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Coordenação:
Mônica Abdala
Doutora em Sociologia, Professora Adjunto III no Depto. Ciências Sociais/ FAFCS/ Universidade Federal de Uberlândia

Renata Menasche,
Doutora em Antropologia Social, Pesquisadora da Fundação Estadual de Pesquisa Agropecuária (FEPAGRO) e Professora do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Rural da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PGDR/UFRGS)

Viviane Kraieski de Assunção
Mestre em Antropologia Social, Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da UFSC

No ato alimentar humano são ingeridos nutrientes, mas também valores. O quê, como, quando, onde e com quem se come refletem escolhas realizadas por um grupo social. Visões de mundo se expressam nos atos de selecionar e combinar ingredientes e modos de preparo da comida, de eleger maneiras de ingeri-la e de descartá-la. Assim é que podemos dizer que a cultura se materializa no prato e, ainda, que a comida fala, expressando identidades e relações sociais, inclusas as de gênero. Na comida e nos saberes e práticas a ela relacionados, masculinidades e feminilidades são produzidas, reproduzidas, atualizadas.
A confluência entre as pesquisas em Alimentação e Cultura e em Gênero conforma uma área de estudos já consolidada em âmbito internacional – estamos aqui nos referindo aos estudos em Food & Gender – e a proposta deste Seminário Temático visa a impulsionar este campo no Brasil. O objetivo deste ST é reunir trabalhos que evidenciem, analisem e discutam as possíveis intersecções entre comida e gênero, abordando questões como: de que modos identidades de homens e mulheres, em diferentes contextos sócio-culturais, podem ser relacionadas a saberes e práticas alimentares? Que associações podem ser percebidas entre alimentação e manifestações cotidianas das posições e relações sociais de gênero? Que relações podem ser identificadas entre comida e constituição de corpos generificados? Como as injunções entre comida e gênero são perpassadas por geração, raça, classe? Seriam as relações sociais de gênero e as hierarquias a elas referentes, na família e na sociedade, observáveis à mesa?

Ressignificando o cozinhar na práxis dos movimentos sociais da Argentina atual
Adriana Marcela Bogado (UFSCar)

A comida, seu preparo e fornecimento, mesmo sendo atividades consideradas fazeres femininos, assumiram em determinados contextos um caráter político. Há exemplos que revelam o cozinhar como uma forma de engajamento das mulheres apoiando a militância de parceiros, pais, filhos, amigos etc., mas que por estar amparada no espaço doméstico permaneceu como uma resistência invisível. Com a crescente presença de mulheres em movimentos sociais na Argentina nas últimas décadas, percebemos que o cozinhar também passou a ocupar o espaço público. De fato há formas de protesto como a “olla popular” que consistem numa refeição coletiva. Assim, nos movimentos sociais o cozinhar é um saber, geralmente, valorizado porque serve à ação política. Porém, é freqüente a interpretá-lo apenas como extensão das atividades domésticas ou simples repetição de um hábitus (BOURDIEU, 1999), desconsiderando o contexto da ação, o discurso, que a fundamenta, e as implicações que esse fazer tem para o protesto. Estudando a participação política das mulheres, em pesquisa de doutorado em andamento, observamos que a comida, sua preparação, fornecimento e consumo são práticas muito presentes e, em ocasiões, inseparáveis da ação política. A passagem do cozinhar do espaço privado para o espaço público implica na sua ressignificação, em múltiplos sentidos, transitando por momentos na ambigüidade e na ambivalência. Dominar esse saber pode se constituir em “porta de entrada” para a política; ser uma forma de engajamento; compartilhar de um espaço de sociabilidade feminina, e ainda, em contextos adversos, “amparar” a militância num estereótipo de gênero que neutraliza o caráter político da ação
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Dentro da “casa dos homens”: sobre topologias, rituais e os dilemas de uma etnóloga no campo
Adriana Romano Athila (UFSC)

Tudo se passa porque um gavião-real não pode ser consumido segundo os procedimentos usuais que os índios Rikbaktsa, habitantes do sudoeste amazônico, dedicam à grande parte de suas caças. A morte desta ave incorre em múltiplas “etapas” desenroladas em uma diversidade de espaços e que articulam pessoas de diferentes segmentos sociais, idades e, naturalmente, gêneros.
Dentre estes processos destaca-se a furação das raques das penas, o que, entre os Rikbaktsa, relaciona-se profundamente tanto à possibilidade de sua utilização em flechas e outros artefatos quanto à sua “comestibilidade”. Bastante marcadas são a “entrada” do animal no espaço público da aldeia, a retirada das penas consideradas relevantes e seu transporte até algum “domicílio”, onde serão produzidas comidas e bebidas adequadas à “furação” daquelas penas que, por sua vez, ocorrerá dentro da “casa dos homens”.
Este trabalho pontua a construção de uma etnografia que pretendeu compreender a multiplicidade de perspectivas e espaços envolvidos no “rito” do gavião-real, onde o quê “se come” e o quê se “bebe”, “como” e “por quem” foi feito é fundamental. Isto significará ampliar a descrição para além do lapso temporal em que alguns homens reúnem-se pontualmente em algum lugar do pátio da aldeia, tocam, cantam, bebem, comem e fazem tudo aquilo que parece “importar”. Esta experiência permite, mais uma vez, reconsiderar a precedência ortodoxa na articulação entre os domínios tidos como “masculino” e “feminino”, “público” e “privado”, “cerimonial” e “doméstico”, de seus possíveis atributos e sua capacidade de definí-los em um determinado contexto etnográfico
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Comida quente, mulher ausente: produção doméstica e comercialização de alimentos preparados no Rio de Janeiro no século XIX
Almir Chaiban El-Kareh (UFF)

