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Coordenação:
Marisa de Fátima Lomba de Farias
Doutora em Sociologia pela Unesp, Profª do Curso de Ciências Sociais e do Mestrado em História da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD)

Renata Gonçalves
Doutora em Ciências Sociais pela Unicamp, Profa. do Departamento e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Estadual de Londrina (UEL)

O objetivo deste Simpósio é proporcionar um espaço interdisciplinar para a construção de conhecimentos críticos acerca das representações sociais de gênero numa perspectiva histórica, relacionando esta teoria com as reflexões empreendidas por pesquisadores/as de diversas áreas do conhecimento cujos canais dinâmicos envolvem múltiplas possibilidades de construção e articulação das nuances da vida em diversos tempos e lugares. Conflitos de gênero fortalecidos por fatores como poder patriarcal, desigualdade social, racismo, conflitos de classe, violência, dentre outros, merecem atenção sempre renovada, utilizando pressupostos teórico-metodológicos justapostos entre as relações de classe, de raça/etnia e de gênero. Este Simpósio prioriza análises sobre representações de gênero que contemplem o enovelamento conflituoso das relações de homens e mulheres de diversas gerações em um movimento permanente entre dominação e libertação, com vistas a examinar a existência de uma pluralidade de mulheres e de homens de diferentes grupos sociais, étnicos e geracionais, uma vez que não há uma mulher e um homem enquanto gênero universal. Privilegia-se reflexões acerca da junção existente entre raça/etnia-gênero-classe social, compondo a análise da realidade como uma articulação enovelada entre patriarcado-racismo-capitalismo com vistas a criar mecanismos de ruptura. Este Simpósio Temático propõe o encontro de pesquisadores/as que desenvolvam trabalhos sobre histórias de mulheres e de homens e sobre as relações de gênero atentando para as diversas formas/estruturas/funções que as relações de gênero assumem em cada período e condições específicas da história da humanidade.

Mujeres Piqueteras: Entre la producción y la reproducción del genero
Adriana Causa (Universidad de Buenos Aires y Universidad Nacional de San Martín)

El presente trabajo analiza algunas experiencias significativas que ilustran la acción colectiva de mujeres que participan o participaron en diferentes grupos y organizaciones sociales dentro del movimiento de trabajadores desocupados, los cuales irrumpieron entre 1995 y 1996 en el espacio público de Argentina a través de cortes en rutas, avenidas y arterias de circulación importantes, en demanda de trabajo y/o planes sociales. Tales reclamos estaban orientados principalmente a paliar la crisis económica de importantes sectores sociales de la sociedad argentina que habían dejado las progresivas políticas implementadas de corte neoliberal. Las mujeres en forma individual - pero sobre todo en tanto sujetos sociales, es decir en tanto protagonistas en permanente formación – producen y reproducen múltiples y continuos cambios y participan mayoritaria y activamente desde los primeros cortes de rutas. Por tal motivo, nos interesa mostrar diversas experiencias con el objetivo de visibilizar y desmitificar la participación y protagonismo de las denominadas mujeres piqueteras. Se trata de abordajes diversos tanto desde la perspectiva disciplinaria, como de las características de las experiencias e inclusive respecto de la localización, pero ofrecen ciertas convergencias significativas. Se presentan algunas reflexiones respecto tanto a la diversidad como a la concordancia. Es decir, no se trata sólo de elaboraciones teóricas, hipotéticas o especulativas, sino que se confrontan las ideas con la experiencia social a través de diferentes estrategias metodológicas con la finalidad de ampliar la “mirada” en relación a los estudios de mujeres, estudios de género y estudios feministas.
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Mulheres de assentamentos rurais: identidades e trajetórias em construção
Alzira Salete Menegat (UFGD)

Neste estudo, resultado de uma pesquisa desenvolvida com incentivos da FUNDECT e da UFGD, intitulada “Retratos da vida nos assentamentos Taquaral e Sul Bonito”, procuro refletir a respeito da condição das mulheres assentadas, observando em que sentido esses novos espaços tem produzido transformações na vida delas e de suas famílias e especialmente em sua condição de sujeitos sociais. Para isso faço uso de fotografias como um recurso de pesquisa, vendo-as como guardiãs da memória, que retêm uma fração do tempo, como mostram Lê Goff (1992) e Pollak (1989), e também como fonte histórica, partindo da concepção de Chartier (1990), “uma forma de representação da realidade”, utilizada para compreensão da história. Por meio das imagens é possível estabelecer comparações entre os antigos espaços ocupados pelas mulheres, com aqueles assumidos a partir da chegada aos assentamentos e assim reconstruir trajetórias e entender a vida nos novos lugares. Com os primeiros resultados observei que a luta que empreenderam para chegar a terra, e mesmo as múltiplas contradições vivenciadas para a fixação na terra, efetivaram transformações em sua condição de mulheres e de trabalhadoras. Nos assentamentos assumiram diferentes espaços de trabalho e espaços reivindicatórios, o que efetivou mudanças e questionamentos em sua condição social.
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De Amor e de Romances: a censura, a literatura, o cinema e as mulheres na imprensa católica de Florianópolis (1930-1945)
Ana Cláudia Ribas (UDESC)

