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Coordenação:
Profa. Dra. Anita Brumer
UFRGS

Profa. Dra. Maria Inês Paulilo
UFSC

Profa. Dra. Gema Galgani Esmeraldo
Universidade Federal do Ceará/UFC, Estado do Ceará

A década de 1990 é marcada pela emergência de movimentos de mulheres negras, indígenas, rurais, ambientalistas, homos-sexuais, que no interior das diferenças de sexo e de gênero buscam dar visibilidade à diversidade constitutiva dessas mulheres. Nesse bojo mulheres rurais adentram o campo político, econômico, cultural, para expor essa multiplicidade.
As mulheres rurais criam movimentos específicos, organizam grandes manifestações públicas para exporem suas especificidades e reivindicações próprias.
Essas mulheres estão a provocar um outro pensar acadêmico: que não há uma categoria mulher unitária, que as mulheres não são seres homogêneos e que, no seu interior cabem diferenças de raça, de etnia, de geração e de classe social.
Para a academia novas possibilidades de estudos se apresentam a partir das diferentes colorações dessas faces, das diversas experiências, das variadas formas de assujeitamento e da diversidade de condições e de relações de poder vivenciadas.

Gênero e agricultura familiar: projetos de jovens filhos de agricultores familiares na Região Sul do Brasil
Anita Brumer; Graziela Castro Pandolfo e Lucas Coradini (UFRGS)

Neste trabalho pretendemos examinar as diferenciações de gênero presentes no meio rural, comparando as avaliações de rapazes e moças sobre o trabalho agrícola, o modo de vida dos pais e a vida no meio rural, assim como as possibilidades de união conjugal, dimensões que devem ser levadas em consideração para o entendimento do processo de construção de seus projetos de vida e as perspectivas de reprodução da agricultura familiar. Para a elaboração do trabalho, utilizamos os dados de uma investigação com base em 1677 questionários padronizados, com questões fechadas e abertas, respondidos por jovens com idades entre 15 e 26 anos da Região Sul do Brasil. Os dados foram analisados com auxílio do SPSS, permitindo cruzamentos por sexo e grupos de idade, com as demais questões de interesse para a pesquisa. Os dados apontam para uma acentuada diferença nos projetos de vida entre rapazes e moças, entre os primeiros predominando o interesse pela atividade agrícola e entre as segundas o investimento na formação para o mercado de trabalho urbano. No entanto, esses projetos não são necessariamente antagônicos, tendo em vista a possibilidade de conciliação entre o exercício de uma atividade urbana e a vida no meio rural, a concretização de uma aliança matrimonial com um cônjuge herdeiro(a) de terras e a permanência no estabelecimento agrícola familiar no caso de atendimento das expectativas dos jovens em termos de terra, recursos e melhoria nas condições de trabalho e da renda.
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A diversidade e a pluralidade das mulheres trabalhadoras rurais
Berenice Gomes da Silva e Adriana Oliveira Mendes (Universidade de Brasília e Consultora do Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura no Ministério do Desenvolvimento Agrário)

O artigo aborda as ações das mulheres trabalhadoras rurais em torno da Marcha das Margaridas, um amplo processo de mobilização Contra a fome, a pobreza e a violência sexista que envolve mulheres oriundas de todas as regiões brasileiras. Esta Marcha foi retratada numa pesquisa de Mestrado em Sociologia na Universidade de Brasília como uma estratégia adotada pelos novos movimentos sociais do campo que constituem uma identidade política, a partir de problemas comuns ao meio rural brasileiro. Essa pesquisa teve como objetivos: identificar as interfaces entre o conceito de gênero, poder e identidade em torno da Marcha das Margaridas; apreender como se dá a relação entre identidade e diferença; analisar os desdobramentos dos conceitos de gênero, poder e identidade nessa rede de movimentos. O referencial teórico-metodológico foi fundamentado nas contribuições de Scott (1992); Lauretis (1994); Descarries (2003); Foucault (1979; 1988); Hall (1999); Melucci (1989; 1990) e Sherer-Warrer (2005). A estratégia adotada pela Marcha, que questiona a função do Estado, apresenta uma pauta propositiva de um novo modelo de desenvolvimento do país, é, tanto uma forma de denunciar as desigualdades existentes quanto um instrumento para cobrar a adoção de medidas não discriminatórias. São práticas sociais que constituem os saberes e os poderes das mulheres trabalhadoras rurais. A partir da apreensão do conceito de gênero como produto e processo das relações sociais, os resultados da pesquisa indicaram que, este conceito influenciou as práticas sociais das mulheres trabalhadoras rurais.
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Sinhás, donas, mães, filhas e esposas: as mulheres no romance regionalista de José Lins do Rego
Carla de Fátima Cordeiro (UNESP)