Até 1840, a presença da mulher livre na produção e comercialização de alimentos preparados era tímida, ainda que não ausente. A partir daí, entretanto, a maior demanda de trabalhadores rurais e urbanos, provocada pelo rápido crescimento econômico da província fluminense e da cidade do Rio de Janeiro, encontrou uma barreira na interrupção do fornecimento de escravos vindos da África. Uma solução, ainda que parcial, foi encontrada na imigração de europeus. Milhares deles vieram trabalhar nas fazendas cafeeiras e a parte que se fixou na capital do Império modificou profundamente a estrutura da sociedade carioca e do seu mercado de trabalho, constituindo basicamente sua classe pobre, até então pouco numerosa, de ex-escravos. Majoritariamente do sexo masculino e celibatários, os imigrantes provocaram uma crise habitacional, de moradias de baixo custo, e uma forte demanda por alimentos preparados. A proliferação de cortiços e de pensões de famílias que forneciam refeições foi a sua conseqüência imediata. E as mulheres livres pobres viram aí uma forma de aumentar suas rendas, como pequenas empresarias: locadoras de quartos em suas próprias residências, lavadeiras autônomas e, sobretudo, fornecedoras de refeições prontas, ou seja, donas de pensão. Mas, apesar de sua inconteste importância social, elas não foram reconhecidas socialmente com empresarias, como aconteceu com as modistas. Enquanto estas últimas, intituladas de Madame, passaram a constar das listas dos profissionais urbanos do seleto Almanak Laemmert, aquelas, apesar do valor de mercado de sua produção, continuaram a ser vistas como uma simples extensão da cozinha doméstica e, por isso, socialmente desclassificadas
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Revista Capricho: a comida e as práticas discursivas de gestão do corpo
Andréa Ferreira Delgado (UFG)

Esse trabalho investiga as estratégias discursivas de produção do corpo feminino presentes nas páginas e no site da Capricho a partir da análise dos saberes, práticas e representações sociais associados à comida. Problematiza-se, assim, a mídia e a construção da identidade de gênero na sociedade contemporânea. Os textos e as imagens são minuciosamente examinados a fim de explicitar os mecanismos de montagem de um discurso sobre e para a adolescente. Emerge daí uma maquinaria discursiva que objetiva o corpo como território privilegiado da identidade e incita as adolescentes a avaliar, cuidar e agir sobre o próprio corpo, num processo de decifração e construção de si mesmas. A partir da noção de corpo a ser moldado, as adolescentes são ensinadas, nas seções da Revista e nas reportagens especiais, a relacionar a comida com a saúde e a prática de exercícios físicos. Tanto o discurso de especialistas quanto os depoimentos dos adolescentes são agenciados para estabelecer modelos de conduta, explicitamente enquadrados como positivos ou negativos. As adolescentes são estimuladas a perscrutar seus hábitos alimentares e a transformá-los, por meio de relações consigo e de práticas de controle de si, em busca do aperfeiçoamento e da beleza do corpo. Nesse inventário de procedimentos e prescrições, percebe-se que as técnicas de disciplinarização dos corpos e de cuidados de si são generificadas e informam acerca da constituição de sujeitos femininos na contemporaneidade. Essas operações sobre o corpo feminino são permeadas pelo apelo, explícito ou explícito, ao consumo
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Comida e gênero num contexto de etnicização
Arlene Renk e Adiles Savoldi (UNOCHAPECÓ)

O objetivo do trabalho é apresentar as relações entre gênero, comida e festas num contexto de etnicização, junto aos caboclos, no oeste catarinense. O processo de colonização no oeste catarinense, representou a expropriação das terras, da comida típica, e desestruturação das bases morfológicas da população cabocla.
Na última década observou-se um processo de etnicização dessa população, escolhendo a comida e as festas como idiomas de etnicidade. Recuperam as práticas tradicionais, elevando-as ao status de étnicas. Encerra-se a comida cabocla, valendo-se de produtos crioulos (sem agrotóxico), e que ganham visibilidade no espaço externo às comunidades. Outro idioma da etnicidade expressa-se nas festas de partilha, a exemplo de outrora, próximas às atividades redistributivas estudadas por Polaniyi. A questão de gênero permeia esses idiomas. Surgem na condução religiosa das festas, na preparação de alimentos, na responsabilidade pela mesada dos inocentes (que antecede) a refeição principal. Apresentar os nexos entre comida, seus significados, gênero e religião, constituem a centralidade do trabalho.
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À mesa como convém: cardápio dos desejos femininos
Beliza Áurea de Arruda Mello (UFPB)

