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Coordenação:
Profª Drª Zahidé Muzart (UFSC)

Profª Drª Rosana Cássia Kamita (UFSC)

Neste simpósio, a idéia central é o estudo de ficções e confissões que abordem a dor. A dor do desamor, da denúncia política, da violência, do preconceito podem ser estudadas na literatura, no cinema, ou em outras formas narrativas, sem restrição de época ou de autoria. Discutiremos a questão da dor e sua ligação com o esquecimento. Conforme os versos do poeta Cruz e Sousa, “Esquecer é andar entre destroços / Que além se multiplicam”, o esquecimento “é uma casa vazia... de cerradas portas”... Estudos que ressaltem o não-esquecimento e a memória serão privilegiados no presente simpósio que busca esta dupla leitura: a escrita do eu/a escrita doeu.


Foscolo e Ortis: pátria, amor e dor entre a história e a literatura

Karine Simoni (UFSC)

Ugo Foscolo, um dos maiores autores da literatura italiana do século XIX, deu a muitas de suas obras um caráter biográfico, sobretudo na sua obra-prima Le Ultime Lettere di Jacopo Ortis, romance epistolar no qual são recolhidas as cartas que o jovem estudante suicida Jacopo mandara ao amigo Lorenzo Alderani, que, depois da morte do amigo, publica as correspondências. O presente estudo busca averiguar as relações entre o personagem Jacopo Ortis e seu autor Ugo Foscolo sob o aspecto da dor e do pessimismo, de maneira a perceber em que medida o personagem foi construído a partir das mesmas experiências e aspirações do seu criador.
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A bi(bli)ografia virtual de Ernani Rosas
Fábio Corrêa (UFSC)

Ernani Rosas escreveu poemas durante toda a sua vida, contudo nunca os publicou. Fato interessante é que entre seus manuscritos encontramos uma lista na qual se lê “Livros de Ernani Rosas” e estes são vários. Os motivos para isso tanto podem ter origens edipianas como podem se basear em sua incongruência social. Seu isolamento e essa carreira literária fictícia podem ser explicados pelas intenções metafísicas que Ernani tinha com a poesia (e ser simultaneamente seu propulsor), ele via nela um meio de elevação da alma, sendo assim, não havia necessidade de leitores, bastava-lhe o exercício espiritual que ela lhe fornecia e a visualização de uma seqüência de obras não escritas dava-lhe idéia de sua evolução no campo espiritual. O outro lado da moeda é que tudo o que sabemos sobre ele é quase nada e pouco ajuda a desvendar questões básicas de sua biografia, a qual é, por sua vez, uma construção ficcional de quem o lê e estuda. Se interpretarmos esses dados sob a ótica de Compagnon, que sugere que as obras sejam reescritas através do tempo, podemos chegar perto de uma conclusão que talvez apontasse para o fato de que Ernani apenas deixou dispersos os elementos da primeira escritura da obra, e que está não esta sendo reescrita, mas inauguradas por seus leitores contemporâneos.
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Intimamente ferida: a correspondência pessoal de Delmira Agustini
Gleiton Lentz (UFSC)

Escrito com a mesma eloqüência de uma biografia, o epistolário da poeta uruguaia Delmira Agustini, ao lado de sua obra poética, representa uma ferramenta fundamental na compreensão de sua vida e obra, possibilitando novas penetrações críticas. Repleta de confissões, incompreensões e ímpetos amorosos, em sua correspondência íntima encontramos fortes traços de sua personalidade, do “eu profundo” da poeta mulher e da mulher poeta, de uma alma feminina que viveu intensamente e que na própria carne cantou as angústias do eu “movida pelo grande ritmo de um coração sangrento”. A partir da leitura de fragmentos de seu epistolário, procura-se recontextualizar a biografia da poeta e oferecer uma visão geral da vida e dos fatos marcantes que determinaram sua obra.
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Abandono, acolhimento, adoção: rejeição e redenção na literatura infantil.
Andréia Baia Prestes (UFPR)

