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58 - Feminismos e maternidade: diálogos (im)pertinentes

Coordenação:
Dra. Ana Paula Vosne Martins, Universidade Federal do Paraná.  

Dra. Dagmar Meyer, Universidade Federal do Rio Grande do Sul.  

Dra. Maria Simone Vione Schwengber, Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul.           

Este ST tem como objetivo proporcionar um debate de natureza interdisciplinar sobre a maternidade tomando como referência a problematização desta experiência pelo feminismo, entendido tanto como movimento social quanto como pensamento crítico.  Desde a publicação dos livros de Simone de Beauvoir e de Betty Friedan as relações entre o feminismo e a maternidade têm sido marcadas pela contradição e pela polêmica.
Perguntamo-nos se teria razão Elizabeth Badinter ao falar de um neo-maternalismo feminista neste novo século? Como o feminismo hoje se posiciona em relação às políticas públicas, ao "dever" da amamentação, à estetização da maternidade, às novas tecnologias reprodutivas e ao seu modelo de maternidade e paternidade? Estas entre outras questões são endereçadas às pessoas que queiram participar do debate que este ST propõe.
Convidamos pesquisadoras das áreas de ciências humanas e de saúde que desenvolvam estudos, reflexões e também o trabalho com grupos de mulheres relativos à maternidade numa perspectiva de gênero. Interessam-nos, sobretudo, os estudos sobre a politização da maternidade, a história dos debates e polêmicas feministas a respeito da maternidade, as práticas e experiências de movimentos sociais com mulheres e mães, e a relação entre o feminismo e as experiências profissionais no atendimento às mulheres mães.


Gênero, Dádiva e Maternidade: A Prática da Freguesia como experiência de Reprodução Social entre Mulheres de São Gabriel-BA
Ana Ferreira Rocha, Maria de Fátima Lopes (Universidade Federal de Viçosa)

Neste estudo refletiu-se sobre prática social entre mulheres de São Gabriel/BA, o que na linguagem nativa denominada 'freguesia', troca que está diretamente vinculada a eventos do ciclo de reprodução biológica. Uma dinâmica onde a solidariedade e a reciprocidade das relações estabelecem uma coesão grupal e um sentimento de pertença. Problematizar a freguesia nos propiciou entender que parte do estabelecimento de vínculos sociais dessas mulheres ancorarem-se no peso simbólico do resguardo. Recorremos à discussão de gênero como perspectiva teórica interpretativa e à tradição sócio-antropológica, junto às reflexões sobre a dádiva, por entender que essa rede é consolidada a partir de trocas, tanto materiais quanto simbólicas. Se de imediato a ´freguesia` dá a entender um possível reforço à identidade de gênero, em outro momento essa impressão é infundada. Pois é no 'resíduo' da maternidade que está o reduto de poder destas mulheres, os seus micros-poderes que perpassam e harmonizam as relações do grupo, consigo mesma, seu corpo, suas famílias e seus homens. Visto dessa maneira, as políticas sociais como, por exemplo, o salário-maternidade cuja responsabilidade é delegada à mãe – assumem outro significado ao levarmos em consideração a experiência das ´freguesas` e não nos discursos naturalizados de submissão feminina, apontadas ou incompreendidas pelos feminismos. Nos limites dessa reflexão, a vivência dessas mulheres pobres articula experiências que concorrem para a construção de corpus de práticas que as qualificam e/ou desqualificam socialmente. Contudo, num imbricamento entre classe, gênero, maternidade, as políticas sociais contribuem para constituir no universo doméstico estratégias de agenciamento de redes de solidariedade.
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Discursos feministas sobre a maternidade: re (lendo) Simone de Beauvoir, Shulamith Firestone e Nancy Chodorow
Ana Regina Gomes dos Reis (UFBA)