Quando se fala em cadernos de receita, tem-se cravado no imaginário, lembranças e imagens de mocinhas casadoiras, “cozinhando” o tempo, “temperando” a ociosidade com sonhos pequeno-burgueses à espera do marido ou se pensa nas “esposas” bem-casadas ou fingindo-se ser, colecionando receitas para “segurar” o seu príncipe encantado. Para alguns, os cadernos não passam de bobagens de uma época, fragmentos anacrônicos de cardápio de meninas e/ou senhoras que não tinham o que fazer. Muito mais do que receitas e quitutes, os cadernos são retratos em tom sépia, de épocas passadas: revelam como e o que as pessoas comiam e o porquê da escolha de determinadas receitas. São, sobretudo, cadernos de memória. Vozes de mulheres circulando em espaços e tempos diferentes, muitas vezes protegidas pelos grupos sociais a que pertenciam / pertencem. São verdadeiros espelhos mágicos gravando a extratemporalidade das imagens. Como palimpsestos são verdadeiros pergaminhos de donzelas e damas recatadas cuja primeira escrita muitas vezes era rasurada para que na segunda se deformasse sobre as letras apagadas e pudesse surgir um texto tímido mas que transpunha os limites esperados da dona de casa.Pretende-se discutir, a partir dos resultados da pesquisa Manuscritos culinários: percurso da memória urbana através dos cadernos de receita, por mim desenvolvida junto aos alunos no PIBIC ,como esses cadernos revelam a inscrição dos desejos femininos no espaço temporal e a história afetiva das relações familiares, a partir do que é servido à mesa
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Mulheres, açúcar e comidas no Brasil seiscentista
Claude G. Papavero

O espaço que os colonos lusos radicados em Salvador ou em Olinda atribuíam às mulheres suscitou diversos comentários de autores do século XVII. Mercenários engajados na conquista batava de Pernambuco, como Wagener ou Pudsey, viajantes de passagem, como o espanhol Coreal ou o francês Dellon e portugueses versados em usos e costumes locais, como Frei Manuel Calado ou o poeta Gregório de Matos referiram alguns traços marcantes da vida social feminina. Mulheres de famílias honradas que cozinhavam, costuravam, saíam pouco de casa e iam mais à panela que à janela, viúvas que sobreviviam da venda dos doces e dos guisados que escravas quitandeiras propunham aos clientes nas ruas da cidade, moças alforriadas à procura de amantes que as sustentassem e escravas jovens desejosas de comprar sua alforria que ofereciam préstimos sexuais ocasionais parecem ter recebido pouca projeção numa sociedade sobretudo concebida em termos de atividades masculinas. Na ausência de descrições detalhadas das formas de interação correntes entre homens e mulheres, as referências dos cronistas aos procedimentos do abastecimento e do consumo alimentar permitiram refletir sobre as condições materiais da vida numa colônia produtora de açúcar que dependia inteiramente do trabalho dos escravos
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“Cozinha especial e comida a qualquer hora”: dos serviços de proprietários e cozinheiros nas casas de pasto e restaurantes, em Curitiba, na Primeira República
Deborah Agulham Carvalho

Cidades como Londres e Paris tiveram o cotidiano alterado no XIX com a Revolução Industrial; elas implementaram noções de planejamento que fossem ao encontro da cidade ideal. Com o advento da Revolução Científico-Tecnológica, descobertas integraram o cotidiano de europeus e norte-americanos alterando-o num período em que novos rumos foram tomados pela indústria. À sua maneira, com a chegada da República, o Brasil procurou estar imerso nesse processo de modernização e cidades como Rio de Janeiro e São Paulo corresponderam nesse sentido: elas dialogaram com as mudanças do processo de urbanização pela inserção de novas práticas cotidianas, percebidas nas formas de vestir, comprar, relacionar-se socialmente que alteraram o ritmo de vida da população local. Ao se aproximar desse contexto, Curitiba também procurou estar envolta pelos ares da modernidade e decidida a aplicar mudanças de cunho urbanístico e social. Neste seminário temático pretende-se mostrar de que maneira as atividades realizadas nas casas de pasto e restaurantes da capital paranaense foram desempenhadas por proprietários, chefs, cozinheiros, criados e “conhecedores” das artes do preparar e servir comidas, pratos e refeições diversas. Para a construção desse panorama serão problematizados periódicos e fontes de imprensa, publicados entre 1890 e 1940, juntamente com os Livros de Impostos, Indústrias e Profissões para que se qualifique tais serviços e os quantifique na cidade supracitada. Em meio a um universo significativamente masculino, mulheres proprietárias não ficaram de fora e também desempenharam seus papéis, ainda que pouco fossem mencionadas no contexto republicano curitibano
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As festas juninas e a perspectiva folclorística: fogo para os homens, fogão para as mulheres
Hugo Menezes Neto (UFPE)

