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14 - A escrita do eu: ficções e confissões da dor I

Coordenação:
Profª Drª Tânia Regina Oliveira Ramos (UFSC)

Profª Drª Constância Lima Duarte (UFMG)

Profª Drª Rosana Cássia Kamita (UFSC)

Neste simpósio, a idéia central é o estudo de ficções e confissões que abordem a dor. A dor do desamor, da denúncia política, da violência, do preconceito podem ser estudadas na literatura, no cinema, ou em outras formas narrativas, sem restrição de época ou de autoria. Discutiremos a questão da dor e sua ligação com o esquecimento. Conforme os versos do poeta Cruz e Sousa, “Esquecer é andar entre destroços / Que além se multiplicam”, o esquecimento “é uma casa vazia... de cerradas portas”... Estudos que ressaltem o não-esquecimento e a memória serão privilegiados no presente simpósio que busca esta dupla leitura: a escrita do eu/a escrita doeu.

Refúgios da dor: a prática da escrita entre mães e familiares de desaparecidos políticos do Araguaia
Deusa Maria de Sousa (UFSC)

Esta comunicação pretende discutir uma parte da correspondência de Ermelinda Mazzaferro Bronca, mãe do desaparecido político do Araguaia José Huberto Bronca, trocadas com outras mães de desaparecidos além de autoridades/entidades civis brasileira e internacionais na incessante busca por notícias que as levassem ao paradeiro dos filhos ou, pelo menos, aos corpos dos mesmos. Para tanto, desenvolverei minha de análise, com a metodologia centrada na perspectiva de análise da experiência, memória e identidade presentes da construção do discurso destas mães.

Teresa Margarida da Silva e Orta: os escritos do cárcere
Conceição Flores (Universidade Potiguar)

Teresa Margarida da Silva e Orta, a primeira mulher a escrever e a publicar, em 1752, um romance em língua portuguesa, nasceu em São Paulo em 1711, mas foi com a família para Portugal, em 1716, e nunca mais regressou ao Brasil. Filha de um “torna-viagem”, cuja riqueza adquirida no Brasil possibilitou a compra do cargo de provedor da Casa da Moeda de Lisboa; casada, contra a vontade paterna, com Pedro Jansen Moller; Teresa Margarida pertencia à sociedade de corte. Uma sucessão de acontecimentos, entre eles a morte do marido, a chegada ao poder do Marquês de Pombal e o namoro do filho mais novo com uma parente do marquês, acabou por ocasionar a prisão da autora. Presa durante 7 anos, deixou dois poemas escritos no cárcere. A nossa comunicação irá abordar esses poemas, de cunho auto-biográfico, marcados pela dor.

Confissões da dor: a memória da ditadura militar na poesia de Lara de Lemos
Cinara Ferreira Pavani (Universidade de Caxias do Sul)

A obra poética de Lara de Lemos caracteriza-se por um marcante posicionamento da poeta diante de seu tempo. No livro Inventário do medo (1997), a escritora rememora sua dolorosa experiência nos anos de chumbo no Brasil. Perseguida e presa durante a ditadura, depois de 30 anos, a autora transforma em poesia o tema da tortura, evidenciando a dor que acompanhou essa vivência. Esse trabalho, portanto, analisa os poemas do referido livro, visando examinar a memória da dor e as relações entre a subjetividade e a realidade na oética de Lara de Lemos. Para tal, busca-se apoio teórico nos estudos de gênero e na história das mentalidades, uma vez que ambos contribuem para a análise voltada para a especificidade da escrita feminina de um determinado momento histórico.

Modos de sofrer: o luto no discurso autobiográfico de Nísia Floresta
Constância Lima Duarte (UFMG)

Ao lado de reflexões sobre a educação, as mulheres, os índios ou os escravos, Nísia Floresta (1810-1885) deixou também registrados em sua obra importantes depoimentos sobre si mesma. Aliás, praticamente tudo o que se sabe hoje sobre a autora foi encontrado em seus diferentes livros, independente de serem poemas, romances, crônicas ou ensaios, tal o caráter autobiográfico de sua obra. Em o Itinerário de uma viagem à Alemanha, por exemplo, de 1857, em que a autora está de luto pelo falecimento da mãe, ao invés de privilegiar a história das cidades que visita, ela coloca as emoções e a própria subjetividade no centro da narrativa. Como também perdeu o pai e o companheiro no mês de agosto, passa a considerá-lo um mês aziago, e todos os anos, nesta ocasião, escreve para lamentar a tríplice perda. Pretendo, nessa ocasião, apresentar alguns textos em que Nísia Floresta expõe literariamente a sua dor e expia, dessa forma, o seu luto.