Uma leitura atenta de contos clássicos como Branca de Neve e João e Maria, Mogly e tantos outros, leva-nos a perceber como as dinâmicas do abandono e do acolhimento permeiam uma grande quantidade das histórias infantis.
Apesar dos matizes de variação, – uma criança cuja beleza desperta a inveja da madrasta, um animal rejeitado por sua feiúra – na maior parte dessas histórias existe um núcleo central que se repete: o abandono, o jovem herói compelido a enfrentar sozinho o mundo, o sucesso ou o fracasso de suas tentativas ao longo de um caminho que também representa o rito de passagem do crescimento e a entrada na vida adulta. Em outra ponta, histórias como Pinóquio e Pequeno Polegar: novamente a presença da construção identitária através do perigoso processo do crescimento, porém, o foco não é a rejeição, mas o acolhimento de uma criança – que não é propriamente o filho ideal, mas aquele que é dado.
A partir dos anos 1980, cresceu o número de publicações direcionadas aos pais e filhos adotivos. Tais livros são, muitas vezes, ‘guias práticos’ de como revelar a adoção às crianças, e, em sua maioria, foram escritos por pais adotantes para suprir uma alegada carência de títulos nesta área.
Propomos um estudo comparativo de alguns clássicos infantis em contraposição com este tipo de literatura voltada para pais e filhos adotivos, procurando matizes de semelhança e diferenças na abordagem das temáticas da adoção e do acolhimento de uma criança.
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Libertação aprisionada: cartas de política e fé à uma postulante
Caroline Jaques Cubas (UFSC)

A presente comunicação tem como objetivo problematizar elementos concernentes às incoerências experienciadas durante o processo de formação religiosa católica, no que se refere às identificações de gênero, através de um conjunto de cartas endereçadas a uma postulante da Congregação das Irmãzinhas da Imaculada Conceição e escritas por um noviço Capuchinho ao longo do ano de 1989. As cartas foram elencadas como objeto de estudo por narrarem especificidades da formação religiosa, contarem o momento e as condições dentro das quais foram produzidas e permitirem acesso aos medos e indefinições de dois jovens que, seduzidos pelos ideais (na maioria das vezes considerados revolucionarios) da Teologia da Libertação, começam a questionar os preceitos da instituição para a qual estavam sendo formados. Além de trazer indícios de uma época e de culturas determinadas, elas possibilitam acesso a experiências subjetivas compartilhadas no que tange às diferentes (e cambiantes) identificações de gênero, emergentes durante o ato da escrita. O remetente-homem-mentor se desnuda, projetando aflições e, ao mesmo tempo, esboçando uma imagem da destinatária-mulher-aprendiz. Em um ambiente envolto em silêncios como o quarto de jovens postulantes e/ ou noviços, a escrita epistolar emergia como espaço do possível.
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Lembranças de Eduarda sobre a “queda” e a morte de seu filho
Regina Maria Bastos Ferreira (UFSC)

Este trabalho traz um texto redigido a partir da narrativa sobre a história de vida de uma mulher, aqui denominada Eduarda, especificamente sobre os relatos que tratam de sua experiência com seu segundo filho, aqui chamado Marcelo, que foi assassinado quando tinha 23 anos. Em seu depoimento, Eduarda narra fatos como o dia em que deu à luz a Marcelo, aos dezessete anos; contando sobre sua infância e adolescência e, passando pelas mazelas que tratam do que compreende como a “queda” de seu filho, relata o triste dia de sua morte. Evocando, ou seja, atualizando e fazendo falar novamente sua experiência e neste sentido construindo uma experiência nova, Eduarda conta-nos sua angústia, e toda a dor que passou e ainda passa. Os caminhos abertos pela narrativa desta trabalhadora doméstica são compreendidos como mapas afetivos de sua experiência e da experiência do seu grupo e de sua posição no mundo, num determinado tempo e lugar: o grupo de trabalhadoras domésticas, mães, que moram nas periferias da cidade de Florianópolis, a mercê da violência crescente do século XXI. (Esta narrativa foi colhida em entrevista livre, e faz parte de minha tese de doutoramento em Psicologia, em andamento pela UFSC).
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Narrativas-coragem
Tânia Regina Oliveira Ramos (UFSC)