Um dos principais representantes do chamado romance social da década de trinta, que tinha como característica o retrato da realidade nordestina em seus elementos históricos e sociais, nas obras de José Lins do Rego, de forte cunho memorialista, é tratada a vida nos engenhos de cana-de-açúcar no momento de sua decadência. Considerando que a literatura pode exemplificar elementos da sociedade que o produziu, dando ênfase ao livro Fogo Morto (1943), considerada sua obra-prima, propomos a analisar as mulheres, ou seja, as representações femininas, pensando-as em relação à sociedade autoritária e patriarcalista na qual ambienta os romances de José Lins. Ora representadas como meras coadjuvantes, vendo de “camarote” a decadência de seus maridos, outras como portadoras da força motriz que dá algum sentido a vida em meio ao fim de um mundo, podemos notar uma representação ambígua dessas personagens, algo que a analise da forma e conteúdo dessas obras nos revela.
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Pelo direito de ser e estar: engajamento, mobilização e socialização política nos movimentos de mulheres rurais em Pernambuco
Caroline Araújo Bordalo (UFRRJ)

O surgimento dos chamados ‘movimentos de mulheres rurais’ no início da década de 1980 trouxe à tona não apenas a capacidade organizativa das mulheres rurais em diversos estados como também as diferenças entre estes no que toca à diversidade de formas e possibilidades de mobilização, concepções políticas e, sobretudo, as formas de socialização política levada à cabo em cada região do Brasil. Partindo do pressuposto de que os processos de socialização política e de participação são fundamentais para a compreensão da conformação de concepções de ‘política’ e de ‘ação política’, o presente estudo baseado em minha dissertação de mestrado propõe uma análise do contexto político e do processo de emergência de um movimento específico, o Movimento de Mulheres Trabalhadoras Rurais do Nordeste no ano de 1986. Ainda que o MMTR-Ne se constitua como uma organização regional, um olhar retrospectivo, direcionado àquilo que seria sua sóciogênese, nos leva diretamente ao contexto político de Pernambuco, principalmente à região do sertão central e a relação estabelecida com o sindicalismo rural levado à cabo pela Federação dos Trabalhadores Rurais na Agricultura do Estado de Pernambuco. Ser mulher e estar nos sindicatos são duas dimensões fundamentais da experiência pernambucana: a legitimidade dos movimentos autônomos de mulheres rurais e a consolidação de uma relação estreita com o sindicalismo, seu principal interlocutor político. Esse processo foi analisado com base em uma vasta pesquisa bibliográfica, documental, com ênfase na análise das trajetórias das lideranças do movimento e em pesquisa de campo realizada no sertão de Pernambuco.
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A questão de gênero na formação de jovens na Casa Familiar Rural de Marmeleiro
Clariana Maria W. Bressiani e Hieda Maria Pagliosa (UTFPR)

O presente trabalho apresenta resultados de uma investigação a respeito de como se manifestam as questões de gênero no cotidiano da Casa Familiar Rural (CFR) de Marmeleiro e das famílias envolvidas nesse projeto. Foram entrevistados os profissionais da CFR de Marmeleiro, jovens egressas, meninas que se matricularam e não vieram a freqüentar o Curso, meninas que desistiram, além de meninas e meninos que freqüentam o Curso, como também, as famílias dos diferentes grupos de jovens pesquisados. No que se refere as questões de gênero, evidencia-se duas tendências, a primeira é de que há aspectos que reforçam o sistema de dominação de base patriarcal, o que fica evidente na maior parte das situações concretas vivenciadas pelos jovens, familiares e profissionais da CFR e em alguns pontos de seus discursos. A segunda é de que há uma tendência à desestruturação deste sistema, presente na maior parte dos discursos e em poucas experiências concretas. Tanto pais, jovens, monitores e professores defendem a necessidade da igualdade de oportunidades entre os meninos e meninas e procuram garantir espaços decisórios que respeitem as demandas dos jovens. Porém, na prática e nas expectativas em relação aos papéis das meninas e dos meninos, encontram-se um reforço à discriminação e dominação. Observa-se que o espaço educativo da CFR, enquanto uma escola voltada para os filhos de agricultores familiares e com uma pedagogia que visa a formação integral, nem sempre tem conseguido enfrentar os desafios de romper com a dominação e discriminação históricas do masculino e do feminino.
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Mosaico de Identidades: Memórias de Mulheres do Assentamento 16 de Março
David José Caume e Andréa Ferreira Delgado (UFG)

