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Coordenação:
Profa. Dra. Cristina Scheibe Wolff
UFSC 

Prof. Dr. Durval Muniz de Albuquerque Jr.
UFRN

Tendo nascido a partir das inquietações abertas pelos movimentos feministas e pelos estudos “de mulheres”, o campo dos estudos de gênero gerou uma discussão também sobre o masculino, na medida em que a categoria gênero é pensada como relacional. Ao propor o gênero como um dos elementos que conformam comportamentos e relações sociais nas sociedades humanas, estabelecendo diferenças e hierarquias, a questão das masculinidades emerge com grande importância para a compreensão de fenômenos culturais e políticos. A partir dos discursos que utilizam as características de virilidade, por exemplo, normalmente associadas ao gênero masculino, é possível compreender movimentos culturais, fenômenos políticos e dinâmicas sociais que, de outra maneira, perderiam parte de seu sentido. As representações das masculinidades, como campos de disputas e forças, mas também como imagens que produzem sentidos e que são manipuladas nos discursos, têm aos poucos recebido alguma atenção de historiadores, literatos, antropólogos e outros estudiosos e estudiosas sociais. A discussão acerca da teoria de gênero aplicada ao masculino também interessa sobremaneira a este fórum. Questões como a utilização de categorias como a masculinidade hegemônica e a dominação masculina, precisam ser pensadas a partir das pesquisas que utilizam tais instrumentos de análise para a construção de sentidos históricos e sociais inovadores para compreensão do social. A proposta deste Simpósio Temático é reunir pesquisadoras e pesquisadores que tem discutido as masculinidades no campo dos discursos, das políticas e das representações.

Novos discursos, velhas práticas: a participação masculina em matéria de contracepção no contexto bogotano.
Angela Facundo y Carmen Vásquez (Universidade Nacional de Colômbia)

En las últimas décadas los discursos y las políticas que buscan promover la equidad de género en materia de derechos sexuales y reproductivos han tocado a un número significativo de hombres. A grosso modo se puede afirmar que los sectores en que estas políticas han encontrado mayor receptividad son los sectores medios y aquellos en donde existe un mayor contacto con los discursos modernos, que bien pueden ser producidos por la academia, por diversos movimientos sociales o por agencias nacionales e internacionales que trabajan a favor de estos derechos. A pesar de este creciente número de hombres concernidos por dichos discursos, las prácticas en materia de anticoncepción siguen siendo asumidas como una cuestión de las mujeres. Es por eso que nos interesa analizar la contradicción entre el discurso y la práctica en el caso concreto de la participación de los varones en las negociaciones contraceptivas. Para esto utilizamos los relatos que 30 hombres realizaron de sus propias trayectorias de vida, en el marco de la investigación HEXCA (Heterosexualidades, contracepción y aborto), de cuyo componente en Colombia las ponentes somos investigadoras. Nos interesa documentar de manera cualitativa la participación masculina en la contracepción y los diferentes maneras en que esta participación se lleva a cabo dentro de un contexto específico que abarca desde el tipo de relación de pareja que se esté viviendo y el vínculo emocional con su compañera, hasta el proyecto de vida, el momento del curso de vida, la situación socio-económica y los ideales frente a la paternidad.
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Dominação, performatividade e ideologia no discurso freudiano sobre o amor
Augusto César Francisco (UFRN)

Apresentamos os resultados da pesquisa de Mestrado publicada em livro (FRANCISCO, 2008), financiada pelo CNPq e apoiada pelo DAAD, sobre o seguinte objeto: a presença da ideologia no discurso sobre o amor que Freud utilizou na elaboração dos conceitos de falo, castração, narcisismo, complexo de Édipo e estado de desamparo. Partindo das noções de “ideologia” e “dominação” das análises antropológicas de Alípio Sousa Filho conjuntamente com as noções de “matéria”, “performatividade” e “coação à repetição” da pensadora Judith Butler, construímos nosso objeto como um complexo amoroso sujeito à ideologia, se o indivíduo naturaliza a base cultural dominante de certo discurso na formação de sua realidade social. Sustentamos uma ruptura em relação ao pensamento freudiano quando nossa proposta defende que o sobre-eu (Uber-Ich) é uma instância discursivamente anterior ao advento sujeito do isso e, por conseqüência, do eu inconsciente, defendendo a ampliação da psicanálise do isso e da psicologia do eu para uma antropologia do sobre-eu (foco dos nossos investimentos antropológicos). Relendo criticamente Freud (pensador da psicanálise do isso) e Hendrick (pensador da psicologia do eu), sugerimos que o sobre-eu vem a impor culturalmente a pulsão, que é a dominação de certo discurso (o amor masculino do falo, por exemplo), na formação de um eu interpelado de ideologia para segredar ao isso o processo material de assunção da pulsão como discurso. O amor fálico, pois, representa o nó epistemológico na psicanálise freudiana e sustenta a ficção dominante (Kaja Silverman) do tradicional complexo de Édipo positivo.
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Trabalho e masculinidade: mudanças lentas e graduais
Daniel Perticarrari; Jacob Carlos Lima (UFSCar)

