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Coordenação:
Glaucia Marcondes
Doutora em Demografia, Núcleo de Estudos de População (NEPO/Unicamp).

Sabrina Favaro
Mestranda em Demografia (IFCH/Unicamp)

Ana Brasil de Oliveira
Mestranda em Educação (UFSC)

As mudanças mais recentes ocorridas nas famílias estão interligadas às transformações nas relações sociais e de gênero. A disseminação de métodos contraceptivos modernos, a inserção em grande escala das mulheres no mercado de trabalho e a maior escolarização feminina são fatores considerados decisivos no processo que tem levado à contestação de valores e instituições sociais pautadas na assimetria de gênero, evidenciando, cada vez mais, as ambigüidades, os conflitos e as negociações que emergem nas relações estabelecidas por homens e mulheres. Reformulações nas leis e políticas públicas têm possibilitado dar consistência e continuidade a este processo. Este simpósio tem por objetivo reunir trabalhos de pesquisadores voltados para a discussão dos conflitos e das redefinições nas expectativas e práticas masculinas e femininas na condução da vida doméstico-familiar, na constituição, manutenção e mudanças dos vínculos familiares. Busca-se discutir as articulações entre família, classe e gênero. A proposta deste simpósio inclui a abordagem de três temáticas: a) composição e organização dos arranjos domésticos e familiares; b) representações e comportamentos referentes ao vínculo parental e conjugal e; c) avaliações de projetos e políticas sociais voltadas para as famílias (impactos de programas de transferência de renda, de intervenção e assistência a conflitos e disputas intrafamiliares, etc...).

Famílias chefiadas por mulheres: permanências e rupturas com as tradicionais concepções de gênero
Aline Tosta dos Santos (PUC-RIO)

O presente trabalho resulta das reflexões elaboradas, durante o curso de mestrado, a partir de revisões bibliográficas que visam aprofundar questões relacionadas ao objeto de minha pesquisa. Esta pretende apreender as implicações metodológicas do princípio da matricialidade sociofamiliar para as ações do Sistema Único de Assistência Social. A proposta central deste texto consiste em refletir sobre as novas configurações da unidade familiar no Brasil, e em especial, as famílias chefiadas por mulheres. Toma como ponto de partida as mudanças econômicas e sociais que afetam o país a partir das décadas de 1980 e 1990 e seus impactos sobre as estruturas familiares. Estas décadas congregam fatores emblemáticos, tais como: a redução dos níveis de fecundidade da população, as lutas sociais pela igualdade entre homens e mulheres, o incremento da força de trabalho feminina e o surgimento de novos formatos de família. A bibliografia consultada mostra que apesar do reconhecimento de diferentes arranjos familiares, as práticas sociais acompanham lentamente estas mudanças, guardando permanências e rupturas com as concepções tradicionais de gênero. No caso das mulheres que sustentam economicamente seus lares, além da desigual divisão do trabalho doméstico não remunerado, observa-se a tendência das mesmas em atribuir a chefia do domicílio ao cônjuge do sexo masculino. Por outro lado, o crescimento da chefia familiar feminina contribui para demonstrar o potencial dessas mulheres em assumir suas famílias e encontrar alternativas para as suas necessidades.
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“De donas de casa a donas da casa: o protagonismo feminino nas camadas médias urbanas na cidade de São Paulo”
Paola Gambarotto (UNICAMP)

