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Coordenação:
Fernanda Delvalhas Piccolo
Doutora em Antropologia Social (Museu Nacional/UFRJ)
Professora Adjunto I da Universidade Severino Sombra (USS/Vassouras)

Luciana Patrícia Zucco
Doutora em Ciências da Saúde (Instituto Fernandes Figueira/FIOCRUZ), Professora Adjunta I da Escola de Serviço Social da UFRJ, Coordenadora do Núcleo de Saúde Reprodutiva e Trabalho Feminino - ESS/UFRJ

Sandra Duarte de Souza
Doutora em Ciências da Religião (UMESP), Professora no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Universidade Metodista de São Paulo – UMESP

Nas diferentes culturas, uma das formas de compreensão do comportamento humano e da formação da identidade se relaciona à construção de gênero, uma vez que o processo de socialização é determinado pela influência de categorias culturais do masculino e do feminino. Na matriz cultural da sociedade brasileira, a importância das religiões é um fator inquestionável, fornecendo modelos de subjetividades masculinas e femininas, normatizando e estabelecendo formas de controle sobre a sexualidade e as relações afetivas. A ampliação da diversidade religiosa não tem se mostrado suficiente para alterar a hegemonia do modelo heterossexual de relações afetivas e sexuais e reduzir a discriminação àqueles que vivenciam formas alternativas de identidade e orientação sexual. O tema da orientação sexual e a defesa do padrão heterossexual de relações se mantêm como um forte ponto de confluência entre a maioria dos grupos cristãos. A conjugação da dimensão mágica com os padrões morais absolutos tem fomentado a homofobia, com a expansão das práticas de exorcismo e a criação de ONGs direcionadas aos gays, lésbicas e travestis que são vistos em dificuldades das mais diferentes naturezas. Se, por um lado, existe uma adesão significativa às denominações e movimentos religiosos com padrões morais e sexuais tradicionais, por outro, amplia-se a autonomia dos fiéis frente às instituições religiosas no que se refere aos laços matrimoniais, saúde reprodutiva e comportamentos sexuais. Outrossim, aponta-se a necessidade de ampliar o debate sobre a construção das diversas identidades e carreiras sexuais na articulação com a dimensão religiosa. Ademais, propomos discutir a influência e as percepções das religiões no processo de construção da subjetividade dos sujeitos. Pretendemos, por fim, explorar as dificuldades enfrentadas nos grupos domésticos e religiosos pelos que optam por seguir uma orientação sexual diferente do padrão heterossexual, bem como as estratégias e ações institucionais voltadas ao público GLBTTT nas tradições religiosas.

Perguntas dos jesuítas às índias “devassas”: tradução de um fragmento do Sexto Mandamento do confessionário tupi de 1686
Cândida Barros, Jaqueline Mota, Ruth Monserrat (UFRJ)

O confessionário tupi do jesuíta Antônio Araújo, impresso em 1618 e em 1686, contém uma série de perguntas específicas para as índias "devassas", separadamente daquelas direcionadas para as mulheres casadas. Essas duas séries de perguntas estabeleceram a representação missionária a respeito da sexualidade feminina indígena.
A mulher devassa - categoria definida no dicionário português-latim de Rafael Bluteau como a prostituta, substituiu a de mimboia (criada indígena da casa dos colonos), utilizada no confessionário tupi de José Anchieta no século XVI. Várias perguntas direcionadas para a mimboáia no texto quinhentista se conservaram no texto tupi impresso no século seguinte. Entre as modalidades de luxúria representadas pelos jesuítas para essa categoria estavam a de se enfeitar para seduzir o amante (agoaçã), a de se relacionar com rapazes (cunumim), a de alcovitar e a de ficar feliz ao ser tocada por homens.
A proposta do trabalho é apresentar uma tradução preliminar para o português e uma análise comparativa entre as perguntas direcionadas para "Mulheres devassas" na versão do confessionário tupi jesuítico impresso em 1686 com aquelas atribuídas à mimboáia em Anchieta.
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Possessão, gênero e sexualidade transgressora: análise biográfica de uma Pomba-Gira da Umbanda
Charles Barros Sulivan (UNB)

