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61 - Sexualidades, corporalidade e transgêneros[1]: narrativas fora da ordem

Coordenação:
Berenice Bento, Pesquisadora Associada do CEAM/UnB, Doutora em Sociologia.

Larissa Pelúcio, Doutora em Ciências Sociais, pós-doutoranda junto ao Núcleo de Estudos de Gênero – Pagu, Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) – Mestre em Relações Sociais, Poder e Cultura.

Richard Miskolci, Professor Adjunto II no Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Pós-doutorado no Department of Women's Studies da University of Michigan (2008) – Doutor em Sociologia (USP, 2001

No último Seminário Internacional Fazendo Gênero, apresentamos pela primeira vez a proposta de realização deste Seminário Temático (ST) esperando reunir nesse fórum de debates pesquisador@s de diversas áreas, instituições e regiões e assim alargar o debate e as reflexões teóricas sobre as sexualidades e gêneros dissidentes. Nosso objetivo foi atingido. Contamos com 30 inscrições, evidenciando a demanda por espaço de discussões acadêmicas que possam consolidar este campo de estudos no Brasil a partir do amadurecimento das contribuições internacionais e da construção de ferramentas teórico-conceituais próprias.
O objetivo central das atividades e discussões propostas neste ST é contribuir para a elaboração discursos contra-hegemônicos no que se refere aos transgêneros no âmbito dos estudos de gênero e sexualidade. Contemplaremos pesquisas que se voltam para a organização política de travestis, transexuais e intersex, que pretendem dialogar mais diretamente com os saberes médicos e estéticos, às que discutem o trabalho sexual, lazer, construção de subjetividade, identidades e diferenças, tecnologias para reconstrução dos corpos.
Estamos na fase de elaboração de aparatos conceituais que consigam compreender a complexidade dessas "novas identidades". Neste processo de elaboração ocorre em uma disputa com os saberes médico-psi que consideram as identidades trans enquanto expressões de anomalias. Essa realidade evidencia a necessidade de se discutir conceitos capazes de compreender o que diferencia essas pessoas, assim como, o que as unifica.  Neste sentido, se queremos nos distanciar das explicações da saúde mental ou da epidemiologia sobre a subjetividade, é preciso que desenvolvamos contra-discursos sobre estas subjetividades, os quais as compreendam a partir de seus próprios termos e moralidade evitando (e refutando) julgamentos normalizantes ou o sensacionalismo homofóbico a que estamos expostas cotidianamente pela mídia.

Sob camadas de preconceitos: a personagem transgênero na literatura brasileira contemporânea
Adelaide Calhman de Miranda (UnB)

Esse trabalho analisa a representação do/da transexual ou travesti na literatura brasileira contemporânea, principalmente nos contos de Marcelino Freire, Caio Fernando Abreu, Rubem Fonseca e Júlio César Monteiro Martins. Muito além de mero reflexo, a literatura é um dos discursos responsáveis pela construção social da imagem de transgêneros. Sendo assim, deve ser estudada tanto pelos aspectos que contribuem para a sedimentação do preconceito quanto pelo seu potencial revolucionário. De ladra desonesta a voluptuoso objeto de desejo, a personagem transexual ou travesti transita por vários estereótipos, que pouco elucidam quanto a sua complexidade. Por outro lado, em algumas obras que ousam se apropriar de sua voz, o leitor é convidado a se aproximar da dor e do sofrimento de pessoas que não encontram lugar na sociedade. Essas narrativas denunciam as várias camadas de discriminação a que são submetidos/as travestis e transexuais no Brasil contemporâneo. A importância de se pensar na imagem literária de transgêneros refere-se não somente à necessidade de inclusão física e simbólica dessas pessoas, mas também ao fato de que a representação de minorias nos meios de comunicação atua como uma sinédoque, onde uma personagem representa toda uma comunidade, que padece, assim, do fardo da representação. (STAM E SHOHAT, 2004)
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“Se pudesse ressurgir eu viria como o vento” Das narrativas da dor: Um estudo sobre corporalidade e emoções na experiência da travestilidade
Adrianna Figueiredo (UFPE)

O trabalho pretende através da pesquisa empírica realizada com um grupo de sete travestis, dos 23 aos 40 anos, residentes da cidade do Recife, perceber como são realizadas e reinventadas as táticas de modificações corporais vividas como elementos centrais de identificação emocional na experiência da travestilidade. Através das narrativas da dor, será procurado perceber como são agenciadas duas linguagens nas redes afetivas das travestis formuladas via dupla qualificação da dor. Dentro do que chamaremos de linguagem de satisfação, perceberemos que a dor, os riscos e o perigo imbricados nos procedimentos metamórficos de autoconstrução corporais,quando postos em contraponto com a satisfação de sua execução, são significados como muito pouco diante do desejo de transformação. Em contraponto, a linguagem política, em que se utiliza de um expediente comum, baseado nas compartilhadas histórias de abjeções sociais, faz uso do conteúdo simbólico de negatividade e nefastidão da dor, quando se trata de significar emocionalmente seus relacionamentos com a sociedade mais ampla. Essas duas linguagens se mostraram importantes elementos de um jogo difuso, não apenas pelas possíveis particularidades de histórias de vida, mas, sobretudo, pois, ao refletirem sobre suas práticas de remodelações corporais, a dor física dessas experiências pareceu diminuída diante das dores da exclusão e da pilhéria do comportamento dos outros para com esse corpo de difícil inteligibilidade. A idéia da dor apareceu nestas narrativas como reflexividade e espaço de intervenção, onde se afirmará a dignidade e a condição humana.
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Percepção do risco de contrair HIV e práticas educativas entre travestis profissionais do sexo
Ailton da Silva Santos (Universidade Federal da Bahia)