O mestrado em curso estuda uma das dimensões da família monoparental brasileira: aquela chefiada por mulheres. Esta que vem se consolidando em todas as camadas sociais e regiões do país. Aspectos históricos e culturais são evocados para explicar a heterogeneidade estatística desse fenômeno, porém parte destas explicações utiliza dados e explora pouco as nuances da transformação da condição feminina. È necessário destacar que o viés de classe é fundamental e as realidades sócio¬econômicas marcam as estratégias de sobrevivência e possibilidades de escolha dessas mulheres que rompem suas relações e decidem reorganizar sua vida enquanto indivíduo e responsável pela família. Os estudos das transformações familiares no contexto das sociedades da alta modernidade fornecem indícios para a problematização sociológica no contexto brasileiro. Seria contestável a aplicação de análises cabíveis em contextos de Estado de Bem¬Estar e de políticas públicas que facilitam o ingresso feminino no mercado de trabalho. Contudo, a inserção da sociedade brasileira em contexto globalizado e a absorção de valores modernizantes possibilitam a utilização da reflexão sociológica para contextos em que a individualidade se tornou o valor fundante das relações sociais. Os estudos da sociologia da família brasileira privilegiam a vulnerabilidade social relacionada à monoparentalidade. Este estudo pretende atingir um outro lado desse fenômeno: compreender a transformação da individualidade feminina nas camadas médias urbanas paulistanas através de entrevistas com mulheres divorciadas de idade entre 45 e 60 anos. O perfil construído pretende contemplar o grupo que mais dificuldades enfrentou para transformar sua condição de dona de casa à dona da casa.
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“Mulheres chefes de família de bairros populares de Joinville/SC (1995-2007)”
Sara Simas (UDESC)

Este trabalho, a partir de pesquisa junto a documentação da Secretaria de Bem Estar Social de Joinville e da realização de entrevistas orais, visa conhecer o cotidiano de mulheres chefes de família moradoras de bairros populares de Joinville, bem como as demandas dessas mulheres e suas famílias com relação aos programas assistenciais da cidade, especialmente no período de 1995 a 2007. Procura-se, neste sentido, trabalhar com uma perspectiva relacional das categorias gênero, classe e etnia, visando compreender um pouco mais sobre esse arranjo familiar e essas experiências de gênero na contemporaneidade.
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A casa delas: estratégias familiares de mulheres chefe de domicílio na Região Metropolitana de Campinas.
Carla Sabrina Favaro (UNICAMP)

O fenômeno da chefia feminina e sua expansão, ainda hoje, são encarados por alguns segmentos das Ciências Sociais como um exemplo de desorganização e declínio dos padrões e valores familiares. Entretanto, pesquisas recentes têm mostrado que os domicílios chefiados por mulheres têm crescido em todos os setores sociais. Além disso, mostram também que, no Brasil, esses domicílios não são os mais pobres entre os pobres. Nesse sentido, o termo “feminização da pobreza” não se aplica a parte considerável dos domicílios chefiados por mulheres, uma vez que podem fazer uso de redes sociais para a obtenção de recursos que transformam esses domicílios em unidades viáveis. As mulheres chefes, então, devem ser vistas como a referência mais importante de suas famílias e também como protagonistas de profundas transformações das relações intra-familiares.
É também importante notar que o fenômeno da chefia feminina abrange uma variada gama de arranjos que vão desde os unipessoais, passando pelos monoparentais, ampliados até aqueles onde há a presença do cônjuge, mas a mulher é declarada a chefe.
Nesse sentido, o trabalho aqui apresentando tem como objetivo expor os primeiros resultados de um trabalho de campo realizado com mulheres chefes de domicílio na Região Metropolitana de Campinas. Esse trabalho procurou captar as estratégias familiares das mulheres chefes, ou seja, como elas organizam sua vida doméstica e suas interações familiares. Nesse contexto, pretende-se também, de maneira preliminar, analisar a constituição de redes sociais no contexto da chefia feminina enquanto uma estratégia familiar de manutenção do grupo.
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As redes sociais de famílias em camadas populares.
Stella Maria Poletti Simionato-Tozo (PUC-MINAS)