Na umbanda são numerosos os personagens possíveis que transitam por sua mitologia e cerimonial. Contudo, esta possibilidade tem seus limites estabelecidos por alguns tipos sociais de personagens retirados da realidade nacional: caboclos, pretos-velhos, crianças, boiadeiros, marinheiros, ciganos, exus e pombas-giras. Suas associações com uns e com outros são frequentemente explicadas em termos de suas experiências comuns históricas como personagens subalternos. A figura da Pomba-Gira é vista pelos umbandistas como a “Mulher de Exu” ou “Exu Fêmea”. Ela se refere, antes de tudo, a espíritos de prostitutas, cortesãs, cafetinas, mulheres sem família e sem ‘honra’. Além de possuírem as mesmas características que seus ‘parceiros’, ela carrega consigo toda a ambigüidade dos exus aliada a uma imagem feminina fortemente sexualizada e transgressora. Neste sentido, o presente trabalho analisa, a partir da análise biográfica da Pomba-Gira Milena, a condição destas mulheres que representam a livre expressão da sexualidade não convencional, aos olhos de uma sociedade ainda dominada por valores machistas e patriarcais. A análise revela também como a possessão pode servir para a construção de uma identidade condizente com suas necessidades pessoais, como instrumento de posicionamento social e como meio de denunciar as imposições do discurso hegemônico sobre os papéis sociais reservados as mulheres.
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As filhas de Eva: mulheres católicas do presente
Cristiane de Castro Ramos Abud (UDESC)

O presente texto apresenta depoimentos de mulheres católicas do presente, que freqüentam três Igrejas Católicas de Florianópolis/SC e de que forma elas ressignificam e redefinem os valores dessa Igreja relacionados com a sexualidade e a participação feminina, forjando novas identidades e metamorfoses interiorizadas em um grupo de mulheres católicas. E, ao mesmo tempo, estes depoimentos evidenciam os corpos transgressores dessas mulheres a uma determinada ordem, moral ou disciplina religiosa e que constituem-se em um forma de poder do ser feminino, resgatando, assim, o corpo e o desejo de ser Eva.
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De capitão a capitã: a inserção das mulheres em espaços tradicionalmente masculinos no congado mineiro
Dalva Maria Soares, Maria de Fátima Lopes (PPGED/NIEG/UFV)

Os rituais do Reinado de Nossa Senhora do Rosário ou Congado, constituem-se numa das mais importantes expressões da religiosidade e da cultura afro-brasileira presentes em Minas Gerais. O Reinado consiste num ciclo anual de homenagens à Nossa Senhora do Rosário e envolve a realização de novenas, levantamento de mastros, procissões, cortejos, coroações de reis e rainhas, cumprimento de promessas, leilões, cantos, danças, banquetes coletivos e a entrega de coroas. A mulher sempre esteve presente nos festejos do Reinado, porém, ocupando espaços diferenciados dos homens. De uma maneira geral, a principal função delas, na manifestação, estava relacionada aos bastidores, na preparação dos banquetes e na ornamentação da festa. Apesar da existência de um número considerável de grupos de Congado fundados por mulheres, as mesmas não podiam exercer as funções que tradicionalmente cabiam aos homens, como dançar, tocar e chefiar os grupos. Atualmente, constata-se a presença feminina em posições, dentro da manifestação, que até algum tempo atrás, eram exercidas exclusivamente pelos homens, como dançantes, caixeiras e capitãs. Assim, a proposta desse trabalho é empreender uma análise da inserção das mulheres em espaço tradicionalmente masculinos, na manifestação do Congado. Para tanto nos apoiaremos no conceito de campo religioso de Bourdieu e em autores/as que problematizam o conceito de gênero, a dominação masculina e as relações de poder (SCOTT 1990, BUTLER 2001 e 2003, BOURDIEU 1992 e 2005, FOUCAULT 1999, entre outros).
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Religião e homossexualidade: embates da autonomia versus anomia percebidos nas Paradas Gays de São Paulo, Brasília e Goiânia
Ellwes Colle de Campos (FIBRA)