Eu era Nilce, mas também Regina, Vera, Mônica...
Susel Oliveira da Rosa (Unicamp)

Envolvida na luta contra a ditadura militar e perseguida pela repressão, Nilce Azevedo Cardoso foi presa em abril de 1972. A violência brutal dos policiais começou no momento da prisão: “socos e pontapés por toda parte”. Chegando ao DOPS/RS a primeira ordem foi para que tirasse a roupa – “você, despida, mas não é só a roupa, eles vão tirando tua pele, vão falando coisas horríveis...é como se nada sobrasse” - , a isso se seguiram os choques e a destruição física de seu corpo-testemunha. Um mês depois foi transferida para a OBAN, em São Paulo. A tortura tatuou-se para sempre. Como sobreviver ao trauma? Nilce, ao narrar-se, diz que a amizade e o afeto permitiram que ela não cedesse ao universo dos torturadores e continuasse acreditando nas potencialidades da vida. Seguindo o fluxo de sua memória, a proposta desse trabalho consiste em analisar os devires – em especial, a amizade – encontrados por Nilce para transcender a redução à “vida nua”.
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A dupla opressão, a memória e a dor na narrativa pós-ditatorial de Ana Maria Machado.
Mirele Carolina Werneque Jacomel; Lúcia Osana Zolin

Investigar a história da mulher no Brasil implica conhecer, por ângulos diversos, a histórica opressão que lhe tem marcado a trajetória. Condenadas a diferentes modalidades de silêncio, muitas das mulheres brasileiras carregam consigo sinais de um passado doloroso, difícil, não raro, de ser revisitado. Partindo dessa constatação, nosso objetivo nesta comunicação é promover o desnudamento da dor advinda da dupla opressão – política e de gênero – na trajetória de Lena, a protagonista do romance Tropical sol da liberdade (1988), de Ana Maria Machado. Trata-se de pôr em discussão a dor de ser mulher e cidadã no contexto da Ditadura Militar no Brasil, essencialmente marcado pelas relações de poder e de dominação.
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Imagens Femininas na contemporaneidade: um estudo de gênero a partir da escritora Alícia Steimberg
Ednéa Aparecida da Silva Boso (UNESP/Assis)

É incontestável a importância da discussão sobre a questão de gênero, especialmente, em narrativas de autoria feminina que contemplam a escrita do eu (discurso) enquanto sujeito de identificação, submissão e emancipação. O presente trabalho tem como objetivo mostrar a representação da figura feminina no conto "Como a Ana é" da escritora Alícia Steimberg, a fim de demonstrar os papéis sociais atribuidos à mulher em uma sociedade considerada arcaica e patriarcal. Ademais, ao narrar a história, a autora apresenta reminiscências marcada por desigualdades, angústias, opressões e preconceitos. A partir daí, evidencia-se uma ruptura com os modelos tradicionais na literatura, reivindicando uma nova posição para a mulher no mundo contemporâneo, ou seja, um novo olhar: o da diferença.
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A confissão de Riobaldo na ficção de "Grande sertão: veredas"
Abel da Silveira Viana (UFSC)

