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Coordenação:
Sandra Regina Goulart Almeida
Doutora, Professora Associada, Universidade Federal de Minas Gerais

Leila Assumpção Harris
Doutora, Professora Adjunta, Universidade do Estado do Rio de Janeiro

O presente simpósio pretende discutir as questões de gênero face às novas configurações sociais e geopolíticas, ocasionadas com o advento da globalização, do transnacionalismo e das novas diáporas da contemporaneidade. Esse novo cenário vem contribuindo significantemente para produzir uma cultura em constante movimento e, por conseguinte, para o surgimento de grandes mudanças sociais, econômicas e culturais em todo o mundo.  Como conseqüência percebe-se não apenas um intenso fluxo transnacional de capital, mas também o de pessoas em espaços sociais e zonas de contato nas quais diferentes perspectivas culturais se encontram e, inevitavelmente, colidem entre si.  Nesse sentido, essa mobilidade cultural da contemporaneidade acaba por gerar novas configurações de gênero e suas interseções com as dimensões de etnia e classe, por meio de uma constante feminização dos meios de produção econômica e cultural. Gayatri Spivak chama a atenção para a ênfase nas relações de gênero suscitadas pelos novos movimentos culturais. Para ela, se o sujeito colonial era um sujeito de classe e se o sujeito do pós-colonialismo é um sujeito racializado, o sujeito da globalização é claramente gendrado.  Se antes o foco estaria nas questões de classe e raça, na contemporaneidade a mulher se torna o alvo de sociedades civis internacionais e, consequentemente, é incorporada como uma parte integral do projeto global para o estabelecimento de uma nova ordem social e econômica. Diante dessa perspectiva, esse simpósio pretende refletir, sob um enfoque transdisciplinar, sobre as novas configurações sócio-culturais, principalmente as novas diásporas da contemporaneidade e suas inevitáveis consequências para as relações de gênero. Pretende-se discutir como as relações de poder ocasionadas pelos novos movimentos culturais da atualidade ocasionam transformações nas questões de gênero, observadas nos meios de comunicação de massa, nas manifestações artísticas e culturais, na literatura, nas ciências sociais e sociais aplicadas, bem como em áreas afins.

Figurações da Diáspora em Silent Dancing, de Judith Ortiz Cofer
Adelaine LaGuardia Resende (Universidade Federal São João del- Rey)

James Clifford (1994), ao discorrer sobre a diáspora moderna alerta para o fato de que, junto à resistência às forças hegemônicas através de movimentos de transgressão, esse fenômeno gera também cumplicidades com o poder, caracterizando o complexo momento histórico em que vivemos. Neste sentido, faz-se necessário ler, nos textos de escritores contemporâneos, como os sujeitos “negociam” diante de vários mecanismos de poder e opressão atuantes em espaços distintos. Para Clifford. as experiências diaspóricas são sempre gendradas, muito embora as análises da diáspora se dêem em termos neutros. Em Clifford, desvela-se a necessidade de investigar como as mulheres se relacionam com os movimentos transnacionais contemporâneos de capital e cultura, como se negociam nesses espaços as relações de gênero ou como mediam realidades conflitantes e versões distintas de sistemas freqüentemente opressivos ou patriarcais. As questões acima apontadas serão analisadas através da leitura de Silent Dancing: a partial remembrance of a Puerto-Rican Childhood, da autoria de Judith Ortiz Cofer (1990). A experiência da diáspora produz em Ortiz Cofer momentos de intensa auto-consciência, em que a escritora questiona a condição do híbrido cultural. Essa condição, qualificada no texto como “esquizofrenia cultural” implica uma ruptura da identidade e uma dualidade cultural, explorada exaustivamente através das figuras da protagonista e de seus pais, assim como através dos “retratos” que vai compondo dos imigrantes com quem a protagonista convive em Paterson. A análise de alguns desses retratos nos permite compreender os lugares de gênero na diáspora que se configuram na escrita diaspórica dessa escritora nuyorican.
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Poder e Preconceito em "Travel to Montreal" de Dionne Brand
Adriana Mascarenhas Duarte de Assis (UFMG)