O fato mais conhecido como atitude reacionária em termos de Movimento Homossexual é a Parada do Orgulho Gay. Trata-se da Comemoração do Gay Pride Day – Dia do Orgulho Gay. Desta forma, esta comunicação procura descrever a Parada do Orgulho Gay, entendendo-se a mesma como sendo uma estratégia do Movimento Gay, cujo referencial de análise tem como recorte as exteriorizações de cunho religioso, num acontecimento que, mesmo não sendo um ritual, é considerado profano a partir da visão de uma ideologia dominante. De outra forma, é possível perceber no discurso da militância gay, bem como pelas entrevistas, que os homossexuais é que são preteridos em termos de cidadania. É a partir deste ponto que as imagens denotam um embate entre o bem e o mal, onde se percebe, de forma implícita, a indignação e a idéia de que a “Igreja” é a principal legitimadora da marginalização das categorias homossexuais, bem como pelo processo de demonização da homossexualidade.
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Ritual e gênero no Vale do Amanhecer
Erich Gomes Marques (UnB)

O Vale do Amanhecer é uma doutrina extra-terrena, cujos membros se denominam cientistas, por serem capazes de transformar energias em rituais extremamente criteriosos. Sua organização assemelha-se a grupos paramilitares e suas atuações são metáforas de um estado que protege seu território. Dentro deste contexto, o gênero tem a função de permitir que a dinâmica do mecanismo do ritual se perpetue e seja eficaz. Deste modo, os papéis de gênero são intensificados e devem se manter assim sob o risco de que a cura não tenha eficácia.
Os rituais geralmente são extáticos. Há, portanto, o médium de incorporação e o médium doutrinador(a) que tem a função de observar atentamente a qualidade do primeiro médium. Além do mais, algumas funções são desempenhadas apenas por doutrinadores masculinos, como a de comando dos rituais. Assim, a instituição intensifica o papel do médium doutrinador - aquele que tem atenção, capacidade de discernimento e raciocínio - ao gênero masculino. Por outro lado, associa ao papel feminino a mediunidade de incorporação, o que possibilita a comunicação de espíritos de luz e sofredores. Ou seja, o sentimento, seja ele na forma de carinho ou ódio é associado à figura feminina.
Demonstrarei como pode-se averiguar em rituais a qualidade de gênero no Vale do Amanhecer e em que isto contribui para a construção do masculino e do feminino na comunidade “religiosa”. Além do mais, quais são as dificuldades encontradas pelos que optam por orientação diferente da de padrão heterossexual, devido a pressões da comunidade e dos rituais.
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Gênero e religião: masculinidades desde uma perspectiva teológica
Ezequiel de Souza (Faculdades EST)

O interesse pelo estudo da masculinidade tem aumentado significativamente nos últimos anos, sobretudo a partir das ciências humanas e sociais. As críticas oriundas do feminismo demonstraram a existência de relações assimétricas entre homens e mulheres, embora os estudos feministas defendessem que o sujeito/objeto dos estudos deveria ser a mulher. Com a emergência da categoria de gênero, abriu-se a possibilidade de novos sujeitos/objetos. É nesse horizonte que surgem os estudos da masculinidade no Brasil. A teologia acadêmica tem estado atenta às críticas advindas das ciências, que demonstram o papel que a religião possui na reprodução e manutenção de uma ordem patriarcal e androcêntrica. A teologia tem procurado dialogar com essas críticas no intuito de contribuir para a promoção de relações mais eqüitativas e simétricas entre os gêneros, inicialmente através da teologia feminista e, atualmente, com respeito às masculinidades. Isso contribui para a dessacralização da ordem patriarcal, situando-a histórica e culturalmente.
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Notas sobre a homossexualidade e religiosidade cristã
Fátima Weiss de Jesus (UFSC)

Este diálogo que proponho é parte de minhas primeiras incursões na temática da (homo)sexualidade, dando continuidade as minhas propostas de cruzamento entre gênero e religião. Esta nova possibilidade, estudar homossexualidades e cristianismos, faz parte do projeto de doutoramento que está ainda em fase de elaboração. A homossexualidade tem sido, nos últimos tempos, amplamente discutida nas Igrejas Cristãs que têm freqüentemente buscado embasamento bíblico para repudiar ou justificar a tentativa de “cura” deste “mal” espiritual ou físico. Neste sentido, uma espécie de “heterossexualidade compulsória” é advogada históricamente, no Antigo e Novo Testamentos. Outras discussões têm ganhado força, por exemplo, no campo da teologia feminista e, mais ainda, da teologia gay ou mesmo da proposta de uma teologia queer, problematizando o controle das sexualidades , no sentido de contestar e subverter a postura Cristã definidora de uma “ética sexual normativa” heterossexual, que não tem permitido a inclusão de homossexuais no seio das Igrejas Cristãs. Entretanto, este assunto permanece como um tabu ainda maior, quando, passa-se a definição de proposições práticas para inclusão de fiéis e principalmente, para a aceitação da homossexualidade daqueles que exercem algum ministério nas Igrejas.
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Sou gay e leio a Bíblia! Abordagens teórico-metodológicas
Fernando Cândido da Silva (Universidade Metodista de São Paulo)