A partir de um conjunto de entrevista com homens e mulheres produzidas pelos pesquisadores no Assentamento 16 de Março, em Pontão (RS), esse trabalho, entretecendo o conceito de “habitus” com o de “gênero” para a interpretação das memórias femininas, investiga a construção de múltiplas identidades de gênero. Na prática da história oral, incorporamos os estudos teóricos sobre memória a fim de compreender os mecanismos de construção das narrativas e analisá-las enquanto produção discursiva de si. A metáfora do mosaico, no qual peças diferentes se unem para formar a obra, pretende traduzir a idéia de que as experiências compartilhadas por essas mulheres no acampamento e na organização do Assentamento compõem uma memória coletiva, destacando, porém, que é a singularidade de cada uma das narrativas que nos informa acerca das identidades dessas mulheres. De um lado, as múltiplas apreensões da história e do presente, construídas a partir de diferentes lugares e posições, revelam as disputas e os conflitos entre os diferentes grupos no processo de configuração do espaço social do Assentamento. Por outro lado, em muitas entrevistas, a reconstrução da trajetória foi vivenciada enquanto momento de fazer um balanço da própria vida e avaliar suas escolhas. Desse mosaico discursivo, emergem memórias de mulheres ausentes do acampamento, de outras que organizaram esse momento da luta, de mulheres líderes no interior do Assentamento, de mulheres que participam de instâncias internas apenas sob coerção e, ainda, memórias de mulheres militantes e membros da direção do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra.
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Sistemas de Produção e gênero na agricultura familiar
Edenilse Pellegrini da Rosa e Vilênia Porto Aguiar (UFSC)

Este artigo tem o objetivo de analisar a influencia dos sistemas de produção na construção das relações de gênero dentro da agricultura familiar. A realização de uma pesquisa anterior para o Programa de Recuperação Ambiental e de Apoio ao Pequeno Produtor Rural – PRAPEM/Projeto MICROBACIAS 2, cujo objetivo foi identificar e analisar as principais questões de gênero e geração presentes nas relações sociais e produtivas que se estabelecem entre os membros das famílias rurais, nos forneceu elementos para esta análise. A pesquisa de campo aconteceu no segundo semestre de 2007, sendo que a amostragem abrangeu municípios do meio oeste, extremo oeste e planalto do estado de Santa Catarina. A metodologia utilizada compreendeu a adaptação da técnica de grupo focal aplicada à pesquisa social. O estudo orienta-se pela hipótese de que um sistema de produção familiar - o que é produzido, a forma de como acontece esta produção, assim como a renda gerada - influencia diretamente no grau de igualdade entre homens e mulheres. Assim, algumas produções determinam relações de gênero mais desiguais que outras. Os resultados da pesquisa sinalizam que em atividades ligadas a agroecologia, tendo como exemplo a produção de frutas e hortaliças, as relações de gênero constroem-se de forma mais igualitária
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Narrativas femininas de jovens do meio rural: contextos e experiências de participação sócio cultural
Fernanda Lanhi da Silva e Diana Maria Marchi (UFSC)

Este artigo tem o objetivo de analisar a influencia dos sistemas de produção na construção das relações de gênero dentro da agricultura familiar. A realização de uma pesquisa anterior para o Programa de Recuperação Ambiental e de Apoio ao Pequeno Produtor Rural – PRAPEM/Projeto MICROBACIAS 2, cujo objetivo foi identificar e analisar as principais questões de gênero e geração presentes nas relações sociais e produtivas que se estabelecem entre os membros das famílias rurais, nos forneceu elementos para esta análise. A pesquisa de campo aconteceu no segundo semestre de 2007, sendo que a amostragem abrangeu municípios do meio oeste, extremo oeste e planalto do estado de Santa Catarina. A metodologia utilizada compreendeu a adaptação da técnica de grupo focal aplicada à pesquisa social. O estudo orienta-se pela hipótese de que um sistema de produção familiar - o que é produzido, a forma de como acontece esta produção, assim como a renda gerada - influencia diretamente no grau de igualdade entre homens e mulheres. Assim, algumas produções determinam relações de gênero mais desiguais que outras. Os resultados da pesquisa sinalizam que em atividades ligadas a agroecologia, tendo como exemplo a produção de frutas e hortaliças, as relações de gênero constroem-se de forma mais igualitária.
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Mulheres da Via Campesina: ação política por novas formas de libertação?
Gema Galgani S. L. Esmeraldo (UFC)

