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ST50 - Fazendo gênero e rompendo fronteiras: gênero, idade média e interdisciplinaridade

Coordenadoras:     Andréia C. L. Frazão da Silva (UFRJ)
                               Valéria Fernandes da Silva (UnB)
                               Marcelo Pereira Lima (UFF)

Resumo

O campo dos Estudos Medievais no Brasil está em franco desenvolvimento nos meios acadêmicos. Entretanto, o uso da categoria gênero nos trabalhos de Idade Média no Brasil é recente, restrito e carece de rigor teórico-metodológico. Asssim, faz-se necessário, para que possamos fugir das abordagens meramente descritivas ou da repetição das conclusões já tradicionais na historiografia, que a reflexão sobre os aspectos teóricos e metodológicos seja aprofundada e sejam criadas redes permanentes de comunicação entre os estudiosos dedicados ao tema. Neste sentido, nossa proposta é adensar a discussão sobre as representações de gênero na Idade Média, assim como refletir sobre o processo de construção de corpos e espaços, ditos masculinos e femininos, nas diversas sociedades medievais. Propomos um debate interdisciplinar, que permita a troca de experiências entre as pesquisadoras e os pesquisadores dedicados ao estudo da Idade Média provenientes das áreas de História, Literatura, Lingüística, Direito, Filosofia, Comunicação e afins, bem como de estudiosas e estudiosos de outros períodos históricos, mas que estão voltados para temas que dialogam com a historiografia sobre o medievo.  Acreditamos que o Simpósio Temático Fazendo gênero e rompendo fronteiras: gênero, idade média e interdisciplinaridade é estratégico para dar continuidade ao desenvolvimento dos estudos medievais em nosso país, já que se propõe a suscitar temas de pesquisa ainda pouco explorados pelos medievalistas brasileiros; proporcionar o enriquecimento das discussões teóricas, com o estabelecimento do diálogo entre pesquisadoras e pesquisadores de várias regiões do Brasil e do mundo com diferentes tipos de formação. Isso, sem dúvida, dará maior visibilidade aos estudos de gênero ligados ao período medieval já produzidos em nosso país. A metodologia adotada pelo ST será a apresentação das comunicações, agrupadas pelos coordenadores a partir da proximidade temática, durante as manhãs, deixando as discussões, sobre temas selecionados, às tardes.


Trabalhos

Andréia Cristina Lopes Frazão da Silva - UFRJ
O gênero nas narrativas de criação de Pandora e de Eva: um ensaio de leitura histórica comparada II
Visando um diálogo com o trabalho a ser apresentado pela professora Marta Mega de Andrade, nossa comunicação visa discutir, a partir da análise de capítulos do Gênesis presentes em uma versão medieval portuguesa da Bíblia, a construção da personagem Eva verificando as interpenetrações entre as narrativas míticas sobre Pandora. Com uma preocupação histórica e a partir da categoria Gênero, queremos discutir a produção discursiva normativa do feminino e do masculino. Consideramos o estudo das figuras míticas de Pandora / Eva um tópico privilegiado para desenvolver os usos teórico-metodológicos da noção de gênero como saber e das amplas possibilidades da aplicação da História Comparada aos Estudos de Gênero.
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Carolina Coelho Fortes - UFRJ/UGF
É possível uma história medieval de gênero? Considerações a respeito da aplicação do conceito gênero em história medieval
Embora ainda relativamente recente, a História de Gênero vem ganhando espaço no meio acadêmico. Um dos principais elementos do conceito gênero é seu caráter relacional, ou seja, a necessidade de uma análise baseada ao mesmo tempo nos aspectos femininos e masculinos estudados. Mas como esse caráter relacional pode se estabelecer quando o período no qual se aplica o conceito é a Idade Média, que dá ao homem o monopólio quase absoluto sobre a escrita? Responder essa pergunta é o nosso objetivo neste artigo.
