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ST41 B - Gênero, memória e narrativas

Coordenadoras:     Janine Gomes da Silva (UNIVILLE /AHJ/Joinville)
                               Cleci Eulália Favaro (UNISINOS São Leopoldo/RS)

Resumo

Com o presente simpósio pretendemos refletir sobre como a intertextualidade entre gênero, memória e narrativas propicia um debate interdisciplinar, estimulando e contribuindo para o desenvolvimento dos estudos de gênero. As memórias de homens e mulheres, presentes nas mais variadas formas de narrar, revelam vivências e experiências singulares. Deter a atenção sobre tais particularidades pode contribuir para análises que pensem a memória como uma das possibilidades de compreender as “marcas de gênero”. Nos debates acerca da memória, são cada vez mais valorizadas as formas masculinas e femininas de viver as experiências individuais. Por intermédio do depoimento, no ato de rememorar, estas “diferenças” se fazem presentes, dado que as memórias são carregadas de marcas, de trajetórias de vida, enquanto revelam também as singularidades e subjetividades das vivências. Especialmente nos textos biográficos e nas escritas autobiográficas, pode emergir uma grande riqueza investigativa, do ponto de vista das interseções entre as relações de gênero e os sujeitos narradores.


Trabalhos

Ana Maria Coutinho de Sales - UFPB
Dos laços às letras: narrativas das escritoras da Paraíba do começo do século XX
Este trabalho tem por finalidade trazer ao público contemporâneo os nomes de escritoras da Paraíba do começo do século XX, que se destacavam pelo empenho na luta pela educação para a população feminina, contra o racismo e toda forma de exclusão social. A prática de escrever se coloca para essas autoras como um trabalho ético em relação ao mundo e a elas mesmas, como uma busca ininterrupta da liberdade, associada à questão da solidariedade e da justiça social. Ao descortinarem a realidade e a utopia dos anos vinte, elas revelam o itinerário de uma luta pela cidadania das mulheres, criam um novo mundo, um novo universo comprometido com a tessitura de novos saberes. As narrativas de autoria feminina podem ser socializadas como meio político-pedagógico para valorizar a mulher como formadora importante da sociedade brasileira.
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Ana Paula Silva Oliveira
Memórias de tecelãs: saberes, sensibilidades e lembranças de artesãs mineiras
O objetivo deste artigo é analisar a permanência dos ofícios tradicionais caseiros considerados femininos. Com este intuito, será estudado o trabalho realizado por tecelãs da cidade de Berilo, localizada no Vale do Jequitinhonha, região situada no noroeste do estado de Minas Gerais. A escolha desse universo social e cultural deve-se ao fato de haver no lugar todas as etapas referentes ao processo da fiação e tecelagem e também por manter as características artesanais, sem marcas do processo de industrialização. Assim, torna-se necessário mostrar como esse saber herdado de mãe para filha aparece nas lembranças desse grupo, principalmente, nas artesãs mais velhas, guardiãs da memória. A discussão sobre memória e narrativa permeará toda a pesquisa. Para isso, serão anali-sados trechos de depoimentos que salientem a importância dessa arte popular e os procedimentos relacionados a esse fazer
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Camila Morgana Lourenço - UFSC
Eu(s) de papel
Diante do papel fino da carta, Caio Fernando Abreu faz mais que vomitar segredos e subjetividades, ao adotar codinomes femininos, assinar-se como personagem e enunciar-se no feminino. Vai além do biografismo inerente ao gênero, instigando quem devora a “confissão pública” do missivista escritor. É nesse entremeio que pretendo me inscrever, promovendo uma leitura a respeito dos excessos literários que se incrustam na narrativa de si do autor e procurando “responder” a algumas questões inquietantes. Ao tecer a escritura epistolar, o ficcionista se guarnece de máscaras? Esconde-se por trás de sujeitos ”construídos”, eu(s) ficcionalizados, artifícios? Lança mão da prática confessional para documentar a escrita de si? A epistolografia é terreno fecundo para investigações biográficas e estudos literários. Permite, ao missivista, borrar a fronteira entre os gêneros e habitar uma zona híbrida, que lhe permite experimentar uma outra espécie de narrativa — que ultrapassa suas características subjacentes (documental, (auto)biográfica, confessional) — sempre que lhe convier, sem impedimentos. A prática da escrita de si se efetiva, assim, no reduto de memória chamado correspondência.