O trabalho que apresento é retirado da minha dissertação de mestrado, apresentada ao Programa de pós-graduação do Núcelo de Estudos Interdisciplinares sobre a Mulher ( PPGNEIM) da Universidade Federal da Bahia, intitulada Do Segundo Sexo `a Segunda Onda: discursos feministas sobre a maternidade. Discute os discursos de Simone de Beauvoir, em O Segundo sexo ([1949],1980), de Shulamith Firestone, em A Dialética do sexo- um estudo da revolução feminista ([1970] 1976) e de Nancy Chodorow em Psicanálise da Maternidade- Uma crítica a Freud a partir da mulher ([1978],2002). Reler hoje, estas autoras resgata, para a memória do feminismo, teóricas que tiveram marcada influência e permite argumentar que as suas contribuições não têm sido adequadamente consideradas. O discurso da recusa de Beauvoir `a maternidade é confrontado com a categoria trazida pela autora, a experiência das mulheres, como instrumento de conhecimento de si e do mundo. As visões de Firestone ecoam a argumentação de Simone de Beauvoir e propõem a tomada do controle da reprodução pelas mulheres.Caracterizando como pesadelo a disseminação das técnicas conceptivas e contraceptivas, sob controle masculino, sua crítica dessas técnicas, nem sempre é ressaltada. Finalmente, a meu ver, o rótulo inadequado de maternalista afastou o olhar sobre a contribuição de Chodorow para a desnaturalização da heteronormatividade e dos papéis de gênero e sobre a reprodução da maternação pelas mulheres. A análise que Chodorow apresenta sobre a formação da masculinidade oferece elementos valiosos para a compreensão da misoginia e da violência para com as mulheres.
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Gênero, Maternagem e Poder: Variações na ficção científica de Atwood e Butler
Anunciata Sawada, Ildney Cavalcanti, Lucia de La Rocque (COC/Fiocruz / UFAL / COC/Fiocruz)

Os conceitos de maternidade e maternagem têm sido debatidos, tanto no campo das Ciências Humanas, quanto no das Ciências Biomédicas sob múltiplos pontos de vista; um outro aspecto que vem ganhando força é a análise desses conceitos sob a ótica da discussão que envolve Natureza e Cultura, trazendo em seu bojo uma inevitável polêmica, tendo em vista as diversas interpretações com que os campos de estudos marcam esta dualidade. Todo esse embate ganha fôlego a partir do surgimento das novas tecnologias reprodutivas (NTRs), cujo desenvolvimento tem suscitado um aprofundamento sobre questões relativas aos conceitos em foco.Como representação das relações entre o ser humano e a ciência/tecnologia, a ficção científica (FC) tem abordado o tema em utopias e distopias, principalmente no âmbito da escrita feminista. No presente trabalho, é nosso objetivo tratar de duas obras de FC, o romance The Handmaid's Tale (em português, O Conto da Aia), de 1985, da escritora canadense Margaret Atwood, e o conto "Bloodchild" (sem tradução para o português), de 1987, da autora afro-americana Octavia Butler, enfocando principalmente os conceitos de maternidade e maternagem. Ambas as obras lidam com fatos que podem ser associados a questões latentes na atualidade, como as NTRs, cujas pontuações estão impregnadas pelo frágil equilíbrio de poder na relação entre os gêneros.
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Configurações de paternidade nas propostas do Programa Primeira Infância Melhor – RS
Carin Klein (UFRGS)

Neste artigo, utilizo-me principalmente dos campos teóricos dos Estudos de Gênero, a fim de discutir algumas proposições e compreensões para a paternidade. Para tanto, tomo o Programa Primeira Infância Melhor (PIM), instituído em 2003, pelo Governo do Estado do Rio Grande do Sul, como uma importante instância pedagógica que se propõe a enunciar, educar, regular e conformar homens e mulheres como sujeitos de gênero, pois atua no sentido de instituir e naturalizar formas de exercer a paternidade. Ao dar atenção às linguagens e as formas com que se constituem as diferenças e as categorizações entre o masculino e o feminino em uma política governamental, também busco apreender como o gênero é utilizado para organizar, a partir de um conjunto de significados e símbolos construídos, relações sociais de poder.
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Sobre mulheres e mães: uma aproximação à teoria do cuidado
Carolina Souza Pedreira (UnB)

Em linhas gerais, o artigo versa sobre significados da maternagem para as mulheres e de que forma elas relacionam ser mulher com ser mãe, o que corresponde a questionar se existe um "ser" mulher e como essa existência – se há – está relacionada com o papel de mãe-cuidadora desempenhado pelas mulheres na sociedade ocidental. O artigo é fruto de uma pesquisa realizada durante um ano em um hospital público em Taguatinga – Distrito Federal, feito a partir de contatos tanto com parturientes e com mulheres que acompanham seus/suas filhos/as de até um ano, atendidas nessa mesma instituição, e que permanecem internadas junto com eles/as na Enfermaria de Lactentes. Concluiu-se que para muitas dessas mulheres não é o processo da gravidez que a marca a maternidade e, sim, o futuro de cuidados dispensados ao/à filho/a. Apesar de a dimensão do cuidado ser sempre compartilhada entre as redes de solidariedade estabelecidas por essas mulheres e outras figuras femininas (mãe, irmãs, tias, vizinhas), elas não reivindicam que os homens têm de cuidar. Os maridos não figuram como atores na rede de cuidado e sua presença não é requerida para tais atividades. Isso pode ser interpretado tanto como uma autonomia relativa dessas mulheres em relação aos seus maridos, quanto como uma forma de organizar a vivência cotidiana da maternidade, em termos de uma ética do cuidado.
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Diferentes olhares sobre a ultrassonografia obstétrica: relações entre diagnóstico, construção de afetos e consumo
Caroline Geocze, Caroline Dombi Barbosa, Ana Cristina d’Andretta Tanaka (FSP/USP)