A partir da leitura de algumas obras de folcloristas, como Câmara Cascudo, Edson Carneiro e Mário Souto Maior, que trabalham a temática das festas juninas, percebi que suas perspectivas teóricas apontavam e reforçavam papéis diferenciados e, por vezes, desiguais para homens e mulheres. Nessas obras os arranjos de gênero se mostram a partir de demarcadores espaciais e simbólicos. Nelas o preparo das comidas típicas aparece como de responsabilidade exclusiva das mulheres, enquanto outras atividades, como a arrumação da fogueira e dos fogos cabe aos homens. Portanto, este trabalho trata-se de uma breve análise da perspectiva folclorística sobre as questões de gênero pensando como a mesma ainda vem de certa forma, sendo reatualizada pelos trabalhos atuais, pela musicalidade e, sobretudo, pelas representações da comida junina, e sua insistente ligação com as mulheres, que se evidenciam durante a temporalidade da festa.
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As cristãs novas e as práticas e interditos alimentares judaicos no Portugal Moderno
Isabel M. R. Mendes Drumond Braga (Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa)

Partindo da vasta documentação manuscrita do Santo Ofício da Inquisição, nomeadamente processos, cadernos do promotor e visitas, procuraremos estudar a transmissão das práticas e rituais alimentares caras às comunidades cristãs novas que mantinham alguns dos preceitos do judaísmo, tais como os interditos alimentares e os jejuns. A documentação é igualmente rica acerca das observações das cristãs velhas no que à alimentação dos cristãos novos respeitava. Através da leitura das fontes poderemos identificar a prática de jejuns maiores e menores (thanis), a repugnância pelos peixes sem escamas, denominados “peixes de couro”, e pela carne de porco, mesmo assim consumida por alguns; a maneira de matar as reses, a confecção do pão ázimo, bem como o consumo de determinados alimentos ligados a certas celebrações religiosas. Finalmente, podemos ainda identificar as estratégias de observação e denúncia levadas a efeito pelas cristãs velhas e os mecanismos que tentavam ludibriar essas práticas por parte das cristãs novas.
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Cozinha doméstica e cozinha profissional: do discurso às práticas
Janine Helfst Leicht Collaço (UnB)

Este trabalho resultou da constatação de dados interessantes que vieram à tona quando pesquisava o perfil de trabalhadores em cozinhas profissionais. Ao contrário do que emerge no senso comum, os homens não são maioria no universo de pessoas envolvidas na produção de refeições consumidas fora. Um olhar mais detido revelou que o universo masculino estava concentrado em estabelecimentos destinados às classes mais favorecidas que utilizam roteiros e guias para selecionar suas escolhas. Nesse sentido, surgiu uma cisão entre gênero e hierarquia de restaurantes, o trabalho feminino, em boa parcela, restrito aos estabelecimentos que servem refeições em restaurantes por peso, cantinas de colégios, refeitórios de empresas e cozinhas de hospitais. Os estabelecimentos com maior prestígio seriam conduzidos, em sua grande maioria, pelos chefs. Esse imaginário é reforçado nas escolas de gastronomia que costumam frisar o trabalho da cozinha como “pesado”, “perigoso”, “quente”, “exaustivo” e, assim, pouco adequado para o trabalho feminino. Por outro lado, a carreira de Nutrição, em sua maioria exercida pelas mulheres, levanta outro aspecto das relações profissionais. Nutrir seria função feminina que, por meio desta atividade, passou à esfera púbica, porém sem o mesmo prestígio de um chef, pois ainda convive com um ranço do universo doméstico onde se procura proporcionar uma alimentação apropriada. Assim, o espaço da cozinha adquire contornos que não se eximem de disputas entre gêneros. Este texto propõe articular algumas reflexões em torno da questão, embora sem a pretensão de esgotar o assunto
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Plantar, criar, comer: classificações da comida e das pessoas no interior de famílias rurais
Josiane Wedig, Viviane Martins e Renata Menasche (UFRGS)

Este trabalho tem o objetivo de investigar, a partir do olhar sobre a comida e das representações da organização do espaço habitacional a ela associada, as relações de gênero no meio rural. São tomados por referência estudos realizados em décadas anteriores, que destacaram a hierarquia existente nas famílias rurais, evidenciando a valoração diferenciada do trabalho de homens e mulheres. Também, trabalhos que demonstraram haver correspondência entre as classificações que organizam o lugar dos vários componentes na hierarquia familiar e aquelas que ordenam suas práticas alimentares. A título de exemplo, temos que alguns desses estudos mostraram que a comida proveniente do roçado (domínio masculino) é valorada como superior àquela classificada como mistura, que tem origem no quintal (domínio feminino). É a partir da inspiração nesses estudos e do entendimento de que, nas diferentes sociedades, os alimentos não são apenas comidos, mas também pensados, que se desenha este trabalho. A partir da observação de distintas situações rurais e, especialmente, de pesquisa etnográfica realizada em comunidade rural situada no Vale do Taquari, Rio Grande do Sul, este estudo busca apreender as classificações estabelecidas pelos agricultores e agricultoras quanto à comida que produzem e consomem (atividades que têm passado por intensas transformações), bem como – e em associação aos modos de habitar – as classificações que operam de si mesmos e do que fazem
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Para não se perder: a broa invertendo papéis
Juliana Cristina Reinhardt (Faculdades Integradas Espírita), Victor Augustus G. Silva (UFPR)