Durante as décadas de 1930 e 1940, duas eram as grandes inquietações da Igreja Católica, no que se referia a construção de representações femininas: a leitura e o cinema. Dentro dos discursos católicos desse período encontrava-se a imensa preocupação com a “corrupção” dos “valores cristãos”, preocupação esta justificada pelos temas abordados tanto na literatura, quanto no cinema, ou seja, paixões, adultério, divórcio, esterilidade feminina, que acabavam, segundo a ótica católica, desprezavam a moral sexual e proporcionavam a “destruição" das famílias, por fornecerem representações de mulher que a desvinculavam do ambiente doméstico.
Este trabalho deseja abordar as representações de mulher dentro dos discursos católicos, a partir da campanha de censura veiculada pelo jornal O Apóstolo de Florianópolis, que durante esse período, representava a voz da oficialidade da Igreja.
Enfim, esta comunicação tem o propósito de problematizar estas representações femininas, as concepções de amor, casamento e corpo, com vistas nas articulações que se desenvolveram dentro do discurso católico, justificando a censura, nas páginas de O Apóstolo.

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Operárias da Cia Nova América: um caso de subversão das assimetrias de gênero e classe social
Ana Lúcia Vieira (UERJ)

Este trabalho é resultado da análise do cotidiano de trabalhadores(as) de uma indústria têxtil no período do governo de Vargas (1930-1954). Verificamos que a Companhia Nova América, identificada com a política trabalhista do governo varguista, efetivou no dia a dia estratégias de controle e exploração do operariado através dos discursos e práticas inseridos como normativos em Boletins e regras de moradia na vila operária “Cidade Jardim Nova América”. Esses dispositivos utilizavam-se da reafirmação de modelos de masculinidade e feminilidade, difundidos no período, objetivando contar tanto com a força produtora do homem levado à exaustão em nome da virilidade, quanto com o potencial reprodutor da mulher no nível biológico e social. Em relação à operária mulher, a fábrica buscou meios de potencializar essa produtividade tanto no ambiente da fábrica, quanto no lar. O controle adentra a esfera do privado no intuito de otimizar os recursos designados femininos na forma de regulamentações quanto ao cuidado da casa, da prole, do marido/operário. A operária mulher é assim submetida à superposição de tempos, de tarefas, de papéis, de encargos, de expectativas de outros, ideais a serem alcançados por essas e através dessas mulheres. No entanto, a contrapelo essas mulheres engendraram ações e reações à dupla forma de opressão, gênero e classe social, no espaço da fábrica e do lar. Embrenharam nos espaços possíveis, brechas na trama das relações de poder para inserir familiares na fábrica, melhorar as condições de vida no cotidiano dos seus lares, e ampliar o leque de atividades e projeção social.
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Feminismo e subversão da identidade: a imprensa como construtora e reiteradora de representações sociais na Rio Grande dos "anos loucos". (1920 a 1932)
Ana Luiza Timm Soares (UFPR)

A temática imbuída a este estudo pretende discutir, partindo dos primórdios do movimento feminista no Brasil – primeiras décadas do século XX –, como se constituiu o jogo de representações acerca das relações entre masculinidades e feminilidades através da análise de artigos publicados pelo periódico “O Tempo”, investigando as construções históricas identitárias no que concerne às vinculações de poder entre os gêneros, empreendidas por tal meio de comunicação. Visto que a cidade do Rio Grande abrigava um dos principais portos do país no período, e este se concretizava como ponto de entrada e saída de pessoas, mercadorias e, principalmente, de idéias, a manutenção do status quo vigente - baseado no ideal positivista, no qual a mulher conquistaria posição de prestígio na sociedade através da sua realização no âmbito doméstico, como mãe, esposa e dona-de-casa - fazia-se necessária à consolidação de papéis hierarquizados/dicotômicos. Nesse sentido, a luta pela conquista do sufrágio feminino, cuja problemática suscitou árduas discussões políticas em distintos países, parece ter causado certas inquietações no interior da comunidade urbana brasileira e propagado, em âmbito local, pelo jornal “O Tempo”. Partindo da concepção de que as representações coletivas edificam o próprio mundo social, as produções discursivas constroem/reiteram lugares a partir dos quais os indivíduos podem falar, delimitando funções e induzindo comportamentos, posicionando-os como sujeitos. Assim, as imagens e representações sociais do feminino e do masculino que habitam neste
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Juizado Especial Criminal e violência doméstica: uma rência para o debate atual.
André Luiz Faisting (UFGD)