Em "Grande sertão: veredas" a narração de Riobaldo está permeada de culpa. Culpa pelas pessoas que matou, por ter feito o pacto com o diabo, mas, principalmente, por Diadorim. As circunstâncias da morte – da vertigem do narrador durante a luta de seu companheiro com Hermógenes até a descoberta do grande segredo de Deodorina – são absolutamente traumáticas para Riobaldo.
As teorias de gênero já demonstraram que a dificuldade do testemunho muitas vezes está relacionada com uma culpa inexplicável, que leva a pessoa a preferir o esquecimento. No extremo da relação entre testemunho e violência, há um paradoxo radical: quanto mais se vivencia a violência, menos há possibilidade de narrá-la. O sentimento de culpa é proporcional à violência, da qual a testemunha é, não raro, a principal vítima.
Por esta via, poderíamos pensar o discurso de Riobaldo como uma grande ficção-confissão da dor. Indo mais além, poderíamos re-estabelecer o nexo entre culpa e dívida, exposto por Nietzsche na "Genealogia da moral", e a partir dele pensar a escrita do eu como o pagamento de uma dívida, como uma desculpa.
Com esta problematização, pretende-se colocar em uma nova perspectiva algumas questões de "Grande sertão: veredas". O romance de Guimarães Rosa se configuraria como a tentativa monumental de expiar a culpa pela morte de Diadorim. Neste sentido, a perda de Diadorim é o que funda a narrativa de Riobaldo.
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Second Life: simulacros do corpo, violência e poder
Cintia Rosa da Silva, Jeanine Ferreira dos Anjos Costa (UNISUL)

Nesta comunicação apresenta-se uma análise de alguns aspectos do jogo Second Life, destacando a representação dos simulacros do corpo, da violência e do poder. Second Life é um jogo virtual que traz à cena elementos da cultura pós-moderna, como a construção e desconstrução de representações da realidade, através de narrativas que acontecem em um ambiente virtual em três dimensões. Nessas narrativas visuais/sonoras constata-se a simulação de aspectos do convívio social do ser humano. Destacamos a relevância de se adentrar no estudo de aspectos desta obra, na media em que nos deparamos com o hiper-real, onde tudo acontece de tal maneira que tudo é mais real do que parece. Second Life proporciona, assim, uma construção e desconstrução das possibilidades de narrativas/enredos do “eu”, sugerindo ao jogador/personagem o domínio sobre sua história e da de outrem. Entretanto, evidenciamos em nossa leitura como também essa mesma tecnologia virtual pode distanciar o convívio com o real pelo que se vislumbra na vida imagética dos simulacros de Second Life.
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Cidade Triste
Norma Abreu Telles

A cidade moderna prevalece no Ocidente há mais de trezentos anos.Na cidade das luzes e da razão, as mulheres (Perrot), foram sendo silenciadas pela modernidade masculina e urbana até meados do século XX. Na ficção, por entre as avenidas e ruas iluminadas, para além dos becos escuros, dos cortiços e dos locais perigosos e violentos, há sempre, nos cantos e recantos da cidade moderna, casas assombradas, mansões antigas, abadias em ruínas, com labirintos, armadilhas, grades e passagens secretas que aprisionam moças que buscam seu lugar e sua definição meio a este mundo novo. São essas mansões de horror que acabaram formando a “cidade triste” (Cançado). Foi no final do século XVIII que a filósofa e escritora Mary Wollstonecraft descreveu, talvez pela primeira vez, uma dessas moradas assombradas, dando-lhe nova conotação, em Maria, or the Wrongs of Women (1791). Essa apresentação se debruça sobre esta obra assim como sobre as de Leonora Carrington, Down Bellow (1937-38) e Maura Lopes Cançado, Hospício é deus (1965) para fazer uma leitura de alguns locais de sofrimento que formam uma cidade triste.
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Confissões da ‘loucura’: narrativas de mulheres em espaços de internamento.
Yonissa Marmitt Wadi (Universidade Estadual do Oeste do Paraná – Bolsista de Produtividade em Pesquisa CNPq)