Este trabalho apresenta aspectos da broa de centeio, hoje patrimônio imaterial da cidade de Curitiba, que permitem pensar em mudanças nos papéis sociais de homens e mulheres a partir de suas relações com os saberes e práticas alimentares. Hábito alimentar que, para muitos curitibanos, constitui-se em tradição culinária, a broa de centeio foi trazida pelos imigrantes europeus que se estabeleceram no Brasil, mais especificamente no Sul, e este elemento cultural foi repassado aos seus descendentes. Quando falamos em tradição culinária, esperamos que seja passada de mãe para filha. Porém, no caso da broa, esta passagem também ocorreu de pai para filho e de mãe para filho, para que a tradição permanecesse. Hoje, a broa constitui-se, em muitos casos, na última ligação com uma identidade étnica. Ela é um meio de trazer sentimentos, memória, identidade, história. O seu comer e seu fazer foi repassado de geração para geração
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Tecnología, alimentación y género
Luis Arturo Ávila Meléndez, Pedro Quinto Diez e Estanislao Martínez (CIIDIR)

Presentamos avances de una investigación sobre el proceso de apropiación de una estufa solar en comunidades del noroeste de Michoacán. La apropiación de un instrumento no tradicional en comunidades con prácticas alimentarias distintas genera manifestaciones reflexivas en torno a las mismas. Dichas prácticas se fundamentan en conocimientos que en tales contextos son reproducidos e innovados principal, aunque no exclusivamente, por mujeres. La adopción de una tecnología alternativa para cocinar igualmente genera manifestaciones y opiniones en torno al aprovechamiento de diversos recursos naturales (como combustible y como alimentos) y su relación con la administración financiera del grupo doméstico. La metodología se basa en entrevistas informales sostenidas con los usuarios de las estufas sobre los inconvenientes y las aportaciones de las estufas para suplir algunas de sus necesidades de cocción de alimentos, y el seguimiento etnográfico de los procesos de difusión de las estufas con los técnicos e investigadores que las promueven. Encontramos dificultades para la apropiación de la tecnología por su origen, las características estéticas del aparato, los procedimientos específicos que requiere y sus limitaciones para elaborar ciertos guisos locales así como hacerlos compatibles con los horarios de las actividades relacionadas con las comidas. El proceso de apropiación de la estufa solar nos permite reflexionar sobre las normas sociales acerca de los roles y la organización del grupo doméstico e indica que una transformación en la distribución de obligaciones implicaría igualmente la generación de procesos de transmisión y generación de conocimientos culinarios y de administración doméstica distintos
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A questão de gênero na escolha alimentar no contexto da alimentação fora de casa
Manuela Mika Jomori (UFSC), Rossana Pacheco da Costa Proença (UFSC), Maria Cristina Marino Calvo (UFSC)

Com o crescimento do setor de alimentação fora de casa nos últimos anos, por motivos de trabalho, educação ou lazer, principalmente nos grandes centros urbanos, os indivíduos necessitam se adaptar às questões de tempo e espaço. Nesse contexto, a escolha alimentar pode tornar-se um dilema para o indivíduo, ao ter que decidir o quê, quando, com quem e aonde comer. Essa decisão, antes sob responsabilidade da mulher no cenário doméstico, passa a ser exercida por cada indivíduo com maior autonomia, podendo gerar a dissolução de alguns deveres atribuídos tradicionalmente aos diferentes papéis tanto do homem quanto da mulher. A temática aqui proposta emergiu a partir de um estudo realizado como dissertação de mestrado com 293 comensais de um restaurante self-sevice por peso, que é um modelo de alimentação fora de casa bastante difundido no Brasil. Ele oferece várias opções de preparações e o preço é pago pelo peso da comida colocada no prato do comensal. O estudo demonstrou a diferença significativa entre homens e mulheres na escolha alimentar nesse contexto. Dessa forma, essas diferenças entre homens e mulheres na escolha alimentar podem ser determinadas por motivos que vão além das questões biológicas, mas considerando que o contexto histórico-cultural pode exercer influência na escolha dos indivíduos. Neste sentido, verifica-se na lógica de uma sociedade contemporânea, que a alimentação fora de casa e a diferença entre os gêneros podem intensificar a complexidade da escolha alimentar
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O que estas baianas têm? O tempero da Dada, a Dinha do acarajé e a discriminação racial e a de gênero na Bahia de Todos os Santos
Maria Cândida Ferreira de Almeida (UFBA)