Introdução: A AIDS é doença incurável e passível de contágio por via sexual. vem crescentemente reavivando o tabu sexo-morte e sendo associada a comportamentos sexuais, considerados permissivos e desregrados. Tais comportamentos definem fortemente o perfil das travestis profissionais do sexo. Nesse contexto, muita ONG surgiu para defender os direitos humanos e promover atividades educativas relacionadas à prevenção das DST/AIDS, entre este segmento. Objetivo: Conhecer quais os sentidos que as travestis profissionais do sexo atribuem às práticas educativas das quais participam em relação ao risco de contrair HIV/AIDS nas suas atividades sexuais. Métodos: Pesquisa etnográfica, combinando técnicas de observação participante e entrevistas semi-estruturadas, desenvolvida numa ONG localizada na cidade de Salvador, entre travestis que se prostituem. Dez travestis foram entrevistadas, elegeram-se categorias teóricas e empíricas por cujo intermédio emergiram os sentidos que estes atribuíam às práticas educativas bem como suas percepções de risco. Resultados: Os sujeitos da pesquisa consideraram as práticas educativas como adequadas aos seus repertórios interpretativos e por isso, culturalmente sensíveis. Os riscos enfrentados na prostituição foram percebidos como múltiplos. A violência policial identificada como o principal deles. O risco de contrair HIV/AIDS aparece como mais um destes riscos, sua priorização, na hierarquia pessoal do sujeito, depende das necessidades de sobrevivência e pela sua percepção do risco de morte imediata. Depreende-se da pesquisa e do contato com os sujeitos que a principal contribuição da ONG consistiu em prover às travestis de momentos para reflexão sobre o seu cotidiano, permitindo-lhes construir formas compartilhadas de enfrentamento da AIDS.
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Corpos híbridos em cena
Alex Beigui de Paiva Cavalcante (UFRN)

Os estudos acerca da dramaturgia, incluindoos estudos contemporâneos da cena vêm apontando para um vertiginoso deslocamento e ampliação da concepção de texto e ação, sujeito e personagem, tornando o campo da reflexão cênica um campo minado no que se refere à fronteira entre arte/vida e aos campos performáticos de atuação do sujeito na pós-modernidade. O presente projeto visa aprofundar as tensões advindas da crise de representação do corpo e do espaço do sujeito travestido, tomando como ponto de partida a experiência dos travestis em situação de rua. O trabalho pretende, ainda, acompanhar a dramaturgia cênica de seus agentes, assim como melhor entender a noção de “pessoa” e de drama-vivência. Ainda dentro da perspectiva de “dramaturgia por outra via”, percebemos em diferentes linguagens o deslocamento da noção de teatralidade, de identidade e de figura discursiva aponta para uma escritura dramatúrgica híbrida do corpo, através da qual a figura do travesti aprece em primeiro plano.Nesse sentido, buscaremos correlacionar os diferentes discursos acerca do conceito de sujeito na pós-modernidade e seus respectivos desdobramentos frente à crise do drama e da representação de uma identidade fixa. A pesquisa pretende dialogar com os diferentes elementos cênicos que compõem o drama-corpo dos travestis em diferentes extratos artísticos, bem como estabelecer paralelos acerca da construção cênica de sua figura (imagem andrógina). A performance dos agentes que intervem diretamente na paisagem local e figurada, enquanto realidade fraturada, envolve aspectos sociais e estéticos do imaginário urbano, estes alterados pelo impacto político e estético de suas atuações.
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Quem sou eu: narrativas e auto-representação das travestis no Orkut
Aline Soares Lima (UFG)

O poder das representações de instituir e assegurar a permanência de certas versões de realidade, fundamentam o olhar sobre o mundo e moldam a percepção e compreensão dos indivíduos sobre o Outro. Formuladas a partir de perspectivas espetacularizantes ou marginalizantes, as aparições e representações do fenômeno da travestilidade na sociedade brasileira são pontuadas pela significativa presença de travestis, transformistas e transexuais no cinema, programas de auditório, telenovelas, teatros, entre outros. Tendo em vista que as representações dominantes e que circulam nos espaços oficiais são construídas a partir de discursos hegemônicos, torna-se importante investigar em que sentido, espaços alternativos para circulação de narrativas e representações construídas desde o ângulo do Outro, surgem como formas de contar outras versões de realidade e legitimar a pluralidade das identidades culturais. Nesse sentido, o Orkut, como um dos variados ambientes de sociabilidade virtual, se configura como um desses espaços alternativos, e as narrativas visuais e textuais publicadas pelas travestis nesse espaço se constituem como auto-representações. Ao eleger o ciberespaço como campo de trabalho, considerando sua relevância e possibilidades, esse estudo propõe um investigar da auto-representação das travestis no Orkut, buscando averiguar em que sentido as narrativas, compostas por fotos, imagens, legendas, depoimentos e diálogos, atuam enquanto discurso, e se essas narrativas podem se apresentar como uma possibilidade de construção e difusão de discursos emancipatórios, capazes de desestabilizar e, quem sabe, desnaturalizar a lógica dominante.
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Transfeminismo: uma possibilidade para o feminismo?
Andressa Passeti de Moura (PAGU/Unicamp)

Este artigo se propõe analisar o transfeminismo e sua proposta de ação dentro do movimento feminista brasileiro. O transfeminismo surge da necessidade encontrada por transexuais de discutir as relações de gênero, partindo de suas experiências cotidianas, numa perspectiva feminista, para uma prática transformadora da sociedade. Esse movimento discute que a questão trans, como uma questão de gênero, é uma questão feminista, reafirmando a desvinculação entre o sexo do nascimento e a identidade de gênero e denunciando as desigualdades de gêneros como também a subvalorização do feminino.
Entretanto, as dificuldades das transexuais feministas para se integrarem no movimento feminista apontam para barreiras em relação à constituição dos sujeitos feministas. Interessa-me compreender quais são esses limites assim como os novos elementos colocados pelo transfeminismo ao movimento feminista brasileiro no século XXI.
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Reconhecimento e diferença: nos limites do humano.
Berenice Bento (UnB)