Discuto nesta comunicação as dimensões paradoxais da vida em espaços manicomiais, bem como o processo de construção de subjetividades nos lugares de internamento, considerando conjuntos documentais oriundos da escritura ou fala de mulheres internas como ‘loucas’. Documentos deste tipo são raros, pois poucos dentre os sujeitos anônimos ou famosos que foram internados e viveram curtos ou longos períodos, em hospitais psiquiátricos, narraram suas experiências no interior de tais instituições. Em suas narrativas alguns delinearam o processo de sua enfermidade, os tratamentos buscados, seu encontro com as práticas e o poder médico; alguns se limitaram a reivindicar sua condição de ‘não-louco’; outros rememoraram suas vidas até o momento da internação, ora no sentido de defenderem-se da ‘acusação’ de serem loucos, ora ‘acusando’ outrem pela imputação da loucura a eles dada. Majoritariamente são relatos negativos, chocantes ou mesmo brutais sobre a vida nos hospícios evidenciando as dores desta experiência. Porém, em algumas narrativas, as instituições e a vida dentro delas emergem sob outras perspectivas: a de sujeitos que acreditaram encontrar nelas um ‘lugar para si’ ou, por outro lado, como um espaço de criação artística, no qual as dores da vida anterior ao internamento e mesmo neste, parecem se diluir. As fontes documentais analisadas são: cartas escritas por uma camponesa brasileira interna no Hospício São Pedro de Porto Alegre – RS (1909-1911) e falas transcritas de gravações realizadas com uma mulher – identificada como ‘doméstica’ – internada no Centro Psiquiátrico Pedro II e na Colônia Juliano Moreira, na cidade do Rio de Janeiro – RJ (1962-1992).
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“Onde coloco a palavra coloco meu corpo”: sobre dois romances de Luisa Valenzuela
Paloma Vidal (UNICAMP)

“Escrever com o corpo” é como Luisa Valenzuela define o que procura fazer em seus textos. Neles, o corpo inteiro se compromete, para levar adiante um processo de descoberta muitas vezes doloroso, como em Romance negro com argentinos (1990), em que os personagens, dois escritores argentinos em Nova York, se envolvem numa trama policial que os leva a enfrentar “insuportáveis lembranças”. Em seu romance mais recente, La travesía (2001), Valenzuela empreende mais uma viagem a Nova York para buscar outra escrita do corpo. “Escrever e viajar estão para mim profundamente relacionados”, diz também a escritora. Gostaríamos de analisar, nos dois romances citados, a relação entre viagem, corpo e escrita.

Sparkianas violentadas: a realidade violenta da mulher nos contos de Muriel Spark
Célia Cristina de Azevedo (Unesp)

Falar sobre a violência sofrida por mulheres, em todas as sociedades, em todos os tempos, muitas vezes significa para elas reviver momentos que lhes seria melhor ter esquecido. No entanto, a denúncia muitas vezes adquire, nos meios de que se utiliza, um aspecto interessante. O sofrimento das mulheres e o desejo de mudar sua condição de vítima e agredida tornam-se um estímulo para que a voz da mulher, antes embargada, seja ouvida claramente e sua situação, mudada. Estas mulheres comumente encontram em outras a defesa de seus direitos, a denuncia de seus sofrimentos e a realização de seus desejos. Na Literatura, é provável que estas mulheres sofredoras ganhem voz e sejam felizes. No entanto, há aquelas cujo sofrimento parece se identificar ao de muitas outras mulheres, formando um coral de lamentos, exigências e protesto. São estas mulheres que ganham o direito de falar e agir nos contos de Muriel Spark, escritora escocesa que em suas ficções deu vida a mulheres cujas vidas foram marcadas por sofrimento, luta, violência e injustiça. Expondo estas mulheres, a autora pretende dar voz àquelas que não têm oportunidade de falar, por serem agressivamente silenciadas. No silêncio imposto ou na violência física, o sofrer pode representar o exercício do poder masculino. No entanto, nem sempre elas aceitam esse silêncio e buscam outras maneiras de denunciar a violência que sofrem ou testemunham.

Uma narrativa de resistência e a submissão: a história de Mukhtar Mai
Jennifer Perroni (UFF)

No ano de 2002 a paquistanesa Mukhtar Mai foi condenada pelo tribunal local de sua aldeia a um estupro coletivo como forma de expiar a ofensa cometida por seu irmão a uma casta superior. Infelizmente situações como essa não podem ser consideradas raras no Paquistão, onde o estupro como forma de resolver conflitos entre famílias é uma prática comum. Assim, o mais impressionante nessa história talvez tenha sido justamente a reação dessa mulher – uma simples camponesa – que, ao invés de se resignar ao silêncio ou cometer o suicídio, comum nesses casos, iniciou um processo de superação, denúncia, e luta pelos direitos das mulheres em seu país. Através dessa história podemos perceber como tradição e cultura permeiam as ações e representações de um povo onde o corpo feminino ainda representa um objeto que pode ser usado para a honra ou vergonha do clã. Mas esse mesmo sistema de valores também possibilita o surgimento de indivíduos que conseguem romper com um determinado padrão de subordinação. Nesse sentido, é preciso compreender que embora cultura e subjetividade compreendam continuidades históricas, também dão margem a processos de ruptura. A partir das palavras da própria Mukhtar, expressas em sua biografia, pretendemos analisar alguns elementos presentes nessa narrativa que une resignação e resistência e cuja voz passa a representar as vozes de tantas outras mulheres como ela. “Falar da sua dor, de um segredo que consideramos vergonhoso, liberta o espírito e o corpo. Eu não sabia.”

