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56 - Novas possibilidades de configuração heterossexual

Coordenação:
José Bizerril, doutor em antropologia social pelo PPGAS-UnB, instituição: Centro Universitário de Brasília – UniCEUB

Beatriz Carneiro dos Santos, psicóloga formada pela Universidade de Brasília, /doutoranda da Ecole Doctorale de Recherches Psychanalytiques - Université de Paris VIIe

Considerando simultaneamente as reflexões já clássicas de Butler sobre a constituição de uma matriz heterossexual de caráter hierárquico e os trabalhos de Kimmel sobre as masculinidades, propomos um simpósio para questionarmos as possibilidades de outras configurações heterossexuais existentes dentro deste campo de inteligibilidade. Convidamos pesquisador@s e profissionais de diferentes campos para debatermos questões tais como: em que medida se pode subverter a matriz e permanecer no campo da heterossexualidade? Quão possível é a  produção de uma heterossexualidade não-compulsória, não hierárquica, não-homofóbica e não transfóbica? Que elementos de construção identitária estão em jogo na elaboração de um tal modelo de heterossexualidade?

Pretendemos partir da constituição eminentemente política das identidades de gênero como traço comum a todos os seres humanos (e não apenas àqueles que se situam em identidades reconhecidas como minoritárias) para atentar para as margens e fissuras da heterossexualidade com o objetivo de mapear possíveis conjuntos de outras heterossexualidades. Começamos por propôr três: heterossexualidades subalternas - a partir da existência de outros menos prestigiosos de que depende o sujeito hegemônico para se constituir; paralelas, ou seja,  variações que se reconhecem heterossexuais com outras possibilidades decorrentes da própria instabilidade dos códigos de inteligibilidade; e alternativas:  projetos intencionais e deliberados de releitura e subversão dos códigos, inspirados pela crítica feminista e pelas respostas formuladas a ela. Nossa proposta tem então um foco específico na problematização da heterossexualidade e tem a intenção de incorporar contribuições críticas do pensamento feminista e queer, da historiografia, das ciências sociais e da psicanálise contemporâneas. Interessa-nos indagar como essas outras possibilidades de heterossexualidade se constituem no campo das identidades, das performances de gênero e das sexualidades. Serão bem-vindas ao debate tanto contribuições etnográficas quanto reflexões eminentemente teóricas.

A afirmação de ser homem
Maria Eduarda Noura Rittner (UFPE)

Dos estudiosos da masculinidade, Maria Coleta de Oliveira revela: os estudos de gênero privilegiam a questão da mulher, mas a tensão entre os pólos feminino/masculino colocou a nu o desconhecimento acerca do homem. Acrescenta que a “questão masculina” brota do processo social, do espanto e do desconforto dos homens diante da emancipação feminina ou, simplesmente, diante do questionamento das assimetrias de gênero por parte de um certo segmento de mulheres. Igualmente, Michel Kimmel enfatiza a importância de abrir mais o espaço para os estudos da masculinidade, analisando-os sobre o prisma do gênero, para entender o masculino como algo plural, isto é, como a construção de diferentes estilos de ser homem que transitam no interior de cada homem. Portanto, com cada vez mais transformações na família, na mulher e na sociedade, o homem (parte integrante e fundamental da família) tem sido afetado em todos os âmbitos de sua vida. Abranger as mudanças que ocorrem no/com o homem no contexto da família é, portanto, de suma importância. Estas nos levam a questionamentos: o que é ser homem? Como ele se percebe como homem na atualidade? Como se comporta ante sua masculinidade? Como se relaciona com a mulher face às mudanças nos papéis de gênero? Como esta o percebe? Este trabalho busca mostrar como o homem – especialmente o suíço - vê a si mesmo, se situa na sociedade, na família a partir das mudanças provocadas pela emancipação feminina e, por fim, o que os motiva a buscar em outras culturas um relacionamento afetivo-conjugal.
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A produção da Masculinidade: Uma releitura genealógica
Marcelo Moraes e Silva

