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ST38 B - Gênero: multiplicidade de representações e práticas sociais

Coordenadoras:     Lidia M. Vianna Possas (UNESP/Marilia)
                               Andrea Borelli (NEM-PUC/SP e UNICSUL)
                               Rachel Soihet (UFF/RJ)

Resumo

Este Simpósio Temático pretende associar reflexões sobre representações e práticas sociais que localizam, na multiplicidade de masculinidades e feminilidades, diferentes formas de exercício de poder.  Para tanto, confirma a perspectiva relacional da categoria gênero, em suas muitas interseções - de classes, de raças/etnias e de gerações - e nas esferas pública e privada. Objetiva, através dela, desenvolver esforços intelectuais úteis ao reconhecimento das desigualdades sociais e de significados de muitas e diferentes experiências dos sujeitos históricos de lugares e tempos diversos.  Visa, deste modo, contribuir com a revisão de paradigmas e com a produção de referências efetivas para a tomada de consciência individual e coletiva de processos sociais ocultos e para uma intervenção política a favor de um mundo mais justo.


Trabalhos

Adriana de Mello Cançado - UFPR
Gênero, política e economia: práticas de poder em concursos femininos
A presente comunicação tem como objetivo discutir as relações entre gênero, política e economia. Para tal proposta toma-se como foco um concurso feminino realizado entre os anos de 1970 a 1980, em Ponta Grossa, Paraná. O concurso Rainha da Soja acontecia para eleger uma representante nacional da soja e contou com apoio dos governos municipal, estadual e federal além de entidades comerciais e industriais. Desse modo, pretende-se analisar as possibilidades de exercício de poderes tendo como pressuposto as representações do feminino, da política e da economia e, complemen-tarmente, constituir aspectos teóricos que permitam enfocar concursos femininos por meio da articulação entre o emaranhado simbólico que os sustentam e a crítica à concepção comum de sua frivolidade.
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Andrea Valentina Thörner - USP/Universidade Técnica de Chemnitz/Alemanha
Role models e representações - o gênero (não?) faz diferença
Supõe-se que uma das razões pelas quais tem poucas mulheres na política é a falta de “role models”; ou seja, a escassez de outras mulheres que fizeram sucesso na política e que puderam servir como ideais, inspirando novas metas nas mulheres mais jovens. A Alemanha parecia ter resolvido esse problema: pela primeira vez na sua história o país agora é governado por uma primeira ministra: Angela Merkel. Mas será que com ela, as mulheres alemãs interessadas na política ganharam o seu “role model”, o seu ídolo? Uma das primeiras entrevistas concedidas por A. Merkel à revista alemã “Cicero” foi publicado com o título: “Que eu seja mulher, não tem nenhuma importância”; uma afirmação que Sra. Merkel vinha fazendo desde o começo da sua carreira. Será que mulher só consegue chegar às estrelas, negando a sua condição de mulher?
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Beatriz Fontana - UNISINOS
Desempenhando gênero em interações institucionais de sala de aula
O presente estudo, situado teoricamente no campo dos Estudos da Linguagem em Aquisição de Segunda Língua (ASL), é uma investigação a partir de alguns princípios etnográficos sobre os acontecimentos rotineiros de aulas de inglês como língua estrangeira (LE) em ambiente instrucional, numa escola da rede pública municipal da área metropolitana de Porto Alegre. A contribuição multidisciplinar da Sociologia, da Sociolingüística Interacional, da Análise da Conversa, dos Estudos Culturais, da Teoria Feminista e da Análise Crítica do Discurso permitiu o desvelamento de como os participantes de interações em ambiente institucional co-constroem identidades sociais, na perspectiva de identidade como uma construção social situada, dinâmica e multifacetada. A relevância de se incorporar questões de identidades de gênero na perspectiva do feminismo num estudo de sala de aula reside em dois aspectos fundamentais: as práticas de sala de aula são também instâncias nas quais se aprendem papéis sociais e se desenvolvem relações de poder que podem ou não ratificar as identidades sociais; a linguagem em uso nas práticas de sala de aula é também constituidora de identidades e da realidade, portanto, produtora de meninos e meninas, uma vez que gênero não é algo com que se nasce, nem algo que se possui, mas algo que se faz, ou, conforme Butler (1990), algo que se desempenha. A análise das interações rotineiras da sala de aula observada apontou para a confirmação do estudo de Swann (1996), segundo o qual os meninos dominam o uso dos turnos, tanto por serem preferencialmente nomeados pelo professor, quanto por interromperem os turnos dos demais participantes. Também ficou evidenciado que os meninos iniciam mais pisos conversacionais e orientam a maioria das atividades de sala de aula, seja por desafiarem a identidade institucional do professor, seja por estabelecerem interações segundo seus interesses. Os acontecimentos analisados contribuíram para a percepção de que durante as aulas de inglês, esses meninos e essas meninas exercitam papéis sociais que consolidam relações de gênero que favorecem os meninos.
