada com a mesma premiação: Alice Teixeira. Entre 1901 e 1919, mais de uma centena de mulheres concluiu o curso de Farmácia, em São Paulo e registrou o diploma no Serviço Sanitário do Estado. Esse número é superior ao de parteiras, profissão tradicionalmente feminina, bem como de dentistas e médicas registradas no mesmo período. Esta apresentação tem por objetivo apresentar os primeiros resultados de uma pesquisa sobre as farmacêuticas em São Paulo nas primeiras décadas do século XX , elaborada a partir dos documentos do antigo Serviço de Fiscalização Profissional, preservados pelo Centro de Memória da Saúde (Instituto de Saúde - SESSP). Visa contribuir para discussão sobre gênero e formação, inserção profissional e mercado de trabalho nas áreas das Ciências Naturais e da Saúde no Brasil.
PDF

Maria Teresa Citeli
Ciência e gênero na mídia brasileira: comunicando diferenças, imprimindo juízos
As explicações que sustentam as bases biológicas dos comportamentos e arranjos sociais humanos — organização familiar, violência sexual, agressividade e promiscuidade masculina, até a suposta passividade sexual e incapacidade inata das mulheres para participar de empreendimentos científicos — circulam por diferentes meios de comunicação da ciência, como os periódicos científicos e os jornais diários, influenciando, mantendo e exacerbando a percepção pública a respeito das diferenças entre os sexos. Situado em um campo de estudos que privilegia a prática dos cientistas, ampliando o foco de análise de modo a abranger, sem hierarquizar, a produção e a circulação do conhecimento científico, o presente trabalho enfoca matérias publicadas em jornais diários da grande imprensa brasileira visando discutir as principais fontes de informação que contribuem para a manutenção de preconceitos de gênero na pauta da mídia brasileira, destacando a recente emergência de novas fontes de informação (pesquisadores e divulgadores da ciência), vinculados a instituições de pesquisa nacionais.
PDF

Mariana Moraes de Oliveira Sombrio
A contribuição de Bertha Lutz à institucionalização das ciências no Brasil
Com o objetivo de contribuir com as discussões sobre gênero e ciências no Brasil pretendo resgatar a trajetória profissional de Bertha Lutz (1894-1976), cientista e militante feminista, analisando essa trajetória criticamente e buscando demonstrar a dimensão de seus trabalhos científicos. A perspectiva histórica é importante para essa discussão, pois aparente ausência das mulheres na história das ciências continua perpetuando o falso mito da ciência como reserva masculina. A partir desse estudo biográfico, buscarei encontrar um nexo entre sua trajetória singular e a experiência social, contextualizando suas experiências com a complexidade do processo de profissionalização das mulheres, contribuindo assim para uma maior compreensão da sociedade em questão e resgatando perspectivas feministas sobre a exclusão de gênero na construção do pensamento científico moderno.
PDF

Moema de Castro Guedes - UNICAMP
A presença feminina nos cursos universitários e pós-graduações: desconstruindo a idéia da ciência como reserva masculina
A expressiva entrada das mulheres nas universidades brasileiras a partir da década de 1970 representa um avanço fundamental no sentido da construção de relações de gênero mais equânimes. Nesse sentido, o presente artigo pretende mostrar através de dados dos Censos Demográficos de 1970 e 2000 que além do salto quantitativo – neste curto período histórico o contingente de mulheres de formação superior passa a ser maior que o de homens – assistimos a uma crescente e intensa participação feminina em carreiras anteriormente caracterizadas como “redutos masculinos”. Esta tendência é ainda mais acentuada nos cursos de pós-graduação. Desse modo, procura-se também dialogar com a literatura sociológica que aborda o tema e relativizar a idéia de que a ciência e seus espaços de produção permaneceriam essencialmente masculinos.
PDF

Moema de Rezende Vergara
Gênero e a divulgação do darwinismo no Brasil, nas páginas de o vulgarizador
O presente trabalho não é uma história de mulheres na ciência, mas um estudo sobre uma prática específica de divulgação científica dos oitocentos, através da análise dos artigos escritos pelo literto Rangel S. Paio. Ele publicou uma série de artigos intitulados “Cartas a uma Senhora” no periódico n’O Vulgarizador, em 1877, em pleno debate sobre a recepção do darwinismo no Brasil. Neste sentido, o conceito de gênero nos auxiliaria na compreensão das tensões entre o masculino e o feminino numa série de escritos que podemos classificar atualmente de “divulgação científica”, na qual o conteúdo de gênero foi dado de antemão pelo próprio autor, ao direcionar sua atenção para o público de senhoras no Brasil do Segundo Reinado.
PDF

Sílvia Monnerat - UFRJ
Gênero e ciência: um estudo comparativo de seis histórias de vida
Este trabalho tem como objetivo analisar a trajetória pessoal e profissional de seis mulheres que ingressaram na universidade no período de 1941 a 1961, e construíram uma carreira científica nos campos da Química e da História Natural. Mediante a análise de entrevistas – realizadas pelo projeto “Gênero e ciência: carreira científica no Instituto Oswaldo Cruz, Museu Nacional e Instituto de Biofísica (1939-1969)” – pretende-se verificar em que medida as memórias a respeito de suas trajetórias de vida podem nos remeter a um plano mais amplo de experiências coletivas compartilhadas por um grupo de indivíduos, que por desfrutarem de uma mesma posição social estão submetidos aos mesmos processos sócio-culturais, os quais particularizam uma geraçaõ de indivíduos dotando-os de identidades sociais comuns.
PDF

Tânia Klein, Claudia Cristine Moro
Preconceitos e desafios vividos por mulheres pesquisadoras nas ciências naturais
O presente estudo trata-se do resultado de uma pesquisa que visou compreender aspectos relacionados a participação de mulheres em atividades de pesquisa nas ciências naturais. Foram entrevistadas 10 (dez) pesquisadoras da área de ciências naturais que atuam em uma instituição pública de pesquisa no município de Concórdia (SC). Atualmente na instituição estudada trabalham 55 pesquisador@s, 42 homens e 13 mulheres. Os resultados indicam que existe discriminação, uma vez que para serem reconhecidas as pesquisadoras precisam trabalhar mais que os homens e ainda privar-se de aspectos relacionados a vida pessoal. As entrevistas enfatizam a importância da figura da professora na motivação pelo estudo das ciências naturais e também o apoio da família na escolha profissional.
PDF