O presente trabalho procura demonstrar como o discurso das masculinidades foi produzido e editado na sociedade ocidental. Para alcançar esse intento amparou-se nas contribuições genealógicas de Michel Foucault, principalmente no seu conceito de biopolítica. As contribuições feministas e de gênero também foram utilizadas para compor esse estudo. Destaque especial para as reflexões sobre a heterossexualidade compulsória de Judith Butler. Como também não poderia deixar de ser foram usadas as produções sobre as masculinidades, principalmente as de autoria de Robert W. Connell, Donald Sabo e Pedro Paulo de Oliveira. A principal contribuição do estudo é a demonstração das condições de possibilidades e das diversas relações de saber-poder que propiciaram a elaboração dos diversos discursos sobre as masculinidades.
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As representações da masculinidade e o ser Homem
Romeu Gomes (Instituto Fernandes Figueira/Fiocruz); Elaine Ferreira do Nascimento; Lúcia Emília Figueiredo de Souza Rebello
(Fiocruz)

O estudo tem como objetivo analisar as representações da masculinidade captadas no conjunto de sentidos atribuídos ao ser homem, visando contribuir para a discussão de políticas de saúde voltadas para segmentos masculinos. Por entender que essas representações apontam para a pluralidade da masculinidade, considera-se a existência de múltiplos seres homens. Essa perspectiva se traduz num olhar sobre os processos dinâmicos de construção e reconstrução do masculino, dentro do contexto relacional de gênero. A discussão baseia-se em dados de duas pesquisas qualitativas realizadas na Cidade do Rio de Janeiro (RJ): uma voltada para dois grupos de homens – compostos por sujeitos com baixa escolaridade e sujeitos com ensino superior – e outra com jovens homens de classe popular. As informações fornecidas pelos sujeitos por meio de entrevistas semi-estruturadas foram trabalhadas a partir do método de interpretação de sentido, ancorado em princípios da hermenêutica-dialética. Dentre as conclusões do estudo, destaca-se a influência de um modelo hegemônico nas representações da masculinidade, que se estrutura a partir de três eixos: masculino como oposto ao feminino, a heterossexualidade como foco da sexualidade masculina e o poder como uma pertença do masculino. Esse modelo, entretanto, não só é flexibilizado por alguns dos sujeitos que participaram do estudo, como também é alvo de crítica por parte de outros na busca de formas de ser homens que concorrem com o modelo hegemônico da masculinidade. Nas considerações finais do estudo, busca-se remeter a discussão para a elaboração de princípios voltados para a promoção da saúde masculina, numa perspectiva relacional de gênero.
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Bofe que faz: uma presença perturbadora
Ronaldo Trindade (USP)

Este paper propõe uma reflexão sobre o bofe que faz, uma presença que, embora acionada de forma recorrente no campo a que tenho me dedicado – o da homossexualidade masculina em São Paulo – tem sido abordado de forma rara na literatura antropológica, mesmo nas suas interfaces com a teoria feminista. De forma breve, apresento essa personagem para em seguida tomá-la como categoria heurística e produzir um lugar de exterioridade, a partir do qual examino, iluminado por insights teóricos do feminismo e da etnologia, algumas noções de gênero e sexualidade geralmente acionadas para avaliar os envolvimentos sexuais entre homens.
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Narrativas de experiências sexuais em torno da internet: a construção do gênero e da sexualidade em uma 'lan house'
Thayse Figueira Guimarães (UFRJ)

O processo de globalização tem forjado modelos sociais e contribuído para a construção de novas formas de sociabilidade. Espaços cívicos surgem como fruto do advento das novas tecnologias. O Ciberespaço (Levy, 1999) e as “Lan house”, por exemplo, são expressões do crescimento da tecno-informação, que hoje assume a própria extensão do espaço geográfico (SANTOS, 2000). A emergência desses novos contextos sociais possibilita a construção de identidades desestabilizadoras de práticas e instituições tradicionais, de modo que nos desafiam a “pensar outros futuros” (GIDDENS, et al 1997 p.6). Meu objetivo nesta comunicação é, a partir de análises de narrativas que aconteceram em um “Lan House”, entender o modo como esses novos espaços contribuem para a construção de identidades subversivas de gênero e sexualidade. Para tal, focalizo as histórias de experiência pessoal narradas por Fábio, um jovem que se constrói como um homem homossexual, contando experiências heterossexuais. Como base teórica e analítica, utilizo uma visão discursiva do gênero e da sexualidade (BUTLER, 1990; MOITA LOPES, 2002), o papel das narrativas orais e dos posicionamentos interacionais na construção das identidades sociais (DAVIES & HARRÉ, 1990; WORTHAM, 2000). Recupero, também, o conceito de comunidade de prática (WENGER, 1999) e pistas de contextualização (GUMPERZ, 1998) para análise do contexto em questão. Como resultado, este trabalho contribui para que possamos entender de modo menos aprisionador, mais fragmentado e provisório, possíveis processos de construção do gênero e da sexualidade na contemporaneidade.
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A sexualidade virtual e sua potencialidade de subversão das relações de gênero
Magda Fernanda Medeiros Fernandes (Ministério da Educação)

