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Coordenação:
Profa. Dra. Joana Plaza Pinto
UFG - Goiás

Profa. Dra. Viviane Veras
Unicamp/Unibero – São Paulo

Este simpósio pretende reunir trabalhos que tratem de questões da vulnerabilidade lingüística do corpo e da criação de condições lingüísticas de sobrevivência para corpos sujeitados pelas dinâmicas de poder. Quanto ao efeito de apagamento de sua significação prévia, o corpo é o lugar da violência, a começar pela violência lingüística de sua nomeação. A nomeação, cuja existência depende da repetição desse ato, é um ato violento porque reconhece a autoridade, ao mesmo tempo em que apaga sua marca inaugural, limitando os contornos sociais do sujeito. Como afirma Butler (1997, p. 36): "O nome carrega dentro de si mesmo o movimento de uma história que o aprisiona". Nesse sentido, os nomes interpelam e constituem a existência social do corpo, ao mesmo tempo em que delimitam esses corpos, pois definem o domínio do possível, do pensável, do executável – por exemplo, do gênero, da raça, da sexualidade e de tantas outras marcas de subjetividade. Contudo, a ambivalência performativa da interpelação impede que os violentos mecanismos de nomeação tenham todos os seus efeitos controláveis pela autoridade que se proclama sua origem. Se o sujeito não encontra mais sua sujeição pura e a iterabilidade impede o controle total dos efeitos do performativo, cada momento presente do ato de fala condensa uma história que pode ser negociada, alterada – ainda que somente no interior de sua própria estrutura. Descontextualizar e recontextualizar termos, explorar o potencial subversivo da iterabilidade, o tempo todo quebrar ironicamente a "origem" prévia da nomeação, é criar condições lingüísticas de sobrevivência diante da vulnerabilidade lingüística do corpo.

A figura da intelectual negra: linguagem, política e exclusão
Kassandra da Silva Muniz

Por razões sócio-históricas, os negros se vêem fazendo parte da Academia como objeto de pesquisa, mas não como potenciais realizadores de estudos acadêmicos. Spivak (1996) se faz a seguinte pergunta: “Os subalternos podem falar?” Vamos além: Quem tem autoridade para falar? Nosso problema já começa na questão da identificação de “Negro”. Quem é este negro de quem se fala? Onde estão as mulheres negras nas pesquisas?(Hall, 2003; Hooks,1981) De que lugar falamos quando empreendemos uma pesquisa dita politicamente “engajada”? O que significa ser uma intelectual negra em um espaço social-acadêmico, no qual o corpo feminino negro é sexualizado e exoticizado, mas não intelectualizado?No processo de identificação, nomear e ser nomeado é uma forma de conferir e constituir existência, subjetividade, identidade a um Outro. Porém, a linguagem ao mesmo tempo em que confere, que possibilita essa existência, ela também a ameaça, justamente porque esse constituir alguém, é um ato politicamente motivado.Pretendo discutir como a linguagem, e os pesquisadores, estão sempre fazendo uma promessa que não pode ser cumprida: garantir que a voz que está presente no texto é a voz da subalternidade. Partindo de uma visão performativa da linguagem (Austin, 1990, Buttler, 1997), pretendemos analisar esse movimento que, ao mesmo tempo em que “dá voz” aos sujeitos das margens, os exclui. Se esse movimento existe e é reconhecido, uma resposta que encontramos a essa possibilidade reside no que defenderemos nesta comunicação: a identidade é estratégica.
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A transformação embaixo do arco íris: o corpo feminino e negro em Ponciá Vicêncio
Cláudia Maria Ceneviva Nigro