Introdução: O ultrassom obstétrico é um procedimento diagnóstico oferecido no pré-natal. Seu uso é crescente, sob argumentos como a importância do diagnóstico precoce de adversidades materno-fetais, tranqüilidade emocional gerada pela normalidade dos resultados e vinculação emocional dos pais com o feto.
Objetivo: Discutir relações entre necessidade do exame, construção de demanda e consumo de imagens fetais.
Metodologia: levantamento bibliográfico na base de dados Pubmed, utilizando na busca os descritores: ultrassom, gravidez, psicologia, ética.
Discussão: Encontrou-se 21 trabalhos nessa temática. Conforme a tecnologia é disponibilizada a um número maior de mulheres, novos dilemas éticos e morais surgem, não só frente ao diagnóstico como a aplicabilidade do recurso. Trabalhos apontam que as mulheres vêm desejando realizar o exame para “ver” o bebê. Esse discurso parece ser confluente com idéias sobre construção de vínculo materno-fetal via imagem, divulgados por setores da sociedade. Outro ponto é o crescimento de estabelecimentos médicos voltados para a venda de imagens como DVDs e fotos do feto, com o rótulo de lembracinhas fetais. Percebe-se que as questões médicas podem estar em segundo plano em um cenário onde mulheres parecem buscar o consumo de imagens fetais.
Conclusão: O controle da reprodução por meio do manejo do corpo feminino ganha novo elemento: a construção de emoções maternas para facilitar a ligação com seu filho de forma saudável, ou seja, socialmente esperada. Soma-se a isso o potencial de consumo relacionado à oferta de cuidados e produtos.
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O discurso médico na promoção de biopolíticas endereçadas às mães
Cláudia Amaral dos Santos (UFRGS)

Este trabalho objetiva problematizar o discurso médico presente em manuais dirigidos a mães principalmente, procurando apontar as estratégias desse discurso na promoção de biopolíticas dirigidas às famílias. Para isso, serão analisados os seguintes manuais A Vida do Bebê (edições de 1963 e 2002), de Rinaldo De Lamare, Meus Filhos (edição de 1967), de Balbach, Manual de Mães (edição de 1945), de Ladeira Marques e Higiene e Puericultura (edição de 1956), de Valdemar de Oliveira, a partir de um olhar pós-estruturalista e utilizando as ferramentas teóricas elaboradas por Michel Foucault. A partir de tais manuais, busco problematizar como o saber da ciência é justificado como o mais adequado para orientar as práticas em relação às crianças e que ordens de discurso sustentam tais práticas preconizadas. A partir das análises pode-se apontar que, nesses manuais, os autores aconselham as mães a incutir bons hábitos de saúde e educação nas crianças desde cedo. Tal investimento na infância objetiva a promoção de adultos normais, saudáveis e disciplinados, sendo o fracasso desses objetivos, em muitos casos, atribuído à mãe por não ter seguido à risca as recomendações médicas. Além disso, esses discursos, muitas vezes, desconsideram a realidade e as condições sociais e culturais vividas pelas diferentes configurações familiares, uma vez que possuem como modelo casais casados e heterossexuais, e também desqualificam os saberes populares, em favor do saber médico.
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Os sentidos sobre a maternidade construídos por vozes masculinas e femininas na imprensa da Corte
Cynthia F. Turack (UNIRIO)