O ato de reconhecimento é parte estruturante do processo de tornar-se humana e, simultaneamente, conferir humanidade ao outro. Não existe humanidade sem categorias de reconhecimento. Aos dissidentes sexuais e de gênero, aqueles que são postos às margens do humanamente inteligível, sobra categorias de negação de humanidade: coisa esquisita, aberração da natureza, macho-fêmea, bicho de sete-cabeças.
O Estado regula a vida social mediante uma compreensão limitada de humanidade, pois assentada-se no dimorfismo. A concepção dimórfica da humanidade fundamenta “cientificamente” a heteronormatividade. Aqueles que não respondem ao nível de coerência entre genitália e identidade, suposto e idealizado pela heteronorma, são categorizados enquanto doentes mentais, transtornados, disfóricos de gênero, desviados, pervertidos. Os discursos religioso e científico se articulam para fornecer as bases de inteligibilidade de humanidade que sustentam o Estado.
As múltiplas identidades que tencionam o Estado pelo reconhecimento de Direitos Humanos, revela que não existe vida humana possível sem categorias de reconhecimento. Dessa forma, o que é posto em cena, mediante a militância LGBTTT, para além de pautas reivindicatórias específicas, é a limitação da concepção de humanidade que regula e organiza a vida social.
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Qual o lugar de Cátia?: Corpo, heterotopias e desconstrução identitária
Cássio Eduardo Rodrigues Serafim (UFRN)

Trabalhos acadêmicos sobre travestis representam avanço no campo dos estudos de gênero e de sexualidade, quando a experiência transexual expõe os limites das práticas discursivas e não-discursivas que investem na constituição binária de corpos-sexuados, de identidades de gênero e de sexualidade (BENTO, 2006), além de questionar o corpo como um objeto pré-discursivo (BUTLER, 2003). Como observam Siqueira (2004) e Cardozo (2007), a bibliografia brasileira sobre travestis comumente apresenta como sujeitos e interlocutoras travestis profissionais do sexo e como campo de pesquisa o lugar onde elas se prostituem (OLIVEIRA, M., 1997; OLIVEIRA, N., 1994; SILVA, 1993; entre outros). Neste trabalho, objetivamos analisar relatos de vida contados por um indivíduo que questiona significados atribuídos aos corpos-homens em nossa sociedade, quando se propõe um nome diferente daquele que lhe foi legalmente (im)posto por seus pais — ele prefere ser chamado de Cátia. Para essa análise, fazemos uso de noções da análise de discurso francesa (ORLANDI, 2004), da noção de heterotopia (FOUCAULT, 2006) e de identidade (HALL, 2004). Acreditamos que ponderar heterotopias de travestis é preocupar-se com a mobilidade desses sujeitos. Conforme Swain (2005, p.341), “Mudar um regime de verdade significa mudar de lugar, inverter os paradigmas para melhor dissolvê-los”. Pensamos o quanto se faz necessário mudar de lugar quando se pesquisa essa temática. Apresentar travestis em outros ambientes pode contribuir para resistir práticas discursivas e não-discursivas e a relações de poder que as afetam e que ratificam no imaginário social a relação estabelecida entre travestis, prostituição e violência.
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Da fixidez à transição. Um estudo sobre as trans-sexualidades
Eveline Rojas (Universidade Federal de Pernambuco)

A relação entre sexo e gênero, ao longo dos anos, despertou inúmeros questionamentos. Diversas perspectivas foram defendidas, firmadas e contestadas, pela teoria social, pelo cotidiano das relações. Outras questões, intrinsecamente relacionadas, como identidade e subjetividade, também seguiram o mesmo caminho. As mudanças sociais vivenciadas pela sociedade, o surgimento de novas tecnologias, de novas categorias, auxiliam na manutenção do debate acerca de sexo e gênero desafiando o entendimento científico-intelectual, bem como do senso comum.
Desta forma, este trabalho tem como seu objeto as trans-sexualidades – é assim que vamos chamar, uma vez que trabalharemos com níveis diferentes de trasformações corporais, de compreensão entre sexo e gênero –, entendendo este como um fenômeno complexo, como um desafio às categorias de sexo, gênero, identidade, subjetividade que constituem a matriz heterossexual dominante, reguladora da vida social. Para compreender como as trans-sexualidades se assentam, podendo “transgredir” e resignificar, essa matriz heterossexual binária, percorreremos um pouco da história da sexualidade e das relações de poder imbricadas nesse processo, para além do que o discurso médico possa dizer.
Sendo assim, tentaremos compreender qual o impacto exercido pela modificação corporal na subjetividade do sujeito, na sua construção identitária, na sua relação com o outro e consigo. Sabendo que esse processo de transformação pode apresentar duas vias, a de normatização e a de transgressão e, tentando apreender como o corpo pode gerar novas instâncias de significado entre as relações sexo e gênero, identidade e subjetividade.
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Sexualidades, corporalidade e transgêneros
Fernanda Cardozo (UFSC)

O Estado de Santa Catarina conta com uma forte organização política de travestis e transexuais femininas em torno das demandas do segmento LGBTTT (TAQUES, 2005). A partir do Programa Brasil Sem Homofobia, tais sujeitas encontram espaços de compartilhamento e de visibilização das experiências de conflitos e de discriminações vivenciadas por sua performatividade de gênero. Vistas como específicas às travestis e às transexuais, essas experiências recebem uma denominação diferencial, expressa pela categoria nativa “transfobia”. Entre as generalidades políticas e os discursos identitários que se engendram na produtividade da diferença (PIERUCCI, 1999), este trabalho visa, de um lado, refletir a respeito dos limites e das potencialidades da categoria em sua aplicação a um quadro teórico mais amplo – qual seja, o das violências de gênero – ou de sua transformação em categoria analítica e, de outro, avaliar como essas experiências de conflito são articuladas nos processos de luta por reconhecimento (HONNETH, 2003).
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Mulheres-homens?
Giorgia de Medeiros Domingues (UFSC)