A imaginação popular no Brasil sempre foi e ainda é associada a muitas políticas que atendem a interesses de outros que se estabelecem por meio de uns. Nesses espaços de exclusão, grupos ignorados, minorias, grupos fronteiriços, marginais, entre outros epítetos, tornam-se questão. Se for a partir do uso com que o outro faz de suas palavras que concepções são tecidas, é a partir do uso desse uso que Conceição Evaristo, escritora afro-brasileira, faz esculpir no corpo da personagem, Ponciá Vicêncio, a construção de uma identidade feminina e negra culturalmente modelada. Ao mesmo tempo em que a passagem pelo arco-íris traz o medo e o ritual de segurar a saia entre as pernas para não virar menino, ela amolda culturalmente à menina que durante toda a narrativa e as passagens pelo arco-íris vai construindo sua feminilidade como gênero que é incorporado pela personagem e produz sua exclusão de grupos da sociedade como um todo e a agrega a uma sociedade multifacetada em comunidades compostas por iguais ao mesmo tempo tão diferentes. A individualidade de Ponciá mistura-se à igualdade do corpo negro, que se desenvolve mais amplamente na semelhança com o avô e com tudo que o mesmo representa. Nesse trabalho, sustentado na teoria de Austin e Butler, leremos o Corpo como Arte, cuja diversidade identitária não é construída sob padrões de uniformidade.
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Do estigma à conquista da auto-estima: a construção da identidade negra na performance do funk carioca
Adriana Carvalho Lopes

“Me chama de cachorra, que eu faço au-au, me chama de gatinha, que eu faço miau”: esse é um refrão de uma música funk produzida por Tati Quebra-Barraco, uma das inúmeras MC’s (Mestre de Cerimônia) habitantes das favelas do Rio de Janeiro. Um refrão que, ao atravessar as fronteiras raciais e sociais dessa cidade, transformou-se em um polêmico símbolo de identidade para a juventude carioca, pois ao mesmo tempo em que fornece possibilidade de existência pública para alguns sujeitos, também provoca um choque nas sensibilidades de determinados setores da sociedade brasileira. Considerando que a existência do corpo torna-se possível na interpelação pela linguagem (Butler, 1997), este trabalho investiga como MC’s do funk constituem os seus próprios corpos por uma linguagem erótica que articula, de forma específica, significados de gênero e raça e, assim, desafia tanto a imagem de mulher gerada por padrões masculinos, quanto aquela idealizada por correntes do feminismo. Segundo bell hooks (1993), o erotismo pode ser uma forma de cura pela qual mulheres negras, que não foram consideradas desejáveis pelos padrões de beleza nacionais, (re)inscrevem os seus próprios corpos, transformando certa imagem estigmtizante em símbolo de orgulho, poder e auto-estima. Ao análisar a performance de duas representantes negras do funk carioca, Dayze Tigrona e Tati Quebra-Barraco, mostro que essas jovens citam e resignificam uma linguagem misógina e racializada, criando um lugar discursivo no qual reivindicam para si não só a beleza e a responsabilidade sobre os seus próprios corpos, como também a igualdade em relação aos homens.
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Realocando os Termos do Debate sobre Política, Sexualidade e Subjetivação: A Narrativa Psicanalítica na Mira da Teoria Queer
Marcos de Jesus Oliveira

Desde o início de seu percurso acadêmico, Judith Butler vem teorizando sobre os efeitos do poder na constituição da vida psíquica do sujeito, em diálogo com a psicanálise, sobretudo, a lacaniana. O interesse pela obra do psicanalista francês é, em certa medida, uma extensão das discussões iniciadas por outras feministas; entretanto, a concepção pragmática de gênero proposta por Butler e fundada em sua compreensão pós-estruturalista de sujeito tornou possível uma releitura do referencial psicanalítico, de maneira a contemplar formas de desejo, de sexualidade, de corporalidade e de gênero até então impossíveis de se imaginar. Sendo assim, o presente trabalho busca intervir na discussão em torno das possibilidades de diálogo entre a teoria queer – nome sob a qual a perspectiva propugnada pela pensadora norte-americana ficou conhecida – e a psicanálise, com vistas à (re)elaboração de ferramentas conceituais capazes de apreender as especificidades das novas formas de subjetivação e de sexualidades da cultura ocidental contemporânea, especialmente aquelas que ultrapassam as dicotomias masculino/feminino, hetero/homo.
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Falas do falo: o travesti e a metáfora da modernidade
Sandro Braga