Este trabalho tem o objetivo de colaborar na compreensão de como as famílias de camadas populares da região metropolitana de Belo Horizonte, com diferentes configurações e estruturas, buscam proporcionar qualidade de vida a seus membros, compreendendo quais as suas redes de apoio, bem como os recursos que estas famílias já possuem e quais elas buscam nestes sistemas. Para tal foram selecionadas 25 famílias, com configuração nuclear, monoparental feminina e extensa, entrevistadas a partir de um roteiro semi-estruturado, e posteriormente realizou-se uma análise qualitativa dos dados. Os dados trazem famílias que são responsáveis pelo bem estar de seus membros, seja ele físico ou emocional. A rede de apoio presente para estas famílias é pequena e se baseia principalmente na família nuclear, sendo que a família de origem dos entrevistados aparece em menor grau. Para boa parte das famílias pedir ajuda é motivo de vergonha e constrangimento, principalmente se o pedido for dirigido aos vizinhos. Outras instituições aparecem com pouca ênfase nas entrevistas, com exceção das instituições religiosas, que fornecem apoio material, através de cestas básicas, momentos de conforto espiritual e até convivência e diversão. Através dos resultados observou-se uma grande carência material, exclusão social e difíceis condições de vida, bem como fatores de vulnerabilidades aos quais estas famílias estão expostas. Acredita-se que estes dados possam trazer alguns subsídios a respeito da rede de apoio social, sugerindo caminhos relevantes para o desenvolvimento de políticas e programas de saúde.
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Construindo redes
Rejane Cristina dos Passos (Sociedade Eunice Weaver de Florianópolis); Carolina Duarte de Souza (Educandário Santa Catarina)

O Educandário Santa Catarina é uma entidade filantrópica, de caráter assistencial e educacional, que atende 510 crianças, destas, 400, de 0 a 6 anos, permanecem em período integral na Educação Infantil, e 110, de 6 a 11 anos, em Educação Complementar, no contra-turno escolar. Estas, bem como suas famílias, pertencem a camadas populares da Grande Florianópolis, e são atendidas por se encontrarem em situação de vulnerabilidade social, no momento da inscrição e da visita domiciliar realizada pelo Serviço Social. A instituição conta com uma equipe técnica composta por uma assistente social, uma psicóloga voluntária, três pedagogas, uma coordenadora geral e um administrador. Além desta, com um corpo de trabalho de 86 colaboradores, estando 46 em situação de vulnerabilidade. Diante da realidade apresentada, realiza-se atendimento interdisciplinar entre Pedagogia, Serviço Social e Psicologia, pautado no pensamento sistêmico, objetivando à autonomia, emancipação e potencialização dos sujeitos envolvidos, quais sejam, famílias e colaboradores. Como estratégia de ação para o alcance desses objetivos está em fase de implantação o projeto “Construindo Redes” cuja proposta é o trabalho com grupo multifamílias, grupo de mulheres e grupo de geração/complementação de renda através do trabalho de reciclagem de papel e confecção de sacolas de pano/lona retornável. Finalizando, pretende-se, por meio deste artigo, discutir a viabilidade e as dificuldades encontradas na implantação deste projeto e dos demais atendimentos realizados com esse fim no Educandário Santa Catarina, através das teorias de gênero, do conceito de vulnerabilidade social e de vínculo.
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Gênero e violência intra-familiar: avaliando serviços de promoção de direitos
Maria Coleta de Oliveira (UNICAMP); Rosemeire dos Santos Brito (USP)

Este trabalho trata dos resultados da avaliação de dois serviços de assistência gratuita a mulheres e homens com queixas de família que requerem intervenção legal. Os serviços – um oferecido na sede de uma ONG paulista e, outro, pelo setor público com a participação desta mesma ONG - localizam-se na cidade de São Paulo e são dirigidos a pessoas com rendimentos não superiores a cinco salários mínimos.
O material aqui tratado provém de três das etapas da pesquisa de avaliação, realizada por equipe sob a coordenação do NEPO/UNICAMP e com a participação de profissionais da Pró-Mulher, Família e Cidadania (PMFC) . São utilizados dados referentes aos serviços oferecidos na sede da PMFC – o Serviço-Sede - e na então Procuradoria de Assistência Judiciária de São Paulo (PAJ) – o Serviço-PAJ, bem como provenientes do estudo realizado com a chamada população-alvo destes serviços. Para tratar da natureza e das características dos conflitos intra-familiares, suas formas de expressão e de resolução, informações dos três estudos de caso são tratadas em conjunto, destacando, quando necessário, semelhanças e/ou diferenças.
Os conteúdos de gênero são centrais aos conflitos familiares expressos, em algum momento, de modo violento. São aqui analisados seus conteúdos de gênero, formas de expressão e outros aspectos relevantes e a metodologia de intervenção social. O texto conclui com uma apreciação acerca do combate à violência de gênero como parte de políticas públicas.
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Justiça, parricídio e violência intrafamiliar
Maria Patricia Corrêa Ferreira (UNICAMP)

