Apresentação
 
Organização
 
Programação
 
Simpósios e Pôsteres
 
Autores
 



ST36 - Gênero, cibercultura e novas tecnologias de comunicação digital: reforçando ou desconstruindo preconceitos?

Coordenadoras:     Lucia de La Rocque  (FIOCRUZ/UERJ)
                               Ildney Cavalcanti (UFAL)
                               Ana Cecília Acioli Lima (UFAL/UFPE)

Resumo

Este simpósio tem por objetivo discutir questões relativas às novas tecnologias de gênero,  em suas variadas expressões e discursos culturais e numa perspectiva que privilegie a observação das  (des)construções de noções de gênero em sua relação com os preconceitos. Propondo um entendimento do termo “tecnologia” tanto em seu sentido macro, que parte da compreensão de que as textualidades da cultura configuram-se enquanto tecnologias de gênero, quanto nos sentidos mais situados, principalmente os relacionados às novas reconfigurações das construções de gênero possibilitadas pelo contexto contemporâneo da cibercultura e dos processos de comunicação digital, busca-se explorar  como essas tecnologias podem agir no sentido de reconfigurar idéias/imagens preconceituosas  em relação às concepções de corpo e de identidade cultural, vinculadas à categoria de gênero. Essas visões vêm a se encaixar no contexto de um novo olhar sobre a relação entre gênero e tecnologia, do qual Donna Haraway se tornou um arauto com seu "Manifesto do Ciborgue". Várias obras literárias de cunho feminista, oriundas das últimas décadas, têm lidado de forma magistral com essas questões, como He, she and it, de Marge Piercy, Dreaming Metal, de Melissa Scott e The PowerBook, de Jeanette Winterson. Na literatura, assim como em outras artes e discursos, encontramos reflexos profundos da relação entre a tecnologia e as questões de gênero, perpetuando preconceitos imbuídos nessas questões ou, pelo contrário, agindo no sentido de elidi-los. É nossa proposta, então, neste simpósio, discutir esta complexa imbricação entre gênero, tecnologia e preconceito, observando, principalmente, o impacto das novas tecnologias surgidas com a cibercultura e com o desenvolvimento de processos cada vez mais complexos de comunicação digital, conforme refletida/construída nas formações sócio-culturais, sendo aí englobadas as diversas realidades e representações das mesmas que nos rodeiam.


Trabalhos

Adriana Andrade Braga - UNISINOS
Ciber-cultura feminina: interação social no weblog
Proponho neste artigo desenvolver uma reflexão sobre algumas práticas comunicacionais estabelecidas entre um grupo de mulheres jovens, que tematizam a maternidade em suas trocas no Livro de Visitas de um weblog. Os weblogs são entendidos como um ambiente específico possibilitado pelo suporte técnico e seus usos, que originam modalidades interacionais peculiares. Pretendo discutir alguns aspectos ligados à ocupação feminina deste espaço social, que parece estabelecer uma mudança observável na perspectiva tradicional da feminilidade. Em particular, me interessa o uso que as participantes do grupo fazem do aparato técnico fornecido pelo computador pessoal ligado à WWW, os modos de apropriação desse ambiente social por essas mulheres, a negociação de sentidos em situações de conflito e uma certa teorização informal da feminilidade ali observável.
PDF

Alexander Meireles da Silva - UNESA/UNIABREU
Transexualismo e literatura gótica em A Esfinge, de Coelho Neto
Definidos por Paisley Currah e Shannon Minter em Transgender Equality (2000) como indivíduos que, independente de orientação sexual, possuem aparências ou características percebidas como sendo atípicas em relação aos seus gêneros, os transexuais têm aparecido na Ficção Científica como um símbolo da subversão ao conceito de limites biológicos e raciais entre homens e mulheres sustentado pelo discurso patriarcal eurocêntrico e contestado principalmente por escritoras feministas desde os anos 70. No entanto, como esta comunicação pretende demonstrar, esta discussão da problemática do transexual já havia aparecido no Brasil no começo do século XX, se constituindo como tema para uma das obras fundadoras da ficção científica brasileira na sua vertente cyberpunk: o romance A Esfinge (1908), do escritor Coelho Neto.
PDF

Ana Cecília Acioli Lima - UFAL/UFPE
Corpos sem corpos em The.Powerbook de Jeanette Winterson
Baseada no pressuposto de que os textos literários constituem-se em espaços onde as novas tecnologias podem ser resignificadas, repensadas e problematizadas em termos sócio-culturais, pretendo analisar como Jeanette Winterson, em The.Powerbook (2000), utiliza a narrativa como um meio de encenar a tensão entre corpos “reais” e corpos “virtuais”/ciborgues/pós-humanos, que interagem através de imagens eletrônicas, em um universo cibernético que desestabiliza as fundações ontológicas do que conta como humano (Hayles:1999); enfatizando, assim, a ansiedade gerada pela dissolução não só da materialidade dos corpos e de suas fronteiras físicas, como de suas marcas de gênero. Conseqüentemente, segue-se a essa discussão, as formas em que as subjetividades e identidades são (des)(re)construídas no universo fluido do ciberespaço, onde o corpo não mais as garante ou as contém.
PDF