Mulheres rurais que fazem parte de movimentos sociais rurais mistos (cito o Movimento dos Atingidos por Barragem/MAB, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra/MST, o Movimento dos Pequenos Produtores/MPP, dentre outros) têm atuado para o fortalecimento do Movimento de Mulheres da Via Campesina no Brasil como forma de exercitarem novas expressões de liberdade, de reconhecimento e de auto afirmação e para se constituírem como sujeitos políticos. Mas o que está para além dessas alianças? A construção de espaços externos aos movimentos mistos para a unificação de projetos de caráter feminista, racial, étnico, que não são acolhidos nos seus movimentos de origem? Expressões de resistência a práticas machistas, patriarcais, que desqualificam a luta das mulheres no contexto dos movimentos classistas? O fortalecimento de espaços alternativos e críticos aos discursos universais e homogêneos? Esse trabalho se propõe a realizar diálogos com as lutas recentes das mulheres da Via Campesina que escolheram o Dia Internacional da Mulher, para desenvolverem processos formativos, ações políticas e públicas que trazem à superfície um novo projeto de sociedade, onde a vida humana e a vida do planeta se conjugam. Há uma matriz ideológica radicalizada pelas mulheres e tratada nas manifestações de ocupação de grandes empresas internacionais, que relacionam a vida cotidiana das mulheres aos modelos que se instalam no planeta para orientar as novas matrizes energética, alimentar e ambiental no mundo.
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O desafio de protagonizar questões de gênero: Uma re(leitura) da criação do Movimento de Mulheres Agricultoras de Santa Catarina
Giovana Ilka Jacinto Salvaro e Mara Coelho de Souza Lago (UFSC)

Este texto tem como objetivo apresentar algumas considerações sobre a criação do Movimento de Mulheres Agricultoras de Santa Catarina (MMA/SC) a partir de estudos que tratam deste campo de interesse. Consiste em uma reflexão que foi (está) sendo produzida ao longo da revisão da literatura, orientada para o desenvolvimento de uma pesquisa de doutorado sobre o Movimento de Mulheres Camponesas de Santa Catarina. Considerando as especificidades que inspiram as análises, o modo como os estudos tratam da criação do MMA/SC não permite concluir um processo isolado e contínuo, na medida em que dão a ver um jogo de forças entre diferentes formas de organização (sindicato, igreja, partido político). De forma geral, pode-se dizer que trazem para o centro do debate o desafio de protagonizar questões de gênero na criação do movimento.
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Muitas mulheres, um mesmo movimento: considerações sobre a história no feminino e o MST na Bahia
Hélida Santos Conceição (UNEB)

As mulheres sempre estiveram presentes nas ações do MST, mas sua participação nem sempre foi reconhecida com a mesma conotação ou valor histórico-social atribuído à participação masculina. O MST preconiza em suas linhas políticas um investimento na ampliação da participação das mulheres e este é um investimento político direcionado. Este trabalho de pesquisa busca discutir que as questões relativas às mulheres e suas condições de empoderamento no MST possui um limite discursivo poucas vezes extrapolado em suas publicações e práticas sociais. Por isto, esta comunicação pretende resgatar a visibilidade histórica que as mulheres possuem neste movimento rural da Bahia, e, ainda mais, como elas ressignificam sua participação e sua história desde a década de 1980 com as primeiras ações do MST no extremo sul do estado. A especificidade deste trabalho encontra-se no questionamento do discurso histórico oficial do MST, um movimento tão permeado de referências à masculinidade. Desta forma propõe-se a utilização de conceitos que viabilizem pensar a diferença e os princípios de exclusão pelos quais este movimento ao construir sua História, deixou de fora o universo feminino e suas lutas na produção de seus discursos.
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Relações Sociais de Gênero e Violência no Campo e na Agricultura Familiar
Hulda Helena Coraciara Stadtler (UFRPE)

Este trabalho é o resultado de algumas reflexões sobre as alterações nas relações de gênero no campo e violência doméstica. As profundas alterações apontadas por teóricos para as relações de violência no campo levaram a traçar novas considerações para o aumento da participação feminina, tanto como vítima quanto como autoras da violência em unidades domésticas de produção no campo. A mudança no formato da violência no campo, apontando para o fato de que hoje ela toma conotações políticas profundas (homicídios de lideranças) na luta pela terra, e as introduções de políticas públicas empoderando as diferentes categorias de gênero, levam a verificar alterações na violência doméstica como resultado dessas duas intervenções. Resultados demonstram que mulheres hoje sofrem e praticam violência numa escala próxima a que era historicamente protagonizada por homens.
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As Ocupações e Rendas das Mulheres das Famílias Rurais Paranaenses
Jefferson Andronio Ramundo Staduto, Yonissa Marmitt Wadi, Marcelino de Souza, Carlos Alves do Nascimento e Isabel de Souza Pereira Tondo (Universidade Estadual do Oeste do Paraná)