A difícil expressão do amor em Duas Iguais, de Cintia Moscovich
Virgínia Maria Vasconcelos Leal (UnB)

Duas Iguais, de Cintia Moscovich, narra a história de amor, com contornos trágicos, entre duas jovens mulheres. A temática homossexual dialoga com a tradição judaica, em um cruzamento do discurso religioso como o amoroso, em um jogo de impossibilidades. Ao contar uma história de amor transgressor, o romance subverte papéis tradicionais de gênero, mas, por outro lado, seu componente trágico assinala a impossibilidade de tal subversão, uma vez que o amor só pode ser vivenciado fora da vida cotidiana, em um deslocamento constante. Trabalho aqui, especificamente, os conceitos de gênero de Teresa de Lauretis e de Judith Butler. Em sua maior parte, o romance é narrado em primeira pessoa por Clara, cujo discurso adequa-se aos seus estados emocionais e físicos. Seu discurso é melancólico, havendo a necessidade de narrar, no sentido trabalhado por Sigmund Freud, em "Luto e Melancolia", quando ressalta o trabalho de rememoração, a fim de se perceber o que foi perdido. Em diálogo intertextual com o romance "Inscrito no Corpo", de Jeanette Winterson, a obra de Cintia Moscovich permite a análise da construção de uma personagem melancólica e a possibilidade de superação por meio da certeza de que o amor deve ser narrado e reverenciado.

Do amor banido: o tema do homossexualismo na obra de Harry Laus
Zahidé Lupinacci Muzart (UFSC)

Pergunta-se o escritor português Lobo Antunes:
“Conheces algum artista que não sofra, conheces algum artista feliz?”
Na obra do escritor Harry Laus, a homossexualidade está sempre presente: na dor da não-aceitação por parte do próprio escritor e da sociedade da época. Tal tema organiza e domina sua obra, notadamente seu último romance Os papéis do Coronel.
Nesse trabalho, pretendo abordar a temática na coletânea de contos inédita, intitulada Do amor banido e em algumas cartas do autor.

Poesia, memórias e confissões na Alexandria de Kaváfis
Roger Miguel Sulis (UFSC)

Partindo da temática do corpo na poesia homo-erótica de Konstantinos Kaváfis (1863-1933), escrita mormente usando o artifício da memória e de uma derivação em tempo e espaço do eu, este estudo pretende ser uma leitura da confissão nos escritos kavafianos em dois momentos distintos. Na configuração de um ambiente clandestino ou criminal, onde a dor se expressa na confissão dessa clandestinidade e no isolamento, pelo viés do preconceito. Bem como na aceitação e redenção desse ambiente e do eu através dos fármacos da Arte, que resgatam da memória o prazer, dor e frustração passadas para ficar impressos em poesia.
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Atrevimiento y desvio: reescritura de un relato mitológico en la poesía de Luis de Góngora
Luis Alejandro Ballesteros (Facultad de Lenguas – Universidad Nacional de Córdoba – Argentina)

La poesía de Luis de Góngora (1561-1627) ingresó al canon de la literatura española por medio de un proceso –esto es, un entramado de lecturas– complejo y contradictorio que tuvo uno de sus puntos culminantes en la “polémica gongorina” que se desarrolló en el siglo XVII. Esta polémica se centró en la discusión sobre el equilibrio entre “res” y “verba”, que la poesía de Góngora habría alterado. Desde una lectura queer, proponemos que esa alteración o desvío –debida en principio a una peculiar concepción de la materialidad significante de la lengua– se vincula con la alternancia entre determinación e indeterminación de género de los sujetos textuales y con una visión transgresora de los roles de género. Para argumentar tal lectura, este trabajo se centra en la reescritura gongorina del relato mitológico que tiene por protagonista a Faetón. El análisis de cuatro sonetos permite mostrar que Faetón es en la poesía de Góngora una imagen de atrevimiento y de desvío –tanto poéticos como amatorios– que construyen una subjetividad signada por el dolor y la frustración de la sensualidad.