Antes da promulgação da Lei 11.340 em agosto de 2006, batizada de Lei Maria da Penha, que cria mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher, os conflitos de gênero considerados de “menor potencial ofensivo” eram tratados majoritariamente nos Juizados Especiais Criminais, criados através da Lei 9.099, de novembro de 1995. Com a Lei Maria da Penha acredita-se ter garantido maior proteção à mulher vítima de violência bem como maior punição aos seus agressores. Contudo, ainda não se têm estudos mais sistematizados para avaliar o impacto desta nova legislação tanto para os conflitos de gênero quanto para a dinâmica do sistema de justiça. Este trabalho pretende dar uma pequena contribuição para esses novos estudos, no sentido de oferecer uma avaliação da lei anterior que tratava da violência doméstica e, assim, levantar alguns elementos que possibilitem uma análise comparativa entre o antes e o depois da atual legislação responsável pelo tratamento deste tipo de violência.
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Mulheres e transformação social: a Lei Maria da Penha e suas projeções judiciais e sociais.
Cláudia Melissa de Oliveira Guimarães Silva (UFGD)

A presente comunicação visa analisar a Lei nº 11.340, conhecida como Lei Maria da Penha, que é um aparato normativo que veio dar legitimidade aos direitos das mulheres brasileiras, especialmente as que estão sob o jugo da dominação de seus companheiros. A lei exige igualdade de gênero para uma sociedade que foi estruturada com base na desigualdade, o que vem produzindo questionamentos culturais e enfrentamentos em diversos municípios, dentre os quais alguns de Mato Grosso do Sul. Na presente análise, que é parte de uma pesquisa em andamento, de dissertação de mestrado em História, junto ao Programa de Pós-Graduação da UFGD, pretende-se analisar alguns aspectos que se abriram em torno da Lei, observando o que mudou para as mulheres de Dourados-MS, atendidas pelo sistema judiciário, e também no imaginário da própria sociedade, à efetivação desta lei. Observaremos, ainda, as controvérsias que a lei vem provocando em sua aplicação, já que estabeleceu ruptura na forma de punir a violência de gênero, quando comparada às punições anteriores, que traziam penas brandas para agressões dessa natureza. Os primeiros resultados da pesquisa demonstram diferentes entendimentos da lei, especialmente no olhar dos representantes jurídicos, o que indica a dificuldade em conceber mudanças efetivas em relação às questões de gênero, o que evidencia a existência de uma sociedade organizada em padrões em que inexistem as condições sociais igualitárias, sendo necessário efetivar novas condutas masculinas e femininas e, assim, refazer as relações de poder que subjugam às mulheres.
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A realidade institucional do enfrentamento ao tráfico de mulheres no Mato Grosso do Sul - Diálogos com a rede de garantia dos direitos da mulher
Estela Márcia Scandola, Nathália Eberhardt Ziolkowski, Antônio Carlos Sardinha (IBISS-CO)

O tráfico de mulheres é um crime de proporções globais com diferentes modalidades que expressam essencialmente a violência de gênero contra as mulheres através da exploração de trabalho destas. Entre as causas do tráfico de mulheres estão à globalização do mercado, a precarização do trabalho, a migração e as relações sociais fundamentadas nos valores patriarcais que inserem as mulheres em relações hierárquicas de poder. Hoje, o Brasil já tem aprovado um plano nacional que pretende enfrentar o tráfico de pessoas no país, pautado por três eixos principais – prevenção, atendimento e responsabilização. Nessa perspectiva o IBISS desenvolve, desde 2007, um estudo de caso a cerca das condições em que se encontram as redes de garantia dos direitos da mulher em alguns municípios de Mato Grosso do sul no que diz respeito ao conhecimento deste processo sócio-histórico de exploração e a existência de ações de enfrentamento a este crime. Estas informações foram levantadas através de um mapeamento institucional realizado nos municípios de Campo Grande, Dourados, Ponta Porã, Corumbá e Porto Murtinho, que revelou o desconhecimento de grande parte das instituições mapeadas sobre esta problemática e o despreparo em exercer ações que contemplem os três eixos do plano. Além disso, já foram constatados vários casos de tráfico de mulheres para fins de exploração sexual comercial, casamento servil e trabalho doméstico forçado nestas localidades, algumas delas regiões de fronteira seca com Paraguai e Bolívia, o que expressa a relevância em preparar a rede para lidar com esses casos, ação que o IBISS já desenvolve.
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Rede de Economia Solidária no Município de Dourados-MS: uma análise sobre a participação das mulheres.
Grazihely Berenice Fernandes dos Santos Paulon (UFGD)