Explorando a escrita de autoria feminina no contexto da diáspora da contemporaneidade, pretende-se fazer uma leitura de um conto, enfocado a maneira pela qual o corpo negro-feminino-diaspórico da protagonista de "Travel to Montreal" vivencia situações de preconceito, abuso e opressão na sociedade canadense do século XX. A identidade da protagonista, diante de seus pares étnicos, é de uma mulher inteligente, forte, independente e desejante. Ao confrontar-se, porém, com a etnia branca masculina, sua identidade se estilhaça e, nesse enfrentamento, a personagem experimenta em seu corpo sentimentos de mulher deslocada, frágil, dominada pelo terror. O enfoque teórico do texto será buscado em Carol Boyce Davies, Gayatri Spivac, Sandra Almeida e Smaro Kamboureli.
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A paixão segundo Jeanette Winterson
Alcione Cunha da Silveira (UFMG)

Diante da intensa movimentação de um mundo cada vez mais globalizado e transnacional, o intercâmbio entre culturas, fronteiras e linguagens tornou-se solo fértil para as chamadas narrativas da alteridade. Nesse cenário, as interlocuções não se restringem aos deslocamentos de tradições específicas pertencentes há tempos idos. O presente continua ecoando o passado, mas o diálogo entre gerações distintas é, hoje, enormemente determinado também pelos sinais, traços, restos e fragmentos de povos e lugares outros. É no encontro diário com a diferença — desse outro agora tão próximo, graças, principalmente, à rede de interdependências criada pela globalização — que a cultura se articula, cada vez mais, sob as influências do vértice poder, gênero e transgressão. No romance A paixão, publicado em 2000, a escritora inglesa Jeanette Winterson, apresenta o relato da glória e queda do império de Napoleão Bonaparte sob o ponto de vista de dois sujeitos marginalizados: Henri, um jovem francês que foi para a guerra como cozinheiro do imperador, e Villanelle, a bela, misteriosa e andrógina filha de um gondoleiro veneziano que, além de possuir a capacidade de caminhar sobre as águas, se veste de homem para trabalhar em um cassino nas noites de Veneza. É através da análise dessa narrativa, fragmentada e metalingüística, que pretendo examinar a articulação de estratégias ficcionais que exploram a diversidade e a pluralidade das questões de gênero e, simultaneamente, questionam os tradicionais mapas identitários, geográficos, históricos e literários.
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Penelopéia: Penélope como protagonista
Alexandre Veloso de Abreu (PUC-MINAS)

Tão grandiosas quanto as aventuras do herói Odisseu são as marcantes ações de sua rainha, Penélope. Pretende-se, aqui, evidenciá-las ao ponto de fazê-las parelhas aos feitos do rei grego. John Finley em seu Homer’s “Odyssey” deixa claro que a Odisséia bem que poderia ser chamada de “Penelopéia”, observação que rendeu, até, um romance contemporâneo traduzido no Brasil como A Odisséia de Penélope, escrito pela canadense Margaret Atwood. A reflexão aqui proposta pretende enfatizar as ações da personagem Penélope no épico homérico e no romance contemporâneo. Julguei prudente chamar de “impressões” as ações de Penélope na epopéia clássica e de “expressões” tudo que lhe concerne no romance de Atwood, sendo que, em nenhum momento, ela assume o foco narrativo na obra de Homero e, já no romance, é ela a detentora do ponto de vista. Ao constatar a complexidade narrativa da epopéia homérica, torna-se possível voltar às atenções para Penélope. O emaranhado tecido pela rainha de Ítaca intensifica as redes da narrativa, cristalizando-a como um profundo e complexo exercício ficcional, fazendo da Odisséia também uma “Penelopéia”, por isso, uma obra literária inesquecível.
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Violência doméstica, prostituição e deslocamentos nas narrativas de Evelyn Lau
André Pereira Feitosa (UFMG)