O trabalho trata do estudo sobre a forma como os operadores do Direito atuam em casos de processos criminais de homicídio e tentativa de homicídio praticados por filhos adultos contra os pais, julgados entre os anos de 1990 a 2002 na cidade de São Paulo. Busca-se identificar elementos que caracterizam os casos de parricídio, os contextos das relações violentas entre pais e filhos, as representações e significados que os conflitos entre as gerações na família assumem ao serem julgados pelo Sistema de Justiça Criminal. A partir das sentenças e dos julgamentos, observa-se que o resultado final acaba sendo orientado, de um modo geral, por decisões que amenizam a responsabilidade penal dos acusados.
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Artefatos tecnológicos na relação mãe e filho
Cíntia de Souza Batista Tortato (UTFPR)

Neste trabalho de pesquisa foram abordados alguns aspectos sobre a construção histórica e social das relações familiares passando por um breve histórico da criança e da maternidade. A intenção foi relacionar a maternidade construída historicamente com o contexto produtivo e o universo tecnológico que o cerca. Foram abordados dois artefatos tecnológicos atuais que participam das primeiras relações entre mãe e filho – a babá eletrônica e o decodificador de choro do bebê - e levantadas algumas reflexões. A partir da história da criança e da família é possível contextualizar a construção social e histórica do papel da mãe, entender seus condicionantes e suas conseqüências. A pesquisa focou as influências e alcance das tecnologias situadas na relação mãe e filho nas suas primeiras interações depois do nascimento.
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Que rei sou eu? O comportamento do padrasto definido por si mesmo, pela companheira e seus filhos crianças ou adolescentes.
Maria Thereza de Alencar Lima; Rosane Mantilla de Souza; Patrícia Cristófaro David (PUC-SP)

No Brasil, o divórcio é um fenômeno mais freqüente entre casais com filhos menores e considerando-se que em quase 90% dos casos a guarda é materna, o relacionamento com o padrasto, quando de um novo casamento, mostra-se central para uma transição familiar bem sucedida. O objetivo desta apresentação é trazer à discussão as inconsistências nas expectativas de relacionamento em famílias nas quais há um padrasto, analisando as perspectivas de relacionamento conjugal e exercício de papel parental por parte destes homens, suas companheiras e filhos crianças ou adolescentes, produto de quatro diferentes pesquisas realizadas pelas autoras e que envolveram estes diferentes subsistemas familiares. Verificou-se que há pouca clareza e concordância acerca de como deve ser o comportamento parental deste homem e esta falta de definição se associa a sua baixa satisfação no papel parental, bem como à baixa satisfação familiar e conjugal. Enquanto os homens consideram ser uma prerrogativa masculina o aspecto disciplinador da parentalidade, as mulheres delimitam seu envolvimento à conjugalidade, esperando apenas ajuda operacional/instrumental. Na perspectiva de crianças pré-escolares e escolares, aspectos de cuidado instrumental tendem a ser aceito de modo positivo, embora as lealdades ao pai biológico devam ser consideradas. A situação tende a ser particularmente mais difícil em famílias que envolvem filhos adolescentes, pois estes destituem o padrasto de qualquer poder parental, não esperando nem mesmo apoio financeiro ou logístico. Estas diferentes perspectivas devem ser consideradas quando do atendimento a estas famílias, bem como no caso de desenvolvimento de estratégias de promoção da saúde familiar.
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Aquilo que se integra e aquilo que se separa: as histórias reprodutivas dos homens recasados
Glaucia dos Santos Marcondes (UNICAMP)