Este trabalho pretende demonstrar, brevemente, as ações da Rede de Economia Solidária no município de Dourados-MS, cujo governo, liderado pelo Partido dos Trabalhadores – ao longo de dois mandatos consecutivos –, vem incentivando e criando alternativas de expansão da Rede através das ações voltadas aos grupos sociais e economicamente vulneráveis na sociedade capitalista. O projeto se desenvolve desde 2001, com participação relevante de mulheres. A pesquisa está alicerçada em um arcabouço teórico interdisciplinar entre a História e a Sociologia, buscando compreender como e se os empreendimentos de Economia Solidária transformaram-se em instrumentos de inclusão social e empoderamento das comunidades de baixa renda, contribuindo para a afirmação destes grupos no contexto sócio-econômico. Para tanto, é importante desenvolver uma análise das potencialidades e das limitações deste modelo econômico para a geração de trabalho e renda, bem como sua participação na elaboração de políticas públicas voltadas à Economia Solidária. Desta forma, este artigo permitirá analisar uma realidade local, na qual, vem se ampliando e efetivando uma relação em rede com outras experiências no Brasil.
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August Bebel e a emancipação feminina: a confluência entre luta de gênero e de classe no âmbito da social-democracia européia
Joana El-Jaick Andrade (USP)

Não obstante a teorização empreendida por Marx e Engels em relação à dupla exploração da mulher no âmbito da sociedade capitalista, a primeira produção teórica de particular relevância para um enfoque marxista da questão de gênero, justamente por sua ampla difusão e repercussão, foi o livro de August Bebel, intitulado “A mulher e o Socialismo” (1879). Ao examinar e problematizar a condição das mulheres no final do século XIX, Bebel abriu espaço para um novo campo de ação no interior da social-democracia. Debruçando-se sobre temas como sexo, casamento, prostituição, aborto, trabalho industrial feminino, transformações na esfera doméstica, educação feminina, formas de organização e estratégias de luta das mulheres revolucionárias, o autor conferiu maior expressividade e legitimidade às demandas das mulheres, ressaltando a importância de sua inserção na luta de classes como elemento ativo e revolucionário. Assim, Bebel opôs-se abertamente à postura conservadora assumida por vastos setores dos partidos de massas que relegavam a questão feminina a um plano secundário. A vinculação da dependência econômica, subordinação política e baixo status social das mulheres sob o modo de produção capitalista, à exploração de classe, possibilitou-lhe vislumbrar o novo papel desempenhado pelas militantes socialistas como imprescindível às lutas proletárias. O presente trabalho pretende analisar a contribuição de Bebel para a construção teórica da “questão feminina” no cerne da tradição marxista, a recepção de suas idéias pelas diversas correntes da social-democracia européia e sua influência sobre as novas formas de organização e estratégias de ação levadas a efeito por socialistas como Zetkin e Kollontai.
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Desquite em Sobral: Conflitos e Estratégias (1962-1977)
Leidejane Araújo Gomes (UECE)

A pesquisa de natureza histórica consiste na análise das representações e das relações de gênero, entrelaçadas aos aspectos sócio-econômicos inferidos dos processos de desquite em estudo, objetivando perceber as estratégias fundamentadoras das ações propostas à Justiça. O recorte temporal (1962-1977) justifica-se porque nesse período foi aprovada a Lei 4.121 (Estatuto da Mulher Casada), considerada um marco na evolução jurídica dos direitos da mulher no Brasil e, logo após, a aprovação da chamada Lei do Divórcio. No entanto, interessam-nos tão somente as ações regidas pela codificação da categoria denominada Desquite. O corpo documental do trabalho compõe-se de 26 ações, entre litigiosas e de mútuo consentimento, e das matérias do Jornal Correio da Semana, semanário de propriedade da Diocese e de grande circulação na cidade do período, constituindo-se em um dos mais importantes instrumentos para defesa da indissolubilidade matrimonial entre os sobralenses. Dentre os principais motivos alegados para a separação destacam-se o adultério e o abandono do lar pelas mulheres e o adultério masculino associado à sevícia e injúria grave. As fontes indicam que essas relações sociais eram marcadas por um controle dos comportamentos, incidente principalmente sobre as mulheres. Neste sentido, delimitavam-se papéis públicos e privados a serem assumidos, sendo as suas "transgressões" ressaltadas nos conflitos conjugais em questão.
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A mídia e as mulheres de "bom senso". Um estudo de caso sobre a ocupação da Aracruz Celulose
Maíra Kubík Taveira Mano (PUC-SP)