A autora canadense Evelyn Lau, cujos pais são emigrantes chineses, apresenta em sua escrita um posicionamento crítico quanto às novas diásporas da contemporaneidade. Apesar de ser cidadã canadense, Lau encontra-se oprimida por valores chineses em seu lar. A metáfora da atitude de cruzar fronteiras se faz presente em suas narrativas autobiográficas, bem como em seus poemas e textos ficcionais. Aos 14 anos, não suportando as agressões físicas e verbais de seus pais, Evelyn foge de casa e torna-se prostituta nas ruas de Vancouver. Consciente das conseqüências de suas transgressões que tiveram início em sua adolescência, Evelyn registra em um diário a brutalidade vivida nas ruas e escreve sobre seus clientes violentos, o uso de drogas, problemas com a polícia, abrigos para crianças sem lar e deslocamentos entre o Canadá e os Estados Unidos, sem perder o foco quanto ao sonho de ser escritora. Hoje Lau é reconhecida internacionalmente por suas obras que possuem uma característica política de criticar e subverter certos valores de poder. Dentre as suas obras que abordam temáticas sobre violência, prostituição e deslocamentos estão A fugitiva: o diário de uma menina de rua, já traduzida para o português, e as coletâneas de contos Fresh Girls e Choose Me.
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Agenciamentos corporais do feminino indiano pós-colonial
Anna Beatriz Paula (UFPR)

O corpo das mulheres indianas sempre esteve representado como propriedade. De moeda de aposta em jogos aos casamentos arranjados, restou às indianas poucas possibilidades de constituição e reconhecimento de uma identidade física. Esse quadro se agrava quando o contexto são os vilarejos onde leis tribais ainda são respeitadas. Bocas sem voz para poder servir. A dupla colonização a que se expuseram quando da chegada dos britânicos colaborou para a transformação do cenário subseqüente. O pós-colonialismo permitiu a revisão de localizações uma vez que novas geografias foram se configurando na sociedade indiana. Assim, o efeito diaspórico que, de início, parecia uma libertação gerou, em alguns casos, um efeito quiasmático, como aponta Spivak. Em contrapartida, o espaço local tem deixado de ser infrutífero, oportunizando reflexões consistentes acerca dessa identidade uma vez que elucidam novas perspectivas de agenciamentos da alteridade.
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A Representação da Diáspora em Persépolis, de Marjane Satrapi
Camila Augusta Pires de Figueiredo (UFMG)

Muitas vezes relegados às estantes de literatura infantil, os romances gráficos, como são conhecidas algumas histórias em quadrinhos, vêm desenvolvendo temas e estruturas narrativas cada vez mais complexas e distantes dos motivos cômicos. Acompanhando a tendência de romances gráficos baseados em relatos não-ficcionais, Persépolis, da autoria de Marjane Satrapi (2007) relata a experiência da autora iraniana durante o período de infância e a transformação causada em sua vida pela Revolução Islâmica de 1979. A vivência do exílio produz em Satrapi um questionamento de sua identidade cultural e valores morais, fundamentados na figura de seus pais e de sua avó. Spivak (1976), ao discorrer sobre sua situação de mulher terceiro-mundista nos Estados Unidos, caracteriza-a como uma ‘anomalia’ que não pode ser posicionada. Em Satrapi, essa posição de híbrido cultural e de marginalidade é duplamente conflitante a partir do momento em que não mais reconhece o seu espaço na Europa nem em seu próprio país. Este trabalho pretende delinear as tendências estéticas dos ‘graphic memoirs’ e discorrer sobre questões diaspóricas e de gênero presentes na obra de Satrapi.
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Poder e subjetividades homoeróticas na Parada do Orgulho Gay de SP
Carlos Henrique Bento (CEFET), Marcos Cirilo R. Soares

As subjetividades homoeróticas ocupam, atualmente, boa parte dos debates em torno da sexualidade e das identidades, dentro e fora dos limites do meio acadêmico. No Brasil, a principal manifestação de visibilidade homoerótica é a parada do orgulho gay de São Paulo. Embora haja um número grande de eventos semelhantes pelo país, a parada da capital paulista se impõe pelo número de participantes e grandiosidade da estrutura envolvida. Sua realização constitui-se, também, em um grande evento midiático. Trata-se de um momento de imposição de poder por meio da explicitação de vários estereótipos, como a sugestão de poder econômico dos sujeitos homossexuais. A parada tem, ainda, um forte poder de atração de populações de fora de São Paulo, constituindo-se em uma performance diáspórica, em busca de visibilidade e demonstração de forças diversas. O presente trabalho visa a examinar a parada do orgulho gay de São Paulo, por meio da cobertura feita por alguns órgãos da mídia, identificando e analisando alguns dos mecanismos de construção identitária por eles efetuados, explicitando os mecanismos de busca de poder e imposição de formas específicas de vivências e de visibilidade homoeróticas.
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Perspectivas das diásporas transnacionais em Desirable Daughters e The Tree Bride
Cleusa Salvina Ramos, Maurício Barbosa (UFAL); (CEFET-AL)

