Apresentação
 
Organização
 
Programação
 
Simpósios e Pôsteres
 
Autores
 



ST52 - Entre pesquisar e militar: contribuições e limites dos trânsitos entre pesquisa e militância feministas

Coordenadoras:     Alinne Bonetti (UNICAMP)
                               Claudia Fonseca  (UFRGS)
                               Soraya Fleischer (UFRGS)

Resumo

No Brasil, os estudos sobre gênero já contam com um sólido e respeitado lastro nas mais diversas áreas do conhecimento e tal solidez tem inegável relação com o desenvolvimento e consolidação do feminismo. Mesmo com essa origem tão intimamente ligada, a relação entre a produção de conhecimento  e a militância é desde sempre tensa e vista com desconfiança. E cada vez mais vemos muitos/as pesquisadores/as dessa área “engajados/as”, de uma forma ou de outra e em um momento ou outro, nas questões políticas e comunitárias dos sujeitos pesquisados. Interessa-nos discutir como essa velha relação tem sido enfrentada atualmente pelas(os) mais diversas (os)  pesquisadoras(es) do tema. Este Simpósio de Trabalho pretende reunir artigos que reflitam e discutam casos e situações de trânsitos entre pesquisa acadêmica e militância em diferentes sentidos: pesquisadoras/es que partem para a militância (em meio ou após a sua pesquisa) e também militantes que buscam a universidade levadas/os pela sua militância. Gostaríamos de debater sobre as ambivalências vivenciadas nesses duplos movimentos, bem como sobre as limitações e contribuições que essas diferentes posições propiciam tanto para a produção do conhecimento quanto para a prática política. Em linhas gerais, pretendemos que a discussão proposta aborde questões tais como: os principais dilemas vivenciados pelos/as pesquisadores/as em termos éticos, teóricos, metodológicos, práticos, e os desdobramentos inesperados da pesquisa, tais como o desencantamento com militância; o estabelecimento das relações entre pesquisador/a e pesquisados/as e as negociações que permearam essa relação (expectativas do grupo estudado, exigência de engajamento nas suas causas, devolução dos resultados da pesquisa e seus desdobramentos, etc) e, finalmente, os espaços institucionais abertos para a reflexão sobre as implicações desses múltiplos trânsitos entre militância e pesquisa.


Trabalhos

Alinne de Lima Bonetti - UNICAMP
Antropologia feminista: o que é esta antropologia adjetivada?
Instigada pelo desejo de compreender a especificidade da contribuição antropológica para a teoria feminista, como antropóloga, deparei-me com a seguinte dúvida: afinal, o que define uma antropologia feminista? Campo ainda instável na tradição antropológica brasileira, a antropologia feminista goza de maior estabilidade e consolidação na sua vertente anglo-saxã. Através de um passeio pela literatura antropológica feminista (ou de influência feminista), neste texto analiso a relação não tão tranqüila entre antropologia e feminismo. Busco compreender o que especifica essa produção de conhecimento, quais as suas características teórico-metodológicas e, sobretudo, quais as implicações, contribuições e limites do seu caráter engajado.
PDF

Ana Paula Portella, Carmen Silva - SOS Corpo
Percursos políticos e metodológicos de uma pesquisa-ação
Neste trabalho apresentamos o percurso metodológico desenvolvido na pesquisa-ação Mulher e Trabalho na Agricultura Familiar, realizada pelo SOS Corpo Instituto Feminista para a Democracia e o Movimento da Mulher Trabalhadora Rural do Nordeste/MMTR-NE, entre 1999 e 2004. A pesquisa foi feita em sete comunidades de sete estados do Nordeste, tendo as lideranças do MMTR-NE como entrevistadoras e envolvendo 158 pessoas, que compunham 51 famílias. Faremos uma breve análise sobre o modo como o próprio problema de investigação foi construído e, em seguida, apresentamos a descrição dos processos e das decisões metodológicas que orientaram o nosso trabalho, finalizando com algumas questões éticas e metodológicas para a pesquisa feminista.
PDF

Ana Paula Portella, Verônica Ferreira, Sheila Bezerra - SOS Corpo
Conhecimento é poder: a pesquisa como parte da militância política feminista
O Observatório da Violência contra as Mulheres em Pernambuco é um projeto do SOS CORPO Instituto Feminista para a Democracia voltado para a produção e disseminação de informações e debates críticos sobre a violência contra a mulher, com o intuito de subsidiar a atuação dos movimentos de mulheres e dos agentes públicos no seu enfrentamento. Propõe ainda a construção de um espaço de interlocução entre sociedade e Estado para a formulação de propostas que venham a atuar sobre as diversas faces do problema. Criado em 2005, é hoje um importante mecanismo que subsidia, tanto em termos de informações quando de novas análises sobre o problema da violência contra as mulheres, a ação do movimento de mulheres no nivel local e nacional. Neste trabalho, pretendemos discutir essa experiência e os desafios que traz tanto para a produção de conhecimento quanto para a ação poítica feminista.
PDF