O estudo das mulheres-homens tem como principal objetivo discutir a construção de identidades de gênero que não se encaixam no sistema binário masculino/feminino instituído historicamente. Essa dicotomia de oposição fundada por nossa sociedade e a delimitação sócio-histórica do sujeito em torno de uma única identidade e sexualidade, acabou excluindo a possibilidade de um indivíduo desempenhar múltiplos papéis e impedindo a construção de um novo tipo de subjetividade. Eram caracterizadas como mulheres-homens pelos jornais catarinenses de 1930 a 1945, todas aquelas que apresentavam discordância entre seus corpos anatômicos e os corpos com os quais se reconheciam subjetivamente.
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Brincando de ser mulher: as drags caricatas e sua paródia do feminino
Gustavo Borges Corrêa (UERJ)

As drag queens, personagens que ficaram mundialmente conhecidas a partir dos anos 1990, realizam seu trabalho tendo por referência a construção social do gênero, através da paródia que realizam de características, atitudes e trejeitos tidos como femininos. A drag queen não deseja se passar por uma mulher biológica e nem ser objeto de desejo sexual; ela quer divertir pela efemeridade de sua existência. Um ponto a ser discutido sobre esta personagem é: ela é uma “subversiva de gênero” ou não? Ela revoluciona os padrões de comportamento aceitos como normais ou se conforma às regras impostas pela sociedade?
Também desejamos pensar sobre o que significa ser drag queen. Serão todas as drags ao redor do mundo semelhantes, totalmente “globalizadas”, ou existem diferenças entre elas dependendo do local onde atuam? Antes do termo de origem norte-americana chegar ao Brasil, por aqui já existiam as chamadas “caricatas”, que faziam um consumo visual bastante parecido ao das drags. Por que então nas últimas duas décadas a grande maioria das caricatas passou a se auto-denominar drag queen? Isso nos parece uma tática para que essas personagens sejam aceitas e sobrevivam num mundo onde as barreiras territoriais estão cada vez mais fluidas. As drag queens são personagens da era da globalização; elas formam uma comunidade interpretativa transnacional. Mas até que ponto certos valores da cultura local permanecem no seu espetáculo? Essa é uma das discussões que pretendemos levar adiante no nosso trabalho.
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“Que nunca chegue o dia que irá nos separar” – notas sobre epistémê arcaica, hermafroditas, andróginos, mutilados e suas (des)continuidades modernas
Jorge Leite Júnior (PUC-SP)

Dentro do que Michel Foucault chamou de epistémê arcaica, que podemos situar em nossa cultura, grosso modo, das raízes greco-romanas ao século XVII, as figuras que uniam as características de macho e fêmea/ homem e mulher/ masculino e feminino representavam uma união ideal ou maldita de uma ordem cósmica e social organizada em distinções sobre estes pares. Desta maneira, fosse o Andrógino narrado por Platão em O banquete, tendo como foco a imaterialidade da alma, ou o deus Hermafrodito(a) dos cultos populares gregos, centrado na junção dos dois genitais, estes seres - que na época tinham uma existência tão concreta quanto o nosso “inconsciente” – foram fundamentais para o discurso médico-moral-espiritual sobre “sexo” e “gênero” do período.
A partir do Renascimento e do movimento humanista, surgiu gradualmente uma nova maneira de compreender a tensa união entre os dois sexos/gêneros corporificados numa mesma pessoa. Destacou-se então o cirurgião francês Ambriose Paré que, em 1575, escreveu Dos monstros e prodígios, livro no qual pela primeira vez os chamados hermafroditas ou andróginos foram classificados como “mutilados”. Conforme avançou a mudança da epistémê arcaica para a moderna, os hermafroditas deixaram de ser monstros ou sinais divinos, encontrando abrigo para sua existência no campo da arte ou da cultura religiosa popular. A partir do século XIX, nasceu uma nova entidade conceitual no Ocidente: o pseudo-hermafrodita da medicina, não mais “maravilha” da natureza, mas um erro desta; filho do racionalismo iluminista e do positivismo, vindo a tornar-se o pai – e mãe – das futuras identidades transgêneras.
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Cidadania ativa: elegibilidade e participação política de travestis
José Baptista de Mello Neto, Michelle Barbosa Agnoleti (UFPB)

A situação vivenciada por muitas travestis é de pobreza, impossibilidade de acesso a políticas públicas e a oportunidades de inclusão através da educação e do trabalho, além do reiterado desrespeito aos seus direitos, pela intolerância que culmina com marginalização devido à orientação sexual, pela violência moral e física a que são cotidianamente submetidas, essas pessoas são, em geral, destituídas de esperanças de sobrevivência digna e segura. O mainstream acaba por reforçar estereótipos aviltantes. A cultura midiática hegemônica corrobora a solidificação de modelos e conceitos sexistas e homofóbicos, que impõem a travestis limitações a livre expressão de suas identidades, constituindo, portanto, flagrante violação da dignidade humana desses cidadãos. Paradoxalmente, apesar de ostentarem uma aparência muitas vezes chamativa, travestis enfrentam certa “invisibilidade social”, oriunda de um preconceito nefasto à construção de uma cultura plural e democrática. Tal situação se demonstra com clareza na escassez, ao longo do tempo, de políticas públicas voltadas para o empoderamento desse segmento populacional, que, reconhecendo as diferenças, promovam a igualdade. A efetiva participação política de travestis nos diversos órgãos legislativos e executivos seria um caminho a mais para modificar o quadro acima descrito, já que, apesar de a Constituição de 1988 ter consagrado os princípios da dignidade da pessoa humana, da não-discriminação e da igualdade, até hoje nenhuma lei voltada para a promoção da cidadania de GLBT foi aprovada no Congresso, o que vem a reforçar a necessidade de uma participação ativa desse segmento junto aos Órgãos que compõem o Poder Político pátrio.
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Performance e Etnoestética: a montagem como ritual ou como nasce uma drag-queen
José Juliano Barbosa Gadelha (UFC)