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Cátia Regina Muniz
A regionalização de uma empresa transnacional na América Latina narrada por suas trabalhadoras
Este trabalho tem por finalidade a discussão do processo de regionalização de um grupo anglo-holandês na América Latina, que tem como foco principal o trabalho com grupos com culturas diferentes, sob a ótica de suas trabalhadoras- a partir de suas narrativas- em diversos níveis hierárquicos. Esta proposta dá continuidade à minha pesquisa realizada em dissertação de mestrado, a qual teve como objeto uma fábrica pertencente a uma subsidiária desse grupo no Brasil. Durante a coleta de dados, nesta fábrica, pude observar que estavam ocorrendo mudanças que iriam modificar todo o trabalho gerencial da empresa, provocando a indagação de qual seria o papel desempenhado pelas mulheres neste processo, além de qual seria o espaço reservado a elas pela empresa.
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Cleci Eulalia Favaro - UNISINOS
Entre “lobos” e “cordeirinhos”: dos discursos e das práticas nos relacionamentos conjugais entre descendentes de imigrantes
Entrevistando homens e mulheres (entre os 60 e 75 anos de idade e descendentes de imigrantes de origem étnica italiana) a respeito dos usos e costumes relacionados com o exercício da sexualidade e os tabus e rituais que envolviam a fase anterior e posterior ao casamento, os contrastes entre as narrativas de uns e outras revelam aspectos surpreendentes, que permitem reconstituir os valores que conformam a linguagem, e, por extensão, os comportamentos socialmente aceitos: enquanto a voz, o corpo e o gesto procuram confirmar o recato, a discrição e uma certa inocência presentes nos discursos femininos, o riso, o olhar e a palavra dos depoentes expressam vivências bem mais permissivas. Em suma, enquanto masculinidade, virilidade e atividade conformam a fala dos homens, a passividade, a resignação e a submissão ao desejo masculino preservam e mantêm os tabus sobre a sexualidade das mulheres. A linguagem, a memória e o auto-conceito mesclam-se, em cada depoimento, visando a construção de uma imagem positivada, embora diametralmente oposta.
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Cristina Maria Rosa
A escola e seus significados pra mulheres em processo de escolarização
Conhecer e registrar os sentidos atribuídos à escola por mulheres analfabetas é o objetivo central da pesquisa. Funda-se teoricamente na teoria do Imaginário Social (CASTORIADIS,1982 e FERREIRA, 1992); nos Sentidos Atribuídos à Escola (CHARLOT, 2000) e nas razões de escolarização de pessoas dos meios populares (LAHIRE, 1997, BOURDIEU, 1982). De abordagem qualitativa, a escolha foi pelo Método Biográfico (ANDRÈ, 1994 e BOSI, 1994) e os procedimentos foram entrevistas dialogadas gravadas em áudio. As interlocutoras são dez mulheres, de 29 a 75 anos, etnicamente diferentes, moradoras da periferia urbana e migrantes da zona rural. Com conclusões parciais já publicadas (ROSA, 2004 e Rosa, 2005), atualmente a pesquisa está centrada na transcrição das trajetórias de vida das mulheres para integrar o Banco de Textos do Grupo “Escrita: Produção e Recepção” (CNPq).
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Fernanda Deah Chichorro - UFPR
Memória em a mãe da mãe da sua mãe e suas filhas
A memória, na contemporaneidade, volta a ocupar o estatuto que na época das narrativas orais possuía. Muitos estudos têm creditado a ela importantes espaços. Na ficção não é diferente. Uma importante contribuição sob este aspecto é a narrativa de Maria José Silveira, A mãe da mãe da sua mãe e suas filhas. Neste romance, a autora lança mão de um recurso bastante inovador e que se revela somente no final da narrativa: o narrador é a memória. Memória esta que pode ser entendida como familiar (coletiva) e que vai conformando a trajetória de uma possível história brasileira. Outro ponto essencial na narrativa é que as vozes privilegiadas são as femininas; as personagens masculinas aparecem apenas como um pano-de-fundo na tessitura da obra. Tem-se, portanto, histórias de diferentes mulheres que marcam não sua individualidade, mas sim o caráter de pertencimento histórico. O presente trabalho pretende, portanto, partindo das representações femininas tecidas pela memória, analisar como se configura o papel feminino na construção histórica.