A comunicação busca discutir a construção da identidade masculina a partir do trabalho e as mudanças decorrentes das transformações econômicas, políticas sociais e culturais das últimas décadas. Para tanto analisa o trabalho a partir do paradigma da flexibilidade e a crescente feminização do mercado de trabalho. Essa feminização tem implicado em alterações nos papeis familiares tradicionais com a maior presença da mulher como provedora. Isto coloca em cheque as relações de poder homem e mulher, e deste com os filhos e a vida doméstica. Altera-se também, embora de forma lenta, os padrões de virilidade assentados sobre o trabalho vinculado a determinadas especializações. A referência empírica é um grupo de operários metalúrgicos na cidade de São Carlos,SP a partir de um recorte geracional.
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“Tu conhece a moreninha aquela?”: A co-construção da masculinidade na fala situada de um inspetor policial e de um suspeito em uma interação em contexto de interrogatório policial
Daniela Negraes, Caroline Rodrigues da Silva e Ana Cristina Ostermann (Universidade do Vale do Rio do Sinos)

O objetivo desse estudo é discutir como um inspetor policial e um suspeito co-constroem uma ‘conversa de macho’ num contexto de interrogatório policial. Tendo em vista que gênero não é característica que os seres humanos possuem a priori, mas que é uma identidade construída por meio da fala situada (MCCONNELL-GINET, 1992), o estudo em questão problematiza as estratégias interacionais utilizadas pelos interagentes como forma de construírem solidariamente suas masculinidades. Partindo do pressuposto da relação assimétrica que permeia uma interação em contexto de interrogatório policial, é interessante observar como, por meio da fala e de pistas de contextualização (GUMPERZ, 1982), os dois interagentes parecem alinhar-se de modo a desconstruir a assimetria da interação quando o tópico da conversa passa a ser uma possível relação sexual entre o suspeito e “a moreninha aquela.” Consoante com Cameron (2007) que afirma que “gênero tem que ser constantemente reafirmado e publicamente exibido [...]” e com Butler (1990), para quem gênero assume um caráter performativo, os dados do trabalho evidenciam que a construção da masculinidade dos interagentes é, sob uma perspectiva êmica, relevante uma vez que o assunto é trazido à tona em dois diferentes momentos da interação. A análise dos dados será realizada sob a perspectiva teórica da Análise da Conversa de base etnometodológica (SACKS 1992; TEN HAVE 1999) que investiga como as pessoas envolvidas na interação compreendem o que sua fala está fazendo.
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Pavor e insegurança no controle da carne: corpo e infidelidade no discurso masculino
Eronides Câmara de Araújo (UFCG)

A “infidelidade” feminina, ao que tudo indica, nunca foi concebida de forma universal, e na contemporaneidade, adquire novas representações e ou/significações. Isto é evidenciado tanto do ponto de vista teórico em que o corpo é problematizado como um construto social, (Louro, 2001) como da formulação de que as relações entre o “masculino” e o “feminino”, estão sendo vivenciadas na contemporaneidade como fluidas (Bauman, 2004) e nas representações dos discursos masculino sobre a infidelidade. A infidelidade está associada à interdição sobre o corpo e se constitui como signo de alteridade na relação do ‘eu’ com o ‘outro’, produzida por campos discursivos em que múltiplos valores sobre ele produzem privacidade e controle. Na questão da infidelidade feminina, a cultura produziu historicamente para o masculino a governabilidade do corpo do outro, (o feminino). Na medida em que o corpo do outro é desejado por alguém e esse desejo é permitido, o eu se sente em processo de desgovernabilidade, configurando-se assim, em um ato de infidelidade ao governante. A “infidelidade” “feminina” tem sido, em geral, tratada como um ‘desvio’, ou como, um discurso de “igualdade ” junto aos homens, ou ainda como “vingança”, configurando-se como uma norma. A nossa pesquisa está investigando os discursos masculinos sobre a “infidelidade” “feminina”, discutindo as governabilidades nas relações de gênero, problematizando a construção social, cultural e lingüística que historicamente tem tecido as amarras nas relações amorosas entre o “masculino” e o “feminino”. Neste momento estamos na fase de analisar os questionários aplicados aos homens de ‘camada social popular’ da cidade de Campina Grande na Paraíba.
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O homem virtuoso: uma análise do “Regulamento para as casas salesianas”
Fabiana Nicolau (USP)