O filho e a mãe, o pai do filho, o filho do pai, a filha da mãe, a mãe da filha, duas narrativas tão longe e tão perto. Filho Eterno, de Cristóvão Tezza e O Lugar Escuro de Heloísa Seixas são os espaços onde quero ler um novo território de produção contemporânea, caracterizado pelo espaço literário, em que a escrita confronta o que se convencionou chamar de inabalável “amor materno” e “amor filial”. As narrativas falam de filho e de mãe, na fala da filha e na fala do pai. Livros-coragem. Afrontar o destino, controlado por moiras, mulheres maduras encarregadas dos destinos dos mortais, nos impõe, enquanto leitores destas duas histórias de vida, uma única pergunta: “e se eu estivesse lá?”
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Em busca do eu no som da memória: envelhecimento feminino e dor, na escrita de Lygia Fagundes Telles
Susana Moreira de Lima (UnB)

A questão da consciência do envelhecimento é tratada no conto “Apenas um saxofone”, de Lygia Fagundes Telles, observando Luisiana, uma personagem de meia-idade, que é surpreendida pelo resultado da ação do tempo em si. Nessa circunstância, a memória é acionada e a volta ao passado dá-se pela evocação do som de um certo saxofone, trazendo à narrativa suas reflexões acerca do que foi e do que se tornou sua vida. Essa mulher madura, numa associação metonímica, reconstitui o amor da juventude a partir desse instrumento musical que seu homem amado tocava à época, cuja lembrança a reporta à simplicidade com que viviam quando jovens em contraposição ao seu modo de vida atual e ao quanto sua juventude não pode ser comprada de volta. Toda essa vivência pela memória provoca também uma revisão do eu e desencadeia profunda dor. A dor da perda do amor e da juventude. Nesse contexto, examinam-se as estratégias de representação da experiência feminina de envelhecer e a dor que pode acompanhar esse processo.
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A diva como ficção da dor: literatura e biografia em Sylvia Plath
Marcio Markendorf (UFSC)

É notório que Sylvia Plath contraiu ampla fama póstuma em virtude da polêmica edição de Ariel e do voyeurismo que se sucedeu à publicação de sua conturbada biografia. Desde que a crítica sugeriu que sua obra mantinha um delicado equilíbrio entre poesia, gênero e experiência biográfica, a escritora converteu-se em uma espécie de ícone cult do feminismo enquanto figura por excelência da mulher vitimizada. A mitologia confessional que a envolve trouxe para si outras abordagens, como atesta o contemporâneo atributo de diva literária, sem que, no entanto, deixe de estar posicionada sob o signo do pathos autodestrutivo. Nesse sentido, ao fazer uso do conceito de diva, tanto aquele designado pelo termo italiano original quanto o sentido evocado pela cultura queer, a escrita de Sylvia Plath será problematizada à luz de uma categoria social de gênero formada por personalidades públicas e celebridades midiáticas. Este trabalho toma como base o livro da jornalista Teté Ribeiro, Divas abandonadas, visto que inclui o nome de Sylvia Plath ao lado de personalidades como Lady Di, Tina Turner, Ingrid Bergman, Maria Callas, Jackeline K. Onassis e Marilyn Monroe. Partindo, então, de uma perspectiva dos estudos culturais, pretende-se avaliar as implicações teóricas da inclusão da escritora no universo da cultura pop. Serão privilegiados os principais eixos que fundamentam as representações biográficas do referido livro: o amor, o sofrimento e a tragédia pessoal.
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Ponciá Vicêncio: identidade formada na dor
Marly Jean de Araújo Pereira Vieira (UEPG)