Este trabalho tem por objetivo estabelecer diálogos possíveis entre os elementos que caracterizam as recentes configurações oriundas da globalização, dos deslocamentos transnacionais e diaspóricos, assim como, as construções de espacialidades alternativas (as utopias, as distopias, os não-lugares, os entre-lugares), somados às questões de gênero resultantes desses novos contextos. Esse colóquio será discutido à luz das análises dos últimos dois romances que compõem uma trilogia, ainda incompleta, da autora Bharati Mukherjee: Desirable Daughters e The Tree Bride.
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Elas também vão à guerra: mitos, ficções e realidades sobre mulheres e a Primeira Guerra Mundial
Denise Borille de Abreu (UFMG)

A participação das mulheres em guerras, direta e indiretamente, tem sido objeto de estudo de narrativas de guerra desde a Antigüidade Clássica. Este artigo pretende analisar como, desde Homero até o início do século XX, alguns relatos literários, em sua maioria escritos por autoras britânicas, evidenciam a participação marcante de mulheres na construção da memória cultural e, mais especificamente, como a Primeira Guerra Mundial abriu terreno para a reconfiguração de papéis sociais femininos.
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Akodidé – Poder Feminino e Relações de Gênero no contexto dos Afoxés de Pernambuco
Ester Monteiro de Souza (UFPE)

Estudos sobre a cultura afro-brasileira apresentam o Afoxé como uma manifestação cultural fundamentada nas doutrinas africanas de culto aos Orixás, que na diáspora, denominou-se Candomblé. O presente trabalho busca analisar as dimensões sociais e simbólicas do poder feminino e das relações de gênero, atreladas à hierarquia religiosa, traduzidas no cotidiano dos afoxés pernambucanos. Acreditamos ser este um campo fértil, constitutivo de práticas e representações sociais que precisam ser desafiados, debatidos e compreendidos. As religiões de matriz africana tratam a mulher como guardiã dos mistérios da concepção da vida e é da interação entre os opostos que tudo é gerado, provocando um equilíbrio entre a terra (àiyé) e o além (òrun). A observação participante e diversos depoimentos colhidos nesta pesquisa têm revelado que a interpretação desses preceitos muitas vezes é utilizada no Ocidente como justificativa para uma hierarquização dos homens sobre as mulheres, na qual, os conflitos tidos como naturais na cosmologia africana, têm sido modificados quando idealizados e reproduzidos no cotidiano dos afoxés de maneira que, quando não exclui, limita a atuação das mulheres com formas de participação diferenciada e desigual. Para o entendimento dessa dinâmica, privilegiamos o estudo de gênero enquanto categoria analítica capaz de oferecer elementos identitários para a atuação política, construção/desconstrução de estereótipos e/ou o estabelecimento de singularidades na formatação dos afoxés de Pernambuco.
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O céu de Suely: contornos do feminino no cinema
Helcira Lima (UFMG)

A errância da protagonista do filme “O céu de Suely” (2006), de Karim Aïnouz, remete à diáspora dos nordestinos, mas, sobretudo, à questão da identidade da mulher nos tempos atuais. A personagem não se fixa, não tem morada e nem uma identidade: é Hermila e Suely, ao mesmo tempo. Esse caráter de estar dentro e fora, perto e distante lhe confere contornos de estrangeira. Ela estranha as coisas e pessoas de Iguatu, “cidade de partida”, e provoca estranhamento. As outras figuras femininas também apontam, cada uma a seu modo, para discussões acerca das imagens de mulheres em nossa sociedade: a avó batalhadora, a tia lésbica, a amiga prostituta. Cada uma delas toca o espectador de algum modo, indicando caminhos e leituras diversas sobre as mulheres. Não apenas a nordestina está em destaque, mas a própria condição feminina. Sob essa perspectiva, pretendemos apresentar nesse trabalho uma reflexão sobre as imagens do feminino a partir dessa produção contemporânea do cinema brasileiro. Nosso intuito é refletir sobre a construção dessas imagens considerando tanto o papel do cinema em nossa sociedade quanto as relações de poder que perpassam sua tessitura.
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Alianças Étnicas e Raciais: O Contexto Social Como Meio de Identificação.
Irene Nicácio Lacerda (UFMG)