Este estudo discute a sexualidade virtual em interface com as teorias feministas a fim de instrumentalizar conceitos como corpo e performance de gênero. Argumenta-se que a sexualidade virtual potencializa a subversão das relações de gênero e poder, tumultuando as representações hegemônicas e colocando em xeque sua normalidade, no sentido de ampliar o entendimento das práticas eróticas enquanto livres expressões da sexualidade e contestar os regimes reguladores que consolidam e naturalizam as relações de opressão e dominação entre os sexos. Um aspecto considerado é sexo na ausência de um corpo, onde a concepção de corpo natural é insuficiente e se funde a uma outra dimensão tecnológica encerrada na perspectiva de um corpo-discursivo. Um segundo aspecto é a capacidade de viabilizar a fluidez das identidades de gênero no ciberespaço, mediante a flexibilidade da composição performativa dos corpos-discursivos, facilmente assimilados e operacionalizados no ambiente tecnológico. Por fim, o último aspecto toca as possibilidades de reformular as experiências de gênero diante dessa re-significação e re-contextualização, perturbando os significados originais atribuídos aos gêneros. As idéias apresentadas sobre sexualidade virtual tem por base resultado de experiências etnográficas.
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Uma ética do prazer hetero - tatear vestígios entre o putamentesante
Edla Eggert (UNISINOS)

Glândulas que fazem vazar bicos inchados de tanto chupar e assim vamos coroando o ato de crescer e engordar. É tão bom dar de [m]Amar. Mas nada romântico. Se não há tempo, as pedras de leite chegam e falta espaço pra tanta comida. Passa como passou o passarinho do Quintana. Ser dessas que dá sem se arrepender porque é bom ser sugada devagarinho como pão quente em final de dia com café e leite... Porém o que não tem descrição é aquele olhar esfomeado não sei se de amor ou de agonia por comida, mas um olhar que traz a noção de eterno ser e estar em mim. Que me faz ficar poderosa como se a fome jamais pudesse sair desse instante. Ser comida para alguém. Um corpo, um gosto, uma ética de prazer que se lê em Graciela Hierro (2001).
A narrativa quer chegar como forma de imaginar o que o eucorpo que deseja o hetero transgride para consumir a verborragia do teorético infernal, moral, teologicamente construído como proibido e cheio de notas de roda-pé, mas com poucos quilômetros rodados na experiência de se pensar eucorpo. O eucorpo sem a mágica da complementação por meio da imagem da outra metade.
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O que existe na relação sexual: novas possibilidades de configuração na Teoria Psicanalítica
Beatriz Carneiro dos Santos (Université de Paris VII)

Na tentativa de estabelecer um diálogo entre a teoria lacaniana da sexuação (e sua afirmação controversa da impossibilidade da relação sexual ) e a contribuição das teorias de gênero à discussão sobre a construção e a mobilidade das identidades sexuais, proponho uma reflexão sobre a especificidade da teorização da sexualidade no que concerne ao trabalho psicanalítico. Apresento como hipótese que a psicanálise, por definição campo de elaboração teórica insepáravel da atividade clínica, se confronta com uma questão estrangeira a outras discussões sobre gênero e sexualidades: o trabalho do inconsciente e sua atuação na determinação de uma temporalidade dupla da vida sexual, ou seja, um tempo da vida sexual adulta (feito das escolhas múltiplas relativas às identidades sexuais), mas também um tempo infantil que, qual uma 'fonte viva, sempre no presente', nunca deixa de se fazer ouvir. Mas tal especifidade psicanalítica não deve nos impedir de considerarmos os questionamentos levantados por teóric@s do gênero como relevantes à nossa prática. Pelo contrário: sugiro que a crítica à rigidez das teorizações freudianas e lacanianas da determinação da subjetividade sexuada nos incite à releitura e à reapresentação de tais teorias, com o objetivo de argumentar em favor da maleabilidade dos conceitos psicanalíticos ("O progresso do conhecimento não tolera rigidez nas definições [de conceitos]", Freud, 1915). Para minha participação neste simpósio, proponho então tratar da maneira como a idéia de novas configurações heterossexuais pode encontrar respaldo numa releitura da teoria psicanalítica clássica do eu (ou ego) – proposto como instância polifônica na qual identificações e identidades sexuais se articulam com as possibilidades de ressignificação decorrentes, por exemplo, da experiência do encontro amoroso.
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Le 'féminin' et la différence des sexes: Pour une autre conception de la 'vie psychique' et de la 'vie sociale'
Susana Iriarte-Feller (Université Paris 7)