Transexuais, transformistas, travestis, e drag-queens denominam conjuntamente as transformações de suas personalidades e o processo de intervenções corporais por eles sofridos de montagem. Assim, montar para esses agentes é um ato de modificar tanto a pessoa como o corpo. Esta proposta de trabalho tem por objetivo o estudo de tal ato, no que se refere à experiência drag-queen, à luz de uma pequena parte da imensa bibliografia que compõe as pesquisas antropológicas sobre rituais.
Ao perceber a montagem como um fenômeno passível de uma análise ritual jamais poderia descrevê-lo e interpretá-lo sem me remeter a principal matéria sensível que me propiciou tal percepção: as narrativas de drag-queens sobre como elas se tornaram o que são.Essas narrativas são oriundas de 50 entrevistas que realizei durante um trabalho de campo iniciado em 2004 e finalizado em 2007 na cidade de Fortaleza. Em suma, o futuro trabalho partirá da análise de biografias de drag-queens a respeito de sua iniciação na montagem, demonstrando como esta além constituir um ritual de vital importância na vida de quem o pratica revela-se como espaço da teatralidade e da performance,da expressividade individual e coletiva,da estrutura e da ação,onde o cartão de visita é a estética dos corpos.
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Redes sociais engendradas:notas sobre o caráter associativo entre travestis em São Luís, Maranhão.
Juciana de Oliveira Sampaio (UFMA)

Os estudos de gênero muito têm a enriquecer ao abordar experiências que fogem do pólo normatizado masculino/feminino. As travestis nos oferecem elementos para o questionamento de “verdades” com relação aos papéis sócio-sexuais, pois desafiam a inteligibilidade de gênero sustentada pela continuidade entre sexo/gênero/desejo/prática sexual (BUTLER, 2003). Minha intenção de trabalho é identificar e analisar como ocorrem algumas formas de sociabilidade que se estabelecem entre sujeitos travestis na cidade de São Luís, Maranhão e até que ponto essas formas sustentam e/ou são sustentadas pelo processo de montagem (categoria êmica usada para as modificações corporais por meio de acessórios, roupas, ingestão de hormônios, aplicação de silicone, etc.), assim como buscar perceber qual o valor simbólico conferido à figura da bombadeira (categoria êmica usada para pessoas que aplicam silicone líquido industrial, geralmente uma travesti mais experiente) e quais relações se estabelecem entre estas pessoas e as demais travestis. Para isso, estão sendo feitas observações diretas junto às travestis, assim como entrevistas semi-abertas com roteiro previamente estabelecido. Na análise da referida questão alguns trabalhos sobre a noção de reciprocidade (MAUSS, 2003; LANDÉ; 1977; CAILLÉ, 2002) e de redes sociais (BARNES, 1987; MAYER, 1987; BOISSEVAIN, 1987) servem para dar embasamento teórico. Vale ressaltar que essa é uma pesquisa de mestrado que ainda se encontra em andamento.
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A visibilidade da experiência transgênero: resistência e/ou espetacularização do “exótico”?
Juliana Frota da Justa Coelho (UFC)

Cada cultura produz os corpos que mais convêm à sua normatividade social. Mudanças culturais contribuem para uma ressemantização da corporeidade, mas é preciso não esquecer que o estabelecimento do que pode vir a ser um corpo é construído a partir do esquadrinhamento daquele que não o pode: o corpo “exótico”. Durante o Renascimento, mas principalmente no século XIX, na América do Norte, as “apresentações de estranhezas humanas” causam grande comoção e curiosidade nos locais por onde passam. Com o sucesso causado por esses “fenômenos”, surge uma cultura de espetacularização do “estranho” e do “anormal” como um negócio extremamente lucrativo. Nascem os freak shows, espetáculos em que são apresentados para apreciação pública as chamadas “anomalias” e “deformidades” humanas. No entanto, o século XIX também é palco da uma reviravolta da visibilidade do “exótico”, agora enquadrado sob o prisma da ciência objetiva e moderna. Data deste século, por exemplo, a criação da disciplina Sexologia, na qual a aparência do corpo, sua sexualidade e gênero passam a ser hierarquizados em tipologias naturalistas e universalizantes, atrelando a normalidade e a anormalidade não mais apenas à aparência, mas ao caráter e à personalidade. Seriam os transgêneros, termo polêmico, mas de certa forma ainda utilizado para se referir aqueles (as) que não se encaixam no padrão binário e heterocentrado de gênero, os “freaks sexuais” de nosso tempo? Objetivo, portanto, problematizar a visibilidade transgênero, discutindo que lugar ocupam no discurso científico e quais formas de resistência empreendem (ou não) para a construção de uma visibilidade outra.
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Cuerpos (trans)formados: acerca de las identidades de gênero y la producción de la feminilidad
Julieta Vartabedian (Universitat de Barcelona)

Si bien la condición de “hombre”, “mujer”, “travesti” o “transexual” no está inscrita exclusivamente en los cuerpos, sólo es a través de una modificación del propio cuerpo (acompañada de una vestimenta, un maquillaje, una gestualidad, etc.) que travestis y mujeres transexuales pueden representar y actuar una cierta noción de “mujer”, por muy diversa que pueda resultar la interpretación de este concepto. A partir de una experiencia de campo con mujeres transexuales en la ciudad de Barcelona, al considerar al cuerpo en tanto espejo de las construcciones de género cuestiono en esta presentación la postura de constructivistas y transgeneristas que plantean de manera radical que la anatomía deja de ser destino. Por el contrario, entiendo que la transexualidad sigue estrechamente vinculada al cuerpo (y no necesariamente a la genitalidad) ya que es sólo a través de él que ellas pueden llevar a cabo una modificación y/o adaptación corporal para representar sus propias identidades de género. Incluso es mediante el cuerpo que aquellas identidades (transgéneras) que se presentan como más transgresoras pueden expresarse y enfrentarse a un cuerpo inteligible únicamente como femenino o masculino. En fin, los análisis feministas y constructivistas nos han ayudado a difuminar los esencialismos que encadenan la realidad social a lo estrictamente biológico, no obstante, ellos mismos caen muchas veces en las redes de un determinismo absoluto de lo social. No se puede negar la materialidad de los cuerpos, materialidad que es transformada por las transexuales para posicionarse frente al mundo en tanto transgresoras o reproductoras de un ordenamiento marcado por la genitalidad.
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Intersexualidade em cena: um olhar sobre “XXY”
Katiuscia da Costa Pinheiro (UFMA)