Carmen Hein de Campos
Entre fronteiras: direito penal e feminismo legal
A divisão entre militância e academia, em particular entre o direito penal e a teoria legal feminista tem trazido importantes questões: como defender o direito das mulheres, os direitos humanos e a (des)necessidade da punição? É possível sair ilesa dessa complexa relação?
PDF

Carmen Susana Tornquist - UDESC
Liminaridade e auto-exorcismo na pesquisa antropológica e feminista: reflexões sobre uma experiência
Pretendo abordar os dilemas de quem elege um tema e/ou universo de pesquisa e se envolve com seus “informantes”, afetiva e politicamente. No caso, trato da pesquisa que fiz junto ao movimento pela humanização do parto e do nascimento, do qual passei a fazer parte. Além dos dilemas comuns ao trabalho antropológico, há a dimensão de gênero, o que coloca em cena o seguinte dilema: como manter a fé em certos ideais, que caracteriza o engajamento político, tendo introduzido o relativismo no olhar, que construímos por dever de ofício? Acredito que o processo de relativização do que nos é familiar é, efetivamente, um processo de desenraizamento permanente, situação que nos aproxima dos imigrantes e viajantes, que vivem em estado de liminaridade, fruto de seus deslocamentos contínuos.
PDF

Cecilia Maria Bacellar Sardenberg - UFBA
Histórias sinceras do feminismo acadêmico militante
Recentemente, chegaram-nos rumores de que, no movimento de mulheres de Salvador, nós, do NEIM, somos hoje identificadas com o “feminismo acadêmico”, rótulo este que sempre inspira torcidas de nariz por parte das “militantes”. No nosso caso, porém, isso é verdadeiramente irônico; na academia, não foram poucas as vezes em que fomos criticadas pelo nosso“radicalismo feminista”, ou por usarmos a academia como espaço de militância. Neste trabalho, proponho-me a refletir sobre essas e outras tensões e ambivalências que vêm caracterizando nosso trabalho no NEIM nas duas últimas décadas. Pretendo argumentar que o “fazer feminismo acadêmico” na Bahia tem exigido nossa constante militância, não fazendo sentido, portanto, contrapormos “militar” com “pesquisar”, mas sim pensarmos em frentes de luta diversas nas quais o fazer feminismo requer nossa militância.
PDF

Dieuwertje (Dyi) Huijg – Universidade de Amsterdam
Contra Quem? A conflituosa posição da militante jovem branca na luta transformadora
PDF

Elisiane Pasini
Reflexões sobre a relação entre a academia e a militância na formação política de jovens mulheres: o caso das jovens multiplicadoras de cidadania
Depois de um período desenvolvendo diferentes pesquisas etnográficas, com ênfase no tema das relações de gênero, encontro-me atualmente coordenando um programa de formação política de jovens mulheres da periferia de Porto Alegre, em uma tradicional ONG feminista (Jovens Multiplicadoras de Cidadania – Themis: Assessoria Jurídica e Estudos de Gênero) em que cotidianamente percebo a problemática instaurada da vivência do feminismo. Diante desta nova experiência, questiono-me sobre as diferenças entre as discussões acadêmicas de gênero e da militância política do feminismo? Como isto é vivido por estas jovens? Que tipo de projeto uma ONG feminista constrói junto ao grupo? Nesta apresentação refletirei como as minhas elucubrações acadêmicas e a minha trajetória como antropóloga dialogam com a experiência deste grupo de jovens mulheres.
PDF

Elizabeth Gomez Etayo - UNICAMP
Cuando las feministas son agredidas
Por ser feministas, bien sea militantes o académicas, no tenemos una inmunidad especial contra las distintas formas de agresión que se dan contra las mujeres en general. Por el contrario, ser feministas se puede convertir, en un momento dado, en un factor de riesgo para ser agredidas, dado que la vergüenza social y el juicio moral impiden una denuncia a tiempo. Qué pasa cuando con las mismas mujeres que saben de derechos, que han sido educadas, que son de clase media han sido víctimas de alguna forma de violencia? La presente ponencia tienen como objeto analizar esta situación a partir del caso de una feminista que compartió su testimonio para la realización de mi tesis de Maestría en Sociología sobre violencia física contra mujeres en Cali.
PDF