A dor assume diversas conotações na poesia de Florbela Espanca. Uma delas está intimamente ligada à temática da auto-representação. Não são raros os poemas em que a poetisa questiona o ser Eu, independente de todo e qualquer rótulo social e cultural que, porventura, tenha recebido. O ser enquanto sujeito, indivíduo, parece ser o centro de suas preocupações nos poemas que se inscrevem nessa temática. Para que o processo de busca pelo autoconhecimento se realize vale buscar caminhos variados. Para responder à pergunta “Quem sou eu?” que aparece em alguns de seus poemas, a poetisa busca diferentes caminhos. Na tentativa de cumprir com essa empreitada, Florbela passeia pela história, pelo mundo da imaginação e da fantasia, promove o encontro com o Outro, rasteja ao rés do chão, afunda no mundo de maldades e pecados, ascende ao espaço infinito e busca a divindade. Entretanto, percebe-se que o acesso a esses caminhos é dificultado por obstáculos insolúveis que frustram uma definição clara e objetiva do EU. Nesta comunicação, apresento a análise de poemas que tem como tema a composição do perfil do sujeito tendo como via de acesso a recuperação do passado.
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A importância da história oral como instrumento de inclusão da cultura negra
Francisca Izabel da Silva Bueno (IFIBE)

Este trabalho é o resultado de uma pesquisa onde utilizamos a história oral e memória de vida para analisar a cultura, resistência e organização de mulheres negras. A história desenvolveu-se em uma cidade no interior do Rio Grande do Sul. Nosso objetivo é estabelecer uma ligação entre época passada e a resistência social hoje estabelecida pelas mulheres negras. Nosso desafio ao desenvolver um trabalho cuja fonte é a oralidade, mexe com o conceito de personagem e trabalha com questões do cotidiano da história. A oralidade nos permite reconstruir comportamento, sensibilidade de uma época, que até então eram encobertos e subentendidos. A memória oral do povo negro, agarra-se a fiapos da sua memória familiar, para não deixar morrer, sua história de vida e de povo construtor. Ouvindo os depoimentos constatamos que o sujeito tem habilidades de desenvolver a memória, enquanto evoca, ele está vivendo atualmente e com uma intensidade nova sua experiência. Durante a pesquisa revivemos momentos cruciais, observamos distinguindo falas que, produziam imagens e sentimentos do tempo, os relatos eram momentos familiares, agregando depoimentos e relatos que servem como um grito de liberdade pessoal. Neste ato de contar circulam cumplicidade, palavras herdadas da cadeia dos ancestrais, grandes depositários das palavras nas comunidades negras, sendo o testemunho vivo destas. A educação é um instrumento de garantia do direito de cidadania, cabe ao educador assumir o compromisso de reconstrução dos currículos escolares, incluindo as histórias de vida dos agentes envolvidos, respeitando a realidade étnica.
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Escrevivendo a dor e a resistência
Conceição Evaristo (UFF)

As escritoras Geni Guimarães [Brasil], Teresa Cárdenas Angulam [Cuba] e Maya Angelou [Estados Unidos] trazem o cotidiano de famílias negras e pobres para as suas respectivas obras: A cor da ternura [1998], Cartas al cielo [1998] e Eu sei porque o pássaro canta na gaiola [1996]. Nas três narrativas, a sugestão de um texto autobiográfico se interpenetrando ao texto ficcional modela uma criação literária em que um eu negro, sujeito mulher problematiza ao longo das histórias, não só as relações étnicas, como também as de gênero nos/dos espaços sociais em que as autoras estão inseridas. A voz narrativa, de cada texto, ao ser percebida e ao se perceber em sua alteridade, por sua condição étnica, de gênero e social, vivência sentimentos de dor, de solidão, de impotência e mais ainda de resistência. As autoras apresentam em suas obras, uma escrita que, apesar de ser erigida na experiência da angustia e do sofrimento, acaba se transformando em um possível espaço de diluição da dor, ao se constituir como uma narrativa própria, como uma particular escrevivência do próprio corpo feminino negro. As escritoras com os seus dolorosos e resistentes textos metaforizam a luta contra a autoria/autoridade falocêntrica e notadamente branca que historicamente instituiu e vem sendo instituída sobre o corpo negro.
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Resgatando os contos de Carolina Maria de Jesus - transcrição e crítica genética de uma poética de resíduos
Raffaella Andréa Fernandez (Unesp)