Em 8 de março de 2006, duas mil mulheres da Via Campesina ocuparam uma área da empresa Aracruz Celulose no Rio Grande do Sul. Convidada pelas próprias militantes para cobrir a ação, a mídia se encarregou de divulgar as imagens da destruição das plantações de eucaliptos. A pauta política, explicitada em um comunicado, era a defesa da agricultura de pequeno porte e da soberania alimentar. A ação visava também criticar a monocultura e a expansão das empresas agrícolas de capital internacional. No entanto, a opção feita pela mídia foi a de não divulgar de forma consistente as reivindicações. Pelo contrário: foi construído o discurso da falta de “bom senso”, numa alusão aos luditas do século XIX. Para tanto, uma outra mulher virou o centro das atenções: a pesquisadora responsável pela área destruída. Em oposição às “camponesas enfurecidas”, a mídia divulgou a cientista responsável. E desmentindo o propalado preceito de “eqüidade” da cobertura jornalística, esta última teve muito mais espaço do que as primeiras. A cobertura diferenciada sobre movimentos sociais não é uma novidade dentro do estudo da comunicação e foi uma das forças motriz para cunhar o termo “coronelismo eletrônico”. É apontada negativamente até mesmo pela própria imprensa, em veículo de menor alcance tais como as revistas Carta Capital e Caros Amigos. Mas a cobertura da ação contra a Aracruz teve dois agravantes: representou a explicitação de uma mudança de atuação principalmente do MST (de ocupação de terra improdutiva ao combate a multinacionais da agricultura) e foi realizada por mulheres.
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Os grupos de mulheres e os feminismos em Florianópolis:A importância atribuída às grandes capitais brasileiras
Maise Caroline Zucco (UFSC)

Dentre as primeiras mobilizações de caráter feminista durante a Segunda Onda, podemos destacar os grupos de reflexão, formados em meados de 1972. Integrados por mulheres que retornaram do exterior com um arcabouço de leituras voltadas às questões do feminismo, os grupos de reflexão tinham por objetivo a exposição pessoal das experiências dessas mulheres nas mais diferentes fases de suas vidas. Contudo, tanto os grupos de mulheres, quanto os grupos feministas, ganhariam força com a institucionalização do Ano Internacional da Mulher em 1975. Em detrimento deste evento mundialmente promovido pela Organização das Nações Unidas, as reivindicações brasileiras encontraram um espaço de debate social em meio ao regime militar.Pensando nas especificidades das diversas localidades brasileiras, este trabalho busca, a partir de entrevistas e do periódico O Estado, perceber os diferentes valores atribuídos aos grupos de mulheres, grupos feministas e estudos neste campo do conhecimento em determinadas localidades brasileiras. Possuindo como fontes o relato de pessoas envolvidas com estes movimentos e a mídia, atuantes em Florianópolis entre os anos de 1964 e 1988, a proposta deste trabalho é também traçar um pouco da trajetória dos movimentos de mulheres e dos feminismos relacionando com as percepções narradas e publicadas deste movimento social.
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O ensino industrial na Escola Técnica de Curitiba entre as décadas de 30 e 60: rupturas ou consolidação das assimetrias de gênero?
Maria Lúcia Büher Machado (UNICAMP)

A organização do ensino industrial no Brasil, ao longo do século XX, revela em suas propostas para formação da força de trabalho, projetos de modernização para a sociedade, pautados muitas vezes na consolidação de hierarquias. Nesse aspecto, pretende-se, a partir da análise da documentação histórica da Escolta Técnica de Curitiba, identificar as especificidades da formação e atuação das mulheres naquela Instituição, buscando apreender como as assimetrias de gênero são ratificadas ou rompidas entre as décadas de 30 e 60. Os dados iniciais indicam a inserção de alunas nos cursos de economia doméstica e decoração de interiores, a partir dos anos 40, embora professoras atuassem na instituição em décadas anteriores. São utilizadas como fontes, entrevistas com professores, a Revista Labor, publicação da década de 40, relatórios, e a legislação pertinente ao tema, em especial a Lei Orgânica do Ensino Industrial, decretada em 1942 .A base teórica acerca das relações sociais de sexo é fundamentada em Kergoat e Hirata; ensino industrial tem como referência Ciavatta Franco, Queluz e Cunha. A pesquisa se insere no doutorado em desenvolvimento na UNICAMP/FE, voltado para o estudo dos projetos de ensino industrial instituídos na ETFPR, e têm o financiamento/bolsa da Fundação de Amparo ä Pesquisa do Estado de São Paulo.
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A História das Mulheres na Guerra do Paraguai: fome e doenças sob a ótica do poder patriarcal
Maria Teresa Garritano Dourado (USP)