O prazer das dores velhas e a criação literária
Helena Heloisa Fava Tornquist (UFSC)

Quem dera fosse possível conceber-se uma obra fora do self, uma obra que permitisse ao escritor sair da perspectiva limitada do eu individual, para entrar em outros eus, observa Ítalo Calvino, constatando a impossibilidade de uma escrita puramente objetiva. Considerando que a carência está na origem da linguagem – se o ser humano vivesse na plenitude a palavra seria dispensável – pretende-se examinar, em diferentes textos, como o escritor trabalha os recursos narrativos para falar da dor e do sofrimento humanos. Na literatura brasileira oitocentista, além de poemas românticos construídos em torno da idéia de que “amar é sofrer”, destacam-se criações de Machado de Assis como o romance Dom Casmurro. A dificuldade do narrador em relatar certos fatos vividos, e, sobretudo, a alusão ao prazer singular suscitado pela memória do sofrimento - no fundo o motivo que o levou a escrever – constituem-se formas veladas de aludir à dor e à angústia experimentadas. Pode-se dizer que, ao ficcionalizar a expressão individual dos sentimentos, Machado antecipou o que seria comum em narrativas memorialistas e mesmo em criações mais “impessoais” do século XX. Quando, no árduo trabalho dos meios de expressão, o talento do escritor consegue transformar a dor em matéria-prima da criação, sua obra cresce em humanidade. Como “o prazer nas velhas dores” de Dom Casmurro que até hoje nos lembram haver coisas que só a literatura, com seus meios expressivos, nos pode dar.

Cartas Cativas: Íngrid Betancurt heroína ou mártir?
Amanda Pérez Montanez (UEL)

No presente artigo realiza-se uma reflexão sobre a carta que Íngrid Betancurt escreveu a sua mãe em outubro de 2007 como prova de vida de seu cativeiro. Nessa missiva podemos ler as dramáticas palavras de uma mulher à beira da desesperança e da morte. Escrita de si para si, onde Íngrid revela/denuncia com intensa dor as condições inumanas a que é submetida constantemente pelos seus captores. Revela também a estreita relação entre subjetividade e linguagem a partir do testemunho de uma mulher em cuja escrita se narram os fatos da agressão, mostrando de quê formar a gestão política das Farc é exercida a través de uma força externa à vida que impacta no corpo uma relação de subjeção. Paradoxalmente, a vida que precisa ser preservada, pois representa uma arma política e militar, não pode ser assegurada nessa condição de cativeiro. Ou seja, conservar a vida da refém significa preservá-la através de uma situação que conduz à morte. Na dor da narradora, podemos ver que o nexo entre política, corpo e vida define a norma de funcionamento da detenção indefinida da seqüestrada no profundo da floresta, onde a única lei que prevalece é a imposta pelos detentores, demonstrando ser instrumento para o controle dos indivíduos e a desrealização do humano. É precisamente sobre essa e outras linhas diretrizes que versará a presente reflexão.
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A impregnação da violência em São Bernardo
Wanessa Zanon de Souza (UFRJ)

Em São Bernardo, de Graciliano Ramos (1934) é visível as conseqüências da violência sobre o personagem-narrador do romance: Paulo Honório. Por isso, o trabalho pretende destacar o rumo doloroso do personagem, sendo este reflexo da estrutura patriarcal vigente e de uma dor produzida tanto pelo sistema quanto pela constituição dramática do personagem em questão.
O personagem-narrador só inicia o processo de escrita do livro quando tem consciência de sua deformação, buscando em sua memória as causas para sua dor. Desta forma, serão evidenciados elementos de seu conturbado relacionamento conjugal que assim como em outras áreas de seu convívio foi permeado pela violência.