Este trabalho examina o comportamento das ocupações e das fontes de rendas das mulheres nas famílias rurais no Estado do Paraná utilizando como base as tabulações especiais dos microdados das Pesquisas Nacionais de Amostras de Domicílios (PNADs) do período 2001 a 2005. As estimativas mostraram que na região rural como um todo o número de mulheres ocupadas decresceu significativamente, porém houve um aumento do número de mulheres exercendo atividades não-agrícolas dentro do universo das famílias conta-própria e de empregados, o que tem permitido formar uma barreira para contra o êxodo rural. Além disso, as evidências empíricas permitem afirmar que o envolvimento das mulheres em atividades não-agrícolas, como o trabalho doméstico estancou e, em um dos grupos reduziu-se, evidenciando melhores oportunidades em trabalho menos precário. Fundamentalmente indicam a possibilidade de inserção da mulher em ocupações que não se constituam uma simples continuação do trabalho do seu lar, de tal ordem que abrem oportunidades de problematização das relações de gênero. Verificou-se também uma participação expressiva das fontes de renda não-agrícola e de transferências sociais na forma de aposentadorias e pensões entre as mulheres das famílias pertencentes ao universo da agricultura familiar. O aumento da participação das mulheres rurais em atividades não-agrícolas pode estar contribuindo para uma alteração nos papéis desempenhados por elas dentro das famílias, isto ocorre paralelamente ao desenvolvimento das organizações e movimentos de mulheres tanto urbanos quanto rurais, bem como à inflexão das políticas públicas em relação ao gênero.
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Mulheres quebradeiras de coco babaçu – política e natureza
Josoaldo Lima Rego (USP)

Este trabalho procura discutir algumas questões evidenciadas no âmbito das relações desenvolvidas por grupos de mulheres extrativistas no Maranhão. Destaca-se o interesse voltado para as discussões que levam em consideração os processos de produção da natureza e seus significados em torno de práticas ancoradas na constituição de diferentes saberes sobre. Busca-se, inclusive, identificar qual o peso dos significados e usos da noção de natureza para a construção de uma identidade coletiva, quebradeira de coco babaçu, e quais as formas de recriação dessa noção em face de novos padrões econômicos e ambientais que marcam as atuais formas de reprodução do espaço em parte do Nordeste e da Amazônia. A defesa dos babaçuais apresenta características advindas de intervenções de caráter político no uso e apropriação da natureza através do modelo de agroextrativismo (sistemas de roças orgânicas) -, e propostas de legislação específica de proteção dos babaçuais contra a derrubada das palmeiras, em torno do reconhecimento de um saber tradicional no que diz respeito ao sistema de uso comum dos babaçuais. A partir do processo de mobilização política das quebradeiras de coco no contexto de formação de um movimento social (Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu – MIQCB), ao discurso da natureza passa a ser incorporado um instrumento discursivo caracterizadamente político, entendido através das possibilidades de relações simbólicas e econômicas estabelecidas por meio de vínculos dessas mulheres e das organizações que elas integram com as palmeiras e com os babaçuais - significativamente compreendendo que o uso e a apropriação do ecossistema estão também dimensionados, atualmente, junto a um componente discursivo.
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A divisão sexual do trabalho e as desigualdades de gênero na agricultura familiar: da subalternidade e exclusão social à emancipação das mulheres agricultoras através das políticas públicas.
Mailiz Garibotti Lusa (UFSC)