Freqüentemente assisto à desqualificação do restaurante Tempero da Dadá sem entender porque esta comida maravilhosa e atacada. Recentemente acompanhei uma discussão entre pessoas de classe média que comparavam as duas cozinheiras mais famosas da Bahia - Dinha do Acarajé e Dadá - e pude formular algumas hipóteses baseadas em meus estudos sobre a questão étnico-racial e de gênero. Na primeira abordarei o núcleo do problema: a expectativa de que a mulher negra participe do mercado de trabalho subalternamente é invertida quando, apesar de ser este o trabalho destas quituteiras, elas obtiveram sucesso econômico visível. Apesar do sucesso, Dinha tem mantido uma atuação discreta e acompanhada da reiteração do lugar de subalternidade, pois em eventos ela mesma serve os acarajés no tabuleiro, porém, seu restaurante não entrou para o roteiro de uma classe média, e minha hipótese, já que sua comida é boa, diz respeito a sua ascensão de trabalhadora informal para empresária. Dadá há muito tempo ocupou lugar de destaque na mídia como empresária e chefe de cozinha, lugares tradicionalmente ocupados por homens brancos, porém, este destaque não leva os soteropolitanos a freqüentar o lugar com as mais diversas alegações. A segunda hipótese diz respeito à sexualidade, outra vez visibilidade e discrição são usadas para contrastar a imagem pública das duas baianas; enquanto Dinha é vista como mãe exemplar, Dadá teve suas relações amorosas exploradas pela imprensa de celebridades. Este trabalho buscará analisar a imagem pública destas duas empresárias para discutir as questões de gênero e relações raciais em Salvador
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As habilidades da anfitriã: casa bem dirigida, mulher bem preparada
Maria Cecília Barreto Amorim Pilla (PUCPR)

Este estudo parte do conceito de contenção entendido como um modelo psicológico capaz de garantir o reconhecimento e respeito do próximo, uma valorização de si mesmo. Propicia uma reflexão a respeito da mulher no desempenho do papel de anfitriã no Brasil do início do século XX, em meio a um quadro econômico e político que alterava sensivelmente as relações sociais. A composição do alimento e a sua apresentação na sala de jantar proporcionavam espetáculos do bom comportamento, do exercício efetivo da arte da conversação, da etiqueta e do bom convívio social. Na preparação da casa e das iguarias repousava a valorização de uma conduta controlada da anfitriã, que como dona da casa deveria manter o controle sobre tudo e sobre todos, tendo aí a oportunidade de demonstrar sua capacidade de governar a si, seu lar e sua família
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Entre tachos e panelas: o feminino e a construção das identidades regionais por meio dos saberes culinários
Maria Henriqueta Sperandio Garcia Gimenes e Luciana Patrícia de Morais (UFPR)

Dentro do corpo de estudos sobre história e cultura da alimentação as chamadas cozinhas regionais têm ganhado destaque. Conjunto de pratos e iguarias que constituem e traduzem costumes e tradições à mesa, essas cozinhas são construídas a partir de uma série de negociações entre percepções de mundo e o que é oferecido regionalmente em termos de ingredientes e matéria prima. Neste universo, o que se oferece são pratos emblemáticos, ao mesmo tempo elementos identificadores e identificantes dos grupos que os preparam e os consomem. Como sujeitos perpetuadores dessas tradições têm-se na sua grande maioria mulheres, que aprendendo o ofício de cozinhar com suas mães e sogras incorporam e transmitem tradições como uma forma de estabelecer e manter laços familiares e com suas localidades de origem. Partindo dessa premissa, este trabalho tem como objetivo enfocar, a partir do depoimento oral de cozinheiras tradicionais de Minas Gerais e do litoral paranaense, o papel destas agentes na manutenção do saber-fazer culinário, apontando pontos de intersecção e possibilidades entre o estudo da história da alimentação e os estudos de gênero
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O papel da mulher no processo de adaptação alimentar de famílias imigrantes européias em Blumenau (SC)
Marilda Checcucci Gonçalves da Silva (Universidade Regional de Blumenau)

O artigo reúne resultados de pesquisa que teve como objetivo mais geral o estudo dos impactos que a vinda de famílias imigrantes de origem européia trouxe para a região de Blumenau (Estado de Santa Catarina), formada a partir do processo de colonização - iniciado em meados do século XIX - para a produção de alimentos e a culinária local. A metodologia utilizada foi a etnográfica. Evidenciou-se a presença de duas tradições culinárias, formadas com base em uma tradição agrária e outra citadina, trazidas pelas mulheres imigrantes e aqui recriadas. No processo de adaptação da culinária dos imigrantes à realidade local, as mulheres irão desempenhar um papel central, substituindo alguns dos seus ítens ou introduzindo novos ingredientes produzidos pela agricultura local. Além disso, seu saber culinário terá um papel central na constituição de algumas indústrias, tais como a da salsicharia e do laticínio, bem como confeitarias, sendo em muitos casos a mulher, a responsável, direta e indiretamente, pelo sucesso econômico das famílias.
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Imagem corporal e o comportamento alimentar contemporâneo: o caso da anorexia nervosa
Mayara Magalhães Martins (UFCE)