Este trabalho tese constitui na discussão sobre o sujeito travesti, sendo que a questão que abraçarei como hipótese é a possibilidade de se pensar esse sujeito – entendendo as transformações corpóreas, identitárias, subjetivas – como metáfora da modernidade. A referência à metáfora, que se desenvolve desde o título, objetiva tomar o travesti como espelho refratário, que ao refletir, absorve, também, um pouco de todos nós; do nosso tempo. Este trabalho aponta, por fim, como que o processo de construção de um corpo que visa a aparência – no sentido de aparecer – dentro de uma atividade contínua, incessante – marca a busca de um modo de se registrar a existência daquilo que é da ordem do não-identificável. Alguns teóricos, que trabalham com o conceito de "pós-modernidadade", tratam da questão da não-identidade (ou da falta de identidade) e da busca, inexorável, de uma. A partir deste estudo, minha proposta é de que há uma identidade (subjetiva) operando nesse lugar – não-lugar – no entremeio, no limbo, lugar que leva o indivíduo a essa constante busca. Ou seja, o fato de o homem contemporâneo não se identificar com identidades prototípicas, o leva, diante à ilusão da existência de um modelo outro, a querer identificar-se de forma outra, já se identificando neste ato.
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Vinganças da linguagem contra o corpo que (a) produz
Pedro Eduardo de Lima

Já não é novidade pensar em subjetividades como efeito e não causa de práticas semióticas que, dada sua repetição massiva, lhes dão existência e lhes conferem um aparente e ilusório essencialismo. Quando se pensa na prática lingüística dentre tantas outras que, reiteradas, garantem ao sujeito sua existência no mundo, temos o exemplo de um poderoso mecanismo de estabelecimento de relações sociais em que, infalivelmente, hierarquias são criadas, mantidas ou desestabilizadas exatamente pela imprevisibilidade total do perlocucionário dos atos de fala. Nesta sessão, buscarei discutir a exclusão de uma integrante de um grupo que se propõe ser uma tentativa de militância pela diversidade de gênero, sexualidade, raça (entre outras identificações) em Goiás, e mostrar que tal exclusão, ao que parece indicarem os dados coletados em uma pesquisa maior e de cunho etnográfico, se deu com base na operação da matriz heteronormativa materializada na fala dos/as participantes do grupo. Tentarei demonstrar como questões hierárquicas na fala dos/as integrantes apontaram para a circulação do poder entre eles/as, resultando na opção de rompimento com o grupo da participante em questão, mas que na verdade exemplificam nossa ainda impossibilidade de vislumbramento dos limites do alcance de operação e determinações da matriz heteronormativa, ainda que em situações supostamente anti-hierarquizantes.
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Algumas questões sobre as ambigüidades performativas do corpo
Joana Plaza Pinto

Este trabalho tem por objetivo discutir a questão da vulnerabilidade lingüística do corpo em relação à nomeação. Os nomes, sendo arbitrários e portanto impostos, são sempre violações no sentido de que são, no começo e por necessidade, não escolhidos; mas sua arbitrariedade é também acompanhada das propriedades da mutabilidade e da imutabilidade, numa relação de alteração e continuidade constitutivas – uma iterabilidade. Há, portanto, uma ambivalência na maneira como o nome opera o corpo: de um lado, o nome violenta o corpo, apagando sua performatividade, ao obrigá-lo a um lugar epistemológico (através do nome, o corpo torna-se inteligível), a um lugar ontológico (o corpo torna-se regulável) e a um lugar político (o corpo torna-se passível de legitimação e normatização); de outro lado, o nome evidencia a performatividade do corpo ao produzir espaços de articulação e deslizamento, pontos de descontinuidade entre os espaços onde o corpo aparece, criando novas inteligibilidades, regulações, legitimações e normatizações. A violência coerciva opera com a violência produtiva, e embaraça a distinção, marcando um aspecto a se considerar na compreensão da performatividade: a ambigüidade da ação lingüística que produz o corpo.
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Por que se (in)disciplina o desejo?
Justina Franchi Gallina