A Sociedade São Francisco de Sales, os salesianos, criada por Dom João Bosco em meados do século XIX, na cidade de Turim, Itália, emerge se constituindo como responsável pela educação de meninos e jovens homens, criando para isso instituições como os oratórios, escolas profissionais e colégios. Em ambas circulava, até a década de 1970, um regulamento denominado ?Regulamento para as casas salesianas? e este buscava guiar o comportamento daqueles eram educados nestes espaços, objetivando a formação do bom cristão e do honesto cidadão. No regulamento o corpo do menino/jovem é apreendido em sua totalidade, das práticas confessionais, à postura em sala de aula aos passeios no espaço público, à postura com seus colegas e superiores. Compreendendo o regulamento como um discurso pedagógico, um guia que dota de sentidos as práticas educativas, este trabalho visa apresentar uma análise deste regulamento buscando compreender que corpos masculinos as práticas-discursivas salesianas desenhavam/desejavam. Sabe-se que o Regulamento fora adaptado nas diversas instituições e momentos históricos em que foi utilizado, porém, compreende-se este como um discurso privilegiado, já que fora escrito pelo próprio Dom Bosco, e que, portanto tinha a pretensão de regular a vida em todas as instituições salesianas. Assim, a análise enfoca o regulamento como texto e busca lê-lo em sua discursividade, mapeando a produção da masculinidade, do corpo masculino como um campo em disputa, produtor de formas de ser e estar no mundo singular e que no caso dos discursos salesianos, teriam como seu maior efeito um homem saudável, virtuoso, heterossexual e piedoso.
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Bati, Matei e Provei: sou homem sim senhor! Masculinidades e violências entre parceiros íntimos.
Fábio Henrique Lopes (USS)

Busco refletir sobre as experiências do masculino permitidas e praticadas nos casos de violência entre parceiros íntimos, na cidade do Rio de Janeiro, início do século XX. Para problematizar a constituição histórica e social dos sentidos e valores associados ao gênero masculino, para analisar as relações hierárquicas entre homens e mulheres, mas também entre os próprios homens envolvidos em relações de violência íntima, pergunto: existiriam maneiras diferenciadas, em relação ao gênero, de usar, pensar e conceber a violência entre parceiros íntimos? As relações entre parceiros íntimos, marcadas pela violência, ajudariam a compor um determinado ideal e modelo masculino, bem como de um ideal e modelo feminino? No que diz respeito à violência entre parceiros íntimos na cidade do Rio de Janeiro, existiria um modelo de masculinidade a ser seguido pelos homens, e um outro, seu oposto, a ser seguido pelas mulheres? Como homens e mulheres participaram da construção de suas subjetividades no campo da violência?
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Masculinidade e Homofobia em O Ateneu
Fernando de Figueiredo Balieiro (UFSCar)

Este artigo pretende analisar, através do romance O Ateneu, as relações entre a emergência do dispositivo de sexualidade no Brasil (Miskolci, 2008) e a homofobia. O foco será na invenção da categoria do efeminado e suas imbricações com a constituição da masculinidade em fins do século XIX. Pretende-se compreender de que modo estão intersectadas as categorias gênero, classe e nação neste contexto (Brah, 2006). O romance retrata a vida em um colégio de garotos da elite brasileira em um período no qual a identidade nacional estava em pauta na efervescência da contestação ao status quo imperial, e sua tradição cultural, em decadência. A constituição de cidadãos nacionais tornava-se sinônimo de constituição de uma identidade masculina viril (Oliveira, 2004) que se afastasse das identidades subalternas criadas com o dispositivo de sexualidade (Foucault, 1977). A homofobia (Sedgwick,1985; Welzer-Lang, 2001) é um dos componentes deste dispositivo, tanto na forma institucional do colégio que - como organização disciplinar - buscava evitar contornos homoeróticos nas relações ente garotos; quanto na própria dinâmica das relações homossociais que tornava o contato com outros homens como condição de acesso à virilidade. O romance de Pompéia mostra o caráter contraditório e ambíguo do binômio homossociabilidade-homofobia.
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Discurso, história e masculinidades: dispositivos de poder e táticas de resistência
Fernando Vojniak (UFSC)

Esta comunicação propõe um debate sobre as noções de dispositivos de poder de Michel Foucault e de táticas de resistência de Michel de Certeau através de uma releitura das discussões sobre masculinidades, educação e juventude iniciadas em nossa dissertação de mestrado que investigou a história das masculinidades nos discursos do progresso na produção da Região Oeste Catarinense nos anos de 1960 e 1970
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Homens, Eqüidade de Gênero e Políticas Públicas: desafios e lições aprendidas na América Latina (Brasil, Chile e México)
Gary Barker, Marcos Nascimento, Francisco Aguayo, Michelle Sadler e Juan Guillermo Figueroa (Promundo)