Este trabalho aborda as transformações recentes na família, focalizando arranjos familiares constituídos a partir do recasamento. Tem por objetivo apreender em que medida uma nova união conjugal e a existência de filhos de uniões anteriores exercem influência na intenção ou decisão masculina de ampliar sua prole. Foram realizadas 20 entrevistas semi-estruturadas, com 10 homens recasados e suas respectivas companheiras atuais, de segmentos populares da cidade de Campinas, São Paulo. Para os homens entrevistados, ter um filho com a nova mulher é algo esperado, representando a consolidação da união. Sobre o nascimento dos filhos no recasamento se depreende dois tipos de circunstâncias: em uma, o filho gerado proporciona a junção de todos os membros que compõem a família reconstituída; na outra, promove o distanciamento ou a ruptura com os núcleos familiares anteriores. Observa-se nos relatos que apontam o filho em comum como um elo de integração entre o casal e suas respectivas proles, que essa situação pode vir a ser mais frágil do que os informantes imaginavam. Parecem fomentar mais discórdias do que concordâncias, pois como destacam os relatos femininos, filhos, mulheres e homens estão sempre em disputa para preservar suas posições, afetos e recursos no interior do grupo familiar. Na outra perspectiva, os homens entrevistados passaram a se responsabilizar unicamente pelas pessoas – mulher, filhos, enteados e outros parentes – que coabitavam com eles desde o recasamento. Nesses casos, operou-se um distanciamento ou uma ruptura com os filhos não conviventes. Aqui, o passado não se apaga, mas se ignora.
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Fragmentos do Feminino em Helena Parente Cunha
Clarice Costa Pinheiro (UFSC)

Este texto se propõe a uma analise feminista do livro As doze cores do vermelho da escritora Helena Parente Cunha. No qual é narrado a vida de uma mulher que tenta se libertar da opressão do âmbito privado em que vive, seja no regime familiar, estando subjugada ao poder do pai, ou no contrato sexual do casamento no qual está subjugada ao poder do marido. Nesse livro há um diálogo com as questões feministas em voga, bem como com a forma de escritura feminina do depoimento confessional, dominado pela subjetividade literária.
O romance é composto por períodos que são em geral contraditórios, formados a partir de um dizer e não dizer sempre trazendo para o corpo do texto o eco das falas repressoras. A autora cria uma estrutura narrativa tripartida a partir da conjugação de três vozes divididas por três colunas narrando ao mesmo tempo passado, presente e futuro. Essa estrutura demonstra a fragmentação da consciência da personagem que está “entre”, numa posição em que ela não consegue se adaptar à situação de submissa no contrato sexual, com a valorização do modelo da mulher passiva e dependente, e nem consegue se libertar completamente de tal modelo, estando sempre na fronteira do que não consegue ser, nem a esposa submissa, nem a mulher transgressora.
O livro tenta dar ao leitor uma mostra da opressão patriarcal pelo viés de imagens entrecortadas, mostrando que o próprio sujeito feminino, enquanto voz, é uma voz fragmentada e tripartida.
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A biografia feminina e a história das relações amorosas
Flavia Arantes Hime (PUC-SP)

As transformações sociais observadas nas últimas décadas têm acarretado mudanças na construção do si-mesmo de homens, mulheres e nos seus relacionamentos.
O objetivo deste trabalho foi investigar as intersecções entre a biografia de mulheres das camadas médias da população e a história de suas relações amorosas, utilizando-se histórias de vida de mulheres entre 40 e 49 anos para compreender como as relações amorosas podem intermediar escolhas de possibilidades de ser.
Destacou-se a reflexividade das participantes, que organizam e integram suas vivências num processo de construção, caracterizado por constante revisão do passado e projeções para o futuro.
Os resultados revelaram o sentido atribuído ao relacionamento amoroso, fundamental na construção do si-mesmo. Há uma superposição de valores arcaicos e modernos na atualidade, que se reflete na vivência do amor: as relações passam de hierárquicas a igualitárias, com valorização da realização pessoal, sexual e amorosa. A perspectiva de gênero revela a construção de desigualdades, permitindo a compreensão das condições de subordinação da mulher e possibilitando sua superação. Há rompimento das situações insatisfatórias pelo divórcio. A busca amorosa é viável em qualquer momento do ciclo vital e não mais prerrogativa da juventude; a vivência da sexualidade satisfatória na relação conjugal ou fora dela é uma oportunidade para a reinvenção de uma feminilidade mais livre.
O estudo reafirmou a recursividade entre a dimensão social e a pessoal, presente na narrativa biográfica: as transformações são processadas na subjetividade, abrindo caminho para mudanças mais amplas no contexto social.
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(Re)pensando relações familiares e de casamento entre migrantes cearenses na Amazônia.
Keila de Sousa Aguiar (UFPA)