Este trabalho aborda as significações concernentes às mulheres e à maternidade no século XIX no Brasil a partir dos textos produzidos pela imprensa da Corte. Tendo como objetivo analisar o discurso médico-higiênico presente no periódico A Mãi de Familia (1879) comparando-o com os discursos femininos presentes nas publicações O Sexo Feminino (1873) e A Familia (1888). Utilizando conceitos provenientes da Análise do Discurso francesa (Pêcheux, 1997) e mobilizando a categoria de análise Gênero (Scott, 1996), observa-se a freqüência dos debates a respeito da maternidade nos periódicos supracitados. A Mãi de Familia, cuja redação estava a cargo de um homem, alegava que a importância das mulheres na sociedade estava em dirigir o espaço doméstico, nos papéis de dona-de-casa, esposa e, principalmente, mãe de família. Estratégia ou não, algumas pioneiras do movimento feminino valeram-se desses discursos masculinos para tentar alcançar seus ideais de emancipação. Dessa forma, afirmavam que para bem cuidar de seus filhos, elas deveriam ter acesso a melhores oportunidades de educação. Além disso, afirmavam que não havia conflito entre as atividades femininas dentro e fora do lar. Tais argumentos foram utilizados diversas vezes por mulheres que se fizeram ouvir por intermédio dos jornais O Sexo Feminino e A Familia.
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Maternidades em discurso em uma política de inclusão social
Dagmar Estermann Meyer (UFRGS)

O trabalho é um recorte de pesquisa inscrita nos campos dos estudos de gênero e de vulnerabilidade que examinou o Programa de Atenção Integral a Família (PAIF), tomando como referência o Município de Viamão – RS. O corpus de análise foi composto por documentos e materiais programáticos federais e municipais, diários de campo produzidos a partir da observação e participação em atividades desenvolvidas em grupos de orientação, entrevistas semi-estruturadas realizadas com técnicas/os dos serviços de assistência social e membros de famílias inscritas no programa, realizadas em 2006/7. Buscamos responder, dentre outras, a seguinte questão: como alguns deslizamentos discursivos como o de mulher-mãe para família e de uma vulnerabilidade marcada pela pobreza para uma vulnerabilidade atravessada também pelo gênero operam no âmbito do texto programático e sobre os sujeitos (técnicos e participantes) que ele governa? Como esses significados são mobilizados no âmbito das ações educativas implementadas? Com que efeitos? A análise permitiu delinear a responsabilização crescente das mulheres-mães das camadas pobres, como agentes de inclusão social e que os serviços e os/as profissionais que implementam as ações programáticas aceitam com “naturalidade” essa expansão da responsabilidade das mulheres e agem na direção de desenvolver capacidades para que elas o façam, cada vez mais e melhor. De forma “conclusiva” pode-se dizer que há alguma incorporação da noção de gênero nas práticas educativas realizadas, mas de forma simplificada e reduzida ao viés dos papéis de mãe e de pai e a traços de personalidade e características intrínsecas ao homem e à mulher.
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A invisibilidade da Depressão pós-parto no contexto de Equipes de Saúde da Família
Fernanda Beheregaray Cabral, Dora Lucia Leidens Corrêa de Oliveira (UNIFRA / UFRGS)

Este estudo é parte da dissertação de Mestrado Vulnerabilidade de puérperas: olhares de equipes do Programa Saúde da Família em Santa Maria/RS, desenvolvida no Programa de Pós-graduação em Enfermagem da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Trata-se de uma pesquisa de caráter exploratório-descritivo, com abordagem qualitativa, realizado com equipes de saúde da família (ESF) de Santa Maria, RS, que analisa a percepção de Equipes de Saúde da Família sobre a vulnerabilidade das mulheres no puerpério. O foco deste trabalho consiste em problematizar os problemas emocionais vivenciados no puerpério no contexto de ESF. Para esses profissionais, as alterações emocionais vividas pelas mulheres no processo adaptativo do puerpério podem influenciam negativamente, potencializando sua vulnerabilidade individual e/ou social e levando à processos de não-saúde, com repercussões importantes na sua saúde mental, como a depressão puerperal. O estudo contribui para o trabalho dos profissionais de saúde, sinalizando à necessidade da ampliação de espaços de discussão de problemas que fazem parte do cotidiano dos profissionais e das práticas de cuidado no interior dos serviços. De tal modo que, as ações do PSF transcendam o campo da prevenção de doenças e se configurem como estratégias para a minimização dessas vulnerabilidades, superando a fragmentação da produção do cuidado e a não aplicação dos princípios da integralidade.
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Dilemas da “boa hora”: Pistas etnográficas sobre relações entre feminismos e “dor do parto”
Fernanda Bittencourt Ribeiro (PUC)