Bárbara Maia das Neves - FETSM/UNESA
A nova revolução industrial: as pessoas-máquinas de David Brin e seu “piecework”
Vivemos em uma sociedade em que produzir é o valor de cada ser humano, somos úteis enquanto nossos chefes, patrões e, por que não, parentes e amigos acham que temos alguma serventia. Tal aspecto é levado ao extremo no conto de Brin, em que pessoas devem constantemente prestar contas a uma burocracia cibernética para terem o direito de fazer qualquer coisa, de trabalhar até a se reproduzir. O aspecto social é um grande fator que contribui para conversão de pessoas em máquinas: por um lado os homens se alteram geneticamente para serem bons reprodutores de “produtos” específicos; por outro, as mulheres se submetem a uma maratona de partos que geram não crianças, mas matérias-primas necessárias para grandes indústrias. Este é um mundo onde o dinheiro e a busca pelo prazer falam mais alto que qualquer outro fator. Neste futuro onde sua ficha determina o que você pode ou não ser ou fazer, sempre há aqueles que buscam uma forma de contornar o sistema e ver uma luz no fim do túnel.
PDF

Carolina Parreiras Silva - UNICAMP
Ciberespaço e circuito GLS: uma etnografia a respeito das relações interpessoais na realidade virtual
O trabalho pretende compreender e decifrar as relações que se estabelecem na comunidade GLS (Gays, Lésbicas e Simpatizantes) a partir do espaço virtual ou ciberespaço. A partir do conceito de redes sociais, a idéia é conseguir mapear as relações virtuais que se estabelecem, bem como observar os efeitos dessas novas tecnologias de comunicação quando as relações saem do virtual para o presencial. A etnografia parte de sites dedicados ao público GLS, diários virtuais, listas de discussão por e-mail e programas de relacionamento (Orkut e similares). A pretensão é produzir reflexões acerca das novas construções identitárias, que têm como mediador um computador, e também discutir aspectos relacionados ao preconceito e ao caráter da internet como meio de proteção a comportamentos e práticas até certo ponto estigmatizados na realidade presencial.
PDF

Georgia Maria Ferro Benetti - UFSC
Leitura das imagens de comunidades sobre a menstruação no Orkut: uma reflexão sobre corpo, gênero e subjetividade
Este trabalho refere-se as discussões sobre corpo e subjetividade e apoia-se em elaborações teóricas críticas das abordagens essencialistas ou referentes ao fundacionalismo biológico sobre o "corpo". Como recorte analítico, propõe uma leitura do texto das imagens utilizadas para caracterizar as comunidades encontradas na rede de relacionamentos Orkut (acesível em www.orkut.com), utilizando como filtro de busca a palavra chave "menstruação". A escolha do termo apóia-se no fato de que a menstruação é uma das especificidades orgânicas que assumiram significado de marca na diferenciação entre homens e mulheres, instaurando uma noção bissexuada de corpo, a qual alimentou a construção de desqualificações intelectuais e sociais das mulheres em diferentes cenários.
PDF

Ildney Cavalcanti - UFAL
Índigo e seus 73 subempregos: reflexões sobre a cibercultura, gênero e preconceito
Novas práticas literárias têm surgido nas últimas décadas, resultantes do diálogo entre as formas mais convencionais de se pensar a atividade literária e as possibilidades abertas com o surgimento da cibercultura. O trabalho das artistas do ciberespaço, materializado através da infra-estrutura da comunicação digital e integrante do universo oceânico de informações que este espaço abriga, ilumina questões de gênero e preconceito em suas reconfigurações das formas estéticas (através da aproximação entre autoras/leitoras e da problematização da autoria, por exemplo). Uma leitura da série 73 subempregos, em progresso, da ciberautora paulista Índigo, fornecerá uma rota de navegação para reflexões sobre as construções culturais de gênero – em articulação com outros tipos de relações tais como classe e profissão – que emergem no contexto da interconexão mundial dos computadores.
PDF

Ivonne dos Santos - UDELAR
Nuevas tecnologías y nuevos lenguajes. Relaciones de género en la traducción de otro mundo posible
El empoderamiento de las nuevas tecnologías, como medios de transformación en las interacciones de actores altermundialistas, es en el contexto actual objeto necesario de un profundo análisis. Tres años de trabajo activo en la red babels de intérpretes y traductores voluntarios para los foros sociales, me han permitido reflexionar y observar las diferentes interacciones en el cyber espacio, así como en las interacciones cara a cara, donde la corporalidad es puesta en evidencia y las interacciones antes sin rostro se transforman, generando nuevos diálogos y nuevas interacciones. El objeto de la presente es indagar sobre los procesos de empoderamiento diferenciales de hombres y mujeres, de las TIC`S, y como las interacciones cara a cara construyen y aportan a esos procesos.
PDF