Em 1960, a então catadora de lixo e favelada Carolina Maria de Jesus (1914-1977) tem publicado seu livro Quarto de despejo em co-autoria com jornalista Audálio Dantas. A autoria do livro, que havia sido colocada em dúvida, foi habilmente resolvida pela crítica competente, sobretudo por aquela que recorreu aos originais para melhor situar a escrita da autora. A análise dos meandros da produção do diário, isto é, a crítica textual, possibilitou um questionamento sobre os mecanismos que caracterizaram a transformação dos manuscritos no livro e de suas diferentes publicações, mas não caracterizou o processo de criação de Carolina. Desse modo, a finalidade desse projeto será transcrever e analisar os contos manuscritos e inéditos de Carolina, procurando resgatar os mecanismos do processo criativo. Tendo em vista que a escrita caroliniana está centrada num discurso autobiográfico e memorialístico, é mister observar o papel do vivido no ato da produção de seus textos. Tal repetição instiga um questionamento não só de seu significado, mas também de seu efeito ficcional/narrativo, desencadeando uma reflexão acerca de uma teoria da escritura caroliniana.
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Confissões do corpo: procedimentos criativos e construção espetacular
Marisa Naspolini (CEART-UDESC)

Esta comunicação apresenta aspectos ligados à relação entre literatura e teatro estudados na pesquisa de mestrado intitulada “Confissões do corpo: composição cênica e diálogo poético com a literatura de Ana Cristina Cesar”, defendida em julho de 2007. Apresento procedimentos criativos adotados na pesquisa que se relacionam com a escrita de Ana Cristina Cesar, fortemente pautada pelas relações entre confissão e ficção e pela subjetividade presente em cartas e diários que compõem sua fala poética. Propõe-se aqui uma escrita do/no corpo a partir de memórias autobiográficas e práticas que buscam trazer à tona aspectos da subjetividade da atriz/performer. Além do relato de aspectos da pesquisa, explicito como as relações entre a escrita pessoal e a fictícia estão presentes na construção do espetáculo “Simulacro de uma solidão”, que, a partir de textos de Ana C., mas também dialogando com a biografia da própria atriz, apresenta confidências íntimas e dolorosas, dramas diários repletos de sensações físicas, numa auto-exposição provocativa e por vezes cortante, onde se confundem as vozes da atriz e da poeta.
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A voz e o silenciamento da dor em Sangue Limpo
Jussara Bittencourt de Sá (UNISUL)

Nesta comunicação apresenta-se uma leitura de representações da dor que advém das falas e do enredo no drama Sangue limpo, de Paulo Eiró, de 1863. Observa-se que a opção pela análise de uma peça teatral do século XIX decorre por entendermos a relevância do teatro para segmentos da sociedade brasileira. O teatro, instituído na vida social, foi (e é) promotor dos debates culturais. Destaca-se como a escritura teatral traz à cena a percepção peculiar do artista sobre a dor das personagens que representam negros, índios e miscigenados na sociedade brasileira do século XIX. Ao ambientar a história em São Paulo, entre 25 de agosto e 7 de setembro de 1822, percebe-se como o dramaturgo procura moldar e modular seu significado de dor enquanto experiência desses brasileiros em face à Independência. Dor que etimologicamente origina-se do latim dolore, em Sangue Limpo, assume significados como sofrimento moral, discriminação, mágoa, pesar, aflição, compaixão, dentre outros. Nesta leitura, evidencia-se como personagens brasileiras desvelam sua voz e seu silenciamento em virtude da sua condição social.
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O corpo d’á voz
Rosa María Blanca (UFSC)