A necessidade de nutrição é imprescindível e universal para a sobrevivência humana, no entanto, o consumo alimentar está fundamentado em critérios culturais como: aspectos sociais, religiosos e econômicos da vida cotidiana, desconsiderando seu valor nutricional. Este trabalho pretende apresentar um estudo das práticas dietéticas realizadas por mulheres acometidas pela anorexia nervosa. Na contemporaneidade o corpo proporciona aos sujeitos novas formas de existência. A democratização dos saberes médicos no cuidado do corpo que a mídia proporciona, apresenta novas possibilidades de estilos de vida e o interesse por práticas alimentares racionalmente construídas. A valorização do corpo magro associado à imagem da mulher bem sucedida na carreira e nas relações de erotismo favorece o consumo de bens e serviços voltados para o emagrecimento. Isto, por sua vez, contribuiu para novas classificações ou ressignificações acerca dos alimentos, percebidos como saudáveis e não-saudáveis, os que engordam e os ajudam a manter a boa forma. O culto ao corpo na contemporaneidade termina por influenciar o comportamento alimentar e o desejo de emagrecimento das mulheres, que são mais bem percebidas em sua estética corporal. No caso da anorexia, a busca obsessiva pela magreza apresenta alterações importantes nas atitudes em relação à alimentação. O alto índice de anorexia entre as mulheres revela que a tentativa em adquirir um corpo perfeito pode trazer sérias conseqüências à saúde e auto-estima feminina.
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Escolhas alimentares, decisões culturais: a mulher define o que vai pra mesa
Nádia Rosana Fernandes de Oliveira (UFSM), Hugo Aníbal Gonzalez Vela

A família rural é campo de análise na qual se pode investigar as relações de cultivo, preparo e consumo de alimentos num só ambiente, passando pela trajetória do trabalho realizado na busca do alimento até a sua transformação, na forma de comida à mesa. A mulher cumpre papel de articuladora na decisão daquilo que será submetido ao consumo alimentar da família, pois é quem define o que deve ser cultivado e o que deve ser comprado, e seu universo de trabalho – geralmente além do trabalho junto à lavoura, é responsável pela horta, pomar e com a criação galinhas, porcos e vacas de leite – está intimamente conectado a oferta de alimentos para a família. Autores apontam que o modelo de consumo agro-industrial, no qual evidencia a tentativa de homogeneização das práticas alimentares, por pressionar intensamente os sujeitos para a incorporação de novos alimentos na sua dieta, alteram as relações sociais alimentares. Entretanto, a opção por escolher determinado alimento percorre aspectos como o risco alimentar em ingerir resíduos químicos, a compreensão da comida artificial que é oferecida nos mercados e as condições de saúde e doença relacionadas aos alimentos. Estes fatores sugerem a existência de um conflito com o cardápio culturalmente aceito para apreciação dos familiares. Neste sentido, o trabalho tem o objetivo de debater a alimentação enquanto núcleo de escolhas alimentares realizadas pela mulher rural.
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“O Superchef e a Menina Prodígio”: as posições ocupadas pelos gêneros na gastronomia profissional
Naira Maria Scavone (ECAS RS)

Este trabalho discute as diferentes posições ocupadas pelos gêneros, num dos temas mais atuais relacionados à comida, ou seja, a gastronomia ou alta gastronomia. Estas discussões estão contempladas num dos capítulos de minha dissertação de mestrado realizada no ano de 2007, no programa de Pós-Graduação em Educação, na Universidade Federal do rio Grande do Sul - UFRGS (linha de Pesquisa: Educação, Sexualidade e Relações de Gênero), sob a orientação da Profª. Drª. Guacira Lopes Louro. A dissertação se intitulou: Discursos da gastronomia brasileira: gêneros e identidade nacional postos à mesa. A fonte fundamental da pesquisa foi uma revista de alta gastronomia nacional, chamada Gula.
Como os atravessamentos dos discursos gastronômicos afetam e são afetados pelos gêneros? Quais as diferentes posições ocupadas pelos gêneros sob o recorte da alta gastronomia no Brasil nos últimos anos? Estas são algumas das questões abordadas nesta pesquisa.
A apresentação deste trabalho se dará em dois grupos: “O Superchef e a Menina Prodígio” onde trato dos discursos produzidos em torno do feminino e do masculino e as diferentes posições que o feminino e o masculino ocupam neste espaço. Nesse recorte da análise, trabalho com a idéia da representação feminina e masculina, por meio das identidades de chef de cozinha ou de gourmets, abordando seus corpos, nacionalidades e posições sociais ocupadas. E outro grupo que chamo: “As/os experts e suas cozinhas maravilhosas”, onde analiso o reposicionamento dos gêneros nos espaços relacionados à cozinha e a relação dessa questão com o momento social, cultural e político.
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Mulheres fora da cozinha: livros de culinária no Brasil oitocentista
Paula Pinto e Silva (USP)