Fabíola Mattos Pereira, Flávia Maria Silva Rieth - UFPel
Incomunicabilidade, os limites da pesquisa acadêmica frente à militância
Este trabalho discute a partir de uma pesquisa sobre a gravidez na juventude, os impasses do trabalho de campo em um bairro de classe popular em Pelotas – RS. A militância em movimentos sociais motivou minha inserção na academia e a realização deste estudo. Em campo, no lugar de pesquisador, superou-se a compreensão simplista das relações e dinâmicas sociais presentes na concepção de gravidez na juventude como um problema social, que servem de orientação às políticas públicas e de argumento de um discurso de militância e intervenção social. A relativização das experiências dos jovens foi essencial para contrapor tal concepção. A incomunicabilidade retrai o debate entre academia e militância, ao proclamar a gravidez enquanto problema social acaba por ‘cegar’ quem discorda e ‘silenciar’ quem apresenta um novo argumento.
PDF

Gabriele dos Anjos - Fundação de Economia e Estatística
Mulheres militantes e usos das ciências sociais
No texto abordo as condições de pesquisa sociológica sobre militâncias femininas a partir de uma experiência de pesquisa de campo em organizações de mulheres vinculadas a igrejas, na qual as expectativas das militantes quanto às possibilidades de uso da pesquisa entravam em confronto com meu esforço de distanciamento. A partir da análise das situações em que se apresentaram estas expectativas, é possível identificar como elas estavam relacionadas às concepções de ciências sociais das pesquisadas. Tais situações oferecem elementos para refletir sobre as atuais condições culturais e institucionais de exercício das ciências sociais, as quais são concebidas por parte de seus profissionais como estando a serviço de diferentes “causas”. Isto tanto impõe limites à autonomia das ciências sociais como coloca obstáculos à prática de pesquisa. No texto abordo as condições de pesquisa sociológica sobre militâncias femininas a partir de uma experiência de pesquisa de campo em organizações de mulheres vinculadas a igrejas, na qual as expectativas das militantes quanto às possibilidades de uso da pesquisa entravam em confronto com meu esforço de distanciamento. A partir da análise das situações em que se apresentaram estas expectativas, é possível identificar como elas estavam relacionadas às concepções de ciências sociais das pesquisadas. Tais situações oferecem elementos para refletir sobre as atuais condições culturais e institucionais de exercício das ciências sociais, as quais são concebidas por parte de seus profissionais como estando a serviço de diferentes “causas”. Isto tanto impõe limites à autonomia das ciências sociais como coloca obstáculos à prática de pesquisa.
PDF

Karla Galvão - UFSC
Sobre as implicações de pesquisadora feminista no trabalho de campo: pensando as proximidades e os distanciamentos
Realizar observação participante, desde uma perspectiva etnográfica apresenta-se como método rico de significados, ao levar este em conta, para além dos discursos das/os informantes, os ditos e não ditos da pesquisadora. Interessa discutir sobre as imbricações nesta teia de relações, onde, ao estar no movimento, entre a militância do movimento feminista brasileiro e da academia, por um lado, e da necessidade de distanciamento para reflexão teórico-metodológica, me vi configurando as diversas janelas que se abriam, entre minhas próprias lembranças de militante, o distanciamento de pesquisadora que observa e busca estranhar o cotidiano tão familiar, e os fatos e falas que me eram relatados e vivenciados nos momentos de contato com o campo, nas Conferências Estadual e Nacional de Políticas para Mulheres, nos anos de 2004, e no X Encontro Feminista Latino-Americano e do Caribe, em 2005.
PDF

Mariana Carlos - UNISC
Militar no movimento de empregadas domésticas: representações e práticas políticas
Pretendo apresentar considerações acerca do projeto “Experiências Culturais / Possibilidades Políticas: serviço doméstico, clientelismo e cidadania”, orientado pela Profa. Dra. Jurema Brites. A investigação tem como objetivo principal discutir sobre a inserção das empregadas domésticas no movimento sindical, buscando as formas distintas de prática e representação política nas interpretações da cultura brasileira. A construção de biografias permitiu apreender os sentidos das relações de poder travadas entre empregadas domésticas sindicalistas e seus patrões, assim como, a experiências dos sujeitos investigados no decorrer de suas trajetórias individuais como militantes. Ao apresentar a trajetória da fundadora da Associação da categoria de Porto Alegre, pretendemos contribuir para o debate acerca da importância do uso das biografias nos estudos sobre mulheres e gênero.
PDF