Uma teóloga feminista latino-americana disse certa vez: “o texto é corpo e o corpo é texto e pode dar-se uma relação profunda entre ambos, de amor ou de ódio, de indiferença ou de aniquilação.” Nesta comunicação, desejo explorar as relações existentes entre o texto bíblico e a homossexualidade, ao enfatizar diferentes estratégias de leitura que podem ser adotadas. Será preciso demonstrar que a Bíblia, lida de forma autoritária, serve ao modelo heterocêntrico adotado por uma grande parte das igrejas. Contudo, também gays podem recuperar o texto a partir de suas experiências, servindo-se da Bíblia enquanto texto autorizante
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O sacrifício de ser mulher no espaço discursivo da religião e da prostituição.
Jandira Aquino Pilar (UCPel)

Este trabalho apresenta uma análise dos discursos de sujeitos femininos sobre o corpo. Para coletar o corpus, foram usados depoimentos orais gravados com representantes de dois grupos de mulheres, sendo considerada como eixo norteador dessas entrevistas a pergunta “o que é ser mulher?”. O primeiro grupo é constituído por cinco mulheres candidatas à carreira religiosa, e o segundo grupo é constituído por cinco profissionais do sexo. Entendemos que essa pergunta, feita a sujeitos femininos em condições de produção diferenciadas, pode revelar como o referente “mulher”, que foi “fixado, normalizado, imobilizado, paralisado em posições de subordinação” (BUTLER, 1998, p. 36-7), é ressignificado pelas próprias mulheres. Neste trabalho, as condições de produção estão sendo pensadas como espaços discursivos, que funcionam como “recortes heterogêneo do real” (conforme Pêcheux, 2002). Levando em conta que “o real não pode ser recortado com plenitude” (PÊCHEUX, 2002), analisamos os discursos a partir do equívoco, que, na Análise de Discurso de linha francesa, é tomado como o singular, o que não permite a universalização e que pode desvelar, sob sua opacidade, tanto uma realidade desejante, inacessível à simbolização, como novas formas de subjetivações por parte dos sujeitos femininos.
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O papel dos colégios confessionais na formação das “moças de família”
Joice Meire Rodrigues (PUC/SP)

A igreja católica foi de grande importância no processo educacional, principalmente na educação escolar das mulheres, enfatizando a formação da esposa, da mãe e da professora. Neste trabalho pretendo demonstrar como o surgimento dos inúmeros colégios confessionais femininos, preocuparam-se com a disciplina e a formação moral, com intenção de promover um modelo de mulher ideal, de acordo com os novos programas e métodos de ensino implementados através dos currículos escolares. Currículos estes, responsáveis por uma formação religiosa e filosófica voltada para a obtenção de instrumentos éticos e morais capazes de imprimir nas alunas um modo de ser e agir tipicamente feminino.
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Renovados olhares retrógrados
Luciane Cristina de Oliveira (FCLAr)