Les études féministes et les théories du « genre », sont venues re-questionner la psychanalyse. Elles ont permis de soulever l’originalité de l’épistémologique psychanalytique concernant l’articulation du social et du politique à l’inconscient.
Les phénomènes totémiques on été à l’origine de la théorie sociologique du « lien social » et Freud les avait mis en « concordance » avec des processus constitutifs de l’appareil psychique (« Vaterkomplex » et « complexe d’Œdipe »). Approches « logo » et « phallo » centrées largement critiquées depuis.
La déconstruction de ces deux phénomènes et processus à la lumière des travaux récents, nous démontre que la question fondamentale de ceux-ci n’est pas celle, comme l’ont prétendu les théories ethnologique et psychanalytique classiques, et à leur suite celles structuralistes et/ou lacaniennes, une prétendue mise en place d’un « culte des ancêtres », d’un nécessaire « échange de femmes » ou d’une forme de structuration de la réalité selon les « lois de l’intellect », ni non plus un moyen d’ « atteindre » au niveau individuel un supposé « ordre symbolique » indispensable à l’intégration de « la » « Loi ».
Nous démontrerons que la problématique fondamentale de ceux-ci est celle de la constitution d’une identité/altérité créative, tant au niveau social qu’individuel, au travers de la figure inconsciente d’un « acte sexuel » hétérosexuel. Ces phénomènes et processus opérant de manière universelle, qu’une organisation sociale soit patri ou matri –linéaire, patri ou matri-arcale, ou au sein d’une relation individuelle homo ou hétérosexuelle.
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Avós e netos, casamento entre gerações alternadas: revisitando a teoria da aliança e o tabu do incesto
Bárbara Arisi (UFSC)

Neste artigo, faço uma reflexão sobre as interpretações e críticas de diversos teóricos, principalmente feministas, sobre a idéia central de Lévi-Strauss com relação ao tabu do incesto e à teoria da aliança. Procuro contrastar esta discussão em relação a meus dados etnográficos relativos a troca, rapto de mulheres e casamentos entre avôs e netas (casamento heterossexual e intergeracional), observados em minha pesquisa de campo com os Matis, povo de língua Pano que vive na Terra Indígena Vale do Javari, Amazônia. Mostro como o casamento Matis intergeracional não é considerado incesto, na concepção proposta por Françoise Heretier, e como o casamento intergeracional pode ser entre avô e neta e também há possibilidade de ser realizado entre avó e neto. Essa forma de casamento contrasta com o que é considerado aceito e heteronormativo para os a maioria dos demais brasileiros, mas é uma possibilidade real, praticada atualmente e aceita entre os Matis.
Convivi com os Matis em dois momentos: em 2003, quando visitei a aldeia Korubo durante 10 dias; e, durante 3 meses em 2006. Este segundo período foi a minha estadia de campo propriamente dita. Atualmente, preparo-me para voltar ao Javari para minha pesquisa de doutorado a ser realizada durante todo o ano de 2009.
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As margens e o rio: outros desejos e identidades hetero
José Bizerril (UniCEUB)

Partindo da categoria heterossexualidade como o marco de uma cartografia preliminar, examino as margens e os interstícios das práticas heterossexuais para indagar sobre os limites das classificações e regulações de gênero e as possibilidades de diferenças no interior da própria matriz heterossexual. Dialogo com as críticas feministas e Queer que reconhecem a matriz binária de gênero como um dispositivo regulatório que produz identidades hierarquizadas voltadas para o sexo reprodutivo. Mesmo reconhecendo o valor destas análises, interessa-me indagar sobre as fissuras, instertícios e margens da matriz heterossexual, visto que a constituição social/cultural dos desejos e identidades não equivale à sua completa determinação, conforme já indicado por Judith Butler. Busco articular a idéia de gênero como grade de inteligibilidade dos corpos, à produção relacional das identidades e ao papel da experiência erótica nesta produção. Neste contexto, compreendo a experiência erótica como o espaço em que o sujeito pode, em certo nível, escapar da norma, justamente pelo movimento produtivo e proliferante do desejo. Que significa reconhecer-se como heterossexual? Em que medida a experiência erótica trangride ou reafirma as fronteiras identitárias? Será possível atrelar identidades sociais e práticas eróticas quando se concebe o desejo e a própria identidade como abertas e móveis?
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Quando o trabalho de campo acontece no armário
Luanna Barbosa, Beatriz Beltrão (UnB, PPGAS / UniCEUB)