A proposta deste trabalho tem como norte orientador a assertiva de que a presença de migrantes na Amazônia confunde-se com o processo de formação social, cultural e econômica da região. Nesse sentido, toma-se como referência a presença e permanência de migrantes nordestinos, especificamente cearenses, nas cidades amazônicas que revelam uma rede de relações sociais próprias do grupo e, em certa medida, conflitante com as relações sociais dos grupos nativos da região. Para tanto, o estudo inside sobre a análise antropológica das relações familiares, de casamento e de gênero entre um grupo de migrantes cearenses residentes na Amazônia. Pensando essas relações como específicas do grupo, na medida em que, são pautadas pela preferência do casamento homogâmico e das extensas relações familiares. O estudo tem o seu foco centrado na análise de mudanças e permanências das formas como se estabelecem os vínculos de parentalidade e conjugalidade ao longo de três gerações do grupo. Considerar-se-á que as categorias gênero, geração e família são, no contexto deste grupo, construídas e reconstruídas mútua e relacionalmente.
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Diferenças de gênero na família DINC
Luiz Felipe Walter Barros (ENCE); José Eustáquio Diniz Alves(ENCE); Suzana Cavenaghi (IBGE)

O objetivo deste artigo é avaliar as condições socioeconômicas dos casais de dupla renda e sem filhos, os chamados casais DINC (Duplo Ingresso, Nenhuma Criança). Utilizando dados da PNAD podemos fazer uma aproximação desses casais sem filhos separando os domicílios particulares permanentes ocupados que tinham 2 pessoas adultas (um chefe e um cônjuge) e que a mulher nunca teve filho. Na PNAD 1996 este tipo de casal sem filhos representava 2.7% do total de domicílios, passando para 3,7% em 2006. Embora o número absoluto seja relativamente pequeno (cerca de 2 milhões) os casais DINC são uma parcela crescente dos novos arranjos domiciliares no Brasil. Pretendemos, neste artigo, avaliar as condições socioeconômicas destes casais a partir das seguintes variáveis: idade, sexo do chefe do domicílio, educação, renda, situação do domicílio, região, condição de ocupação, contribuição à previdência, presença de bens de consumo, etc. Esta caracterização socioeconômica dos casais DINC possibilitará uma compreensão do padrão de consumo e da inserção social desse tipo de arranjo familiar que tem apresentado uma tendência de crescimento não só no Brasil, como em outras partes do mundo. De forma geral, em relação a outros tipos de arranjos domiciliares, as desigualdades de gênero são menores entre os casais DINC. Contudo, diferenças de renda, educação e inserção no mercado de trabalho persistem e serão objetos do nosso estudo.
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Filhas da Globalização: trabalho doméstico e sua interface com o contexto do lazer.
Claudia Veronese; Edmilson Santos dos Santos (UFRGS)