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Cláudio Vaz Torres, Amanda Zauli Fellows - UnB
Diversidade cultural e ascensão da mulher nas organizações
O fenômeno da globalização acarretou intensas mudanças na força de trabalho de organizações que operam em diversos países do mundo, e o lócus organizacional passou a abrigar indivíduos de diversas nacionalidades e de culturas diferentes. A diversidade cultural, portanto, passou a ser importante característica da força de trabalho das organizações. Nesse contexto de mudanças, percebe se que, apesar do aumento do número de mulheres que entram no mercado de trabalho, em relação aos homens elas continuam a ter rendimentos menores e menos oportunidades de ascender profissionalmente. Por meio de survey construído para investigar a atitude dos respondentes quanto às possibilidades de ascensão da mulher nas estruturas de cargos das organizações, concluiu se que ela ainda é discriminada em termos de ocupação de postos de mando.
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Crislaine Valéria de Toledo-Plaça
“Passagens híbridas”: uma análise sobre as relações de gênero e pentecostalismo
A partir do estudo feito por ocasião do mestrado que teve como tema a configuração das relações de gênero nas igrejas pentecostais, mediante um olhar mais atento às esferas familiar e sexual, proponho a discussão sob a ótica de gênero de um referencial teórico comumente encontrado nas produções na área de Sociologia da Cultura, aproveitando as contribuições de Georg Simmel e Norbert Elias. A presente proposta é a de que tanto o processo de construção de ressignificações subjetivas por parte das mulheres e homens pentecostais a partir de sua conversão/ adesão religiosa, quanto seus reflexos na realidade objetiva, podem ter como fonte uma diversidade de formas de apropriação dos repertórios heterogêneos de bens e mensagens disponíveis, gerando “hibridações”. Por isso, proponho uma análise que leve em conta as múltiplas microrelações sociais e a forma como se entrecruzam, formando configurações específicas.
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Elizangela Barbosa Cardoso - UFF
Entre teias e tramas: família e relações de gênero em Teresina (1930-1970)
O trabalho propõe o estudo da família e das relações de gêneros em teresina, entre as décadas de 1930 e 1960, na perspectiva da história do cotidiano. A nossa intenção é investigar como as famílias e as relações de gêneros se configuram nesse período, a partir dos lugares de mulheres e de homens na dinâmica familiar, das estratégias de namoro, de casamento e das sociabilidades, bem como a tensão entre a construção do feminino e do masculino em relação aos papéis familiares.
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Fabricia Cavichioli, Cândida Martins Pinto, Marcos Gustavo Richter - UFSM
Desigualdades e preconceitos entre os gêneros: homem e mulher abordados numa perspectiva intercultural no ensino de PLE
O objetivo deste trabalho é mostrar um modelo de leitura interativa em PLE seguindo o Modelo Holístico de Richter (2005). Será apresentada a construção de uma unidade de ensino de leitura na qual será enfatizada a importância do gênero textual e a cultura em que o aluno estrangeiro encontra-se inserido. Abordaremos um assunto polêmico que ainda hoje é visto com um pouco de preconceito: os gêneros – homem e mulher (relacionamentos e diferença de idade; como os homens são vistos pela sociedade quando se relacionam com “mocinhas’; e como as mulheres são julgadas quando partem para um relacionamento com “garotões”). Para finalizar, será realizada a relação entre gênero textual e cultura, e entre cultura e construção de conceitos, uma vez que as aulas de leitura estão embasadas no interculturalismo defendido por Fleuri (2005).