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Claudia Beltrão da Rosa - UNIRIO
Clodia qua meretrix
No Pro Caelio, Cícero constrói um documento ímpar para os estudos de misoginia. A chave para a sua defesa foi um affair entre Clódia e Célio, que deu ao orador a oportunidade de representar a principal testemunha da acusação, a nobre Clódia, imortalizada como a “Lésbia” dos Carmina de Catulo, como o protótipo da meretrix, cujo testemunho não devia ser levado em conta. Cícero recriou o caso de Clódia e Célio no tribunal, persuadindo sua audiência (e os séculos futuros) da devassidão e da vileza de Clódia, invalidando a grave dimensão política do caso. O discurso introduz a hostilidade em relação às mulheres em geral e uma atmosfera de tolerância em relação ao jovem acusado, garantindo-lhe a absolvição e maculando a reputação das mulheres sem tutela masculina pelos séculos vindouros.
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Cybele Crossetti de Almeida - UFRGS
Dois pesos e duas medidas: crimes sexuais em colônia no século XV
Vistas pelos representantes do clero como mais fracas à tentação, as mulheres na idade média eram objeto de discursos moralistas que visavam adequá-las ao papel de esposas e mães. No entanto, num contexto em que os casamentos arranjados imperavam, nem sempre estes papéis eram aceitos de bom grado. Um exemplo disso é o processo contra Luckard, esposa de Johann von Eilsich, aberto na cidade alemã de Colônia, em 1476, devido a adultério, entre outros crimes. No entanto, no processo, o nome do seu amante - também ele casado - não é mencionado. Haveria mais tolerância com o adultério cometido por homens que por mulheres? A comparação do processo de Luckard com outros casos sugere que sim. Estes exemplos indicam que, em se tratando de "crimes sexuais" as conseqüências para os homens e mulheres eram diferentes, com penas maiores para estas.
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Elisabeth da Silva dos Passos, Karina Dias Murtha - UFRJ
Os estudos de “gênero” e algumas reflexões de caráter epistemológico acerca das pesquisas históricas
Os estudos de gênero se iniciaram a partir de um contexto histórico específico, a década de 1970, época marcada por discussões de caráter político, econômico, social e cultural extremamente profícuas. Assim, fruto de questionamentos epistemológicos, nas diversas áreas de saber (das ciências naturais às sociais e humanas), essas pesquisas têm gerado controvérsias conceituais das mais variadas. Nossa proposta neste trabalho insere-se nesta perspectiva.
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Fábio de Souza Lessa - UFRJ
Gênero e experiências corporais femininas na atenas clássica
A comunicação propõe analisar a construção das relações de gênero e das experiências corporais das esposas atenienses do Período Clássico (séc. V e IV a.C.). A sexualidade dos grupos de esposas, normalmente sufocada pela ideologia da dominação masculina, também se fará presente na nossa pesquisa. Tal proposta de estudo nos permite, além de um distanciamento do discurso de poder masculino que relegava às esposas a abstinência sexual, desenvolver uma prática interdisciplinar do conhecimento, imprescindível para as Ciências Humanas. No caso específico da sexualidade feminina, poderemos transitar entre as informações sugeridas pela documentação (textual, imagética e arqueológica) e as compararmos com os resultados de pesquisas antropológicas acerca de sexualidade e corpo.
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Igor Salomão Teixeira - UFRGS
“O tempo que conta o desvio de nossos primeiros pais”: referências bíblicas e a construção da imagem das mulheres na legenda áurea de Jacopo de Varazze
O foco desta apresentação é a forma como Jacopo de Varazze trabalhou a imagem feminina em relação ao pecado nas legendas situadas no capítulo do “Tempo do Desvio” na Legenda Áurea. A obra está organizada de acordo com o calendário litúrgico e o tempo do desvio compreende, biblicamente, de Adão até Moisés, tendo o Gênesis como referência. Das legendas situadas nesse capítulo apenas duas são de santas (Ágata e Juliana), além da “Purificação da Bem-Aventurada Maria”. Pergunta-se: como o autor trabalhou a relação entre referência bíblica e a vida das santas? De que forma as mulheres foram caracterizadas nas legendas sobre os santos? Jacopo de Varazze forneceu apenas o epíteto feminino da virgem ou o pensamento misógino também aparece nesses textos? Quais as relações entre homens e mulheres expostas nas legendas do tempo do Desvio?