‘Deus criou o ser humano à sua imagem e semelhança: homem e mulher os criou’ (Gn 1, 27). Com esse versículo bíblico os discursos contra a homossexualidade são estruturados na Renovação Carismática Católica, como algo incontestável; é propagado ao mundo que a única opção válida é a heterossexualidade, qualquer outra forma é uma doença. Pessoas com desvios sexuais, a partir do momento que sentem o Espírito Santo em suas vidas, são curadas, já quem não tem a Bíblia como referencial, fica muito mais complicado encontrar o caminho a seguir. Há a denuncia, de forma ávida, contra a utilização da palavra gênero, neste movimento, pois já que nos documentos que promovem a igualdade entre os sexos ou a liberdade sexual ela é utilizada. Frente a essa postura homofóbica e sexista, o movimento religioso demonstra preocupação frente aos novos caminhos tomados pela sociedade. Em sermões carismáticos há a demonstração de indignação frente a lei que condena atitudes homofóbicas, pois a aprovação representa um crime contra a família, segundo as/os carismáticas/os, eles acreditam que têm o direito de condenar qualquer forma de sexualidade que não seja a heterossexualidade. Nas palavras de Prof. Felipe Aquino, estamos diante da apologia do sexismo, da pornografia travestida de arte e de outras imoralidades que vão minando o casamento e a família. A Renovação surgiu na década de 60, do século passado, momento em que fervilhavam movimentos de contestação, como ela também o foi, mas contraditoriamente ao nome proposto ao movimento, Renovação, eles buscam retroceder aos padrões tradicionalistas.
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Declaração de Nulidade do Matrimônio Religioso e as Relações de Gênero
Lurdes Rosa Spiazzi Fabris (UNESC)

Resumo:
O presente estudo tem como tema a declaração de nulidade do matrimônio religioso e visa identificar suas possíveis causas. Caracteriza-se como uma pesquisa descritiva, de análise documental. Na qual foram analisados os seguintes dados: se a demanda de nulidade matrimonial foi por iniciativa do homem ou da mulher; a idade das partes ao contraírem o matrimônio; e as principais causas da declaração de nulidade matrimonial. A relevância do mesmo está no fato de que o vínculo gerado no matrimônio religioso tem sido motivo para que casais separados ou divorciados, segundo a legislação civil, venham a sofrer as conseqüências da separação no que diz respeito à honra e à dignidade da pessoa humana, principalmente a da mulher, pois a mesma sofre o estigma da desigualdade, da inferioridade, da incapacidade e da submissão, o que dificulta a reconstrução de sua vida no plano afetivo devido aos princípios morais e religiosos vigentes. Faz-se mister conscientizar os casais sobre a possibilidade de invalidade do vínculo matrimonial religioso, permitindo minorar o sofrimento de tantas pessoas que pensam ter fracassado definitivamente, pois desconhecem que podem redimensionar seus relacionamentos pela ação da justiça dos tribunais eclesiásticos.
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Deus me aceita como sou? Percursos religiosos e passagens de pessoas GLBT
Marcelo Tavares Natividade (UFRJ)

Pesquisas antropológicas sinalizam para a flexibilidade doutrinária das crenças afro-brasileiras em questões sobre diversidade sexual. A presença de homossexuais em religiões de matrizes africanas contrasta com a propalada condenação das religiões cristãs. Contudo, recentes transformações sociais que envolvem a visibilidade e reivindicação de direitos por parte de minorias sexuais (gays, lésbicas, travestis, transexuais e bissexuais) ensejam respostas religiosas plurais no cenário contemporâneo. A difusão de trabalhos pastorais de “cura da homossexualidade”, os confrontos entre religiosos e militantes de minorias sexuais na esfera pública, apontam tensões nessa arena. Esta comunicação problematiza relações entre diversidade sexual e religião, a partir da análise de discursos minoritários no campo evangélico. Recente movimento de igrejas no Brasil chama atenção pela postura de flexibilização das normas para a inclusão de homossexuais aos cultos. Reportagens na mídia noticiam a criação de “igrejas para homossexuais”. Essa representação, contudo, nem sempre corresponde à forma como indivíduos desses grupos se percebem Categorias como igrejas “inclusivas” ou “contemporâneas”, são empregadas por líderes dessas denominações, sinalizando para a rejeição do rótulo de uma “igreja gueto” em favor do cultivo da imagem de uma “para todos”. De que forma se percebe a relação entre teologia, cosmologia e homossexualidade? Quais as trajetórias dos membros e líderes? Existiria uma teologia gay no Brasil? Indaga-se como/ se ocorre influência do ethos religioso sobre o exercício da sexualidade, atentando para passagens realizadas entre o pertencimento anterior e a nova adesão. Este trabalho é parte de investigação que abarca observação etnográfica, pesquisa documental e coleta de entrevistas.
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Visões da sexualidade humana na tradição judaica (UFRJ)
Maria das Dores Campos Machado, Andréa Moraes Alves, José Pedro Simões, Myriam Moraes Lins de Barros, Luciana Zucco, Fernanda Delvalhas Piccolo