Gostaria de apresentar uma parte da minha dissertação que é sobre o romance No Telephone to Heaven escrito por Michelle Cliff. Cliff é uma escritora nascida na Jamaica e residente nos Estados Unidos. Clare, a personagem central do romance No Telephone to Heaven e também da minha dissertação, é fruto de um casamento onde questões de gênero, etnia e raça têm grande importância nas escolhas que a Clare faz ao longo da narrativa. A pele da mãe da Clare, Kitty, é mais escura do que a do seu pai, Boy. A mãe, Kitty, favorece a cultura africana enquanto o pai, Boy, escolhe favorecer a cultura dos brancos. Clare, ao longo da narrativa, vive em um mundo dividido devido a sua herança étnica e racial. Em suas migrações pelos Estados Unidos, Inglaterra e novamente de volta à Jamaica, ela passa por processos de grande angústia e transformação ao se ver e também ser vista de maneiras diversas dentro destas sociedades. Ao longo da narrativa ela segue em busca de si mesma, da sua identidade, da sua subjetividade, e de um lugar que pode ser considerado sua casa, seu lar. Discutir como a Clare dialoga com as suas heranças culturais, como ela manipula estas questões relacionadas com a sua identidade étnica e racial e também a importância do contexto social e como ele afeta o retorno da Clare para a Jamaica, que é os seu país de origem, são questões para serem trabalhadas nesta parte.
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Vozes femininas como um contra-ponto à forma binária de análise no romance Down these Mean Streets.
Juliana Borges Oliveira de Morais (UFMG)

No romance de Piri Thomas Down these Mean Streets vozes masculinas como a do narrador Piri revelam cumplicidade a uma ordem patriarcal de sociedade representada na narrativa, em que prevalece o essencialismo tanto no que se refere a gênero quanto ao que tange à raça (questão mais explicitamente abordada). Esta visão essencialista é apresentada no romance sob a luz da forma binária de análise: as vozes masculinas (e negras) buscam a uma inversão de centramento de binários (branco/negro), ou a adesão passiva a eles (binário homem/mulher), de acordo com a conveniência nas relações de poder “inerentes” a esta forma de análise. Já as vozes femininas apontariam para um terceiro espaço, um lugar não necessariamente binário. Quanto a raça, as vozes como as das personagens Alayce e Mom, propõem um de-centramento por meio do convite à hibridação, ao encontro inter-racial; e na questão de gênero, vozes como a de Trina propõem um espaço outro por meio da resistência ao papel de submissão essencialista e tido como “natural” no oposto binário homem/mulher representado no romance. Assim, estas vozes femininas de Down these Mean Streets apontariam para um outro momento nos estudos culturais, um momento da possibilidade de se ir além do binário e de se permitir a pluralidade tanto no que se refere a etnia quanto a gênero.
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Escrita, corpo e ação: a poética e a política de Adrienne Rich
Juraci Andrade Leão

Este trabalho busca analisar a trajetória da poeta e ativista política estadunidense Adrienne Rich, verificando, principalmente, algumas das questões que influenciaram sua participação no movimento feminista norte-americano. A partir de sua escrita é possível perceber os diversos papéis assumidos pela poeta e a maneira pela qual a experiência pessoal influencia seu olhar sobre a condição das mulheres na sociedade contemporânea. Rich tem participado de vários movimentos sociais e políticos em seu país, posicionando-se de forma crítica diante dos sucessivos governos dos Estados Unidos da América. A poeta reconhece o poder do discurso como um instrumento que possibilita transformações sociais e, por essa razão, busca fortalecer o poder das mulheres também na esfera política. Rich privilegia o discurso que denuncia e procura desestabilizar o poder institucionalizado. Segundo seu ponto de vista, para realizar transformações concretas na sociedade é necessário estabelecer uma relação mais próxima entre o discurso e a ação. Em sua busca por unir escrita e ação política, a poeta teoriza o corpo como um espaço de representação cultural e procura compreender as forças discursivas que determinaram a submissão do gênero feminino ao gênero masculino. A partir da análise de seus poemas, ensaios críticos e entrevistas é possível perceber como Rich busca revelar diferentes formas de vivenciar o corpo gendrado.
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Em trânsito: o lar da diáspora nos contos de Dionne Brand
Leila Assumpção Harris (UERJ)