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Flávia de Mattos Motta, Angelita Gnecco Machado, Fabiana Loize Lima - UFSC
O sexo da muamba: camelôs e representações de gênero em Florianópolis
Esta etnografia aponta representações sociais de gênero lidas nas práticas e discursos de vendedores ambulantes que atuam ilegalmente no centro de Florianópolos. A atividade envolve uma rede de parentesco, apadrinhamento, critérios de pertencimento, antigüidade e de gênero. Há uma classificação de mercadorias e trabalho como leves ou pesados – por possuírem uma menor ou maior fiscalização, por parte dos órgãos públicos - respectivamente associados a feminino e masculino. Mulheres vendem mercadorias leves: como meias e óculos, mercadorias piratas (falsificadas). Homens também vendem mercadorias piratas (falsificadas), como relógios. Mas a venda de CDs e DVDs piratas, é considerado trabalho pesado e, por isso, exclusivamente masculino. Pela lógica simbólica operante, isso significa que só pode ser exercido por homens e também por mulheres homossexuais.
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Flávia Melo da Cunha - UNICAMP
Mulheres marcadas: gênero, violência e corporeidade
O corpo feminino é simultânea e paradoxalmente objeto de divulgação e censura, exaltação e negação. Se por um lado, vislumbramos a imposição de um corpo formatado segundo estereótipos de estética e perfeição que se materializam na efetiva possibilidade de retificação dos corpos; por outro, acompanhamos os ascendentes dados de diferentes formas de violência física e psicológica contra mulheres, expressão de uma construção assimétrica e hierárquica dos gêneros masculino e feminino em nossa sociedade. Os sujeitos dos casos estudados neste trabalho se inserem neste contexto: mulheres que adquiriram mutilações, deformidades ou cicatrizes resultantes de agressões físicas perpetradas por seus companheiros (namorados, maridos, amásios ou amantes). Selecionamos casos de lesão corporal grave (segundo a definição do art. 129, § 1º do Código Penal Brasileiro), identificados nos registros de ocorrências policiais e laudos de exames de corpo de delito da Delegacia Especializada em Crimes contra Mulher na cidade de Manaus/AM, no período entre Julho/2004 e Junho/2005. A partir deles, analisamos o trinômio articulado no embate entre o corpo-promessa exaltado pelo consumo, o corpo-interditado marcado pelas mutilações, deformidades ou cicatrizes, e o outro-companheiro que se inscreve como tatuagem no corpo feminino através da violência. As marcas adquiridas dotam o corpo de significados e tanto oferecem elementos para compreensão das experiências pessoal e social das portadoras do estigma, quanto atuam no intermédio das relações sociais, explicitando a identificação, classificação, aceitação ou negação do indivíduo pela imagem de seus corpos.
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Florencia Partenio - CONICET
Género y política: reconstruyendo la organización de las mujeres dentro de los movimientos piqueteros
Los movimientos de trabajadores/as desocupados/as -también denominados piqueteros- se convirtieron en uno de los principales focos de resistencia frente al aumento del desempleo, la desigualdad y la pobreza en Argentina. El presente trabajo se enmarca en el proyecto de investigación sobre la participación de mujeres y varones dentro de estos movimientos. Esta ponencia se concentra en el estudio de un movimiento piquetero del Gran Buenos Aires, dentro del cual nos proponemos: analizar las representaciones que tienen las mujeres en torno a la participación política de ellas mismas y de los varones; rastrear los motivos que llevaron a la organización de “espacios de mujeres” dentro del movimiento; reconstruir las prácticas, limitaciones y tensiones que aparecen en la construcción de estos espacios propios de las mujeres.
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Gilma Maria Rios - UNIPAC/Araquari
Educação fisica e a “masculinização da mulher moderna”
O presente trabalho tem como objetivo examinar como a diferenciação de gênero se acha socialmente assimilada e reproduzida nos anos 40 em Araguari/MG. Ressaltando as diferenças impostas socialmente e os novos conflitos e os modelos de práticas sociais que aí se manisfestavam. Ao examinar os artigos da revista Ave Maria e do jornal Gazeta do Triângulo, foi possível desvendar os padrões e representações sociais responsáveis pela diferenciação das atividades baseadas numa “natureza” masculina e feminina. E as mudanças que sofrem tais modelos, sobretudo, quando as mulheres se deslocam para o espaço público e para novas formas de atividades físicas. Desse modo, recaí sobre elas, um discurso que explicita as diferenças de gênero, como também a vontade de isolar as mulheres em práticas corporais adequadas à sua “natureza”, definindo as fronteiras entre os universos esportivos femininos e masculinos.