Nas últimas décadas percebeu-se a emergência de um ‘novo mundo rural’, fruto entre outros fatores, da reestruturação produtiva da sociedade capitalista que atingiu de forma diferente campo e cidade. Em decorrência disto, e geralmente sem serem percebidos, passam a co-existir, no meio rural, aspectos conseqüentes da modernização do campo e aspectos do ethos camponês, tradicional e conservador, baseado em valores e costumes construídos pelas gerações passadas e reproduzidos pelas gerações atuais no cotidiano rural. Neste sentido, verifica-se que permanece uma situação de desigualdade entre homens e mulheres decorrentes de um longo processo de construção e incorporação da divisão sexual do trabalho e das demais relações de poder envolvendo gênero, as quais são constituintes do modo de vida camponês. Isto denota que as mulheres encontram-se ainda em situação de submissão e dependência em relação ao homem, agravando ainda mais a exclusão social vivida por serem agricultoras. Instigada por esta realidade, realizou-se uma pesquisa com abordagem qualitativa e de base exploratória, utilizando como técnicas procedimentais a pesquisa bibliográfica e a entrevista semi-estruturada que foi realizada na região do oeste catarinense. O artigo em tela apresenta a discussão dos dados obtidos, enfocando diretamente as relações de poder reproduzidas inclusive pela ‘Divisão Sexual do Trabalho’ no campo, as quais corroboram para a exclusão social das agricultoras. Nele são abordadas categorias como gênero, poder, dominação, subalternidade, necessidades humanas, insegurança social, exclusão social e emancipação. Finalizando, indica-se políticas públicas com perspectiva de gênero para o meio rural segundo as demandas das próprias agricultoras entrevistadas.
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Gênero, Violência e Educação no Campo
Marcílio José da Silva e Hulda Helena Coraciara Stadler (UFRPE)

O propósito desta comunicação é fazer uma reflexão sobre a violência da desigualdade social que afeta as questões de gênero, a partir das práticas educativas de uma ONG feminista que atua na direção de transformar esse cenário. Gênero é um conceito discutido no âmbito das relações de poder, e, portanto inclui aspectos da violência simbólica, que é caracterizada pelo processo histórico de exclusão do feminino em relação ao masculino observado nas diferentes esferas do cotidiano como os espaços do trabalho e o acesso à educação. As práticas educativas, são analisadas sob a ótica da pedagogia social que configura o trabalho de formação política e cidadã desenvolvido por algumas ONGs no meio rural. O processo metodológico é constituído de um levantamento histórico da ONG, de entrevistas com membros fundadores e jovens
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Vidas de mulheres: dos cocais maranhenses às periferias das cidades
Maria Aparecida de Moraes Silva (UFSCar)

O objetivo deste texto é a análise das redefinições sociais e laborais do processo migratório de milhares de camponeses do estado do Maranhão, situado no nordeste do Brasil, para o trabalho nos canaviais do estado de São Paulo, sob a ótica de gênero. Este processo é resultante da expropriação havida na última década nesta região. A análise visa também a compreensão da migração temporária enquanto processo envolvendo aqueles que partem – homens, adultos e jovens - e aqueles que ficam – mulheres e crianças. Contudo, nos últimos anos, tem se verificado a presença de muitas mulheres acompanhando maridos, filhos e até mesmo netos. O universo empírico da investigação se concentrou em duas cidades de origem dos migrantes –Timbiras e Codó, situadas no sudeste do estado do Maranhão – e na região de destino de Ribeirão Preto, considerada o maior pólo produtor de açúcar é álcool do país. A metodologia empregada baseou-se na história oral, por meio da coleta de depoimentos, registros imagéticos e fontes escritas, basicamente, processos jurídicos movidos pelos camponeses que foram expropriados. As principais conclusões da pesquisa revelam que, embora as mulheres não façam parte da força de trabalho empregada no corte da cana, elas desempenham papéis importantes para assegurar a permanência da família – quer migrando ou não -, para manter os vínculos com os locais de origem e também para redefinir os territórios migratórios sob a ótica feminina, geralmente, interpretado tão-somente vis-à-vis os homens. Tornar visível as mulheres é também verificar o processo de perda da condição camponesa, enquanto quebradoras do coco babaçu nas florestas de cocais maranhenses.
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Temas transversais na agricultura familiar: pesquisa e método sob o enfoque de Gênero e gerações
Maria de Lourdes Novaes Schefler (UFBA)

Este artigo insere-se no contexto das reorientações temáticas e teóricas que alimentam os debates atuais sobre o mundo rural. Apresentam-se resultados da pesquisa de validação da metodologia Análise-diagnóstico de Sistemas de Atividades, sob o enfoque de gênero e gerações, em assentamentos de reforma agrária, em estados do Nordeste do Brasil. A metodologia pretende contribuir para o entendimento da lógica que organiza a produção e as relações entre os atores/atrizes desta cena: a unidade rural familiar Discute-se a transversalidade das categorias gênero e as idades-gerações, contrapondo-se os métodos que dão conta da análise dessas dimensões ao modo dominante de fazer ciência, cujo conhecimento se produz e se transmite de forma socialmente acrítica, dissociado dos sujeitos, dos valores culturais e da influência do senso comum. Destacam-se a família e a comunidade rural – lócus de relações de troca e de reciprocidade intergeracionais, mas também de tensões e disputas entre os sujeitos por posições nesses contextos. Analisa-se o trabalho doméstico e sua contribuição como atividade estratégica na composição da renda familiar, quantificando-se as rendas da família – as rendas agrícolas e as rendas não-agrícolas, segundo o gênero e faixas de idade/gerações, nas quais se observam as rendas mensuráveis com valor de troca (mercado), as rendas mensuráveis com valor de uso (auto-consumo) e também as rendas não-mensuráveis com valor de uso (a renda oculta do trabalho doméstico), estas estimadas pelo custo de oportunidade da força de trabalho da mulher, segundo as condições objetivas do mercado de trabalho geral e doméstico, em âmbito regional.
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O Silêncio: produto e produtor de violência contra as mulheres no Sertão.
Maria do Carmo Soares D’Oliveira (MDA)