Esse trabalho tem por objetivo compartilhar uma reflexão inicial sobre os dados encontrados no estudo “Homens, Equidade de Gênero e Políticas Públicas” e estimular um debate sobre a inclusão dos homens e da perspectiva de masculinidades a partir de um referencial de gênero na formulação de políticas públicas. Trata-se de um estudo multicêntrico que envolve o Brasil, Chile, México, África do Sul e Índia, e que tem por objetivo compreender a inserção dos homens e da perspectiva de masculinidades na formulação e implementação de políticas públicas voltadas para a promoção da eqüidade de gênero. Tradicionalmente, as políticas públicas de fomento à eqüidade de gênero estão relacionadas a proteção e garantia de direitos das mulheres em diferentes situações de vulnerabilidade. No entanto, desde fins dos anos 90 do século passado, diferentes acordos internacionais, do qual esses países são signatários, buscam promover políticas públicas que estimulem à participação dos homens no cuidado com a sexualidade e a saúde reprodutiva, prevenção do HIV, prevenção da violência de gênero entre outros temas. A análise inicial dos dados do estudo mostram que, por um lado, há uma invisibilidade dos homens e da perspectiva de masculinidades no que tange a algumas das políticas, e por outro, registram-se alguns avanços no que se refere a homofobia, violência de gênero e paternidade.
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“De un Macondo de machos a un McOndo de muchos: Un ejemplo de masculinidades alternativas en la nueva narrativa latinoamericana”.
Henri Billard (Université de Poitiers)

Las culturas tradicionales en todo el mundo se han visto remecidas por el fin de la Guerra Fría, la creciente globalización cultural resultante de la hegemonía de un modelo económico y los avances de las comunicaciones. En América Latina este fenómeno ha coincidido con el término de las dictaduras militares y un interés inusitado por los derechos humanos, las minorías étnicas y sexuales y la igualdad de la mujer y el hombre ante la ley. Una manifestación de estos cambios fue la publicación en 1996 de McOndo, una antología de 17 cuentos de escritores hispanoamericanos nacidos entre 1959 y 1971. En clara oposición al Macondo colectivista, mitológico y mágico que tanto fascina en Europa y Estados Unidos, los escritores de McOndo intentan reflejar en el plano narrativo los conflictos individuo-entorno y la realidad despoetizada de los habitantes de las grandes urbes latinoamericanas. De este modo, dan cuenta se la complejidad contemporánea de América Latina, donde por un lado existe un mundo rural, colectivo y pobre que cohabita con otro urbano, individualista y próspero.
Hasta ahora, los estudios sobre esta antología se han centrado en los elementos literarios que marcan una ruptura con las generaciones anteriores, en la ausencia de escritoras y en la supuesta relación entre los postulados de los compliladores de McOndo con la ideología neoliberal. Llama la atención la ausencia de estudios sobre los aspectos de généro y sexualidad. Por ejemplo, no existe ningún trabajo que analice la diversidad de modelos de masculinidad disponibles en varios cuentos de McOndo. En esta antología, el modelo de masculinidad latinoamericano tradicional heterosexista y hegemónico, convive y conversa con modelos alternativos.
Por medio de este trabajo, abordaremos los comportamientos de género de los hombres de diversa orientación sexual presentes en la ficción de McOndo. Creemos que de esta cacofonía de voces emergen alternativas positivas al estereotipo masculino tradicional, haciendo más visibles tanto la homofobia presente en las sociedades latinoamericanas como la tensión entre los valores de estas sociedades y la influencia cultural del norte posmoderno y desarrollado.
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Viagem à oficina do centauro ou Como se faz um gaúcho: representações de gênero masculino no romance “Os Guaxos”, de Luiz Carlos Barbosa Lessa
Jocelito Zalla (UFRGS)

O presente trabalho tem como objetivo a análise do romance “Os Guaxos” de Luiz Carlos Barbosa Lessa, publicado em 1959. Trata-se de um recorte do projeto intitulado “O centauro e a pena: Luiz Carlos Barbosa Lessa (1929-2002) e a invenção do tradicionalismo”, no qual busca-se construir uma biografia histórica do intelectual, escritor regionalista, fundador e principal teórico do movimento tradicionalista, através de uma análise que conjuga trajetória e produção. Esse exame se mostra um instrumento privilegiado para captar as representações (CHARTIER, R., 2002) que nortearam a invenção das tradições gaúchas (HOBSBAWM, E., 1997). Este estudo pretende focalizar as representações de gênero e, principalmente, os papéis de gênero masculino presentes na primeira obra “de fôlego” da literatura regionalista de Barbosa Lessa.
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Práticas discursivas e práticas sexuais na construção de masculinidades
José Vaz Magalhães Neto (UFPB)