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Glaucia dos Santos Marcondes - UNICAMP
As famílias constituídas por segundas uniões: um olhar sobre as dinâmicas de gênero na organização do cotidiano familiar
O aumento do número de separações conjugais e de novas uniões são alguns dos eventos que compõe o cenário múltiplo e complexo das organizações familiares. Embora os dados do Registro Civil apontem para o crescimento constante do número de casamentos formais de pessoas viúvas e divorciadas - em 1993 representavam 7,8% do total de casamentos registrados e em 2003 foram 13% - pouco sabemos sobre o impacto dos recasamentos na dinâmica das famílias. Este trabalho discute representações e práticas sociais e de gênero de homens e mulheres de camadas médias, recasados, a respeito da reconstituição e re-organização de suas vidas familiares a partir de uma pesquisa qualitativa realizada na cidade de Campinas, interior do Estado de São Paulo.
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Ivan Beck Ckagnazaroff, Joyce de Souza Cunha Melo, Amanda Magrineli dos Reis - UFMG
O papel das ONG's em processos de empoderamento de mulheres na Região Metropolitana de Belo Horizonte
A questão de desigualdade de gênero tem recebido crescente atenção por diversos setores da sociedade. Nos últimos anos, percebe-se iniciativas tanto de governos quanto de ONG's que buscam criar condições de sobrevivência econômica a mulheres que garantam a igualdade e, conseqüen-temente, o empoderamento destas, mas percebe-se a falta de estudos que tratem desse tipo de iniciativas. Desta forma, este trabalho tem como objetivo analisar o papel que organizações não-governamentais da região metropolitana de Belo Horizonte tem na questão de empoderamento de mulheres. Para tal, os problemas da pesquisa a serem trabalhados são os seguintes: em que medida as ações empreendidas pelas ONG`s voltadas para o empoderamento da mulher refletem o seu discurso? Que tipo de fatores afetam a atuação de ONG`s nas suas ações para o empoderamento da mulher?
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Janaína Monteiro Ferrante, Fernando Silva Teixeira Filho
A inserção da mulher na política no município de Assis - SP
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Lidia Maria Vianna Possas - UNESP/Marília
Percebendo as relações de gênero no estudo do cotidiano das cidades paulistas: os indícios revelados pela documentação
O trabalho amplia os estudos de “gênero” ao investir na historicização e descontrução dos este-reótipos e dos papéis sociais de homens e mulheres que vivenciaram o processo de formação das cidades do Oeste Paulista na 1ª metade do séc. 20. Através de indícios percebidos nos Inquéritos Policiais e Jornais da Comarca de Bauru ( 1910-1950) foi possível desvelar o silêncio e a repressão de vidas que ainda hoje tem seus desdobramentos no comportamento social e político da sociedade brasileira. O trabalho absorveu as significativas revisões paradigmáticas da história percebendo os diferentes movimentos dos atores sociais, os tempos e os espaços, realizando uma releitura da história das cidades paulistas, suas especificidades e, portanto revendo a lógica que atrela o centro à periferia, a Metrópole paulistana às urbes do oeste paulista vivenciados no processo de modernização/modernidade.
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Lílian Henrique de Azevedo - UNESP/Assis
Feminismo e os “mass media”: representações e apropriações
Entre as décadas de 1960 e 1980, o “Novo Feminismo”, surgido com o crescente movimento de organização de grupos de mulheres, que desejavam uma participação política, econômica e culturalmente mais efetiva na sociedade, foi amplamente utilizado como bandeira política e fenômeno cultural pelos meios de comunicação de massa. Entre os reflexos mundiais desta movimentação, tem-se o Ano Internacional da Mulher instituído pelas Nações Unidas, após a Conferência do México de 1975. No entanto, à maior visibilidade política das mulheres seguiu-se igual exposição de representações das imagens femininas, não raro, definidas pela adequação polarizada entre a feminista masculinizada, politicamente engajada e a mulher consumidora, que trabalhava fora, usava pílula anticoncepcional e desejava ser livre para casar-se, ter ou não filhos e separar-se.
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Marcia Regina da Silva Ramos Carneiro - UFF
Projetos de mulher – a educaçao feminina na familia integralista
Na década de 1930, a Ação Integralista Brasileira procurou compor, a partir de seus documentos e práticas organizacionais a feição do povo brasileiro. A moralidade católica e a preocupação com a formação intelectual, bases de definição de uma identidade brasileira-integralista, eram divulgadas pelas principais articulistas do movimento que buscavam compor a face feminina do integralismo, informando às mães e moças as formas de agir e se comportar socialmente e no lar. Receptoras e propagadoras dessas ideas as militantes educavam suas filhas para servir à familia nos espaços públicos e privados, projetando construção do Estado Integralista. A relação mães e filhas ultrapassavam, portanto a esfera familiar ao procurar a reprodução da forma de ser integralista, através de seus exemplos, a intervenção na sociedade.