Enfrentar a dor, não senti-la ou tentar minimizá-la sintetizam possibilidades que acompanham, culturalmente, o evento do parto na contemporaneidade. O tipo de parto, concebido como escolha de mulheres ou recomendação médica é objeto de discursos e práticas. A “dor do parto” - enquanto objeto de controle técnico, físico e mental ou vista como uma forma de expressão de sentimentos - segue acompanhando as trocas sociais em torno do término da gravidez. A partir de uma experiência de “participação observante” junto a um grupo de mulheres, em sessões de “yoga para gestantes”, levanto pistas analíticas acerca da construção do parto e de suas articulações com os temas da dor e da escolha. “Deixar a dor” para depois do nascimento – o pós-operatório da cesárea ou as possíveis conseqüências do procedimento de episiotomia – representa uma possibilidade de dissociação entre parto (prova iniciática fundamental da maternidade) e dor? As posições e hesitações expressas pelas mulheres neste “grupo de yoga” expõem a difícil conciliação entre a afirmação “feminista” da vontade de não sofrer, expressa através de escolhas como a cesárea ou o parto normal com analgesia, e a adesão ao “parto humanizado” que tende a positivar a dor fazendo-a sinônimo de força, bravura e vitalidade feminina. Em ambas as posições vemos expressar-se formas diversas de feminismo inscritas nas trajetórias individuais e coletivas. Através da apresentação de um breve exercício etnográfico, o objetivo desta comunicação é apontar os dilemas de um debate entre gestantes e os múltiplos feminismos em torno da construção da “boa hora”.
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Maternidades lésbicas: propuestas y debates para el abordaje de su investigación
Gabriela Bacin (Facultad de Ciencias Sociales)

La maternidad lésbica, como un fenómeno visible y público, es una cuestión relativamente reciente. Algunos abordajes problematizan el tema desde perspectivas atravesadas por un sesgo heterosexista e ideológico particular. Uno de los grandes ejes de estos estudios están destinados a demostrar que los hijos e hijas de padres gays y madres lesbianas son “normales” en su inteligencia, emotividad y “tasa de incidencia de homosexualidad”, es decir, serían tan inteligentes, estables y heterosexuales como los hijos e hijas de padres y madres heterosexuales. Otros debates responden a esta línea discursiva a partir de discusiones sobre la reproducción o aceptación de modelos de familia burgueses y heterosexuales. Diversas actoras del activismo lésbico feminista caracterizan como conservadora a la lucha por la obtención y el reconocimiento de los derechos en torno a las maternidades lésbicas. El activismo feminista, por su parte, discute la maternidad como un mandato social regulador de comportamientos femeninos tradicionales. Este trabajo se propone reconstruir y recorrer críticamente los distintos enfoques sobre maternidades lésbicas con la intención de desarrollar un enfoque teórico que parta del reconocimiento de las maternidades lésbicas como un derecho de las mujeres lesbianas. Se trata de una alternativa teórico-metodológico basada en la apropiación del cuerpo propio y una realidad que supera (y no espera) las discusiones en boga.
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"Espelho das Mães": A Representação Feminina na Publicidade Destinada a Infância nas Páginas da Revista O Cruzeiro: 1930-1960
Juliana Tais Ferreira (Bagozzi)

Desde o final do século XIX o discurso médico, em particular, define as mulheres pela maternidade. Tal definição toma importância a partir do momento que a infância passou a ser cada vez mais valorizada como uma fase especial, digna de atenção e cuidados, pois as crianças eram consideradas as sementes do futuro das nações segundo os discursos produzidos a partir de então. Frente a estas idéias nossa pesquisa teve como objetivo principal analisar a representação da mulher-mãe produzida pelas propagandas de produtos voltados à infância, divulgadas na revista O Cruzeiro, entre os anos de 1930 a 1960. Nosso intuito foi verificar se esta representação sofreu influência dos preceitos da Puericultura, que estavam amplamente difundidos na época. Essa pesquisa inscreve-se, portanto, nos estudos de gênero ao buscar a representação feminina na sociedade brasileira das décadas de 30 a 60, utilizando um meio de grande inserção social que é a revista. Encontramos, nesse sentido, um número expressivo de propagandas destinadas à infância, que confirmam a influência do discurso puericultor disseminado na publicidade. Segundo este discurso, a mulher-mãe torna-se um instrumento para se chegar à infância, daí a necessidade de ser informada e orientada pelos médicos. A propaganda, da mesma forma que a Puericultura, coloca a mãe como responsável pela boa saúde, nutrição e higiene da criança. Apontamos, assim, para uma representação de mulher cada vez mais relativa à maternidade, onde sua ação e função eram somente valorizadas porque ela podia ser mãe.
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Maternidade e consangüinidade no contexto da situação de rua
Letícia Prezzi Fernandes (UFRGS)