A crescente demanda de investigação no campo das masculinidades tem voltado seu interesse também para as práticas discursivas, aqui entendidas como práticas sociais constituintes e reguladoras. No contexto das transformações que ocorreram em diversas instâncias sociais nas últimas décadas, as identidades masculinas vêm sofrendo o efeito de profundas revoluções que requerem explicações e alternativas de reposicionamento frente ao estado atual de desconstrução das políticas identitárias exclusivas e à necessidade de construção de relações humanas igualitárias. Com o escopo de perscrutar como as identidades masculinas são forjadas nas práticas sociais de alunos masculinos do ensino médio de um município do anel metropolitano de Vitória-ES, este trabalho investiga a relação entre as práticas sexuais e as práticas discursivas e sua conseqüência na construção de masculinidades hegemônicas e alternativas. Os sujeitos da pesquisa participaram de uma entrevista grupal onde cada um representava uma identidade social correspondente a quatro discursos: um homossexual, um heterossexual, um religioso e um não-religioso. Na análise das entrevistas utilizei a Análise do Discurso na perspectiva crítica (ACD), que valoriza como estratégia de investigação a transdisciplinaridade e um posicionamento político explícito do investigador. Foi possível verificar que os discursos sobre identidades masculinas não se fixam em cada sujeito ou nas suas práticas discursivas e sexuais. O estudo também permite concluir que, em suas práticas sociais, os participantes expõem a diversidade de identidades masculinas que cada sujeito pode assumir nos diferentes contextos das relações sociais e que, caracterizando uma circularidade nas suas práticas discursivas, as relações de poder não permanecem unilaterais.
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Limites e potenciais de homens tidos como autores de violência conjugal para cuidar de si e de outros: uma análise sócio-cultural
Kátia Neves Lenz César de Oliveira, Romeu Gomes (UFAM)

É uma pesquisa para doutoramento pela FIOCRUZ (IFF-RJ), que se encontra na fase de análise dos dados. O objetivo é investigar limites e recursos discursivos-relacionais de homens que vivem relação conjugal violenta em Manaus para a busca por ajuda externa para si, e/ou mudanças comportamentais em prol do combate à própria violência. Especificamente pretende-se 1) Identificar sentidos de cuidado e de violência, e suas articulações com os roteiros conjugais. 2) Analisar o papel dos diferentes personagens suscitados nas narrativas dos homens enquanto co-produtores dos sentidos de cuidado e de violência, 3) Situar os sentidos de cuidado e de violência no cenário cultural que engendra modos de ser masculinos; 4) identificar limites e recursos discursivos e relacionais para
estabelecerem atitudes em prol da ajuda para si (quer perante profissionais ou membros da rede de apoio), e/ou mudanças comportamentais em prol do combate à própria violência. A pesquisa tenta ancorar-se em perspectivas pós-modernas. Os participantes são homens vivendo conjugalidade violenta, quer em função de denúncia e/ou por terem se submetido a tratamento psicológico, e, profissionais com experiência em atendimento psicológico, social, policial ou jurídico a homens tidos como autores de violência conjugal. A coleta de dados foi feita via A) entrevistas individuais narrativas/episódicas com os homens, B) Entrevistas semi-estruturadas com os profissionais. A análise dos dados está sendo pautada em perguntas analíticas a partir dos seguintes eixos: estrutura e forma das descrições de si, a diversidade e contradições dos sentidos em estudo, a estrutura e as dinâmicas relacionais e, o processo saúde-doença-cuidar.
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Masculinidades disponíveis.com – Sobre como dizer-se homem gay no ciberespaço
Luiz Felipe Zago e Fernando Seffner (UFRGS)