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Hilda Pívaro Stadniky - UEM
Transversalidade de gênero na ficção nipo-brasileira: a insurgência do vivido
A autobiografia, o diário, o romance autobiográfico, a carta, se instituem cada vez mais como gêneros narrativos capazes de recuperar na espessura da vida cotidiana os momentos de resistência e de insurgência do vivido.O exercício autobiográfico ocupa lugares mentais por excelência, e pelo recurso à lembrança e à memória o autor recapitula o espaço e o tempo, contribuindo para a elaboração de uma história individual e coletiva.Os detalhes da crônica possibilitam recuperar o pacto de cumplicida-de do eu narrador e do outro. Numa complexa narrativa autobiográfica, o protagonista/personagem torna-se interlocutor de sua própria experiência e de sua inserção no mundo como cultura e como natureza. Nossa proposta é analisar a escrita “do” e “sobre” o eu, buscar a identidade entre narrador e personagem a partir das primeiras obras na ficção nipo-brasileira. A família de nikkeis em uma área de fronteira, suas práticas culturais e as estratégias de manutenção da identidade grupal são os focos centrais do recurso à utilização da escrita autobiográfica na produção historiográfica.
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José Raimundo Silva Costa - Universidade Federal de Viçosa
Relações de gênero em universidade rural: imagens, discursos e narrativas
Analisamos as práticas e representações de um grupo de agrônomos da Escola Superior de Agricultura e Veterinária de Minas Gerais (ESAV), entre os anos de 1930 a 1948, localizada na cidade de Viçosa e que deu origem a atual Universidade Federal de Viçosa (UFV). Pretende-se demonstrar que as práticas e representações desses sujeitos históricos foram e são ainda referenciadas e demar-cadas numa perspectiva de gênero; na mesma instituição, entre os anos de 1930 a 1948, debateu-se a criação de uma Escola Superior de Ciências Domésticas voltada para um público feminino, inspirado nos Home Economics norte-americano.Debate no qual presente/passado e passado/presente entre-cruzam. O estudo da memória documental, visual e oral demonstra a presença de um habitus que delimita a construção do papel social de homens e mulheres em universidade rural.
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Jurema Chagas - UFSC
Blogs e a nova narrativa biográfica
O presente trabalho pretende propor uma reflexão sobre o novo formato de “escrita do eu” proporcionado pelo blog. Em contraste com algumas formas de atualizar a memória do vivido – desde o diário íntimo à psicanálise, passando pelo romance clássico e pelas autobiografias – os blogs têm-se apresentado como uma tentativa atualíssima de registro do cotidiano na era do “tempo real” e do presente constantemente “presentificado”. Essa peculiar forma de inscrição cronológica de “relato do eu”, no entanto, denota uma certa reconfiguração das subjetividades contemporâneas. Assim como ocorre com a idéia de constituição do sujeito, de interioridade, perspectiva que pode ser atribuída em grande parte à possibilidade de interação e intervenção do/a leitor/a na “experiência” do/a blogueiro/a.
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Lady Selma Ferreira Albernaz, Edla Eggert - UFPE
Tramando outras formas de conhecimentos – entre o trabalho artesanal e o debate temático
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Losandro Antônio Tedeschi - UNISINOS
Meu nome é “ajuda”. A vida cotidiana e as relações de poder, gênero e trabalho das mulheres trabalhadoras rurais na região noroeste do Rio Grande do Sul
O presente artigo discute a cidadania e as relações de gênero no campo após a conquista de direitos sociais pelo Movimento de Mulheres Trabalhadoras Rurais da Região Noroeste do Rio Grande do Sul. Contudo, essas conquistas não trazem mudanças mais profundas nas representações e no imaginário rural, mantendo e reafirmando as relações de gênero e, nestas, a subordinação do papel feminino. Assim, o trabalho agrícola feminino continua sendo auxiliar, visto como “ajuda”, subordinado ao homem. Elas continuam 'escondidas' nos quadros de apoio, ou não participam igualmente, já que as instâncias políticas de que participam não evoluíram quanto às suas práticas cotidianas, ainda discriminatórias, ficando difícil falar de igualdade de gênero e de poder.