Este trabalho aborda alguns dos modos através dos quais meninos e meninas em situação de rua vivem suas relações familiares e de como um serviço municipal específico para o atendimento deles/as entende e ensina formas de viver e de se relacionar com a família. Instrumentalizada pelos aportes dos Estudos de Gênero e Culturais, em aproximação com o Pós-Estruturalismo e da Etnografia Pós-Moderna, observei as ações deste Serviço acompanhando a rotina de educadoras/es e assistentes sociais durante 9 meses. Através dos discursos que circulam neste contexto pode-se notar que há uma valorização dos laços consangüíneos. A consangüinidade é o que rege a organização das políticas públicas e das leis, especialmente no direito de família e no Estatuto da Criança e do Adolescente. Por mais que se diga dentro do Serviço que família não é só o trinômio pai-mãe-filhos e que não necessariamente estes se responsabilizem pelas crianças, é ao binômio pai-mãe que o serviço imputa a obrigação do cuidado e educação das crianças. Essa consangüinidade é expressa, sobretudo, pela mulher-mãe. Tanto os meninos e meninas atendidos/as quanto as políticas públicas, tendem a posicionar as mulheres-mães no centro da vida familiar, fazendo delas o elo principal entre as políticas de inclusão social e a melhoria das condições de vida. Esse processo vem sendo problematizado na ótica de uma “politização contemporânea da maternidade”.
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Mãe é tudo igual? Enunciados produzindo o(s) modo(s) de ser mãe
Lisandra Espíndula Moreira, Henrique Caetano Nardi (UFRGS)

Esse trabalho é parte de uma pesquisa que analisou os enunciados que produzem a articulação entre maternidade e trabalho de mulheres inseridas em diferentes contextos sociais. Em especial, aqui, analisaremos os enunciados relativos à maternidade que configuram o que chamamos de “norma” da maternidade. Teoricamente, seguimos as reflexões de Foucault, principalmente no que se refere à genealogia como forma de pensar o presente. Utilizamos o relato das trajetórias de mulheres que são mães e trabalhadoras para produção dos materiais de análise. As trajetórias foram analisadas dentro do contexto histórico que as tornou possíveis e os relatos foram compreendidos a partir dos lugares ocupados por essas mulheres. Os materiais possibilitaram a problematização de alguns enunciados que constituem a maternidade na contemporaneidade. Descrevemos a intensificação do investimento em um padrão de mulher mãe – que constitui a “politização contemporânea da maternidade” (Meyer, 2006). Esse processo tem como produto uma norma da maternidade e tornou-se possível no cruzamento de diferentes discursos, em especial: o técnico-científico; o do direito (da mulher, da criança); o neoliberal e o da globalização. Essa norma da maternidade, apesar de ser produzida socialmente e ensinada em diferentes instâncias culturais, passa a ser naturalizada. Ela funciona associando algumas características a um modo de ser mãe considerado mais adequado, tais como: tempo (idade) certo (a) para ser mãe, número de filhos, condições financeiras. A partir dela, outros modos de ser mãe são avaliados e hierarquizados.
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Planejamento Familiar: Conflitos e Soluções
Maria Aparecida Rodrigues de Oliveira Lima; Luanda de Oliveira Lima

Vivemos hoje num mundo globalizado em que as mulheres estão cada vez mais inseridas e assoberbadas. Contudo, na maioria das vezes, essa inclusão se dá de maneira precária, com salários reduzidos e acumulando a segunda e a terceira jornadas de trabalho, consideradas "trabalhadores de menor valor" (Spindel: 1983) entram no processo de reestruturação produtiva em desvantagem. Nesse contexto a maternidade é colocada de lado, engravidar ou não passa a ser mais que uma escolha pessoal, torna-se também profissional. O programa de Planejamento Familiar, uma conquista das mulheres em seus movimentos organizados, ainda não atende as necessidades das mulheres ou de seus familiares, pois se restringe apenas a distribuição de preservativos e outros contraceptivos e ainda está focado na responsabilização da mulher. O programa se propõe, mas na prática não discute a importância da participação do parceiro na formulação das estratégias familiares, inclusive em seus momentos decisórios, não fala do papel fundamental deste no uso de preservativo masculino e na manutenção ou não de uma gestação. Dessa forma esse trabalho pretende analisar a metodologia do Planejamento Familiar adotada pelo Ministério da Saúde e sua influência na organização da vida da mulher trabalhadora, tratando-o não apenas como uma política de saúde mas também como uma política social, que gera conflitos e consequências na sociedade, como a redução do número de abortos. Questões como em que momento as mulheres decidem ser mães atualmente no Brasil, como as instituições interferem nessa decisão e qual a participação dos parceiros nesse processo, norteiam nossa pesquisa.
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A educação da mãe esportiva nas páginas da Pais & Filhos
Maria Simone Vione Schwengber (Unijuí)