Tomo como objeto de pesquisa o sítio de relacionamentos para homens gays www.disponivel.com. Nele os internautas podem, mediante pagamento ou gratuitamente, criar pequenas narrativas de si, criar um apelido ou nickname para identificação online, bem como elaborar títulos para suas páginas pessoais, definir seus hobbies, selecionar fotografias e vídeos e publicá-los na internet. O conjunto de informações publicadas nas páginas pessoais criadas pelos usuários dos serviços do sítio produzem um currículo sobre seus corpos, suas masculinidades e suas sexualidades, constituindo aquilo que chamo de perfil online do internauta. Delimito como meu corpus de análise os textos dos dez perfis mais visitados mensalmente do sítio entre os meses de julho de 2007 e janeiro de 2008. No estudo que faço existe um nó de estranhamentos que me movem a pensar: por que aquelas páginas, por que motivo aqueles perfis – e não outros – são os mais visitados? Como mapear as descrições de gênero mais visitadas no sítio? Quais são os traços marcantes dos modos de ser homem gay postos nos perfis mais acessados? Há idiossincrasias em dizer-se homem gay na internet que diferem das formas de dizê-lo em outros espaços? Onde estão e quais são as fissuras e as descontinuidades nas afirmações sobre identidade sexual (gay) e identidade de gênero (masculinidade)? Como metodologia, utilizo a etnografia virtual, que supõe explorar as fronteiras entre os discursos sobre corpos, gêneros e sexualidades online e offline. Como referencial teórico, baseio-me nos estudos feministas, construcionistas e pós-estruturalistas.
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“A primeira faz tchan... A segunda faz tchun...”. Masculinidades em disputa nas representações dos anúncios da Gillette
Rafael Araújo Saldanha (UFSC)

Considerando que historiadores do gênero têm enfatizado seu caráter relacional, o presente artigo pretende descortinar algumas das relações diretamente ligadas com a construção de masculinidades. Se existe uma, dentre as possíveis masculinidades, que assume o caráter de hegemônica, percebemos que essa se faz ligada à regulamentação da normalidade com idéia de tradição. A norma dita o que é ser homem, ou o que é ser masculino. Dessa forma abre-se o campo para a disputa entre as representações. O que propomos aqui, portanto, é uma reflexão sobre como a publicidade ao evocar as diferenças de sexo, de gênero, de sexualidade, reforça concepções percebidas como tradicionais, mas também sugere mudanças significativas. Para isso, consideramos os anúncios publicitários como fontes. Assim, escolhemos um produto tido como masculino, o aparelho de barbear da Gillette, observamos sua historicidade e analisamos algumas de suas peças publicitárias veiculadas em diferentes períodos temporais no Brasil, buscando perceber como, quanto e, se possível, porque as representações do homem, do masculino hegemônico e/ou não, se modificaram nos últimos séculos.
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Dois masculinos, dois discursos: a representação do homem vaidoso nas revistas VIP e Men’s Health
Robson Batista de Lima (UnEB)

VIP e Men’s Health são duas das principais revistas masculinas em circulação no Brasil atualmente. Os discursos sobre masculinidade(s) que circulam nesses dois veículos são bastante distintos. Grosso modo, pode-se afirmar que a VIP (re)produz o discurso da masculinidade padrão ou hegemônica, enquanto a Men’s Health tem o predomínio do discurso da masculinidade subalterna. O masculino padrão pode ser entendido aqui como um homem branco, de classe média ou alta, ocidental e heterossexual. O masculino subalterno, por sua vez, refere-se a todos os indivíduos do sexo masculino que não se alinham às duras normas da masculinidade hegemônica, a exemplo dos homossexuais e dos “metrossexuais”. Diante do exposto, objetiva-se com este artigo não apenas investigar o modo como o “homem vaidoso” ou o “metrossexual” é representado por ambas as revistas, mas também analisar as estratégias discursivas de que cada uma delas se utiliza no processo de atribuição de valores concernentes ao segmento do público masculino que pretende atingir. Parto, para tanto, de uma concepção socioconstrucionista de linguagem, discurso e de identidade social e baseio-me nos referenciais teóricos da análise crítica do discurso e da semiologia dos discursos sociais para abordar a construção das imagens do universo masculino.
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“Policial militar: a presença e a ausência do viril”
Rosemeri Moreira (UFSC)

Ao pesquisar sobre a inclusão de mulheres na Polícia Militar do Estado do Paraná na década de 1970, abordou-se a construção da idéia de polícia militar pautada por valores correlatos a idealização de um “feminino” acrescentado a idéia de um “masculino”. A inclusão de mulheres no trabalho policial militar, justifica-se nos discursos presentes na legislação construída a partir das características, qualificações e funções essencializadas como femininas, repetindo-se os enunciados do discurso do “anjo tutelar”, concedendo, delineando e ao mesmo tempo delimitando as fronteiras com as funções e qualificações do corpo masculino. A função da instituição Policial Militar passa a agregar ao viril - a idéia de força, capacidade para a ação, para a guerra, para a violência – a sua ausência, representada pelo corpo policial militar feminino. Diretrizes e portarias constroem paulatinamente a imagem da policial militar pautada nesta ausência, ao mesmo tempo em que a atividade policial militar efetuada concretamente por esse grupo de mulheres subverte o discurso, pois os sujeitos se confrontam com o esperado de si e a extrapolação de si, através da sedução do viril que o treinamento e a atividade policial militar apresentam.
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Construção de Identidades Masculinas com Jovens de Periferia: A difícil arte do ser e sobreviver
Sérgio Aboud (UFF)