Pretendo estudar a partir da categoria de “diferença cultural” de Homi Bhabha, e da semiótica de Roland Barthes, os significantes de falas, entrevistas, contos, memórias, prosas e sonhos, de mulheres que viveram, ou vivem ainda, através de seus próprios personagens. A minha interpretação está baseada em Las Siete Cabritas (2000), de Elena Poniatowska, nos capítulos escritos e inspirados em Frida Kahlo, Pita Amor, Nahui Olin, Maria Izquierdo, Elena Garro, Rosário Castellanos e Nellie Campobello, assim como nas a priori-mente qualificadas Mujeres Transgresoras (1997), de Teresa Dey. Trás a máscara da pintora, da bailarina, da índia, da islâmica, da católica, da ateia, da modelo ou da poeta, surge uma voz como corpo que documenta cada uma das suas posições ordinárias e extraordinárias. A simplicidade de suas atitudes tão pouco relevantes na sua falta de institucionalização, ecoou muito mais estridentemente que qualquer manifesto político da época na qual pertenceram. Viver com os demônios por dentro é a escolha de todas estas mulheres. A sua única preocupação é com o gesto de cada dia. Os amores lhes provocam dissabores. Porém, a dor não será somente sentimental, há um reparo na cultura, na velha cultura -como definição, imóvel e ortodoxa-, e na nova que elas mesmas tomam conta mediante a enunciação literária, inconscientemente real.
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Macabéa nas páginas e nas telas: uma estrela cadente
Rosana Cássia Kamita (UFSC)

O objetivo neste texto é traçar um paralelo entre a personagem Macabéa de A hora da estrela, de Clarice Lispector e a personagem no filme homônimo de Suzana Amaral. A trajetória de Macabéa mostra suas desventuras e o quase incômodo que sua presença provocava. Além da personagem, cumpre destacar as figuras da escritora Clarice Lispector e da cineasta Suzana Amaral em sua contribuição com a literatura e o cinema, inscrevendo a participação feminina nas artes ao mesmo tempo em que mostram a figura da mulher em uma perspectiva crítica.
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Florbela, Frida e Edith Piaf: A dor escrita, pintada e cantada
Salma Ferraz (UFSC)

A presente comunicação analisará a presença da dor na poesia de Florbela Espanca, na pintura de Frida Kahlo e na música de Edith Piaf. São três mulheres que confessam sua dor por meio da arte e, tanto a pintura, como a música e a esrita revelam a confissões de um eu que sofre muito.
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Fagundes Varella: um bardo boêmio
Davi de Souza (UFSC)

Fagundes Varella (1841-1875) é, dentre os poetas do período romântico brasileiro, aquele que mais sinceramente cantou sua própria dor: a dor de existir. Sua vida errante de andarilho e alcoólatra é tema constante de muitos de seus poemas. Poemas que lhe conferem um "ar" decadente, antes mesmo do decadentismo, bem como de um lirismo do "eu" que parece antecipar Augusto dos Anjos. A sua poesia con fessional, com os elementos que a compõem e a aproximam do decadentismo, é o tema desta comunicação, em que privilegiarei os dados biográficos que o tornaram um homem anti-social, e nosso mais conhecido poeta maldito.
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Arranjos inacabados: dois romances em Iaiá Garcia
Marcia Bianchi (UFSC)

O propósito desta artigo é discutir a ambigüidade de dois personagens: Estela e Luis Garcia – no romance Iaiá Garcia de Machado de Assis. Esta ambigüidade torna possível a existência do romance de Estela que se funde na dor do amor e na renúncia ao favor. Desta forma, nos romances da primeira fase de Machado de Assis seria acrescido mais um: Estela. Uma leitura de como “eu” pode ser escrito no plural. Observa-se uma certa “necessidade” de fundir os dois romances, porém, pela freqüentação e pela postura do narrador, o plano de busca do leitor anda por outros bosques, foge daquele planejado pelo autor. Por isso, os arranjos foram inacabados. A própria essência artística da composição do romance aponta esta ambigüidade: dois romances em Iaiá Garcia.
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O corpo como instrumento de vingança em “Emma Zunz” de Borges
Andréa Lúcia Paiva Padrão (UFSC)