Livros de cozinha são documentos especiais para historiadores e antropólogos. Mais do que ensinar a cozinhar, eles podem nos dar pistas do passado, falar sobre relações na esfera da casa e da cozinha e também mostrar quem são os atores fundamentais no cenário social em questão.
Na Europa, a partir do século XVI, assistimos ao desenvolvimento de uma literatura especializada, escrita por cozinheiros profissionais. Como outros livros da época, são redigidos por homens e destinados a outros homens, cozinheiros, copeiros ou mestres confeiteiros. Às mulheres cabem as compilações de segredos, mistura de preceitos médicos, de cosmética e receitas de doces e conservas. Se a cozinha ainda era considerada uma atividade servil, a terapêutica e a doçaria, ao contrário, eram dignas do interesse das damas e das senhoras.
No entanto, em meados do século XIX o panorama é bastante diferente. Enquanto os chefs franceses criam e registram novas técnicas culinárias, na Inglaterra duas mulheres adquirem, pelos livros de cozinha, grande visibilidade. Eliza Acton e Isabella Beeton são as primeiras escritoras a introduzirem as mulheres num mundo culinário veiculado nos livros de cozinha, trazendo dicas de economia doméstica e receitas tradicionais.
Mas se o cenário internacional dos livros de cozinha do século XIX era bastante heterogêneo e claramente demarcado na sua proposta de gênero, o que dizer do Brasil? Quando foi que as mulheres entraram em um universo aparentemente masculino, a saber, a escritura de livros de cozinha? Esta comunicação propõe pensar a de que forma se deu a presença feminina na autoria dos primeiros livros culinários brasileiros.
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Aspectos da vida diária Kaingang: papéis de gênero na aquisição, preparo e distribuição da comida
Philippe Hanna de Almeida Oliveira (UFSC)

Diversos estudos sobre alimentação e comensalidade em contextos indígenas apontam para uma divisão de gênero relativa à aquisição e preparo dos alimentos. Realizando uma 'antropologia da vida diária' McCallum (1998) demonstra como os Kaxinauá possuem diferentes modos de agência social para homens e mulheres. Os homens aprendem sua agência para lidar com o exterior, especializando-se na predação e na troca, sendo sua tarefa levar para casa objetos do mundo exterior (caça, remédios, comida e produtos variados) ao interior do contexto familiar Kaxinauá. A agência feminina é a contrapartida da masculina, devendo processar as aquisições e produtos masculinos, tornando-os apropriados ao consumo. Após transformados, os produtos são servidos pelas mulheres, reafirmando assim seu poder de presentear os que vão consumir
Dentre os Kaingang o ritual do Kiki estabelece diferentes papéis para pessoas de cada gênero, sendo os homens responsáveis pelos cânticos e as mulheres pela produção e distribuição de comida e bebida. Fernandes et al. (1999) afirmam que essa divisão no rito é uma inversão dos padrões da vida doméstica, donde 'no contexto da Casa, as mulheres desempenham papel estruturante e os homens um papel funcional'. Desse modo os homens seriam responsáveis pela produção e distribuição dos alimentos no âmbito doméstico, apresentado uma configuração distinta dos Kaxinauá. Este trabalho se propõe à descrever tais aspectos da vida diária, verificando quais são os papéis de gênero na aquisição, preparo e distribuição da comida no âmbito doméstico Kaingang.
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Dietética judaica e relações de gênero: práticas em espaço familiar
Raymundo Heraldo Maués e Larissa Maria de Almeida Guimarães (UFPA)

O presente trabalho tem como foco o estudo das relações estabelecidas entre judeus em espaço familiar, através da análise das práticas alimentares cotidianas. Através da experiência etnográfica, pude perceber como as relações familiares em lares judaicos se desenvolvem, e como estas vivências são permeadas por valores muitas vezes ligados à religião e à particular religiosidade judaica na Amazônia, onde o processo migratório de judeus sefaraditas marroquinos ainda no século XIX marcou a própria maneira de professar a religião. Percebe-se que o lar judaico é um espaço prioritariamente feminino (mas não exclusivamente), e as atividades desenvolvidas dentro deste lar (e relacionadas a ele), são muitas vezes desempenhados por mulheres. A maior inserção feminina nas atividades ligadas ao lar não é algo absoluto e evidente no contexto geral das famílias judaicas. Tais representações são muitas vezes reforçadas pela imagem que se consolidou da “mulher/mãe judia”, muito presente no imaginário coletivo judaico, tendo sido já foco e/ou citado em estudos acadêmicos. Pretendo neste trabalho abordar como o espaço da casa é demarcado pelas relações de gêneros, e como as práticas alimentares se desenvolvem tendo em vista estas relações.
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Comida de Mãe: As relações entre Maternidade, Alimentação e Gênero
Viviane Kraieski de Assunção (UFSC)

Apresento neste trabalho reflexões sobre dados de minha etnografia realizada entre fevereiro e abril de 2006 com famílias de camadas médias e populares na comunidade do Morro da Caixa, no município de Tubarão, no sul de Santa Catarina. Entendendo a alimentação como elemento central da constituição de identidades e a maternidade como valor social fortemente arraigado em algumas sociedades, cuja construção é cultural e histórica, demonstro a interseção entre elas através do cruzamento entre teorias (da Antropologia, Sociologia e da História) e minhas observações de campo. Desta forma, a alimentação aparece como possível via de leitura do valor da maternidade na modernidade e da dinâmica das relações entre a mãe e seus filhos (e também da mulher com os outros membros da família). Neste sentido, a alimentação e a maternidade surgem perpassadas por ideologias de gênero, hierarquia e relações de poder. O conhecimento do “gosto” dos filhos confere autoridade à mãe, e a cozinha aparece como espaço privilegiado para o exercício de seu papel preponderante na família.
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