Jean Segata
Para além de um eu: subjetividades e identidades de gênero nas salas de bate-papo lésbicas e afins do Portal Uol de internet
Fruto de diálogos entre os estudos de gênero e o emergente campo da Antropologia do Ciberespaço, neste trabalho venho discutir as dinâmicas de interação técnico-simbólicas e os processos de construção de subjetividades e identidades de gênero em salas de bate-papo. Meu foco está nos modos de apresentação dos sujeitos; a escolha das cores de fonte, os apelidos, uso de emoticons e fotos para a representação visual de si no ambiente e, as possíveis contradições entre estes modos de apresentação e representação em relação às suas vivências no ambiente. Em suma, reflete sobre a possibilidade de utilização do ciberespaço, como ambientes (e meios) alternativos para a vivência da homossexualidade; ambientes que possibilitam a construção de subjetividades e identidades de gênero, que vão para além de um eu, na contemporaneidade.
PDF

Juliane Noack - PUC-MG
Na busca de identidade da identidade
A partir do campo de pesquisa do gênero se estabeleceu a diferença entre sexo e gênero, e ao mesmo tempo o conhecimento de que ambos esses conceitos sâo construídos socialmente; a pergunta pelos princípios e mecanismos desta construção está sempre no centro de interesse científico. Para responder à pergunta se cibercultura e novas tecnologias de comunicação digital reforçam ou desconstroem preconceitos relacionados ao gênero, partiu-se da suposição de que a noção de identidade é construida narrativamente, e foi feita uma primeira pesquisa, na qual 1000 usuários do icq, em estados brasileiros foram incentivados a escrever três coisas, caracterizando masculinidade e feminilidade. Seguidamente, essas características foram categorizadas e serviram para investigar as construções de identidade de gênero, por exemplo nos sites ou chats. A partir desses resultados deverão ser apresentadas reflexões e considerações para responder à questão motivadora deste estudo.
PDF

Larissa Guimarães Martins Abrão, Maria Helena Fávero - UnB
Salas virtuais de bate-papo sexual: a velha novidade da divisão de papéis de gênero
Este estudo pretende levantar discussões a respeito da manutenção dos papéis de gênero em salas virtuais de bate-papo com finalidade sexual. Entendemos que os contatos inter-sexuais estabelecidos neste ambiente fazem parte de um contexto histórico-cultural que superestima os significados difundidos pelas ferramentas de mídia e marcam a distinção entre os lugares do feminino e do masculino. Foram perscrutadas sete salas de bate-papo sexual, disponíveis nos sites Uol e Terra, entre Janeiro e Fevereiro de 2006. As interlocuções ali produzidas foram submetidas à análise embasada na Teoria dos Atos da Fala. Nesta análise, notou-se que se sustenta um padrão de interação revelador de representações sociais de gênero que mantêm a mesma estrutura hierárquica de divisão dos papéis de homens e mulheres em patamares diferentes, com prerrogativas de exercício da sexualidade também diferentes.
PDF

Lucia de La Rocque - FIOCRUZ
He, She And It de Marge Piercy e Dreaming Metal, de Melissa Scott: a apropriação da literatura cyberpunk pela esfera feminina de ação
A literatura cyberpunk corresponde a um tipo de ficção científica, surgida a partir dos anos 80, que coloca em primeiro plano as tecnologias digitais envolvidas, por exemplo, na produção de ciborgues. Embora essa literatura seja descrita como expressão das “fantasias urbanas do folclore de homens brancos” (Ross, 1991), algumas escritoras têm se apropriado da mesma, modificando-a de modo que venha, pelo contrário, ressaltar a força da esfera feminina de ação. No presente trabalho, procuramos entender como os romances He, She and It (1991), de Marge Piercy, e Dreaming Metal (1997), de Melissa Scott efetuam tal transformação, chamando a atenção para a importância dos personagens dos ciborgues, em ambas as obras, nesse processo de apropriação.
PDF