"Pretendo, neste trabalho, que é parte da pesquisa que desenvolvo no doutorado em História Social, enfocar a história das mulheres, tomadas a partir de sua presença na Guerra do Paraguai, analisando-as preferivelmente, em situações como a fome, as doenças e as penalidades que sofreram durante os cinco anos que > durou a guerra. Tenho a intenção, então, de analisar essas histórias a partir de reflexões que envolvam o poder patriarcal vigente na época, que tornavam as mulheres invisíveis e mantendo o silêncio sobre seus atos. Esse silêncio decorrente de uma sociedade global dominada pelo poder masculino apagava a imagem feminina pois só aos homens cabiam os papéis principais."
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A Vida-travessia de Mulheres nos Assentamentos de Reforma Agrária no Sul de Mato Grosso do Sul: impressões de uma trajetória de pesquisa
Marisa de Fátima Lomba de Farias (UFGD)

As características das relações de gênero na vida-travessia de mulheres, observadas na trajetória de pesquisa em assentamentos de reforma agrária no sul do estado de Mato Grosso do Sul, levaram-me a desenvolver uma análise em que se destacam relações conflituosas que caracterizam o vivido social, pela ambigüidade e pela incerteza, na busca permanente por uma vida melhor. A convivência com as famílias assentadas tem revelado o desejo das mulheres em participar da vida rural e decidir, inclusive, a orientação do projeto familiar, o qual considera o circuito da produção e da vida social mais ampla. Esse desejo é alimentado cotidianamente e aflora como forma de resistência nas mais variadas situações dessa vida-travessia, marcada ainda, por relações de poder e domínio patriarcal, mas também, envolta por formas criativas de resistência contra tal poder em prol do empoderamento feminino.
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Gênero e geração na agricultura familiar: espaços de resistência
Maura Ferreira Alves, Maria de Fátima Oliveira Mattos Grassi (UEMS)

O espaço dos assentamentos, onde as tarefas são divididas entre homens e mulheres, filhos e filhas, entre mais novos e mais velhos permite verificar que ambos os sexos estão travando batalhas - ainda que silenciosas - sobre seus papéis sociais no contexto da agricultura familiar. O foco deste estudo situa-se na análise da participação de mulheres, homens e seus filhos na agricultura familiar, através da organização patriarcal, que pressupõe direitos e deveres desiguais, de acordo com o gênero. Em geral, as esferas de decisão dentro da propriedade possuem um lugar pré-determinado, que não é oferecido para as mulheres. As relações de poder e a suposta naturalização do papel subalterno das mulheres e, consequentemente, de suas filhas, começa a ser levado a efeito. Não somente o gênero, mas muitas outras categorias de análise trazem em seu bojo a presença e constituição de diferentes formas de dominação ou hierarquia, de uma sobre as outras. O patriarcado naturaliza, desde bem cedo, tanto a submissão feminina quanto a dominação masculina, onde o papel decisório nas mãos do pai e dos irmãos, é transferido e concedido ao marido, por ocasião do casamento. O cotidiano da agricultura familiar revela que as diversas práticas sociais, sob aparente enraizamento, mostram-se cada vez mais presentes em uma linha tênue que separa a subordinação e a autonomia, na relação entre homens e mulheres. Tais ações, no interior dos acampamentos e assentamentos estão permeadas pela resistência das mulheres, mas também por um movimento contínuo de construção e desconstrução de papéis sociais.
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Uma trajetória de lutas: a inserção das mulheres na esfera pública dos assentamentos Guanabara e Sebastião Rosa da paz no município de Amambai/MS
Mirian Jaqueline Toledo Sena Severo (UFGD)

Esta comunicação visa refletir a respeito da participação feminina nas diversas esferas sociais dos Assentamentos Guanabara e Sebastião Rosa da Paz, ambos localizados no município de Amambai, Estado de Mato Grosso do Sul. Na presente análise, que é parte de uma pesquisa em andamento, de dissertação de mestrado em História, junto ao Programa de Pós-Graduação da UFGD, pretende-se observar de que forma vem acontecendo essa participação, quais as frentes por elas assumidas, tanto na esfera pública como na privada, e o que tem transformado na vida das mulheres e dos grupos de que participam, bem como na relação com os homens. O contato com a teoria sobre o tema tem possibilitado compreender que a ação e a emancipação social das mulheres encontra-se direcionado em diversas frentes: primeiro, na tentativa em romper com a invisibilidade feminina na sociedade; num segundo momento, na luta para descortinar estereótipos já naturalizados, uma vez que a sociedade brasileira não está organizada em condições igualitárias para os homens e as mulheres. Por isso, as mulheres do campo, em suas lutas, especialmente dos assentamentos em estudo, trazem às discussões de gênero, numa tentativa de emancipação e empoderamento das mulheres.
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Escravidão moderna:tráfico de pessoas, uma violação dos Direitos Humanos.
Odila Schwingel Lange (UFGD)