Trata-se de uma análise dos resultados parciais da pesquisa "Homofobia e Violência: discursos e ações das tradições religiosas brasileiras sobre a diversidade sexual", realizada no âmbito da Escola de Serviço Social da UFRJ e financiada pelo Ministério da Saúde. Essa pesquisa contempla cinco diferentes confissões religiosas (católica, judaica, protestante, afro-brasileira e espírita) e articula a analise dos discursos de lideranças sobre a sexualidade, as assimetrias de gênero e a participação do público GBLT na comunidade confessional com a história de vida dos fiéis com orientações sexuais alternativas ao padrão hegemônico na sociedade inclusiva. Nessa comunicação, apresentamos algumas reflexões sobre as concepções de gênero e da sexualidade humana do judaísmo a partir de entrevistas com dois rabinos, dois membros da comunidade judaica do Rio de Janeiro e do material bibliográfico produzido nessa configuração sócio-cultural. Destacamos as múltiplas correntes que compõe essa tradição, a diversidade de modos de "ser judeu" e em que medida esse pertencimento comunitário-religioso se relaciona com a construção de identidades e práticas sexuais na sociedade contemporânea.
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Gênero e religião: o exercício do poder feminino na tradição religiosa iorubá
Marlise Vinagre (UFRJ)

O trabalho discute o poder feminino a partir das relações vivenciadas na religiosidade de matriz africana iorubá no Brasil, buscando os impactos dessa adesão religiosa na construção da subjetividade das mulheres. Em relação ao exercício do poder feminino no interior das relações de gênero na sociedade brasileira, diferentes contextos sócio-culturais fornecem elementos para a formação de identidades culturais de diferentes grupos. Um desses elementos é a tradição étnico-religiosa iorubá, recriada no território do candomblé - o Ilê. O Ilê expressa uma ocupação sócio-política, uma vez que é casa religiosa, mas também espaço étnico, de acolhimento e de prestação de serviços assistenciais. A partir de dados coletados em pesquisa realizada com adeptos dessa tradição religiosa constatou-se que o Ilê se constitui como território de complexas relações de poder, porém como espaço tendencialmente libertário. Aí os segmentos subalternizados podem experimentar a possibilidade de ascensão social, metamorfoseando lugares de desvantagem social em posições de prestígio ligadas à hierarquia religiosa, sendo que as mulheres, majoritariamente negras, ocupam os mais altos cargos, já que se trata de organização de matriz africana e matrilinear. Nessa pesquisa encontraram-se alusões ao discurso mítico para explicar condutas vinculadas à transgressão e combatividade, fundamentais para a construção de uma identidade de gênero emancipatória. É nessa direção que se coloca a importância desse tema: desvelar como o gênero, em especial o feminino, se expressa nesse espaço e como as mulheres negras e pobres gestam táticas para o exercício do poder e a concretização de direitos.
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Sexo, gênero e homossexualidade. O que diz o povo-de-santo paulista?
Milton Silva dos Santos (PUC-SP)

“O candomblé aceita o homossexualismo porque é uma religião que não tem pecado. Não interessa se você seja homem, mulher ou gay. Não importa a opção sexual. (...) Você pode ver. É uma religião de homossexuais”. É assim que um filho-de-santo responde uma pergunta sobre a notável presença de homossexuais iniciados na religião dos orixás. Se comparadas a outras denominações hostis e indiferentes às orientações não-heterossexuais, as religiões afro-brasileiras são, de fato, mais tolerantes à participação de homossexuais, permitindo-lhes ocupar todos os postos previstos na hierarquia ritual. Embora estejam entre as expressões religiosas que menos discriminam o indivíduo por razões de preferência sexual, percebemos por meio da literatura especializada e de uma pesquisa de campo, realizada na região metropolitana de São Paulo, que os candomblecistas também empregam em seus discursos, argumentos ou narrativas míticas, certos valores seculares e princípios morais desde cedo articulados à moralidade cristã e que dão sustentação à hierarquia de sexo/gênero – conforme alguns sacerdotes as categorias homem/mulher e masculino/feminino devem corresponder às expectativas sociais esperadas para cada ser sexuado. Em virtude disso, tratar de homossexualidade nas comunidades-terreiro ainda é um tema delicado, restrito e rodeado de tabus
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Imitar Santa Rita de Cássia: apontamentos sobre a prática do vestir-se de Santa em Viçosa
Raquel dos Santos Sousa Lima