Este trabalho apresenta alguns resultados do projeto de extensão e pesquisa “Direitos Sexuais são Direitos Humanos” coordenado por mim na Universidade Federal Fluminense. Este relato é acerca das oficinas realizadas em 2006 e 2007 com adolescentes de 16 à 19 anos, estudantes de uma escola pública estadual no município periférico de São Gonçalo, típico dormitório em relação ao Rio e Niterói. Estes garotos eram estudantes do nono ano do Ensino Fundamental ao terceiro do Ensino Médio, das classes C, D e E, na sua maioria negros e afrodescendentes, portanto, trabalhamos com a interseção entre gênero, classe e etnia. O tema principal das oficinas era “O que é ser Homem?”. Metodologicamente nos reuníamos uma vez por semana fora do horário escolar em oficinas de formação durante um período de 3 horas. Também fizemos visitas a lugares escolhidos por eles, ditos tipicamente masculinos, Maracanã, por exemplo, ou indicados por mim, museus e teatro, como incentivo de empoderamento cultural. Durante o período trabalhado com os garotos pudemos observar a tensão constante deles no que diz respeito aos papéis sócio-sexuais a serem desempenhados na sociedade, as pressões, a violência física e simbólica, muitas vezes usada na construção do papel masculino cobrado pelos segmentos sociais onde estavam inseridos, ou oriunda das suas casas e constantemente pela polícia, lembrando que muitos moravam em comunidades próximas da Escola. A influência do espaço escolar foi outra vertente analisada como influência nesta construção de gênero. Alguns dos teóricos que nortearam este trabalho foram Bourdieu e Foucault, entre outros.
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As Masculinidades em Mayombe de Pepetela
Silvio de Almeida Carvalho Filho (UFRJ)

O livro Mayombe de Pepetela, renomado escritor angolano, relata as vidas de guerrilheiros do Movimento pela Libertação de Angola (MPLA) na selva de Mayombe, em Cabinda, na luta pela independência. As trajetórias de seus personagens permitem-nos um campo de reflexões sobre como se formam e se conformam as masculinidades como um constructo social. Um constructo elaborado nas interações, muitas vezes conflituosas, entre as diversas masculinidades, assim como frente às feminilidades, essas “ausentes”/“presentes” nas ações masculinizadoras. A ficção-história de Pepetela possibilita-nos vislumbrar que práticas corporais e mentais estruturam os corpos e os intelectos generificados frente aos fenômenos do trabalho, da política, da guerra e da violência em geral. Nesse con/texto histórico e literário da guerrilha em Angola, testemunhamos, também, experiências de como as masculinidades configuram-se e se diferenciam pelas transversalidades étnicas, raciais, de classe ou de formação educacional, ou seja, como são, no arbítrio do social, relacionalmente estruturadas e estruturantes.
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Auto-Ajuda e Masculinidade: A Idade do Lobo em Questão.
Talita Pereira de Castro (UNICAMP)

O discurso de auto-ajuda prolifera intensamente no contexto cultural contemporâneo. O presente trabalho propõe-se a discutir essa produção a partir de inflexões de gênero e de idade. Para tal, foco-me na produção nacional, escrita por autores (as) brasileiros (as) em português, voltada para homens adultos. As leituras apontam para uma maturidade que parece ser problematizada a partir de um ponto crucial: a chamada crise dos quarenta destaca-se como momento quase que
obrigatório na trajetória biográfica tanto dos leitores quanto dos próprios escritores. A compreensão dessa crise e das soluções propostas pelos diferentes autores é importante na medida em que
constitui um momento no sentido da construção de um self masculino maduro. A imagem do lobo, cunhada no Brasil por Elyseu Mardegan Jr, e a idéia da década do prazo final, como nomeada pela estadunidense Gail Sheehy em Passagens: Crises Previsíveis da Vida Adulta, amalgamam-se
como fortes influências para a produção de auto-ajuda nacional destinada aos problemas e experiências próprios da maturidade. Tendo como ponto de partida a concepção de subjetividade contemporânea mais geral que norteia essa produção cultural – a saber, como aquela que deve buscar em si mesma as possibilidades de resolução de todos os seus problemas, que se lhe aparecem como de sua total responsabilidade –, procuro abordar as formas através das quais a masculinidade é delineada. Nesse sentido, temas tais como a preocupação com as transformações do corpo, saúde, relações conjugais e/ou familiares e desenvolvimento profissional – entre outros – aparecem na auto-ajuda como fios condutores na (re)criação dessa experiência.
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Homens também fazem isso? - Um estudo sobre as representações de masculinidade no contexto turístico da Praia de Pipa-RN
Tiago Cantalice da Silva Trindade (UFPE)