Nossa pesquisa trabalha numa perspectiva de gênero no desenvolvimento sustentável, no Território Sertão do Cariri, Paraíba. Este espaço é predominante rural, marcado pelas relações de dominação, coronelistas, patriarcais, produto e produtoras de variadas formas de violência e de sustentação de uma ordem de gênero desigual.
A violência contra as mulheres nesta Região se expressa não apenas através do homicídio de mulheres, mas também na sua exclusão e/ou limitação do acesso aos direitos econômicos, sociais e culturais.
Uma questão central nesta re-produção de violência é que as mulheres não se reconhecem, e não são reconhecidas, como um ser de direitos. No campo da organização para atividade econômica podemos verificar as dificuldades vivenciadas pelas mulheres:
"[...] Toda vez quando a gente precisava ir a Monteiro as pessoas aqui do assentamento ficavam falando mal da gente, diziam que a gente não ia fazer coisa que prestasse por lá [...]” (Assentada Grupo de Mulheres, Assentamento Novo Mundo,Camalaú, 2006)
Essas mesmas dificuldades de reconhecimento dos direitos das mulheres podem ser constatadas na área da saúde, na qualificação profissional, no aspecto educacional, em relação à propriedade da terra e às atividades de lazer.
Portanto, abordar o tema da violência contra a mulher no meio rural é falar de um silêncio que se revela de diversas formas, em vários não-ditos. O enfrentamento dessa violência pressupõe dar voz a essas mulheres, des-naturalizando as desigualdades entre homens e mulheres e fazendo soar a constatação da existência de uma “aceitação” de condições perversas de produção e de reprodução da vida.
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“Intelectuais & militantes” ou a possibilidade de diálogo
Maria Ignêz Silveira Paulilo (UFSC)

Uma das grandes conquistas do feminismo foi mostrar que a posição subordinada das mulheres nas sociedades não se justifica biologicamente. A desconstrução da explicação biológica foi fruto de uma luta tão longa e difícil que há um medo constante de seu retorno. Daí o rótulo de “essencialistas” dirigido às pensadoras que defendem diferenças associadas ao corpo. O que pretendo discutir neste artigo é a capacidade mobilizadora da imagem de semelhança entre “mulheres” e “terra”, ambas como geradoras de “vida”, na luta das agricultoras ligadas ao Movimento de Mulheres Camponesas contra sementes híbridas e transgênicas, reflorestamentos e transformação dos alimentos em commodities. Concordo com Bina Argawal de que há um ecofemismo surgido das práticas cotidianas; concordo também com Carol Gilligan quando diz que a ética feminina está ligada ao “cuidado” pela saúde e bem-estar da família. Porém, as mulheres do MMC inscrevem em seus próprios corpos as explicações de que necessitam para enfrentar a dura tarefa de modificar as práticas que as sufocam. Como construir um diálogo entre cientistas sociais, e é isso que somos, embora não sejamos só isso, e as militantes do movimento camponês existente no Brasil? É este o desafio.
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Gênero e Inovação Tecnológica em Contextos Rurais
Maria Mercedes Montero Bartolomé (III de Madrid; Facultad de Ciências Sociales y Jurídicas)