Este trabalho deseja analisar o filme “XXY”, da diretora Lucia Puenzo, que aborda a história de Alex, um/uma adolescente intersexual, e os dilemas de sua condição de ambigüidade em relação às normas binárias de gênero socialmente construídas.
O tema da intersexualidade, no Brasil, só bem recentemente tem sido objeto de estudo nas Ciências Sociais com destaque para os trabalhos de Mariza Corrêa, Paula Sandrine Machado e Nádia Pino. Esses estudos têm tido na Teoria Queer (representada por autoras como Judith Butler e Beatriz Preciado) um instrumental teórico importante que tem complexificado as reflexões sobre sujeitos (lésbicas, gays, travestis, transexuais, intersexuais) que, de maneira mais explícita, colocam em cheque a construção de humanos a partir de um modelo corporal baseado na dicotomia masculino X feminino e baseado no pressuposto da heterossexualidade como normalidade.
Foi possível perceber que há um jogo de mostra e esconde em torno da/do protagonista intersexual que é observado nas relações dela/dele com seus familiares e vizinhos/as e corroborado pela forma como a diretora conduz determinados jogos de luz e sombra nas imagens, remontando-nos às reflexões de Sedgwick sobre a epistemologia do armário.
A chegada de um casal cujo filho desenvolve uma paixão recíproca por Alex é percebida, inclusive por alguns/mas críticos/as do filme, como uma “passagem” para a homossexualidade do personagem coadjuvante trazendo à tona a problematização sobre a possibilidade de uma identidade homossexual do visitante colocada em xeque pela própria desestabilização do binarismo de gênero vivenciado pela/o protagonista intersexual.
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Experiências plurais em categorias singulares: problematizando a materialização das travestilidades
Larissa Maués Pelúcio Silva, André Luiz Zanão Tosta (UNICAMP)

Este artigo propõe uma discussão a respeito das especificidades da construção discursiva da identidade travesti. Apoiando-se em um olhar teórico que evidencia a necessidade da crítica das categorias identitárias em detrimento de sua utilização como pontos de partida fixos para a análise e da pesquisa etnográfica realizada com o intuito de compreender quais os agentes e dinâmicas sociais que produzem os discursos que delimitam, descrevem e prescrevem a experiência da travestilidade; sugerimos que a identidade travesti é marcada por uma fluidez que evidencia um longo e ininterrupto processo de incorporação de valores e símbolos reconhecidos como do universo feminino em corpos pretensamente masculinos. O pertencimento ou auto-reivindicação à identidade travesti passa então por um largo de experiências, processos, construções e intervenções corporais legitimamente reconhecidos como pertencentes ao “universo travesti”, em um processo de “materialização” do gênero sem, contudo, finalizar-se. A multiplicidade de tais configurações aponta mais para um permanente jogo de significação e negociação de elementos, atos e discursos dentro de uma lógica de pertencimento ao masculino ou ao feminino (Bento. 20004), do que posições identitárias estanques, sugerindo uma pluralidade de travestilidades muito mais do que uma categoria identitária unificada, ainda que os sujeitos interpelados pela categoria travesti, ao menos em sua maioria, não reconheçam tais especificidades sugerindo em suas falas explicações essencializantes para suas experiências.
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O sexo sem lei, o poder sem rei
Luciene Jimenez, Rubens Adorno (Faculdade de Saúde Pública de São)

Este trabalho busca identificar como são construídos e validados os discursos acerca da sexualidade, gênero e identidade sexual a partir da história de vida de três irmãos homossexuais nascidos no interior do nordeste brasileiro que emigraram ainda jovens para a cidade de Diadema – São Paulo, onde se tornaram, no decorrer de alguns anos, travestis e profissionais do sexo. Foi realizada uma entrevista em profundidade com duas horas de duração com dois destes irmãos que, em inúmeros momentos incluíram relatos referentes ao irmão mais velho falecido há seis anos. A questão central versou sobre o histórico de vida, em particular os momentos em que se reconheceram e/ou identificaram como homossexuais e, posteriormente, como travestis. A percepção de ser homossexual se deu na infância e é compreendida como força natural intensa e intrínseca aos sujeitos, mas que pode, apesar disso, sofrer mudanças na direção do desejo sexual no decorrer da vida. Já, o processo de passagem para o travestismo foi relatado como estratégia para superar o estigma associado ao emigrante que além de nordestino e pobre é também homossexual, e também como possibilidade de ascensão social e aumento do poder aquisitivo propiciados pelas demandas existentes no mercado sexual.
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Território da prostituição e instituição do ser travesti em Ponta Grossa/PR
Marcio Jose Ornat, Joseli Maria Silva (Universidade Federal do Rio de Janeiro / Universidade Estadual de Ponta Grossa)

Este texto faz uma reflexão da co-relação existente entre o território da prostituição travesti e a instituição do sujeito travesti na cidade de Ponta Grossa, Paraná. As espacialidades desenvolvidas pelas travestis são elementos de fundamental importância na existência do grupo. O espaço constrange as posições de sujeitos, compõe relações de forças, orientando escolhas e sua apreensão da realidade. As evocações resultantes da análise das entrevistas, realizadas com um grupo de 14 travestis que retiram seu sustento da atividade da prostituição, se agruparam em relações estabelecidas na família, relações de conjugalidade, relação entre as travestis e relações com moradores e policiais. As espacialidades que compõem as memórias travestis, nestes conjuntos de relações, simultaneamente criam os laços de afetividade do grupo de pertença e a diferenciação entre outros grupos. São constituidoras da experiência travesti e da identidade travesti, sendo paradoxalmente relacionadas a reprodução da heteronormatividade como de sua transgressão. As principais espacialidades evocadas nas falas das travestis estavam relacionadas a casa, ao espaço urbano, e ao território. Tais experiências são compartilhadas no grupo, promovendo processos de identificação, processo que conflui para o espaço que se torna território, que é relacional, envolvendo configurações de poder entre os sujeitos que configuram as relações. O território é um local de obtenção de ganhos da comercialização das práticas sexuais, mas também um elemento importante na constituição do sujeito travesti e do seu aprendizado. Território que é instituído e instituinte, assim como corpo, o sexo, o gênero, o desejo e a vida.
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O mito do corpo materno: quando o “homem” engravida
Margarete Almeida Nepomuceno (UFPB)