Os estudos de gênero valem-se de inúmeras categorias de análise para discutir as construções culturais coletivas que levam os indivíduos a caracterizarem-se como masculinos ou femininos. Nesse ínterim, emerge a discussão sobre o sujeito e a maneira como somos sujeitadas/os a assumir determinadas posições de acordo com as estruturas padrões de sexo/gênero. Porém, a partir da ressignificação discursiva ancorada no caráter performático da linguagem, o sujeito (disciplindado pelo discurso), torna-se agente e pode transformar a realidade, dado que a ontologia é a linguagem. Partindo desses pressupostos teóricos e ancorada nas discussões trazidas por Judith Butler na obra “Subjects of Desire (1987)”, destaco outra categoria central em sua obra, a qual sustenta o desenvolvimento de sua teoria: a questão do desejo. De acordo com Butler, o desejo foi domesticado dentro da filosofia através de várias estratégias formuladas para silenciá-lo ou controlá-lo. Para ela, o desejo é produtivo na medida em que constrói seus objetos de desejo. Dessa forma, o sujeito do desejo não precede ou contém desejo, mas é fabricado pelo trabalho do desejo. O sujeito é sempre sujeitado e o desejo é o ímpeto que leva o sujeito à ação. Assim, de que maneira o sujeito disciplinado toma consciência de sua condição (de disciplinamento) para transformar-se em agente de ressignificação? Qual é o lugar do desejo nesse processo? Se o sujeito constitui-se em subordinação a um poder que não escolhemos (das estruturas discursivas) e essa subordinação é a condição de existência desse sujeito, como a sujeição pode converter-se em uma forma de agência?
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A escrita como condição lingüística de sobrevivência
Djane Antonucci Correa

Uma das formas de se pensar acerca da vulnerabilidade lingüística do corpo e da criação de condições lingüísticas de sobrevivência para corpos sujeitados pelas dinâmicas de poder diz respeito ao estatuto da escrita, tanto no sentido de organizar regras de funcionamento de um grupo ou instituição quanto no de estabelecer condição hierárquica ou status. As principais temáticas propostas para discussão neste Seminário, por exemplo, conseguem avançar em alguns pontos por meio da nomeação conjuntural. Dado que a subjetividade é gerada como efeito operativo da repetição de normas, a necessidade de repetição introduz a possibilidade de transformação tal que a norma é, ela mesma, o local de agenciamento político. Norma e corpo integram ou seguem o mesmo curso. Nesse sentido, conforme proposto neste simpósio temático, os nomes interpelam e constituem a existência social do corpo, ao mesmo tempo em que delimitam esses corpos, pois definem o domínio do possível, do pensável, do executável. Considerando que, segundo Derrida (1977, p. 179) todo signo pressupõe uma certa ausência, que é repetível e iterável, este trabalho discute a necessidade de “adentramento” (RAJAGOPALAN, 2006) no texto, uma vez que cada nova intervenção pode propiciar momentos de (des/re)contextualização do texto. De onde se chega ao termo de que a origem prévia da nomeação não está restrita exclusivamente ao uso dos elementos de uma língua, não são eles, exclusivamente, que definem tais condições. Elas são circunscritas em ilimitadas e vulneráveis condições de uso da linguagem.
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Inclusão da referência a gênero, sexo, orientação sexual e identidade de gênero como agravantes do crime de injúria no Brasil: debates políticos sobre a vulnerabilidade
Karla Cristina dos Santos

No artigo 140, que define o crime de injúria no Código Penal brasileiro, o § 3° prevê o aumento da pena caso a injúria faça uso de elementos referentes à raça, cor, etnia, religião, origem ou à condição da pessoa idosa ou portadora de deficiência. Uma alteração do § 3° está prevista pelo Projeto de Lei nº 5003 (5003-b) de 2001, que determina sanções às práticas discriminatórias em razão da orientação sexual das pessoas e que, se aprovado pelo Senado Federal, incluirá entre os agravantes do crime de injúria a referência a elementos como gênero, sexo, orientação sexual e identidade de gênero. Além das dificuldades teóricas que esses termos suscitam, o projeto de lei de autoria da deputada Iara Bernardi tem causado outra polêmica: há quem defenda a iniciativa, argumentando a favor da vulnerabilidade de certos grupos a alguns enunciados injuriosos, e há quem seja contrário a ela, tendo em vista os princípios de igualdade e de liberdade de expressão assegurados pela Constituição brasileira. Desse debate parece emergir o complexo problema da relação entre igualdade e diferença, cujas implicações teóricas e políticas são amplamente conhecidas nos estudos feministas. O objetivo deste trabalho é discutir como a problemática "igualdade versus diferença" é abordada no debate público sobre o Projeto de Lei nº 5003 (5003-b) de 2001 e como ela pode nos ajudar a entender a especificidade de certos atos de fala injuriosos e o seu poder de reforçar práticas discriminatórias.
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Gênero e subjetividade nas comunidades sobre menstruação no Orkut
Georgia Maria Ferro Benetti