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Marcio Markendorf - UFSC
Mitobiografia e lógica de gênero
“Gaveta de poeta forte morta precoce é fogo. Sai papel feito coelho da cartola de mágico” é o que nos diz Ítalo Moriconi no perfil biográfico que escreveu sobre Ana Cristina Cesar. Não é de outro modo que podemos perceber o quanto de verdade reside nessa afirmação, se tomarmos como exemplo o caso da poetisa Sylvia Plath. Após seu suicídio, aos 30 anos, a escritora ficou presa a uma biográfica reação em cadeia que fundou a mitologia do artista sacrificial, morto no auge da carreira e da criatividade. Mitologia que fica contaminada pelas impropriedades de uma visão de gênero/gênio, na qual, seria uma prerrogativa feminina a combinação loucura, suicídio e arte confessional. Essa (i)lógica de gênero, carregada de estereótipos, permite que a fúria do biografismo efetue um indevido trânsito entre diferentes gêneros textuais – cartas, diários, contos, poemas – sem levar em conta suas especifici-dades. Os diferentes gêneros textuais, tomados de modo complementar um ao outro, fundamentam um tipo de mitobiografia, construída a partir da (com)fusão de gêneros textuais e de uma equivocada representação de gênero sexual: mulher. profissão: sentimental.
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Marilda Aparecida de Oliveira Effting - UFSC
A contadora de histórias na literatura de José Lins do Rego
Estaremos, no presente estudo, analisando a figura da mulher, na qualidade de contadora de histórias, nas obras: Menino de engenho e Histórias da velha Totônia, de José Lins do Rego. As observações ficam centradas no papel feminino, enquanto personagem ficcional. Nas obras em foco temos um conjunto de narrativas populares, mescladas com a magia dos contos de fadas, ativadas pela memória do autor. Assim transitaremos no espaço literário destinado e consagrado à crianças e adolescentes com o sabor e o encantamento da tradição oral brasileira.
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Marta Campos de Quadros - UFRGS/UPF
Ligadão, um programa de aluno para aluno – memória e consumo radiofônico produzindo identidades de gênero juvenis
Este artigo tem como objetivo compreender como as narrativas veiculadas pelo rádio do segmento jovem interpelam os ouvintes – coletiva e individualmente – no seu cotidiano. Trata-se de tornar dizíveis as marcas de gênero produzidas pela memória inscrita no consumo e na experiência como condições de possibilidade do (re)conhecimento e da fabricação de identidades juvenis de gênero, inseridas em uma determinada ordem de discurso que parece reafirmar o masculino ainda como a voz autorizada a mediar os acontecimentos e o feminino como uma ausência ou presença coadjuvante. Esta pesquisa que se inscreve nos dos Estudos Culturais em Educação, se efetiva através da análise das narrativas e das práticas culturais cotidianas e de aprendizagem dos integrantes do programa Ligadão – um programa de aluno para aluno, veiculado pela rede 107.1, FM Pop Rock e produzido pelos estudantes do Curso de Comunicação Social da ULBRA/RS.
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Saionara Bello Silveira - UNIVALI
Narrativas de mulheres professoras: representações que cercam o gênero
Este trabalho apresenta reflexões sobre a constituição de sujeitos femininos nas teias de suas relações cotidianas, observadas a partir de histórias das narrativas de um grupo de mulheres que voltaram a estudar após longo período de magistério. A categoria gênero oportuniza analisar as experiências e a percepção acerca da constituição dos sujeitos, de como homens e mulheres participam (ou omitem-se) na “fabricação” de outros sujeitos (LOURO, 1998). O gênero, com sua característica relacional, faz perceber histórias femininas entrelaçadas às histórias masculinas, onde masculinidades e feminilidades vão sendo construídas nas relações de cotidianidade. Percebo, neste estudo, que as feminilidades, assim como as masculinidades, são construções de longa duração e que foram naturalizadas e cobradas, mas revelam estratégias cotidianas de resistência.
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Silvania Núbia Chagas - UPE/USP
A memória inventada: que gênero é esse?
A escritura de Guimarães Rosa inovou a literatura brasileira não apenas porque se destacou da tradição literária vigente na época, mas, mais que isso, ela resgata essa tradição e as narrativas primeiras, e transforma tudo isso num contexto novo. E apesar de nos remeter para o momento histórico em que suas obras foram produzidas, o universo ficcional criado por esse autor não se esgota aí, ou seja, a sua narrativa “se alimenta na história, mas não se esgota nela, atravessa os tempos”. Em suas narrativas, Rosa constrói uma memória que traça uma linha tênue entre história e imaginário, pois, se por um lado, nos remete à realidade, por outro, nos faz constatar que estamos diante de um novo contexto literário, onde somente a ambigüidade prevalece, pois como bem disse Riobaldo “tudo é e não é”. Verificar como isso ocorre nessa obra, é o objetivo desse trabalho.
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