Mudanças na política de imigração na segunda metade do século XX têm contribuído para transformar o Canadá em um dos locais de destino para sujeitos diaspóricos de procedências diversas. Narrativas particulares refletindo a alteridade desses sujeitos ocupam lugar de destaque na literatura canadense contemporânea. As rupturas geradas pelos deslocamentos geográficos, linguísticos, e culturais afetam o sujeito diaspórico, que precisa precisa negociar com outras culturas e repensar conceitos de lar/pátria e do espaço social em comunidades transnacionais.
Partindo do pressuposto que as configurações de poder diferenciam as diásporas internamente e as situam em relação umas as outras (Brah: 1996), torna-se necessário examinar não só as especificidades históricas, políticas e culturais como também os imbricamentos das questões de gênero, etnia e classe social que figuram no processo diaspórico. Dionne Brand, escritora e ativista nascida em Trinidad e radicada em Toronto, aborda em suas obras configurações diversas criadas a partir do deslocamento diaspórico do Caribe para o Canadá. Utilizando contos selecionados de Sans Souci and Other Stories, este trabalho pretende discutir a mobilidade constante e a condição provisória de personagens que habitam os mundos ficccionais criados por Brand, examinando as interseções culturais e políticas que afetam o sujeito diaspórico feminino .
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“O final de uma história é uma mentira sobre a qual todos concordamos”: a metaficção na releitura The Robber Bride (1993) de Margaret Atwood.
Maria Cristina Martins (UFU)

Em The Robber Bride (1993) a autora canadense Margaret Atwood nos oferece uma releitura do conto “O noivo ladrão”, dos irmãos Grimm, considerado uma das principais variantes escritas da famosa lenda do Barba Azul. A caracterização de Zenia, pivô da trama de Atwood, como uma figura complexa, demoníaca e “estrangeira”, cujas “diversas origens fabricadas são, significativamente, todas Européias” (HENGEN, 1995), enquadra-se bem no cenário atual da discussão de "questões de gênero face às novas configurações sociais e geopolíticas, ocasionadas com o advento da globalização, do transnacionalismo e das novas diáporas da contemporaneidade". Nesse romance, Atwood explora também os processos de construção das histórias ficcionais, recorrendo a diferentes estratégias de caráter metaficcional, promovendo, entre outras coisas, a desestabilização das convicções dos leitores sobre o status relativo de verdade e de ficção. A partir de uma ótica feminista e à luz do que Patrícia Waugh (1984) e Gayle Greene (1991) nos dizem a respeito da metaficção, o presente trabalho discute o caráter revisionista do emprego de estratégias metaficcionais nessa obra, que cooperam no sentido de promover a desnaturalização, por exemplo, de concepções tradicionais de vilania ratificadas pelos contos de fadas e também de conceitos convencionais da bondade e da crueldade femininas. Releituras como essa de Atwood fazem do processo revisionista uma forma importante de se rever parâmetros nas literaturas contemporâneas.
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Travestis e o sonho europeu
Michelle Barbosa Agnoleti, José Baptista de Mello Neto (UFPB)

Ultimamente, tem-se verificado uma preocupação cada vez maior com a exploração do comércio sexual junto à opinião pública, também expressa pela atuação de organismos de defesa dos Direitos Humanos e do Poder Público, que busca estratégias legais de coibir violações de direitos fundamentais. O foco das atuações das diversas entidades envolvidas no combate ao tráfico são crianças e mulheres, pelo que se constata um constrangido silêncio da norma no que concerne a travestis. Cresce a cada ano o número de deslocamentos de travestis brasileiras rumo ao continente europeu, onde em geral exercem a prostituição. Em contrapartida, os países que constituem a União Européia têm envidado seus esforços no sentido de fechar fronteiras a estrangeiros considerados não-turistas em uma avaliação de critérios imprecisos, pouco objetivos, por vezes vexatória, quando não é deliberadamente arbitrária. Sob o argumento de combate ao crime transnacional de tráfico de pessoas, de proteção às suas “vítimas” e repressão aos seus agentes, deportam e encarceram massivamente jovens oriundos de regiões periféricas, frustrando ideais de ascensão social e transformações corporais de travestis que projetam na Europa o ápice de uma experiência de sucesso, prazer e prestígio. Cumpre verificar a validade de que a progressiva inserção de travestis brasileiras na indústria européia do sexo seja tratada como expressão inequívoca do delito de tráfico internacional de pessoas (art. 231 do Código Penal Brasileiro), justificando assim restrições às migrações como forma de enfrentamento ao crime organizado.
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Criando pontes entre culturas: o resgate da identidade pessoal e cultural em Chorus of Mushrooms, de Hiromi Goto
Peônia Viana Guedes (UERJ)