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Maria Arcelina Chamtip Clementino de Santiago - Aveiro/Santiago
O género, a academia e a gestão: o caso d'A Universidade de Aveiro
Ao fazer a intersecção das questões do género com os vários modelos de universidade, procuramos obter um panorama geral de como as mulheres se posicionaram na academia, ao longo dos tempos, e saber qual deles lhes permitiu maior abertura, primeiro como estudantes, depois como docentes para, finalmente, chegarmos aos lugares de gestão de topo na academia. Identificamos aspectos marcantes de cada modelo de universidade, verificando neles várias transformações que implicaram, necessariamente, alterações profundas na sua missão, organização, estrutura, formas de produzir e reproduzir o conhecimento e na sua relação com a sociedade. O ambiente académico transforma-se ainda mais com a chegada da retórica managerialista, onde se verifica a supremacia dos aspectos económicos e utilitaristas face aos sociais, trazendo consequências para as mulheres. Através de vários estudos realizados em países anglo-saxónicos, apresentamos a rota das mulheres na academia e a forma como percepcionam as mudanças mais recentes. Depois, identificamos também a situação das mulheres na academia portuguesa se bem que as mudanças aqui aconteçam mais tardiamente pelo facto do país ter estado remetido, por longo tempo, ao regime ditatorial, imposto pelo Estado Novo. Relativamente ao estudo de caso, enquadrado apenas na perspectiva de enriquecer o quadro teórico apresentado inicialmente, procuramos identificar a situação das mulheres como estudantes, como docentes e como gestoras, ao longo de três décadas na Universidade de Aveiro, marcada desde a sua implementação, em 1973, por princípios empreendedores e com contornos muito específicos. Os aspectos comuns detectados nas academias doutros países levam-nos a concluir que há indícios que apontam para um endurecimento da situação das mulheres. No novo paradigma, orientado para o mercado e para o racionalismo económico a universidade é pressionada para ser mais eficiente, mais relevante e prestadora de contas. Assim, apresentamos a universidade como organização não neutra, fortemente marcada pelo género. Apelamos para a importância dos estudos sobre mulheres, dando visibilidade ao seu papel na academia e na sociedade.
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Maria da Conceição Francisca Pires
Um aceno de resistência: representações humorísticas do feminino e do feminismo
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Maria Mostafa - UFF
A mulher nos livros didáticos de história
A história das mulheres é ensinada nas escolas? Os Parâmetros Curriculares Nacionais, supostamente direcionadores dos temas a serem abordados no ensino escolar contemplam a questão da história das mulheres dentro do que chama de “temas transversais”. Mas, de que forma essa direção chega na sala de aula? Como os livros didáticos de história abordam a dominação masculina e a luta das mulheres na história? Este trabalho é definido pelas questões acima, se constituindo numa análise da forma com que a produção historiográfica sobre as relações de gênero e história das mulheres é abordada no ensino de história, tendo como fonte de análise o livro didático de história. Estando o livro didático inserido nesse contexto, escolar e social, realizar uma análise crítica de seus conteúdos contribui para uma desnaturalização da história ensinada, isto é, revela que as opções curriculares oficiais, explicitadas na sala de aula pelos livros didáticos, são realmente opções: atendem a interesses, a teorias do currículo, resultando em determinados conteúdos com abordagens específicas intencionais e não acidentais ou naturais. Além disso, o fato das coleções escolhidas para análise estarem entre as coleções, não só aprovadas, mas elogiadas pelo Programa Nacional do Livro Didático por conter a problemática de gênero, revela também o que esse programa considera como elogiável no tocante à história das mulheres.