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Marcelo Pereira Lima - UFRJ/UFF
Figuras femininas em Diego de Valera: considerações sobre as relações de gênero no tratado En defesa de virtuosas mujeres
O reino de Castela no século XV era um momento privilegiado para pensarmos sobre as mudanças ocorridas na passagem do medievo para a modernidade. No que tange ao discurso sobre o “feminino” podemos dizer o quão é complexa as assimetrias e multiplicidades de suas representações sociais. Um exemplo disso é a obra de Diego Valera, o Tratado en defensa de virtuosas mujeres, cujo objetivo central inicialmente era opor-se aos discursos “misóginos” vigentes à época, porém, mesmo posicionando-se contra as modalidades de “maledicentes” acerca do feminino, ele reproduz diretrizes tradicionais de gênero. Nesta comunicação procuramos dar respostas aos problemas que envolverão a elaboração de uma linguagem conceitual, centrada na problematização da multiplicidade e “assimetrização” do discurso de gênero em Diego Valera.
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Maria Angélica Rodrigues de Souza
Gênero e as formas de comunicação das esposas atenienses na pólis
Nosso grande desafio, neste trabalho, é levantar de maneira comparativa os processos comunicacionais das esposas atenienses no Período Clássico. Ao dialogarmos com algumas ciências almejamos cruzar os resultados de pesquisas visando perceber a individualidade das informações, pois nos possibilitarão interpretar com maior clareza a vivência dessas mulheres em Atenas. Nesta comunicação, auxiliados pelo estudo de gênero, objetivamos pesquisar a linguagem, principalmente em conjunto, das esposas bem-nascidas com os sujeitos históricos, trazendo à tona ações e atitudes que foram silenciadas em outrora. Lançaremos mão de representações contidas na cerâmica Ática do período estudado e autores contemporâneos que abordaram a temática. Aplicaremos no repertório imagético os métodos de leitura isotópica e aquele proposto por Claude Calame.
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Maria Valdiza Rogério Soares - UFRJ
A construção da virgindade nos escritos de Clara de Assis e nas Legendas menores: uma questão de gênero
Segundo a tradição cristã, a virgindade era um dos meios mais adequados para se conseguir a união com Deus. Nela busca-se a entrega total a Cristo, renunciando não somente às paixões, mas também a todo o desejo visto como lícito dentro do matrimônio. A virgem mortificava a sua carne para que esta não fosse um obstáculo em seu desejo de perfeição, de união com Deus. Desta maneira, a virgindade representava o matrimônio com Cristo, o voto de virgindade era o elo indissolúvel da virgem com Ele. Clara prega essa mesma visão de virgindade como forma de compromisso com Deus? Como os ideais franciscanos e o gênero influenciaram as concepções de virgindade de Clara de Assis? Como a virgindade de Clara foi construída em escritos hagiográficos do século XIII? Este trabalho tem como proposta analisar, à luz dos escritos de Clara de Assis e das Legendas Menores, o significado da categoria virgindade pela perspectiva dos estudos de gênero.
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Marta Mega Andrade - UFRJ
O gênero nas narrativas de criação de Pandora e de Eva: um ensaio de leitura histórica comparada I
As interpenetrações entre as narrativas míticas e as personagens de Pandora e Eva foram objeto de diversos estudos e debates em campos como o da Literatura, da Teologia, da Mitologia. O que procuro com a presente comunicação não é voltar a esse tema que privilegia a própria narrativa e/ ou as idéias e doutrinas que veicula, mas antes propor um enfoque histórico a partir do uso da noção de gênero em sua conexão com a produção do discurso, mais precisamente, a produção discursiva de um projeto de identidade. Produção discursiva normativa do feminino, mas ainda produção do masculino. Considero ser o exemplo comparado de Pandora / Eva um tópico importante e mesmo privilegiado para desenvolver os usos teórico-metodológicos da noção de gênero como saber.