Este trabalho tem como propósito discutir a relação das novas tecnologias de si, a fabricação de corporalidades e identidades plurais em relação ao discurso biologicamente normativo: o corpo que gera. Minha pretensão é dialogar a partir do caso público do primeiro “homem” que engravida, o americano Thomas Beatie, sendo este um personagem em processo de transexualização. Na sua fala divulgada pela imprensa, Beatie revela: “Querer ter um filho biológico não é um desejo feminino ou masculino, é um desejo humano”. Tendo a noção maquinaria do desejo como produtora de liberdades individuais, traço uma geografia dos territórios sem fronteiras por onde permeiam os gêneros e as sexualidades voláteis. As questões a serem abordadas surgem de uma provocação para promissoras compreensões sobre a complexidade do humano, induzidas pela ambigüidade corporal da gestação “masculina” apresentada. O corpo ambivalente do macho-fêmea desafia o questionamento: quem gera quem? Em tempos de pós-humano, próteses, ciborgues e liquidez, criador e criatura se misturam e re/constroem novos sentidos para além dos discursos normal e patológico, do que seria a última instância “sagrada” da divisão entre homem e mulher: a procriação.
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Entre necas, peitos e picumãs. Ou, como o menino se transforma em prostituta
Paulo Reis Santos (Faculdade de Educação da Unicamp)

Neste trabalho procuro problematizar os processos de transformação corporal a que as travestis, moradoras do Jardim Itatinga, maior zona de prostituição da América Latina, se submetem para exibir uma imagem feminina. A partir de então busco compreender como este processo de reconfiguração do corpo se produz e quais suas implicações na subjetivação desses sujeitos. A compreensão de que a vida das travestis, moradoras do Jardim Itatinga, e sua atividade prostitutiva se efetivam no circuito da ilegalidade do discurso médico-jurídico, explica o porquê de elas estarem constantemente em confronto com Lei e a ordem social, legitimando toda sorte de violências a elas destinadas. Através dos relatos dos sujeitos participantes de meu estudo, pude observar que a travesti constrói seu corpo e sua vida, portanto sua subjetividade, do lado de fora das relações sociais da cultura tradicional. Transformar os paradigmas críticos, ou no mínimo aceitar princípios não heteronormativos, instrumentaliza-nos a desconstruir as representações uniformes sobre homens, mulheres, gays, lésbicas e travestis. E a melhor alternativa para isso foi a escuta sensível dos discursos dos sujeitos de minha pesquisa que hoje vivem, encenam ou sugerem outros tipos de sexualidade e de gênero, pois as travestis são o sujeito social depositário da capacidade humana de trocar, alterar, recriar e produzir suas identidades resistindo a toda sorte de interdições, humilhações, discriminações e violências, constituindo-se a partir de uma ética outra, para além do normal e do patológico.
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Corpo, sexo e subversão: reflexões sobre duas teóricas queer
Pedro Paulo Gomes Pereira (Universidade Federal de São Paulo)

Buscarei apresentar, neste texto, duas das mais importantes teóricas queer da atualidade, Beatriz Preciado e Marie-Hèléne Bourcier. Depois de discorrer sobre o trabalho das autoras – abordando questões como pornografia, sadomasoquismo, erotização do ânus, entre outros – e ressaltar suas definições de sexo e gênero, discutirei sobre a centralidade do corpo na economia geral de suas obras. Finalizarei elaborando algumas indagações nas quais ressalto a premência de se inquirir sobre os vários vetores da diferença, resultantes dos desequilíbrios e exclusões.
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O corpo em movimento: sobre a apropriação médica dos quadros de intersexos no Brasil
Raquel Lima de Oliveira e Silva (UnB)

O corpo, para além de um conjunto biológico, se apresenta como a zona de tensão entre o indivíduo genético e o indivíduo social. Moldado pelo contexto sócio-cultural do ator, o corpo é o objeto semântico através do qual as construções do mundo são evidenciadas. Assim sendo, o presente trabalho se propõe ao estudo da apropriação médica sobre os corpos dos intersexuais. O que acontece com o indivíduo cujo corpo não fornece a informação mais elementar e que deve desencadear um processo de socialização específico: é menino ou menina? Em uma sociedade em que a primeira divisão social é oriunda da interpretação do sexo biológico, que se dá primariamente com a leitura da genitália externa de um recém-nascido, o destino das crianças intersexuais é a busca pelo o fim da ambigüidade, que começa pela eliminação da imprecisão física em um corpo que deve ser reconstruído. Como, se exploram, assim, as experiências narrativas da intersexualidade brasileira? Sempre tão mergulhada no segredo e na patologia, a intersexualidade, no cenário nacional, acaba reduzindo o sujeito à condição de um paciente que necessita de cura para que possa ser considerado um indivíduo socialmente completo.
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Como o desejo se torna político:reflexões sobre desvio, estigma e abjeção
Richard Miskolci, Larissa Pelúcio (Universidade Federal de São Carlos e Núcleo de Estudos de Gênero Pagu - Unicamp)

Nos estudos contemporâneos sobre sexualidade, conceitos como desvio, estigma e abjeção têm servido como ferramentas analíticas para a compreensão das vidas constituídas nas margens. A proposta deste texto é problematizar o uso destes conceitos a partir de uma reflexão sobre os processos sociais e os quadros teóricos nos quais eles foram elaborados. A rotulação de desviantes, a estigmatização e o debate atual a respeito da abjeção – ainda que se relacionem a correntes distintas da teoria social – buscam explicitar relações de poder constituídas histórica e culturalmente. Tais relações apontam para a interdependência entre o hegemônico e o subalterno, o que é perceptível na forma como travestis, transexuais e outras sexualidades dissidentes não são excluídas, antes formam a moldura da ordem social estabelecida como normal, respeitável e humana. Uma crítica dos processos de criminalização (desvio), patoligização (estigma) e o não reconhecimento de direitos (abjeção) contribuem para o projeto de uma analítica da normalização que permita desvelar o lugar do desejo na ordem social.
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Intersexo e identidade: história de um corpo autonomamente reconstruído
Shirley Acioly Monteiro de Lima (PUC - SP)