O imaginário social, principalmente o estrangeiro, sobre o Brasil sempre foi associado a uma sensualidade exacerbada, com ênfase à figura da mulata, e a uma carnavalidade que, com a ajuda dos órgãos públicos e empresas ligadas à atividade turística, forjaram o brazilian way of life. Todavia, a construção desse imaginário abarcou também o homem brasileiro. Tal fenômeno torna-se mais perceptível quando nos deparamos com o contexto da atividade turística. O presente trabalho objetiva problematizar os conceitos que atrelam prostituição a feminilidade e turismo sexual a masculinidade, a partir das novas configurações das relações de gênero da Praia de Pipa-RN. Onde turistas estrangeiras viajam em busca de estilos de masculinidades já raros em seus países de origem e procuram fugir de relacionamentos fortemente marcados pela negociação de poder (PISCITELLI, 2000). Esses homens, conhecidos emicamente como caça-gringas, por sua vez, reforçam conscientemente tais estereótipos. Astuciosamente, eles imprimem sobre seus corpos, através de um body-building baseado no bronzeamento e nos músculos, marcas diacríticas que facilitam as interações com as gringas (categoria êmica) e transmitem uma idéia, como afirmam Mirian Goldenberg & Marcelo Ramos (2002), de saúde e beleza. De forma tática, nos termos de De Certeau (2007), os caça-gringas mesclam elementos relacionados ao discurso da masculinidade hegemônica, ostentando traços de virilidade, disponibilidade sexual e libido latente, e outros ligados ao que poderíamos chamar de masculinidades alternativas (MOORE, 2000), assumindo tipos de agência historicamente relegados ao feminino, demonstrando serem sensíveis, carinhosos, românticos e dependentes. Formando o que chamamos de uma representação de masculinidade híbrida.
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Gênero e postulação de verdade em três narrativas de presidiários
Vladimir Oliveira Santos (UnB)

A produção literária de grupos marginalizados no Brasil tem comumente se valido de um discurso que dá primazia à “autenticidade” dessa voz. Esse tipo de discurso “autêntico”, contudo, está calcado numa postulação de verdade para o seu conteúdo, reproduzindo uma crença na transparência da linguagem como transmissora de experiências. Investiga-se aqui como essa postulação de verdade se articula, na narrativa de três autores da prisão (André du Rap, Jocenir, e Luiz Alberto Mendes), com uma afirmação da masculinidade. A associação histórica entre o masculino e o discurso da verdade permite que esses autores marginalizados se valham de seu gênero como um instrumento para angariar a confiança do leitor e assim legitimar suas narrativas. A conseqüência disso, contudo, é que outros grupos marginalizados, como as mulheres e os homossexuais, acabam sendo alvo de uma representação que muitas vezes beira a homofobia e a misoginia. É dessa forma que uma produção literária que luta contra categorias sociais de opressão (simbolizadas, de uma forma geral, pela imagem da prisão) acaba por reproduzir outras formas de opressão, como as de gênero e orientação sexual.
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“Serás hetero ou não serás!” : abjeção, violência e purificação.
Wanderson Flor do Nascimento e Felipe Areda (UnB)

Este trabalho busca mapear as instanciações de uma economia heterossexual dentro das relações homoeróticas masculininas e das afirmações identitárias dentro da cultura e da militância gay. Investigam-se aqui os esforços de sujeitos envolvidos nessas relações na reconstrução de uma virilidade e na fuga de lugares de abjeção para lugares palatáveis, consumíveis, normatizados: atravessado de impurezas e processos de purificação, é preciso ser, é preciso ser hetero. A heterossexualidade aparece como uma economia violenta que permanece sustentando uma ideologia de masculinidade mesmo em relações homoeróticas e mesmo em militâncias por uma suposta diversidade. Reproduzem-se assim, no meio gay brasileiro, heterossexismos, estados de dominação relacionados a papeis sexuais, práticas e discursos misóginos, objetificações, abjeções, estupros... Instaura-se outros dentro de outros, constroem-se alteridades dos quais temos que nos distanciar para deixar a posição de outredade degenerada. Pela raça, pela classe, por afirmações ocidentalistas, pelo gênero, é preciso regenerar-se, é preciso fugir do lugar de abjeção, purificar-se e voltar a norma. Por último – mas não ao modo de finalizações, mas de possibilidades e reinvenções – busca-se nessa textualidade ensaiar, na posição de alteridade marginal, uma radical construção de subjetividades degeneradas e num projeto desconstrucionista feminista e pós-colonial pensar em formas de estar à margem dos dispositivos da sexualidade/virilidade e de uma hegemonia consumista ocidental aprisionadora.
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