Entre carmesim e carmesim a memória, o esquecimento e a escrita da infância: um feminino exercício pelo reino do inacabado
Denise Bussoletti (Universidade Federal de Pelotas)

“Entre carmesim e carmesim, bárbaro, estremece a memória e a sua palavra”, diz o poeta. Carmesim é assim, a cor, onde a memória da dor, traço que complexifica e inaugura os destinos da palavra, sugere o pigmento de uma im-possível escrita da infância, enquanto feminino exercício.
Exercício que se assume como uma tarefa ética, estética e política. Trata da infância no contexto do holocausto através das crianças do Gueto de Terezin, próximo a cidade de Praga, durante a Segunda Guerra Mundial, e de um outro contexto também de holocaustização deliberada, representado pela situação de barbárie onde sobrevivem as crianças da Vila Princesa, periferia da cidade de Pelotas-RS, em “nossos dias”. Pelo carmesim tinge-se um mesmo tempo de uma fictícia linha, um trabalho de tecedura de um luto, de um perambular pela rememoração e pelo esquecimento em busca da imaginação, ou da criação de uma insubordinação a tudo aquilo que insiste em acomodar-se pelo rótulo do historicamente vencido.
Se “Habitar significa deixar rastros”. Rastrear essa hora é reconhecer também, a fragilidade e o efêmero de uma escrita, especificamente da metáfora mnemônica dessa que é traço ou rastro, de outras possibilidades de verdades. Busca em curtas palavras (mas de significação infinda): pelo silêncio e pela palavra as infâncias que resistem.

A memória fragmentada nas figuras femininas de Sarah Kane: o que resta?
Ângela Francisca Almeida de Oliveira (UFRGS)

Encarada como herdeira da tradição de autores como Samuel Beckett e Harold Pinter, Sarah Kane é considerada uma das mais importantes dramaturgas da cena inglesa contemporânea. De crueza grave e violência cortante, suas peças trazem a essência humana em situações pungentes, sem ornamentos ou máscaras. A autora alcança a base de nossas urgências, doenças e desejos. Suas personagens mostram aspectos obscuros e frágeis de um eu violentado no contato com o mundo.
O eu das palavras de Sarah Kane é um eu lírico que, imerso na expressão de pensamentos lancinantes, manifesta sua interioridade mais profunda. As palavras vêm carregadas de culpa, dor e força simultaneamente. Em duas de suas peças – Ânsia e 4:48 Psicose – temos figuras femininas que alternam frases curtas (esboços de diálogo) e longas (monólogos interiores) expondo o fluxo de seus pensamentos mais íntimos.
Na obra de Sarah Kane, as rememorações (sentidas como presença atual) agem desconstruindo a noção de passado e presente e de eu e outro. Apresentando fluxos de pensamentos entremeados de interferências externas, a expressão de um inclui o outro – não como diferente, mas como parte de um todo. Em relatos fragmentados essa invasão não permite um deslocamento impune da individualidade dentro dessa vivência ilimitada.
Pretendo discorrer sobre a forma como suas figuras femininas expressam essa interioridade invadida e violentada em lapsos de memória. Memória fragmentada e inconstante que não permite linearidade narrativa e preenche a obra de relatos e silêncios complementares.
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Dor compartilhada na escrita ameniza ou imuniza?
Leani Budde (UFSC)

A dor contada, compartilhada, é menos doída, ou ao relatá-la novas significações ficam evidentes e já se pode senti-la sem tanto pesar? Admitir e dividir fraquezas e emoções é um modo de estar mais próximo de outro que também sofre e se identifica, querendo saber sempre mais? Um livro que fala de experiências vividas, de perdas e recomeços torna o autor mais real, uma pessoa comum, tal qual o leitor, numa catarse para quem o escreve e também para quem o que lê? Isso seria auto-ajuda ou ajuda mútua? Ou apenas autobiografia, bildungsroman, crônicas do cotidiano, relato de memórias? Perdas, começos e recomeços permeiam Perdas e Ganhos, best seller de Lya Luft. A autora traz no livro as mesmas temáticas abordadas em romances que a consagraram no meio literário, como O Quarto Fechado, Exílio e As Parceiras. Neles, retratou mulheres atormentadas, doídas, presas em suas próprias armadilhas, reais ou imaginárias. E em Perdas e Ganhos (não ficcional), a angústia das (antes) personagens transforma-se em questionamentos da própria escritora, parecendo, assim, dores atenuadas pelo tempo. Compartilhar a dor com o leitor (desconhecido e imaginário) ajuda a amenizar? Imuniza? Em tom de conversa íntima, Perdas & Ganhos fala das armadilhas de gênero, dos erros e dos acertos dos humanos. “Talvez ruminemos o que não entendemos de nós”, ela já disse e escreveu várias vezes. Nosso intuito é mostrar que a escrita do eu em Luft pode ser vista a partir desta perspectiva.
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Reflexões sobre a prática da escrita feminina
Elisabeth Juliska Rago (PUC/SP)