Apesar de não configurarem dentro do debate econômico da relação trabalho/lazer ou da precarização das relações de trabalho, as Obrigações com o Trabalho Doméstico Familiar (OTDF) têm um peso importante no debate sobre o lazer. Este estudo teve como objetivo verificar o papel das OTDF na configuração do lazer de jovens que participaram do Mapa do Lazer Juvenil de Canoas/RS. Como objetivos específicos, buscou-se identificar o peso das variáveis: gênero, raça, local de moradia, idade e número de irmãos. As informações obtidas permitiram criar um banco de dados que foi submetido à análise de freqüência através do programa estatístico SPSS (Statistical Packge for the Social Sciences) para o Windows, versão 11. Para verificar possíveis associações entre variáveis nominais, utilizou-se o teste estatístico Qui-quadrado para análise de tabela de contingência e estabeleceu-se como nível de significância 5%. Embora tenha ocorrido transformações significativas na sociedade, ainda podemos observar que a instituição lazer está ao lado de outras, como por exemplo a família, a escola, e a religião na produção da desigualdade de gênero. O OTDF são produtos de uma sociedade que identifica na prática doméstica como mais um espaço à formação do feminino em direção a uma desigualdade de oportunidade no exercício do lazer. Porém, o estudo evidenciou também que as variáveis raça, segregação socioespacial, idade e número de irmãos também interferem na produção deste cenário. Por último, destacamos que o OTDF é uma modalidade de trabalho infantil e juvenil que marca decisivamente a história de vida das meninas, principalmente daquelas mais pobres.
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Família, gênero e serviços: representações do trabalho doméstico
Juliana Nicolau (UNESP)

O presente texto tem como base a minha pesquisa de mestrado, na qual procurei tratar as representações contidas nos discursos sobre emprego, relações e papéis familiares, infância e juventude entre crianças e jovens empregados domésticos. Em sua realização utilizei uma abordagem quanti-qualitativo, com a aplicação de questionários e entrevistas semi-estruturadas tanto com aqueles jovens domésticos quanto com os seus responsáveis. Para este simpósio temático, pretendo recortar e focar as relações e os papéis familiares e de gênero, as suas socializações, continuidades, mudanças e perspectivas entre essas pessoas, pertencentes às camadas populares. A minha discussão traz a revisão das contribuições teóricas de Elena Belotti; Geraldo Romanelli; Jean Claude Kaufmann; Pierre Bourdieu; Leena Alanen; Hannah Arendt e busca relacionar a esfera privada com a pública, quer dizer, condições de vida e habitus de gênero com políticas públicas.
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Lugar de mulher deve ser (apenas) em casa? Reflexões sobre gênero nas relações familiares
Kirla Korina dos Santos Anderson, Maria Angelica Motta-Maués (UFPA)

Este trabalho tem como objetivo analisar e discutir antropologicamente representações e práticas de gênero na manutenção doméstica entre famílias de pescadores no município de Belém, estado do Pará, com destaque para as atribuições femininas, considerando como os valores sociais influenciam suas práticas cotidianas. Para isso, dá ênfase para os significados de gênero, idade e família compartilhados entre o referido grupo, partindo da classificação, organização e distribuição de tarefas (e expectativas). Como procedimento metodológico, realizou-se entrevistas com dezoito famílias, com questões como composição e organização do grupo doméstico, principais atividades realizadas e participação dos membros nas relações familiares. A demarcação dos posicionamentos por gênero e idade (ancorada nos valores de ajuda, obediência, respeito e autoridade de tal camada popular) funciona como critério principal no âmbito das relações familiares, em que homens, mulheres e crianças assumem responsabilidades, primordialmente, mas não exclusivamente, na pesca, em casa e com os estudos, respectivamente. Neste contexto, as mulheres representam uma figura importante na cena familiar, pois, pelo fato de estarem em casa, exercem suas responsabilidades e organizam, de alguma forma, as atividades dos outros familiares – em especial, as dos filhos e marido. Assim, no desenrolar das atividades diárias, as mulheres assumem responsabilidades na manutenção do grupo, conciliando e, muitas vezes, acumulando tarefas domésticas e extra-domésticas, e usufruindo de um status específico para escolhas, acordos e tomadas de decisão, dados que permitem questionar e refletir sobre o lugar da mulher em casa.
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“Ser ‘trabalhador flexível e competente’: mercado de trabalho, estratégias educativas e implicações nos papéis de gênero na família”
Marina de Carvalho Cordeiro (UFRJ)