Propomos considerar o gênero como uma estratégia transversal de análise e atuação em programas de desenvolvimento rural baseados em tecnologias alternativas aplicadas a contextos rurais em países em desenvolvimento. Devemos considerar o papel fundamental que a mulher tem em seus contextos culturais como agente ativo de mudança e sobrevivência da economia comunitária; tentando superar o preconceito da sua invisibilidade como sujeito social.
Quando se analisam processos de inovação tecnológica é comum reportar uma “resistência” dos coletivos de mulheres aos novos usos materiais, sem considerar a forma com que se propõem essas mudanças nem o poder que o domínio de uma ou outra inovação significa, esquecendo que a tecnologia é também uma construção social.
Essa análise relaciona-se com uma visão errônea da dicotomia entre sociedades tradicionais e modernas, que considera as primeiras desprovidas de mecanismos de mudança, sendo esses inerentes às segundas.
A presente pesquisa está baseada em sete anos de trabalho etnográfico de campo em áreas rurais africanas e espanholas, enfocando o desenvolvimento rural através da inovação tecnológica da energia solar fotovoltaica.
Um dos principais aprendizados obtidos com o trabalho foi considerar o gênero como uma estratégia transversal para a compreensão dos processos de inovação no desenvolvimento rural. Este não pode ser entendido a partir da perspectiva dos mercados internacionais, mas sim da sustentabilidade em um determinado espaço e tempo, sendo somente possível se considerar-mos a atuação feminina e sua liderança em melhores práticas ambientais que contribuem a uma melhor sustentabilidade sócio-cultural.
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A situação das filhas na transmissão do patrimônio na agricultura familiar
Rosani Marisa Spanevello (UFRGS)

A situação das filhas na transmissão do patrimônio na agricultura familiar
Este trabalho trata da questão da transmissão do patrimônio entre os agricultores familiares localizados na Quarta Colônia de Imigração Italiana - região central do Rio Grande do Sul. A transmissão do patrimônio é abordada sob a ótica dos pais, visando mostrar os arranjos e a formas de compensação dos filhos por ocasião da partilha do patrimônio e, principalmente, averiguando as diferenças entre filhos e filhas. A análise dos dados permite constatar que os arranjos relativos à transmissão do patrimônio visam assegurar o estabelecimento familiar para os filhos, majoritariamente um só filho homem, enquanto os demais podem receber diversas formas de compensação. No entanto, o papel reservado aos filhos é distinto ao das filhas, pois elas não são as sucessoras e não recebem o estabelecimento familiar na partilha do patrimônio, embora recebam várias formas de compensação podendo, inclusive, ser observada mais de uma, tais como estudo e dinheiro. As filhas somente recebem o estabelecimento familiar quando são filhas únicas.
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Mulheres na Construção de Ações Empreendedoras na Zona Rural de João Pessoa desenvolvida na Região do Baixo Gramame, João Pessoa, Paraíba
Loreley G. Garcia, Sandra Raquew Santos Azevedo, Mônica Franch e Idalina Santiago (UFPA)

Este trabalho discute os resultados de pesquisa realizada na área rural de João Pessoa englobando uma comunidade remanescente de quilombolas no município do Conde, apresentando os significados, práticas e impactos de um projeto de desenvolvimento integrado, coordenado por mulheres que compõem uma OSCIP local, com ações destinadas especificamente a mulheres de baixa renda. Sem o enfoque nas relações de gênero o projeto de ações empreendedoras revela tensões e rupturas advindas do questionamento de papéis tradicionais de gênero na trajetória destas mulheres em sua busca por autonomia. A dinâmica de interação entre mulheres de classes sociais, gerações e origens (rural e urbana) diferentes nos mostram aspectos simbólicos e ideológicos que permeiam as práticas de mediação e as propostas de atuação em rede no Terceiro Setor. Utilizando como matriz simbólica a realização dos sonhos individuais, a OSCIP articula as mulheres para o trabalho coletivo de beneficiamento e comercialização de pimentas, deixando evidente as diferentes percepções sobre trabalho, família, poder e autonomia que norteiam o projeto. E nos mostra como se (des)articulam na prática as categorias gênero, empreendedorismo, sonhos e empoderamento no contexto deste trabalho de investigação.
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Mulheres agricultoras: práticas e discursos de resistência
Vera Martins (UNISINOS)

Há 13 anos as mulheres agricultoras do RS, organizada como movimento social, publicam o jornal Desperta Mulher, onde se vê materializada sua história de lutas. Ao analisar as 6 edições do ano de 2004, busco com este texto compreender as possibilidades deste veículo de comunicação como representação de práticas de resistência à lógica masculina, que norteia as relações sociais, não só no contexto rural. Meu olhar sobre este jornal será orientado por conceitos da Semiótica da Cultura, principalmente a partir das propostas do semioticista alemão Harry Pross, e pelos Estudos de Gênero, através de Guacira Lopes Louro. O diálogo aqui proposto busca aproximar os entendimentos de “violência dos símbolos sociais” (Pross) e as reflexões a cerca do ordenamento da sociedade em binômios (Louro), cujo elemento precedente é sempre o masculino, identificando no jornal movimentos possíveis de contraposição a este arranjo social naturalizado.
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