Das memórias deixadas por Francisca Rosa Barreto, nascida em Cachoeira, no Recôncavo Baiano, em 1836, afloram sentimentos vivenciados de dor, privação, revolta, solidão e inconformismo. Rememorando suas experiências de vida na Pitanga, a propriedade de sua família, ela discorre sobre o penoso trabalho doméstico e, principalmente, sobre o seu ardente desejo de praticar a escritura, aspiração experimentada por muitas outras mulheres de seu tempo. A narrativa de Francisca Rosa revela clara percepção de que a precariedade da educação destinada às mulheres era engendrada pelo “egoísmo” dos homens. Sendo a memória tanto individual quanto social, nesse sentido, essa memória parece ser coletiva, pois existia um grupo de mulheres que viveram de alguma maneira acontecimentos semelhantes, uma vez pertencentes às camadas mais elevadas da população e ao mesmo tempo-espaço. Naquele universo interiorano, a economia agroexportadora com ênfase na produção de fumo e açúcar, representava o sustentáculo das oligarquias locais. Francisca Rosa herdou escravos, administrou os negócios da família depois da morte do pai, perda esta que a marcou profundamente, além de impor nova organização à família. Mudando-se para Salvador, depois de casada com um estrangeiro, tornou-se uma engajada mulher de letras e feminista. Publicou artigos no Almanaque do Diário de Notícias.
Este trabalho é uma reflexão baseada em um livro de memórias de Francisca Rosa. Está presente nessa discussão a possibilidade de as pessoas, no cotidiano da experiência vivida, investirem em linhas de fuga que escapam aos micropoderes, assumirem diferentes formas de resistência e forjarem ativamente distintas e singulares trajetórias de vida.
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De virgens a guerreiras: memórias de dor, poder e violência nas terras contestadas do “Império Caboclo”
Cláudia Regina Silveira (UFSC)

Este trabalho objetiva analisar a trajetória de personagens femininas na obra “Império Caboclo”, de Donaldo Schüller, publicada em 1994. Nesse romance, o autor traz como temática central o conflito ocorrido na região do Contestado, entre catarinenses e paranaenses, o que resultou na sangrenta Guerra do Contestado (1912-1916). A leitura a qual este trabalho se propõe parte de uma relação entre os seguintes pontos de análise: uma breve contextualização histórica, política e social do conflito nas terras contestadas, vista pela história oficial e que, portanto, exclui a importância da história da mulher nesse acontecimento; as intersecções de gênero, classe, raça e etnia; a violência que provoca a dor do corpo e da alma (física e moral), manifestada através de uma relação de poder que desencadeia na opressão, no domínio e na exploração; a diversidade de personagens femininas que, cada qual a sua maneira, sofre as dores resultantes de um sistema patriarcal que designa a mulher a ficar submissa ao domínio masculino na obra; e, ainda, questões referentes a políticas de localização, uma vez que as personagens mudam constantemente de lugar em virtude dos ataques e estratégias de guerra.
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Monólogo das dores: a reconstrução da memória em Kassandra de Christa Wolf
Rosvitha Friesen Blume (UFSC)

O conto Kassandra da escritora alemã Christa Wolf, publicado em 1983, é uma releitura da figura mitológica, a vidente ignorada da Guerra de Tróia, em face de inquietações centrais na segunda metade do século XX, como a Guerra Fria e a temática da emancipação da mulher na Europa. Kassandra, elevada aqui a protagonista, narra suas múltiplas dores: a dor da objetificação, a dor da visão, a dor da rejeição e, principalmente, a dor do auto-conhecimento. O monólogo de Kassandra representa o processo de reconstrução da memória de sua dor, o que a leva a superar o medo da dor e a tornar-se sujeito de sua história.
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