O título não é uma metáfora, falamos mesmo de escravidão. Falamos de 27 milhões de pessoas que em todo o mundo, são compradas e vendidas, exploradas e brutalizadas para dar lucro. O Tráfico de Pessoas é uma das chagas mais antigas da humanidade e continua, cada vez mais, sendo praticado, haja vista, que é a terceira atividade ilícita mais rentável do mundo só perdendo para o tráfico de drogas e de armas. Atualmente comercializa-se mais de um milhão de pessoas em todo o mundo e a rede atua de acordo com a vulnerabilidade dos grupos, povos e nações. Os casos de Tráfico de pessoas, podem estar registrados como repatriamento, fuga, recambiamento, exploração sexual, ameaça, adoção, guarda, rufianismo e, no caso de carvoarias, destilarias e fazendas como descumprimento da legislação trabalhista. Em todas as situações mais de um crime pode estar ocorrendo ao mesmo tempo. Nos últimos 100 anos, o Brasil passou da condição de país de destino para a de país fornecedor do tráfico internacional, fazendo a grande maioria de suas vítimas entre mulheres que acabam abastecendo as redes internacionais de exploração sexual. Além disso, milhares de mulheres, homens, adolescentes e crianças trabalham nos diversos setores da economia em situação análoga à condição de escravo/a.
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Trabalho feminino e a reorganização do capital: alguns apontamentos críticos
Rafael Dias Toitio (UEL)

A crise estrutural do capital, ocorrida na década de 1970, engendrou uma série de mudanças e transformações no chamado “mundo do trabalho” e, em particular, no trabalho feminino. Dentre as inúmeras mudanças ocorridas, verifica-se um processo de intensa precarização do trabalho e, mais especificamente, do trabalho feminino que, desde o início do capitalismo, é alvo constante de desvalorização e desqualificação em relação ao trabalho masculino. Diante do crescente aumento da participação da mulher no mercado, o trabalho feminino é cada vez mais imprescindível à valorização do capital, o que vem redefinindo a inserção da mulher nas relações sociais de produção. Nesse sentido, - baseando-se na reflexão de Antonio Gramsci em “Americanismo e Fordismo” – este texto discute a formação de um “novo tipo de trabalhadora” constituído nesse processo de reorganização do capital, que se desenvolve não apenas na esfera produtiva mas também sobre a esfera reprodutiva.
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Mulheres operárias no socialismo de Flora Tristan
Renata Gonçalves (UEL)

Esta comunicação tem por objetivo examinar a noção de classe operária presente na pequena obra de Flora Tristan, sobretudo em “Union Ouvrière”, “Promenades dans Londres” e em suas anotações realizadas no “Tour de France”. Flora se destacou pela ousadia em compreender a situação da classe operária e, em seguida, pela persuasão de que era necessária a construção de uma união operária. Encontramos alguns textos da autora já em 1835, mas a proximidade com as idéias socialistas pode ser encontrada principalmente a partir do livro “Peregrinações de uma Pária”, relato de sua viagem ao Peru, publicado pela primeira vez em 1839, em que toma conhecimento da situação de opressão dos escravos, indígenas e mulheres naquele país latino-americano. No entanto, é nos dois livros seguintes – “Promenades dans Londres” (de 1840) e “Union Ouvrière” (de 1843) – que encontramos uma melhor abordagem de sua concepção de classe operária e da necessidade de organização desta. Neste livro, publicado cinco anos antes do “Manifesto do Partido Comunista” (1848), Flora Tristan lançou o apelo a todos os proletários, sem distinção de sexo nem de nacionalidade, para que se constituíssem enquanto classe operária. Trata-se, portanto, de examinar a contribuição de uma das pioneiras a se interessar pela situação das mulheres no seio da classe operária.
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Roseiras Decaídas e as Mulheres "Decentes": Sífilis, Prostituição e comportamento feminino em Jacobina (1930 - 1940)
Ricardo dos Santos Batista (UEFS)