Nesse trabalho apresento uma proposta metodológica para desenvolvimento de pesquisa etnográfica em fóruns de comunidades sobre menstruação no site Orkut, rede de relacionamentos da plataforma Google (acessível na rede mundial de computadores em www.orkut.com). Abordo relações entre a etnografia clássica e a chamada ciberetnografia, que respondam aos questionamentos: existe ciberetnografia? No que a ciberetnografia difere da etnografia clássica? Questionamentos estes que emergiram na construção da proposta metodológica para uma investigação interdisciplinar que tem o ciberespaço como campo; as falas sobre menstruação como recorte analítico que permite refletir sobre a materialidade dos corpos generificados e marcados como femininos; e os estudos de gênero como aporte teórico, possibilitando o distanciamento e o olhar acadêmico necessários à escrita/reflexão etnográfica. Também aponto a subjetividade da pesquisadora como determinante na escolha de temas, métodos, referenciais teóricos e na aproximação da área de estudos de gênero.
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A identidade do aprendiz universitário brasileiro de língua espanhola e a multiculturalidade
Lucimar Araújo Braga

A identidade do aprendiz universitário brasileiro de língua espanhola e a multiculturalidade.
Resumo: Desde o início dos estudos, o (a) aprendiz entra em contato com novos conceitos, novas culturas e toda uma ideologia dissolvida dentro dos conteúdos dos LDs. Se não houver um cuidado e conhecimento por parte do (da) professor (a) que intermedeia o processo de ensino-aprendizagem da nova língua, correr-se-á o risco de o conteúdo trabalhado funcionar como um fator alienador e acultural na formação identitária do (a) futuro (a) professor (a). Derridá (2003) define que “...a universidade deveria ao mesmo tempo refletir, inventar e dispor...”, ou seja, não somente a instituição universidade, como também seu corpo docente, precisa proporcionar mecanismos coesos aos seus aprendizes, para que possam se tornar cidadãos (ãs) críticos (as), com a experimentação constante do saber, neste caso, um saber voltado para o conhecimento político-lingüístico, de forma que possam fortalecer e conhecer sua identidade em formação pela reflexão, pela re-inveção e com pré-disposição para novas experiências. A perspectiva multicultural permite uma aproximação entre linguagem, cultura e identidade, mas não determina a unicidade social como sugeria o lema “Uma nação, uma língua, um povo” do século XIX Rajagopalan (2004). O professor e pesquisador Rajagopalan tem discutido em seus livros, a questão do multiculturalismo e quando fala que se antes a identidade de um povo estava relacionada à língua por ele falada, hoje isso já não procede porque “As identidades estão cada vez mais sendo percebidas como precárias e mutáveis suscetíveis à renegociação constante”.
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Vulnerabilidade e condições lingüísticas de sobrevivência
Ubiratan Garcia Vieira

Há alguns empecilhos entre querer escrever e o prazer de escrever. Consideremos dois: a correlação entre a fala e a escrita e a avaliação entre certo e errado. O primeiro desdobra-se em dois: a crença de que seria preciso falar para depois escrever e de que a escrita representaria a fala, mesmo que de forma deficitária, seja por ícones, seja por alfabetos. Quanto à avaliação entre certo e errado. Este sim é um empecilho ao prazer da escrita! Se não vejamos: a crença de que um texto tem início, meio e fim, de que existe para uma determinada língua, uma única (às vezes duas) norma gramatical a ser obedecida, a crença de que as línguas são nacionais ou oficiais, de que nessas línguas se admite apenas uma forma de grafar as palavras e a crença de que a escrita só se faz com palavras. Assim, a pessoa que pode escrever deve poder falar, deve poder estudar uma gramática de uma língua oficial e sua ortografia, deve poder aceitar convenções estilísticas, inclusive, a de que as palavras sejam seu único recurso na escrita. Nesta comunicação pretendo defender a tese de que a escrita assim concebida é excludente da escrita que surge em condições de diversidade corporal. Para tal, pretendo discorrer sobre alguns estudos sobre a escrita de pessoas com trissomia21 e surdez, me orientando criticamente a partir da leitura do livro Rethinking Writing de Roy Harris. Abrir-se à escrita possível não seria melhor do que promover o domínio dessa escrita excludente?
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