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Maria Salet Ferreira Novellino - IBGE
Partidos e municípios das prefeitas brasileiras eleitas em 2004
Em 2004, de um total de 5.559 municípios, em apenas 418 mulheres foram eleitas prefeitas, o que representa um pouco mais de 7% do total de prefeitos eleitos em todo o país. O número absoluto de prefeitas eleitas, desde a redemocratização do país, vem aumentando progressivamente, mas pouco: em 1992, foram eleitas 171 prefeitas; em 1996, foram eleitas 312; em 2000, foram eleitas 317 e, em 2004, 418. Como explicar uma proporção tão baixa de mulheres governando os municípios brasileiros? Tratar-se-ia de uma postura sexista do eleitorado brasileiro ou de um processo eleitoral excludente, no qual os partidos políticos não estariam abrindo espaços para as mulheres se candidatarem? Isto é, as mulheres estariam sendo excluídas no momento do voto ou tal exclusão estaria antecedendo este momento ao se ter um número também reduzido de candidatas mulheres? Parece haver, de fato, um domínio masculino nos partidos políticos, pois em 4.198 municípios não houve candidatas do sexo feminino. Mas quem são essas prefeitas que conseguem sobrepujar esta discriminação, se candidatarem e se elegerem? Quais são os partidos que abrem espaços para as mulheres se candidatarem? E como são estes municípios dirigidos por mulheres? São a estas perguntas que este artigo procura responder. Adiantando alguns resultados: há prefeitas em apenas duas capitais: Fortaleza, CE e Boa Vista, RR. Quase 20% das prefeitas eleitas são do PMDB, seguida de aproximadamente 15%, 13% e 10% do, respectivamente PFL, PSDB e PL. O PT, o PPS e o PDT elegeram, respectivamente: aproximadamente 6%, 5% e 4% das prefeitas brasileiras. Em números absolutos, os estados com um maior número de prefeitas são Minas Gerais, seguido por São Paulo e Bahia. Os estados com um menor número são Acre, Amapá e Amazonas. Em números relativos, os estados com uma maior proporção de prefeitas são Roraima, Alagoas e Rio Grande do Norte. Os estados com uma menor proporção são Amazonas, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
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Maria Teresa Garritano Dourado - USP/Faculdade de Ciências Administrativas de Ponta Porã
A guerra do Paraguai e suas imagens: mulheres comuns e senhoras respeitáveis
A imagem tradicional que se tem de batalhas e acampamentos militares, repletos de soldados, armas, violência e morte, não inclui mulheres e crianças. No entanto, várias brasileiras, entre mães, esposas, prostitutas e escravas, desempenharam um papel ativo na guerra travada contra o Paraguai, entre 1864-1870. Atuando, sobretudo na retaguarda, enfrentaram junto com os homens, os horrores de um conflito bélico. Presença extra-oficial nos fortes e acampamentos militares, as mulheres formavam um exército invisível que se tornou indispensável no desenrolar da guerra. Ao longo de toda a guerra, pouquíssimas mulheres do povo obtiveram algum reconhecimento a ponto de sair do anonimato. Eram, quando muito, conhecidas apenas pelo primeiro nome ou apelido. As raras mulheres lembradas pelos memorialistas com direito a nome e sobrenome eram casadas com homens pertencentes à elite imperial.
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Mary Ferreira - UFMA
Mulheres no Legislativo: demandas e ação política das deputadas
O legislativo é compreendido como um campo político, lugar de poder, o qual se constitui, por intermédio de disputas, pelo monopólio do direito de falar, de agir, em nome de uma parte ou da totalidade de um grupo social. Embora a representação feminina no legislativo seja inferior, as deputadas têm desenvolvido um conjunto de ações políticas fruto das demandas dos movimentos sociais, que tem contribuído para ampliar o debate em torno das questões de gênero ao mesmo tempo em que avança na proposição de leis e programas que interfere diretamente na vida das mulheres. Ao pensar a ação política das parlamentares, é importante delimitar, em que campo se estabelece essa ação, a fim de compreender, descrever, e, definir as singularidades que possam clarear, as formas específicas com que se revestem os mecanismos de poder, dominação e exclusão nesse campo. O campo se constitui um caminho para perceber as variações, para desvendar o invariável, o particular, o singular. Em se tratando do Legislativo maranhense, objeto desse estudo, muito pouco tem sido analisado sobre a sua dimensão na perspectiva das mulheres. A estratégia aqui, é desconstruir idéias impregnadas na sociedade sobre a ação política das mulheres no legislativo. Se tais idéias, por um lado, reconhecem a importância de sua presença e existência, por outro, a desqualificam como participação “menor”. Ressignificar essa presença é romper com um racionalismo estreito, que excluiu as mulheres dos processos de representação social. No campo do legislativo as mulheres são representadas como desprovidas de autonomia, competência, poder de decisão ou de qualidades capazes de transformar processos sociais. Romper com as armadilhas da invisibilidade das mulheres nesses campos é o que se propõe esta comunicação fruto de estudo desenvolvido no doutorado em Sociologia no qual analisamos a ação das mulheres no parlamento maranhense construído a partir de entrevistas que privilegiaram as relações de gênero em uma perspectiva feminista.