Lucia de La Rocque, Cilmar Santos de Castro - FIOCRUZ
Mulheres guerreiras ou heroínas românticas: gênero e preconceito no universo cyberpunk da trilogia Matrix
A trilogia Matrix dos irmãos Wachowski, apesar de vista como um ícone cinematográfico do universo cyberpunk, gênero derivado da ficção científica e considerado um lócus privilegiado da esfera masculina de ação, apresenta personagens femininas que passam longe dos estereótipos encarnados nas heroínas tradicionais de FC. O presente trabalho objetiva investigar essas personagens femininas de Matrix que, se por um lado são descritas como transgressoras de funções típicas de gênero, por outro são acusadas de cumprir à risca expectativas no que concerne o destino tradicional das mulheres, como o pareamento romântico heterossexual. Acreditamos na relevância de discutir essas contradições, já que cremos que o universo cyberpunk possa, de certa forma, ser considerado um microcosmo do mundo em que atualmente vivemos.
PDF

Lucia de La Rocque, Claudia Kamel
X -Men e a dimensão do preconceito nas histórias em quadrinhos
Os computadores são, em nossos dias, ferramentas essenciais nos grandes estúdios de quadrinhos, as histórias em quadrinhos (HQ) encontrando-se, portanto, cada vez mais ricas em elementos cyberpunk. As HQ, além de divertirem, introduzem e abordam de forma vívida algumas das questões mais importantes enfrentadas por todo ser humano; as que concernem nossa própria natureza. No presente trabalho, nos debruçaremos sobre os X.Men, criados por Stan Lee com o propósito de tratar a questão do preconceito racial. Além de analisarmos, sob esse ponto de vista, a discriminação sofrida pelos protagonistas como um todo, mutantes portadores de genes que escapam aos padrões normais, daremos especial atenção a algumas personagens femininas, tentando assim entender e contextualizar as questões de gênero presentes na HQ aqui trabalhada.
PDF

Rosa Meire Carvalho de Oliveira - UFBA
Cyberfeminismo x feminismo: o que as mulheres fizeram (com os blogs ) da web?
O artigo objetiva levantar e discutir o significado do discurso dos blogs femininos na construção de identidade da mulher na sociedade contemporânea e confrontá-lo com as discussões que perpassam o chamado Cyberfeminismo e o Movimento Feminista. A questão que nos interessa é observar e discutir se é suficiente constatar que a expressão da identidade da mulher, manifestada através de diários digitais (blogs), vem responder à mesma pergunta que por séculos atravessa a prática diarística tradicional: quem eu sou? Ou se essa prática aparentemente sem conseqüências traz prejuízos no campo político à mulher em sua agenda afirmativa de identidades diversas na sociedade contemporânea. O artigo, a partir de blogs de personalidades midiáticas brasileiras, dialoga com autores contemporâneos como Sulamith Fireston, Sadie Plant, Daniel Chandler, Sherry Turkle, Rosi Braidotti, Donna Haraway, Michelle Perrot, Stuart Hall e Homi Babba, dentre outros.
PDF

Vera Helena Ferraz de Siqueira, Maria Aparecida Padilha Ribeiro, Nilma Gonçalves Lacerda - UFRJ
Gênero e tecnologia: os blogs como espaço de construção das identidades
Os jovens estão imersos na cultura digital e o virtual é um espaço de mediação. Apresentamos o blog como um texto, que, ao ser escrito transforma os sujeitos autores, da mesma forma que influi na constituição identitária dos leitores.Objetivamos analisar como os jovens constroem sua identidade de gênero e sexual através da troca de mensagens nos blogs. Os referenciais teóricos são: gênero e sexualidade como constructos histórico-culturais (Louro); as transformações nas tecnologias e nas formas de apropriação da escrita (Chartier); sujeitos transformados na prática social (Hall, Giddens); a escrita como processo de autoconhecimento (Foucault); a noção constitutiva do discurso (Fairclough) e a cultura juvenil (Sarlo). Apontamos assim os blogs como espaços ferteis de abordagem da intimidade, onde os papéis de homem e mulher são reiterados e resignificados.
PDF

Viviane Castro Camozzato, Elisabete Maria Garbin - UFRGS
Tensão Produtiva – Mulheres-Jovens, Corpo e Preconceitos Fabricados nas Teias da Cibercultura
Nos propomos a investigar os cruzamentos entre os discursos normalizadores sobre as mulheres-jovens e os modos de cuidar do corpo no contemporâneo. Argumentamos, nesse sentido, que as mulheres vêm sendo os sujeitos-alvo privilegiados de uma infinidade de práticas e discursos envolvendo o corpo, produzindo, com isso, modos específicos de relação consigo e com os ‘outros’. Instaurando, ainda, preconceitos frente aos que destoam, por questões diversas, dos corpos-modelo que a sociedade contemporânea vem, com muita eficiência, inventando. Para tal intento, privilegiaremos escritas sobre ‘si’ e sobre os ‘outros’ em blogs e comunidades do Orkut, tentando evidenciar a tensão produtiva que envolve a produção das mulheres-jovens, pois com a cibercultura vemos pulular, inclusive, uma inebriante abertura de visões de mundo e possibilidades genuínas de experiência.
PDF