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Marta Silveira Bejder, Roseane Rigas Martins - UFRJ/UGF
A condição jurídica feminina na Castela urbana do séc. XIII
O trabalho a ser desenvolvido tem como problemática o estudo da condição jurídica feminina no reino castelhano-leonês no séc. XIII, mas precisamente nos reinados de Fernando III e Afonso X, pois buscaram promover a articulação dos diversos fueros que coexistiam nesse reino em grande parte frutos do próprio processo de reconquista do território. Devido ao material jurídico ser extremamente vasto, buscaremos empreender uma análise comparativa entre dois fueros que estavam em vigor dente período: o Fuero Real e o Fuero de Burgos. A diversidade de objetos neste tipo de fonte também é grande, portanto, priorizaremos a questão da condição jurídica feminina, enfocando, principalmente, as mulheres casadas e as donzelas.
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Priscila Falci - UFRJ
A construção de santidade genderificada na legenda áurea: o caso de Santo Ambrósio
Neste artigo, apresentaremos as conclusões parciais de parte da pesquisa individual monográfica de fim de curso. A partir da perspectiva teórica dos Estudos de Gênero, analisaremos o relato da vida de Santo Ambrósio, retirado da compilação do século XIII, Legenda Áurea, de Jacopo de Vorágine. Para tanto, começaremos definindo as categorias teóricas utilizadas – gênero, corpo, sexo, identidade – E, a partir destas, trabalharemos com as construções de identidade de gênero realizadas na narrativa, questionando possíveis relações com a construção de sua santidade.
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Regina Maria da Cunha Bustamante - UFRJ
Toalete feminina na Antigüidade tardia: entre imagem e escritos
Esta comunicação tem como objeto a toalete feminina, abordada a partir de uma perspectiva de gênero, que privilegia o caráter essencialmente sociocultural das distinções sexuais. Para tanto, desenvolvemos uma análise intertextual entre o discurso imagético de um mosaico afro-romano deste período e os discursos escritos, em especial, os cristãos. Objetivamos compreender o processo de construção das representações acerca da toalete feminina, que possibilite inferir a dinâmica das relações de poder e o jogo das permanências e mudanças na sociedade da Antigüidade Tardia.
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Rejane Barreto Jardim - UCS
Violência de gênero e solidariedade feminina na Castela Medieval
O problema da violência de gênero tem se demonstrado um fenômeno que acompanha a história social das mulheres. Além disso, observa-se que o pensamento feminista elaborou um discurso sobre uma suposta solidariedade de gênero. Esta comunicação quer repensar essa idéia de solidariedade entre as mulheres a partir de um texto literário do século XIII, trata-se das Cantigas de Santa Maria, obra coordenada pelo rei Afonso X. Nela ocorre a representação de diferentes formas de violência de gênero com um interessante protagonismo feminino.
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Valéria Fernandes da Silva - UnB
Estudos feministas em idade média: possibilidades e limites
O uso da categoria gênero está se tornando cada vez mais presente nos trabalhos sobre o medievo, seu uso tem conduzido à domesticação e eliminação do seu potencial crítico. No entanto, quando falamos da perspectiva feminista dentro dos estudos medievais ainda encontramos resistências. Excesso de politização? Anacronismo? Em nosso trabalho, pretendemos discutir as possibilidades de aplicação de uma epistemologia feminista aos estudos medievais e de como algumas autoras têm desenvolvido relevantes estudos ao proporem um olhar diferente sobre as fontes e a ruptura com uma visão binária de mundo que elimina a pluralidade de vivências, práticas e discursos ao reforçar a idéia de ausência e subordinação do feminino durante a Idade Média.
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