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Paulo Fernando de Souza Campos - UNESP
A exclusão de mulheres negras da enfermagem profissional brasileira: entre práticas e representações
O trabalho ora proposto abordará a formação da identidade profissional da enfermagem brasileira. Para tanto, focalizará as interfaces entre o modelo de formação profissional adotado oficialmente pela enfermagem brasileira (proposto originalmente por Florence Nightingale) e a exclusão de mulheres negras desse processo. Pretende-se evidenciar representações e práticas sociais que impediram a inclusão de mulheres negras nas primeiras escolas de enfermagem do Brasil considerando que estas, historicamente consideradas cuidadoras, tiveram sua cidadania marcada pela intolerância e preconceito, fatores que contribuíram para a fabricação de imagens invertidas da condição feminina das mulheres negras no Brasil, estigmatizando-as como vulgares, sexualmente pervertidas ou como pessoas de caráter duvidoso, portanto, impróprias para exercerem a arte e a ciência do cuidado.
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Rita de Lourdes de Lima, Maria de Fátima de Sousa Santos - UFRN/UFPE
Mulheres e serviço social: alguns elementos para reflexão
O Serviço Social surgiu e se construiu historicamente como uma profissão destinada a “mulheres”, com forte ligação com valores cristãos e humanitários. Este trabalho analisou a relação entre a representação “tradicional” sobre as mulheres, a representação do Serviço Social, a predominância destas nesta profissão e a subalternidade profissional. Fizemos sorteio aleatório e trabalhamos com 171 Assistentes Sociais (167 mulheres e 4 homens). Posteriormente, selecionamos destes, 4 mulheres e 1 homem para fazermos entrevistas. Os resultados apontam para uma representação social da profissão associada à defesa da cidadania e para uma representação social da mulher como associada à luta e conquistas. Assim, os resultados indicam um rompimento com a representação social tradicional acerca das mulheres e uma modificação crescente na representação acerca da profissão. contribuir para a emancipação das mulheres. Realizamos 9 entrevistas e utilizamos outras fontes primárias. Constatamos que existe uma contradição entre a “Maria real” e o “mito Maria”, devido à inserção no mercado de trabalho ou da necessidade de reconstruí-la com outro companheiro. Ao mesmo tempo, existe um processo de identificação entre o “mito Maria” e a “Maria real” através da exaltação da paciência e resignação no dia a dia. As mulheres se encontram entre dois modelos: um, semelhante ao mito Maria, paciente, resignada; outro que, na luta pela sobrevivência, aprende a lutar pela igualdade entre os gêneros e não se adequa mais a este modelo.
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Shirley Aparecida de Miranda
Professoras em movimento: saber-poder e processos de subjetivação na prática sindical
O texto apresentado emerge da pesquisa de doutorado na qual investigo as configurações singulares que estruturam a relação com o saber, tendo como eixo analítico a categoria gênero. Analiso aqui a narrativa de duas dirigentes sindicais que ingressaram em momentos distintos – década de 1980 e de 1990 – no Sindicato Único dos Trabalhadores em Educação – Sind-UTE. Tomando a instituição sindical como aparato pedagógico, interrogo as prescrições e discursos que atravessam essas narrativas, para elucidar dispositivos de fabricação de subjetividades que definem uma identidade momentânea – mulheres dirigentes sindicais. Considero os pontos nodais, as táticas políticas articuladas pela relação saber-poder implicadas nessa definição.
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Teresa Malatian - UNESP/Franca
Crônicas da guerra: Flora de Oliveira Lima e a inscrição cotidiana
A leitura do Boudoir Diary de Flora de Oliveira Lima, bem como a de cartas a amigos e familiares permite percorrer caminhos da autobiografia comuns às mulheres no período da chamada Belle Époque, mundo que desabou com o conflito de 1914-1918. Trata-se de material inédito relevante para a compreensão do conceito de destino de gênero. Os registros diários de Flora permitem verificar como vivenciou as relações de gênero no período da guerra, em Londres e nos Estados Unidos, construindo uma identidade marcada pelos vínculos de casal mediante estratégias de escrita de si.
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