O presente trabalho é parte de uma pesquisa inspirada nos campos dos Estudos de Gênero e dos Estudos Culturais que se aproximam das teorizações pós-estruturalistas de Michel Foucault (1988; 1997). Nele discuto a emergência de uma lógica, segundo a qual a educação dos corpos de modo geral, e o das mulheres de forma específica, se intensifica, a partir do século XVIII. Temos definido esse processo educativo contemporâneo mais amplo, como “politização do feminino e da maternidade” (MEYER 2002; 2003; 2006), um processo que, por extensão, inclui a “politização do corpo grávido” (SCHWENGBER, 2006). Para fazer essa discussão, examinamos a revista Pais e Filhos, no período de 1968 a 2004, utilizando-nos das estratégias metodológicas da análise de discurso. A partir da Pais e Filhos investigo, de modo mais específico, como o discurso das práticas corporais colabora/concorre com o processo da politização contemporânea dos corpos grávidos? Das análises que resultaram, focalizo aqui um movimento que permite visualizar a emergência de uma lógica, segundo a qual a educação dos corpos grávidos por meio das práticas corporais produz diferentes posições de sujeito: a de mãe preparada associada a da mãe esportiva (forte, sensual e saudável).
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Os novos significados da amamentação em primíparas que vivenciaram fissuras mamárias, na perspectiva de gênero
Michelle Araújo Moreira (Universidade Federal da Bahia)

Trata-se de um estudo de natureza compreensiva, de abordagem fenomenológica, por apreender que este referencial possibilita ir do constituído, ou seja, da realidade concreta ao constituinte ou à essência. A amamentação, discutida como temática, tem sido abordada sob diferentes enfoques em momentos históricos e sociais, com destaque para o papel biológico no qual a mulher é visualizada como reprodutora, portanto, socialmente, sendo esperado o cumprimento de mais um ritual de amor e dedicação para com seu filho. Dessa forma, defini como objetivo compreender os novos significados que primíparas atribuem à manutenção da amamentação, tendo vivenciado fissuras mamárias, na perspectiva de gênero. O referencial teórico-filosófico escolhido foi à fenomenologia existencial. A entrevista, ocorrida em janeiro de 2006, foi realizada com oito primíparas. As questões norteadoras foram: Como foi para você amamentar, tendo fissuras mamárias? Como você se sentiu amamentando nessa situação? Assim, percebi a tristeza diante do aparecimento da fissura, demonstrando impotência por parte da mulher em resolver tal patologia, a felicidade pela continuidade na prática do amamentar, apesar da vivência de dor, desconforto, perpetuando o mito do amor materno, a manutenção da amamentação em benefício da (o) filha (o), o apoio ambíguo por parte da família, cônjuge, outras nutrizes e equipe multidisciplinar e o desejo velado pela suspensão de amamentar. O estudo contribuirá para que familiares e profissionais assistam o ser-mulher na vivência das fissuras, compreendendo-a como ser único, refletindo sobre as ações executadas, entendendo a mulher no seu possível.
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A reinvenção do maternar
Polliana Cristina de Oliveira (UnB)