Qual o porquê da preponderância das genitálias para o reconhecimento das identidades? Por que certas marcas corporais (mesmo não aparentes no dia a dia, como os genitais) são decisivas para esse quesito, enquanto outras, não? Por que é decisivo, para o reconhecimento como ser humano, como se obtém prazer? Por que para ser heterossexual não são necessários critérios como o de um “desejo persistente”? A matriz de inteligibilidade é o que define alguém como humano. Esse tipo de poder regulativo é sociológico e histórico, e não uma lei simbólica universal, como Lacan e Levi-Strauss teorizaram. Este trabalho discute a impossibilidade de discernir sobre o desejo de uma pessoa a partir da sua performance de gênero. Apesar de a norma prescrever uma unidade entre “corpo biológico”, identidade de gênero e performance, os caminhos dos desejos humanos são mais complexos. A partir de um exemplo etnográfico, interrogamos: se, por um lado, não existe “fora da norma” quando se trata da regulação, pois mesmo as tentativas de transgredi-la são performadas dentro de seus parâmetros (como no caso de travestis, transexuais e crossdressers, que ainda obedecem à heteronormatividade), se a norma produz e regula, o que dizer quando um homem veste-se de mulher, é uma crossdresser, mas queria fazer uma cirurgia de transformação para continuar casado com sua mulher, como uma lésbica?
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Hetero-topias: cartografia possível de uma heterossexualidade feminista
Alice de Barros Gabriel (UnB)

A heterossexualidade depende, em grande parte, da idéia de diferença sexual, muitas vezes criticada no âmbito da teoria feminista como o local de aprisionamento das mulheres. No entanto, a tentativa de Luce Irigaray de re-significar a diferença sexual (como um projeto de auto-definição das mulheres e de retomada dos nossos corpos e desejos colonizados por uma economia da falta), de pensar a diferença positivamente desde a perspectiva das mulheres, abre possibilidades interessantes de criar heterossexualidades alternativas, onde o que está em jogo é a diferença – não hierárquica – como motor do desejo (em vez da sexualização da hierarquia, do antagonismo onde existem pólos positivos e negativos, a sexualização da diferença). O presente trabalho pretende unir "teoria" feminista e as imaginações ficcionais provenientes da escrita de mulheres como Ursula Le Guin (A mão esquerda da escuridão) e Octavia Butler (Lilith's Brood) em uma tentativa de redesenhar uma cartografia da heterossexualidade. Que tipo de questões (e de fronteiras ou de novos territórios imaginados) surge a partir do confronto da transexualidade sazonal de Le Guin ou da idéia oankali de "aquisição" de Butler com a noção de heterossexualidade radical de Irigaray?
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Salada de fruta sem meias-laranjas: heterossexualidade radical, transsexualidade radical
Fabiane Borges, Hilam Bensusan (Catadores de Histórias/Universidade de Brasília)

A heterossexualidade pode ser resgatada de uma leitura heteronormativa e falocêntrica a partir do intento de entender a sexualidade dos diferentes, a sexualidade que não envolve nem submissão, nem complementaridade e nem coincidência. Uma idéia assim pode ser extraída da plataforma da heterossexualidade radical, contrastante com a hom(en)-sexualidade, em Irigaray. A heterossexualidade radical abre as portas da erotização da diferença: não é o que satisfaz o um desejo, mas é o que compõe alguma coisa nova com o um desejo - assim, o erotismo da justaposição se contrasta com o erotismo do encaixe, da metade da laranja, da forma e do conteúdo. O projeto da heterossexualidade radical - e suas possibilidades de erotismo de justaposição sem complementaridade - é freqüentemente pensado em termos de diferença sexual. Nosso objetivo é conectar a heterossexualidade radical com alguns projetos quer e trans: projetos de interferência nos corpos e nos desejos e que produzem pessoas sexuadas singulares - cujos desejos não vão encontrar complementares ou idênticos, mas que praticam uma sexualidade do hétero, do outro, uma altersexualidade. Pensar a sexualidade como um caminho de trânsito de identidades já é assumir que os desejos fluem em caminhos singulares e que se encontram como esbarrões - não como a mão encontra a luva.
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