Intersexo e identidade: história de um corpo autonomamente reconstruído é um estudo de Psicologia Social sobre a questão da identidade do intersexo. A pergunta central deste estudo é como, no decorrer de sua vida, uma pessoa com ambigüidade genital que mudou o sentido de sua designação sexual – tendo sido submetida ou não à cirurgia de redesignação sexual - construiu sua identidade? Para responder à questão da pesquisa - e considerando a lacuna em estudos nacionais referentes à subjetividade no estudo da intersexualidade - utilizei como metodologia o estudo de narrativa de história de vida de sujeito diagnosticado com ambigüidade genital. Contamos com o relato de Bahia, uma pessoa de 18 anos diagnosticada como pseudo-hermafrodita masculino devido a deficiência da enzima 5 a redutase. Ou seja, uma pessoa com sexo genético masculino que apresentou ambigüidade da genitália externa ao nascimento, foi socializada como menina e virilizou na puberdade, sem, no entanto, ter realizado correção cirúrgica até o momento. Sem intervenção cirúrgica, Bahia teve a oportunidade de viver seu corpo, as dores e as dificuldades da diferença para descobrir quem é e quem quer ser e, então, resolver ter seu corpo autonomamente reconstruído. A opção pela reconstrução cirúrgica de seu corpo vem como conseqüência de uma decisão pessoal, é ponto de chegada e não de partida na definição de sua identidade; veio ao encontro de suas intenções, iniciativas e pretensões. Bahia se reconhece em seu corpo vivo e tem consciência que é através deste corpo que sua existência se encarna.
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Novas travestilidade: notas preliminares de um estudo sociológico com travestis adolescentes
Tiago Duque (UFSCar)

Este artigo apresenta dados preliminares de uma pesquisa junto às travestis adolescentes de classes populares na cidade de Campinas/SP, e outras localidades. O contato do pesquisador com estes sujeitos é feito a partir de redes sociais, inclusive no universo on-line. Apontamos para “novas travestilidades” considerando que estas travestis apresentam experiências de travestilidades que ampliam as noções dadas por travestis menos jovens a diferentes pesquisadores que já analisaram este tema. Temos percebido que, a despeito de toda homofobia que estes sujeitos estão expostos, parte deles não têm rompido os laços com a família e a escola, não têm seus espaços de sociabilidades restritos ao universo da prostituição e têm buscado novas formas de constituição do seu feminino; afinal “estar vestido como mulher 24 horas por dia” não é uma das características principais destas novas expressões identitárias. Além disso, há uma recusa da aplicação do silicone líquido para a constituição dos peitos, tomando assim a prótese de silicone como um projeto futuro. Alguns deles passaram por intuições vinculadas ao Programa Municipal de Enfrentamento a Exploração Sexual Comercial de Crianças e Adolescentes, que trouxeram marcas de estigmatização a seus processos de montagem e desmontagem. Estes e outros dados são apresentados neste artigo a partir de um referencial teórico da Sociologia das Diferenças e da Teoria Queer, o que nos possibilita avançar nas análises para compreender a complexidade dos processos de estigmatização e desigualdade social a partir do que é, ou não é, reconhecido hegemonicamente como masculino ou feminino em nossa sociedade contemporânea.
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Travestis: corpo, cuidado de si e cidadania
William Siqueira Peres (UNESP/Assis)

Neste estudo propomos a construção de cartografias existenciais de travestis e dos desejos que leva essas pessoas a transformarem seus corpos. Essa temática ganha relevância na saúde coletiva e na atenção psicossocial, considerando as vulnerabilidades vividas pelas travestis diante da ausência de programas de saúde para suas necessidades específicas (hormônios e silicones). Do mesmo modo a ausência de estudos sobre a saúde mental pouco tem contribuído para promover o bem estar bio-psico-social e político dessas pessoas. Assim temos problematizado sobre as linhas que constituem seus modos de vida, seus amores e temores promovendo novos conhecimentos que contribuam para a melhoria da qualidade de atenção à saúde global. A construção da estética corporal se torna uma urgência para as travestis, na busca da expressão de uma silhueta feminina. O percurso de transformação do corpo e a efetivação de sua estética, de um feminino travesti, envolvem complexidades que podem interferir nos direitos de acessos a bens e serviços de qualidades, ou ainda, de proteção e garantias de suas vidas. O que surpreende é que mesmo diante de tantos riscos e de tantas incertezas, as pessoas candidatas à travesti são movidas por desejos intempestivos resistentes a qualquer tipo de racionalização, mesmo porque, é através do corpo que são experimentadas as sensações de prazer e de dor, denotando ausência de informação e/ou programas de redução de danos diante da construção de seus corpos. Trata-se de urgências para que possam se sentir satisfeitas consigo próprias, sendo traduzida por elas mesmas como “dor da beleza”.
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[1] Como já frisamos na primeira edição deste ST, é importante problematizar uso do termo transgênero, importado dos movimentos sociais americanos e que não encontra no Brasil uma recepção unânime por parte dos grupos organizados. Se no uso do termo há a possibilidade de aglutinar as diversas identidades do "universo trans" (travestis, transexuais, transformistas, entre outras que operam uma substancial intervenção corporal na construção de um gênero, que pelo prisma heteronormativo, não seria coerente com o sexo biológico), coloca-se em discussão a necessidade de evidenciar as peculiaridades de cada identidade de gênero. Do ponto de vista dos estudos acadêmicos, o emprego do termo procura abarcar essas múltiplas identidades sem, contudo, negligenciar que se tratam de diferentes subjetividades.