Esta pesquisa busca visibilizar o processo de reinvenção da maternidade na obra da escritora inglesa contemporânea Michèle Roberts. Os romances de Roberts nos instigam o agir, o questionar, de modo a reconstruir a identidade feminina; por conseguinte, eles estimulam o leitor a romper estereótipos de feminilidade construídos pela sociedade patriarcal e, em especial, os ligados à maternidade. Em The book of the Mrs Noah (1987) há a completa subversão de forma e tema; a intersecção de temas mitológicos, cristãos, seculares, em criativos exercícios intertextuais nos convida a uma leitura polifônica, dada a complexidade da trama. Adrienne Rich (RICH, 1981: 62) acrescenta que silenciada é a perspectiva feminina do tema maternidade, haja vista que a grande maioria das imagens científicas, culturais e artísticas da maternidade vem até nós perspectivada pela voz masculina, individual ou coletiva. Assim, Michèle Roberts contribui para a importância da heterogeneidade e da complexidade do tema maternidade, que compreende uma gama de imagens impostas pelo sistema patriarcal às mulheres. Nancy Chodorow (CHODOROW, 1979: 78-86), psicanalista estadunidense, também ressalta que a universalidade da maternidade tem sido raramente problematizada e que os padrões tradicionais da maternação no mundo contemporâneo se reproduzem de forma cíclica, pois são naturalizados através de processos psicológicos complexos conseqüentes dos tradicionais arranjos familiares. No entanto, Stevens (STEVENS, 2007:40) constata que a maternidade começa a despertar significativo interesse para a pesquisa acadêmica desenvolvida por feministas, a partir da década de 70 e que antes poucos estudiosos haviam analisado os aspectos opressores das representações patriarcais da função materna.
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Outra “figura-relação” de maternidade, parto e feminismo
Rosamaria Giatti Carneiro (Universidade de Campinas)

Tomando de saída a inquietação de Badinter, abordarei a temática do neo-maternalismo a partir do ideário do parto humanizado. Se considerarmos que a maternidade tem início com a notícia da gestação, problematizar o preparo para o parto, recorrente no Brasil e no mundo, enquanto reflexo de um tipo especifico de maternagem da contemporaneidade torna-se possível. Um número cada vez maior de gestantes brasileiras tem procurado os grupos de preparo para o parto humanizado com o propósito de escapar da cesariana e de outros procedimentos médicos. As razões para tanto são as mais diversas possíveis, mas o desejo de parir humanizadamente, em meu entender, abre “brechas” para que (re) pensemos a relação entre maternidade, política e feminismos na medida em que essas gestantes passam não só a exigir outro modelo de assistência médica ao nascimento, mas principalmente uma outra relação com o seu corpo, família e Estado. Por isso, nesse campo, expressões como protagonismo, resistência e linhas de fuga parecem ganhar espaço a partir do parto e da maternidade. M. Célia Ramirez e E. Martin sinalizam essa possibilidade e pensam a maternidade como espaço de criatividade feminista na contramão de S. Beauvoir na primeira metade do século 20. Y. Knibiehler, de outra parte, vai mais além e diz que l´émancipation des femmes ne peut se faire contre la maternité ni sans elle. Pensando a partir delas e outras autoras, pretendo avaliar a possibilidade do desejo do parto humanizado indicar o surgimento de um neo-maternalismo e (por que não?) de um neo-feminismo.
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Juventude, processos de escolarização e maternidade
Sandra dos Santos Andrade (UFRGS)

Discuto e problematizo situações que possibilita(ra)m a exclusão ou a inclusão de mulheres na escola; busco visibilizar de que modo à maternidade está implicada com os processos de escolarização das mulheres. Para tanto, tomo como corpus de análise, entrevistas e observações realizadas com estudantes da Educação de Jovens e Adultos de uma escola da rede estadual do município de Porto Alegre. O referencial teórico-metodológico utilizado é o dos Estudos de Gênero e Culturais que fazem uma aproximação com a perspectiva pós-estruturalista de análise. Como recurso analítico, emprego a análise cultural para explorar as histórias de vida dos/as jovens entrevistados/as, buscando uma articulação entre escolarização, juventude e gênero, a fim de analisar como a maternidade aparece atrelada aos processos de inclusão e exclusão do ensino. Minha suposição é de que jovens homens e jovens mulheres são interpelados de diferentes modos no interior da escola, e que as possibilidades de se viver tanto à juventude quanto a escolarização mostram-se de forma distinta para eles e elas. Sendo a maternidade um dos principais elementos, mesmo nos dias atuais, que favorecem os movimentos de saída da escola e a um só tempo, os movimentos de retorno a ela. As mulheres estão na EJA em função de suas diferentes posições de sujeito, enquanto mulher, mãe, trabalhadora, entretanto, é principalmente como cuidadoras e produtoras de educação que elas buscam a escola. A necessidade de ajudar os filhos ou servir de exemplo foi evidenciada nas falas. Parece que a identidade destas mulheres define-se mais a partir do desejo ou da necessidade do outro, e menos por si mesmas.
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