Pedro Francisco Guedes do Nascimento - UFRGS
Antropologia, feminismo e masculinidades ou o que os “papudinhos” de Camaragibe têm a ver com o debate sobre os “homens no feminismo”
Entre 1997 e 2004, enquanto era um antropólogo em formação desenvolvendo pesquisas etnográficas sobre gênero e masculinidades, eu era também ativista e membro da coordenação da ONG Instituto Papai, Recife-PE. Uma das motivações centrais daquelas pesquisas era a busca de um olhar que desse conta da diversidade das experiência dos homens e suas relações com as mulheres. Tomando por base essa diversidade, o Instituto Papai, propõe uma ação que leve à participação dos homens em esferas tradicionalmente femininas, identificando-se com o ideário feminista. Neste trabalho, a partir da prática etnográfica e de experiências enquanto profissional e ativista, reflito em que medida se dava a possibilidade de diálogo das questões refletidas em campo com a prática política da instituição na qual me inseria e desta com o campo de interlocução com o feminismo.
PDF

Rosineide de Lourdes Meira Cordeiro, Milagros C. Garcia Cardona - UFPE/Universidad Centroccidental Lisandro Alvarado/Venezuela
Processos de negociação e posicionamentos interativos em pesquisa social
Discutiremos neste trabalho os processos de co-produção de sentidos na pesquisa e as opções teóricas, metodológicas e práticas assumidas nos trabalhos de investigação. Para isto, dialogaremos com o debate feminista contemporâneo, com uma vertente da psicologia social denominada de práticas discursivas e produção de sentidos no cotidiano e a antropologia crítica com sua noção de reflexividade. Discutiremos as noções de lugar, posicionamentos interativos e saberes situados. Faremos uma reflexão sobre um tipo de investigação em psicologia social que se orienta à compreensão de fenômenos social complexos, não uniformes e de grande riqueza em suas manifestações locais. Queremos entender o papel dos (as) interlocutores (as) nas nossas investigações como co-participes da construção de narrativas e das decisões que tomamos no decorrer da pesquisa. Apresentaremos exemplos das nossas tese de doutorado, particularmente, os processos de negociação entre pesquisadora e grupos pesquisados.
PDF

Shirley Aparecida de Miranda - UFMG
Indagações de uma pesquisadora militante: as implicações com o objeto de pesquisa
PDF

Sonia Corrêa - ABIA
Produção do conhecimento e ação política feminista: a suspeita, o encanto, o encontro... E os pontos cegos – o que há de novo?
Há recorrências, mas também diferenças entre as tensões atuais e aquelas experimentadas anteriormente. Cabe portanto refazer os percursos de encontro e desencontro entre teoria, investigação e ação política feminista. As tensões atuais se vinculam ( ou não) à desconfiança dos anos setenta em relação às mais diversas tradições teóricas (que não respondiam às inquietações feministas? As teorias feministas contemporâneas teriam contribuído para a diluição da tensão? Ou contrário, constituem um fator de acirramento? A maior pluralidade (racial, étnica, de classe e sexual) do campo feminista estaria (ou não) suscitando novas fricções e desconfianças? Em que medida o que se passa no campo feminista é apenas reflexo de uma tendência mais geral de distanciamento entre produção do conhecimento e política?
PDF

Soraya Fleischer - UFRGS
Ônus e bônus metodológicos ao etnografar a partir/através de ONGs feministas
Em minha pesquisa de doutorado, meu foco foi conhecer de perto como atualmente parteiras trabalham e se relacionam com os serviços oficiais de saúde e com grupos “externos” (e.g. ONGs, Ministério da Saúde, pesquisadores e jornalistas etc.). Para tanto, optei por tomar um “atalho metodológico”: chegar às parteiras por meio de ONGs feministas que lhes assessoravam e treinavam. Neste artigo, pretendo comentar e comparar a pesquisa de campo realizada dentro e a partir de duas ONGs, na Guatemala e no Brasil. Pretendo ressaltar aspectos como: as credenciais e a negociação usadas para a entrada, a interpretação êmica sobre o papel da Antropologia, os conflitos e frustrações (principalmente em relação à díade pesquisa-engajamento), as des/vantagens de usar esse atalho metodológico e possíveis lições que decorrem de toda essa experiência.
PDF

Victoria Regina dos Santos - SSP/SC/UFSC
A intervenção profissional, a militância e a realização de pesquisas acadêmicas: discutindo a inserção em campo
Trata-se de um estudo inserido num programa de prevenção da violência urbana, realizado no âmbito da pesquisa em Delegacias de Proteção à Mulher de Santa Catarina para a consecução do Mestrado em Antropologia Social concomitantemente ao exercício profissional e à militância em organizações de defesa dos direitos da mulher e comunitária para desenvolver projetos de pesquisa, propostas de intervenção profissional em uma agremiação recreativa, cultural e de samba. Discute-se neste texto a relação pesquisador-pesquisados, o engajamento profissional, militante e comunitário, destacando-se as limitações e as contribuições para a produção científica, para a elaboração de políticas públicas e de projetos de intervenção. Preliminarmente constatou-se a relevância dos vínculos estabelecidos, dos contratos firmados e das expectativas dos envolvidos.
PDF