“O candomblé aceita o homossexualismo porque é uma religião que não tem pecado. Não interessa se você seja homem, mulher ou gay. Não importa a opção sexual. (...) Você pode ver. É uma religião de homossexuais”. É assim que um filho-de-santo responde uma pergunta sobre a notável presença de homossexuais iniciados na religião dos orixás. Se comparadas a outras denominações hostis e indiferentes às orientações não-heterossexuais, as religiões afro-brasileiras são, de fato, mais tolerantes à participação de homossexuais, permitindo-lhes ocupar todos os postos previstos na hierarquia ritual. Embora estejam entre as expressões religiosas que menos discriminam o indivíduo por razões de preferência sexual, percebemos por meio da literatura especializada e de uma pesquisa de campo, realizada na região metropolitana de São Paulo, que os candomblecistas também empregam em seus discursos, argumentos ou narrativas míticas, certos valores seculares e princípios morais desde cedo articulados à moralidade cristã e que dão sustentação à hierarquia de sexo/gênero – conforme alguns sacerdotes as categorias homem/mulher e masculino/feminino devem corresponder às expectativas sociais esperadas para cada ser sexuado. Em virtude disso, tratar de homossexualidade nas comunidades-terreiro ainda é um tema delicado, restrito e rodeado de tabus.
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Homossexualidades e sacerdócio nos cultos afro-brasileiros em João Pessoa
Stênio Soares (USP)

Muito já se escreveu a respeito das religiões afro-brasileiras, sobretudo ao que concerne à aparente aceitação à freqüentação e adesão de homossexuais. O que pretendo discutir remete a questão das relações de identidade sexual e hierarquia religiosa nos cultos afro-brasileiros. Será possível, no auge de uma sociedade pós-moderna, com indivíduos de identidades fragmentadas, deslocadas e descentradas (HALL,2006), sacerdotes homossexuais reproduzirem discursos que legitimam o androcentrismo e a homofobia?A problemática dessa pesquisa gira em torno do sacerdote homossexual de terreiros de cultos afro-brasileiros em João Pessoa. Pretendemos identificar os discursos e analisar os conflitos identitários, que operam uma "disciplina do corpo" (FOUCAULT, 1975) submetendo seus filhos de santo como a si mesmo a um discurso que responde a códigos de comportamento, roupas ou mesmo possessão religiosa, diante de valores como respeito, credibilidade e aceitação de outros religiosos heterossexuais do mesmo terreiro
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Ensino Religioso, Gênero e sexualidade em Santa Catarina
Tânia Welter (UFSC)

A comunicação visa apresentar dados parciais da pesquisa realizada por investigadores vinculados a dois núcleos de pesquisa (NUR e NIGS) da Universidade Federal de Santa Catarina, entre 2007 e 2008, sobre o Ensino Religioso (ER) nas escolas públicas estaduais em diferentes regiões de Santa Catarina (Brasil), tendo como foco de análise questões relativas a gênero, sexualidade e reprodução. Entrevistas qualitativas com lideranças vinculadas à entidades representativas (como ASPERSC, CONER/SC e FONAPER), instituições públicas (como Secretaria Estadual de Educação) e com Coordenadores e Professores dos Cursos de Ciências da Religião da Unisul, Unoesc, Furb e Univille, possibilitou conhecer o processo de constituição da disciplina e a formação dos professores do ER de Santa Catarina. Se, num primeiro momento a atuação e a formação destes estava centrada numa perspectiva catequética (vinculada ao cristianismo), num segundo momento, passou-se a investir numa atuação e formação acadêmica não proselitista e com perspectiva “científica”. Utilizando metodologia quali-quantitativa, a pesquisa com professores e estudantes das séries finais do Ensino Fundamental objetivava observar como é administrada a disciplina de ER. Embora grande parte d@s professores do ER não possuem formação específica e a disciplina possui caráter “optativo”, esta é vista de forma positiva pela ampla maioria d@s estudantes, especialmente por possibilitar discutir questões que não são abordadas em outras disciplinas e estão relacionadas a questões existenciais e morais e a valores.
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