A região Sul Fluminense, um Distrito Industrial, tornou-se um lócus privilegiado para a observação dos impactos sociais e econômicos de formas de produção reestruturadas e enxutas, a partir da implantação de duas montadoras automobilísticas na localidade: a Volkswagen no ano de 1996 e a Peugeot-Citroën em 2001, nos municípios de Resende e Porto Real, respectivamente. Nesses sistemas produtivos discute-se um novo perfil profissional, flexível e competente, pressupondo uma escolaridade básica e de qualidade. O presente trabalho se propõe a apresentar resultados de uma pesquisa acerca do impacto deste “novo perfil profissional” em famílias de trabalhadores no que se refere aos projetos familiares e aos rearranjos colocados por estes nas questões de gênero nos núcleos familiares. Enfoca-se a importância atribuída à escolaridade no mercado de trabalho, seu posicionamento nos projetos com relação aos filhos e o impacto destes projetos nos papéis de gênero dentro da família – particularmente no que se refere às concepções com relação ao trabalho feminino e aos cuidados domésticos. Aponta-se que famílias trabalhadoras, tidas pela literatura especializada como “tradicionais”, passam a operar, naquela localidade, a partir de outros referenciais familiares e de gênero, que não correspondem ao modelo do “homem provedor, mulher cuidadora”.
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Desigualdades de gênero na morte por câncer: por que só há cuidadoras?
Rosangela de Araujo Lima (UFPB)

Este texto é parte de minha tese de doutoramento em Sociologia, pela Universidade Federal da Paraíba. Resulta de observações iniciais acerca da temática da “morte” e suas representações envolvendo equipe de saúde, pacientes fora de possibilidades terapêuticas e familiares cuidadores/as em um hospital destinado ao atendimento de pacientes com câncer,os quais são cerca de noventa por cento usuários/as do Sistema Único de Saúde/SUS . Nos seis primeiros meses, observei que as mulheres doentes são acompanhadas por outras mulheres, mesmo quando são casadas e/ou mães; homens também são acompanhados ,só que por mulheres,também, em geral esposas e/ou filhas. Raríssimas vezes pude encontrar um cuidador ao lado de seu familiar. Essa observação leva-me a postular que também no morrer as mulheres seguem um processo semelhante no que se refere ao companheirismo na existência: ou morrem sós ou com uma presença feminina, pois os homens estão ausentes. Desse modo, constato que nem mesmo um câncer terminal rompe com as desigualdades de gênero que ferem os Direitos Humanos do sexo feminino .
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Família, redes sociais e saúde: O imbricamento necessário.
Denise Machado Duran Gutierrez (UFAM); Maria Cecília de Souza Minayo (FIOCRUZ)

O trabalho discute os cuidados da saúde na família reconhecendo a centralidade do tema do ponto de vista teórico e para a melhoria dos serviços de saúde dentro do programa de saúde da família (PSF), principal estratégia do SUS. Evidencia a escassez de estudos na área na região amazônica. Assume uma concepção abrangente de saúde que incorpora as dimensões psicossociais (comportamentos, crenças e representações) para discutir a questão. Retoma o conceito de ‘cuidado’ em suas várias formas de compreensão e diversas perspectivas teóricas procurando demarcar seus limites e alcances. Desde a definição de cuidado elementos do feminino já se apresentam com força. Mostra que o conceito de cuidado se apresenta como conceito integrador em que aspectos afetivos, emocionais, sociais, culturais e biológicos encontram expressão. Em seguida amplia a discussão dos cuidados apresentando contribuições advindas da teoria das redes sociais e familiares indicando a importância das redes de apoio mútuo enquanto recurso adicional, porém fundamental para o cuidado da saúde. O papel social das mulheres cuidadoras enquanto esposas, mães e filhas ganha destaque especialmente em suas capacidades comunicativas e de construção de relações. São discutidos aspectos teóricos que nos indicam como as redes servem de elementos mediadores e moduladores dos cuidados. Conclui que para apreciar-se o modo como os cuidados são desenvolvidos na e pela família esta não pode ser tomada como unidade isolada, mas deve ser vista enquanto componente de uma estrutura mais extensa em que se inserem vários outros elementos em várias modalidades de interconexão reticular com ela.
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