O objetivo dessa comunicação é analisar as relações de gênero na cidade de Jacobina no início do século XX, no qual se percebe um grande número de regras estabelecidas para as mulheres em relação à sua forma de se comportar dentro da sociedade, em oposição ao comportamento das prostitutas, que eram vistas como as disseminadoras da sífilis nessa sociedade conservadora. As fontes utilizadas foram O Lidador, periódico que circulou na cidade entre 1933 e 1940; teses da Faculdade de Medicina da Bahia, que contribuíram para refletir sobre como o pensamento acadêmico do período concebia a prostituição; atestados de óbito do Arquivo Público Municipal de Jacobina, que auxiliaram a perceber o “perfil” dos falecidos, através de informações como o sexo, idade, estado civil, dentre outros. As prostitutas foram alvo de preconceito e eram utilizadas constantemente como um padrão que as mulheres consideradas “decentes” não deveriam imitar. Elas eram utilizadas como um marco limite que nunca deveria ser alcançado. Nesse contexto, as idéias feministas que se disseminavam, como direito ao voto, educação igualitária e direito de sair às ruas, foram suplantadas por um discurso machista que buscava conservar uma submissão feminina. É possível ainda nesse diálogo contrapor as mulheres de elite às mulheres populares. Observa-se que lavradoras e lavadeiras já ocupavam o espaço urbano, não se enquadrando no discurso de “independência” da elite, e ao contrário dessa, perdiam espaço na cidade, já que eram constantemente perseguidas pelas leis municipais que buscavam impedir o trabalho que desenvolviam e que lhes garantia o sustento.
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Implicações de gênero no cumprimento de penas alternativas
Solange Maria Pimentel, Marco Antônio da Rocha, Nanci Stancki Silva (UTFPR)

Penas alternativas são aplicadas em casos de crimes ou delitos de pequena ou média gravidade, cuja sanção não ultrapasse a quatro anos de detenção. Essas penas evitam o aumento do número de pessoas no sistema prisional, tratando delitos de forma proporcional à sua gravidade. As suas principais formas de cumprimento são: prestação de serviço à comunidade, retomada dos estudos para conclusão de ensino fundamental e médio, prestação pecuniária (doação de materiais ou em espécie para instituições) e freqüência em cursos profissionalizantes. Este trabalho apresenta resultados parciais da pesquisa "As relações de Gênero no Processo de Cumprimento das Alternativas Penais", realizada em 2005, na cidade de Curitiba - Paraná. A investigação tinha como objetivo conhecer as implicações da relação de gênero no processo de cumprimento das alternativas penais. A pesquisa teve cunho qualitativo e na sua análise foi utilizado o método dialético. Foram entrevistadas dez pessoas (seis homens e quatro mulheres), selecionados entre prestadores de serviços à comunidade e representantes de instituições. Os prestadores de serviços são pessoas que cumprem uma pena alternativa e prestam serviços para a Vara de Execução de Penas e Medidas Alternativas em creches, lares de idosos, orfanatos, hospitais, casa do estudante, dentre outras. Dentre as questões discutidas na investigação, destacamos a percepção da continuidade das desigualdades de gênero no mundo do trabalho, a preferência feminina, por parte de algumas instituições, na escolha de um(a) prestador(a) de serviços e os fatores que levam homens e mulheres a cometerem delitos.
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Mulheres em Trânsito: um estudo de caso acerca das representações de gênero no curso de condutores da Escola Pública de Trânsito
Tatiane de Jesus Chates (UFBA)

A inserção crescente das mulheres na condução de veículos automotores é um fenômeno recente e pouco estudado pelos pesquisadores(as). O trânsito situa-se como um espaço eminentemente masculino, onde as diversas visões de mundo se entrelaçam, mediante uma determinada base ideológica, em que o acesso ao poder se mostra compartimentado e desigual. Os estigmas associados ao papel social, desempenhado pelas mulheres no trânsito urbano, trazem novas interpretações feministas no que concerne à atuação cidadã em mais um espaço de poder. As ideologias, assim como as representações a elas subjacentes, ajudam o(a) pesquisador(a) a desvelar os estigmas e estereótipos associados a um determinado grupo social, localizado em um tempo e um espaço específicos. O objeto deste estudo é, portanto, o trânsito soteropolitano sob uma óptica interseccional de raça/gênero/geração, contextualizado pela história de criação da Escola Pública de Trânsito de Salvador. As imagens produzidas remontam tanto às práticas pedagógicas adotadas pela escola quanto ao conhecimento prévio que os atores sociais já possuem sobre o trânsito, na visão particular dos(as) condutores(as) de veículos automotores que aparecem nas imagens do manual do candidato à primeira habilitação. Faz-se um estudo qualitativo e quantitativo das imagens contidas no manual do candidato à primeira habilitação, quanto à análise das representações associadas às mulheres que dirigem. As imagens foram catalogadas, classificadas, contextualizadas e analisadas, permitindo visualizar as práticas pedagógicas constituídas. A identificação do sexismo institucional é apontada como um caminho para a superação das desigualdades de gênero, e inserção plena das cidadãs nas esferas públicas de poder.
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