A migração japonesa para o Canadá teve início no século XIX e aumentou significativamente na primeira década do século XX. Na sua maioria, os imigrantes japoneses estabeleceram-se na costa oeste do país, onde exerceram atividades de pesca e agricultura. Durante a 2ª Guerra Mundial, japoneses e canadenses de origem japonesa foram deslocados e segregados em “campos de internação” no interior do país. A diápora original e o subseqüente processo de desconfiança, espoliação de bens, deslocamento e desenraizamento marcaram diferentes gerações de nipo-canadenses. Em Chorus of Mushrooms, Hiromi Goto representa os processos de apagamento da cultura japonesa, assimilação da cultura canadense e construção de uma identidade híbrida na relação entre três mulheres nipo-canadenses da mesma família, mas de diferentes gerações. Em um romance de cunho autobiográfico, Goto combina, de forma polifônica, histórias dentro de histórias, introduz elementos da tradição oral, mistura inglês e japonês, e mostra como é possível criar pontes entre culturas através de afetos, linguagens e, até mesmo, de elementos culinários. Usando teoria e crítica pós-colonial e feminista, pretendo investigar como as três personagens de Chorus of Musrooms resgatam o passado da família, negociam um lugar entre culturas, e desafiam estereótipos identitários.
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Representações da migração feminina na literatura brasileira contemporânea
Regina Dalcastagnè (UnB)

O fluxo migratório interno no Brasil é intenso e coloca em movimento pessoas de todas as classes sociais. No entanto, apenas os pobres são vistos como migrantes. Ou seja, o deslocamento das classes médias e das elites é entendido como algo natural e que não implica, necessariamente, em uma marca identitária. Marca essa que leva consigo o sinal de menos para aqueles que a transportam – especialmente se for uma mulher e estiver migrando sozinha, sem pai ou marido (uma realidade que, segundo as estatísticas, é crescente no país). O objetivo, aqui, é pensar como a literatura brasileira contemporânea vem representando a mulher que migra. A partir da constatação de que o discurso literário reitera a idéia de que só os pobres têm sua identidade marcada pela situação de deslocamento geográfico, a análise se deterá sobre a construção dos traços que definem a personagem, observando os objetivos de sua mudança, os sonhos que alimenta, o percurso que desenvolve, sua relação com a nova cidade, o desfecho de sua história. Serão discutidos filmes, canções e romances contemporâneos.
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Cartografias de gênero: a escrita de autoria feminina e a nova diáspora
Sandra Regina Goulart Almeida (UFMG)

A presença cada vez mais marcante dos efeitos da globalização na obra de escritoras contemporâneas faz com que questionemos, como sugere Heloisa Buarque de Hollanda, “que lugar têm as culturas e demandas feministas locais frente à mágica da globalização?” (2005, p. 13). É importante ainda indagar como esses fenômenos da contemporaneidade são vislumbrados por escritoras contemporâneas e como surgem problematizados de formas variadas em suas obras. Pode-se perceber como várias escritoras contemporâneas, antes voltadas prioritariamente para narrativas de cunho intimista com um forte teor autobiográfico, têm abordado questões mais abrangentes, mas não menos problemáticas, com relação à presença feminina nesse novo contexto sócio-cultural. O presente trabalho parte do pressuposto de que, como afirma Spivak, se o sujeito colonial era principalmente um sujeito de classe e se o sujeito do pós-colonialismo é um sujeito racializado, o sujeito da globalização é indelevelmente gendrado (Spivak, 2000, p. 123). A argumentação de Spivak chama a atenção para a ênfase nas relações de gênero suscitadas pela globalização. Se antes o foco estaria nas questões de classe e raça, na contemporaneidade a mulher se torna o alvo de sociedades civis internacionais e, consequentemente, é incorporada com uma parte integral do projeto global para o estabelecimento de uma nova ordem social e econômica. Surge daí a relevante argumentação de vários críticos sobre a feminilização da globalização no mundo contemporâneo.
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