Dentre os escritores da América Latina, Jorge Luis Borges é certamente um dos mais lidos e discutidos no mundo todo; sua obra vem marcar um novo lugar para a recepção da literatura que aqui se produz. Apesar de autor consagrado e de fazer chegar o nome da Argentina às diversas línguas para as quais sua obra é traduzida, peculiarmente demonstra uma notória preferência pela literatura marginal, pelo texto fora das tradições canônicas. Essa estranha predileção de Borges inicia na juventude, não só nos seus próprios textos, mas também na seleção de seus autores e gêneros preferidos. E é a partir de temas marginais que o escritor elabora sua literatura, uma poética que muitas vezes se realimenta da diferença, por exemplo, entre o “gênero menor” e a erudição universalista dos seus contos e ensaios; uma poética que se sustenta da mescla do marginal e do popular com o consagrado. O presente trabalho enfoca o conto “Emma Zunz” – considerado por alguns críticos como uma “típica crônica policial” – cuja protagonista, Emma, uma das poucas personagens femininas fortes da obra borgiana, se deixa violentar para justificar um assassinato que comete, ao vingar a morte de seu pai. O trabalho evidencia, também, que essa narrativa aparece vinculada a preocupações que ultrapassam o gênero, abrangendo elementos comuns ao universo borgiano: filosóficos, metafísicos e históricos.
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Agonia e Abandono: as faces de Medéia em O revólver da paixão, de Nélida Piñon.
Maximiliano Torres (UFRJ)

A narrativa de Nélida Piñon sinaliza para uma visão pessoal e feminina do amor e do desejo, a qual desenvolve e redefine em seus diferentes livros, insistindo com a palavra-chave paixão. A pulsão erótica e a paixão pelo conhecimento - especialmente o resgate do corpo - é um dos temas centrais da sua obra; é inegável a sua preocupação com o processo de criação textual, com as questões da existência e resistência. Nélida vasculha as matrizes do desejo humano e apresenta, em sua escritura, as forças e fraquezas, os amores e ódios, os medos e coragens, aos quais somos defrontados em muitos momentos de nossas vidas. Assim, na tentativa de enfatizar a importância da Literatura, não só como veículo de cultura, mas, principalmente, como um interdito que representa, no seu discurso, a nossa própria existência, nossos problemas do dia-a-dia, esse trabalho visa a analisar a agonia do abandono a partir da leitura do conto O revolver da paixão, tendo como base o mito de Medéia e a tragédia homônima de Eurípedes.
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Macabéa: um corpo como metáfora de uma existência que dói em Clarice Lispector
Lígia Regina Calado de Medeiros (UFCG / UFRJ)

O estudo da representação do corpo da heroína de A hora da estrela constitui parte integrante de uma pesquisa que se desenvolve sobre a mulher selvagem em Clarice Lispector. Persegue-se, neste propósito, a mulher encorpada, buscando nela as marcações ideológicas que o corpo pode veicular. No caso da nordestina Macabéa, a representação corporal recebe um procedimento de anulação. De “esvoaçada magreza”, grande parte da invisibilidade da protagonista passa, metaforicamente, pela insuficiência do corpo dela. O próprio fato de possuir “ovários murchos” já é indício de sua falta, impedida de continuar na cadeia da perpetuação. O corpo “cariado” de Macabéa é, por sua vez, a imagem perfeita de uma existência que dói em Clarice. O texto é permeado pela dor de dente da heroína e pela dor da narração, angustiada em contar a história dela. Filha da fome, o conhecimento dela passa, inclusive, por um viés antropofágico, representável, por exemplo, na figura de uma personagem engolida pela cidade, como se vê, no final da novela. Em síntese, nisto reside o interesse deste trabalho, que vai tratar de uma moça de dezenove anos e suas (des)venturas “numa cidade toda feita contra ela”. Oriunda do sertão de Alagoas, ela será vítima de uma cultura imposta. Nesta intenção, será importante perceber de que maneira o nordeste, numa perspectiva dialógica, contribui para o selvagem que se espraia em A hora da estrela e em que medida o texto, em sua dor pela nordestina, faz do corpo de Macabéa, por síncope, o supra-sumo de sua representação.
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Florbela Espanca: seus desejos, seus temores, seu passado, seu presente
Marly Catarina Soares (UEPG)

A dor assume diversas conotações na poesia de Florbela Espanca. Uma delas está intimamente ligada à temática da auto-representação. Não são raros os poemas em que a poetisa questiona o ser Eu, independente de todo e qualquer rótulo social e cultural que, porventura, tenha recebido. O ser enquanto sujeito, indivíduo, parece ser o centro de suas preocupações nos poemas que se inscrevem nessa temática. Para que o processo de busca pelo autoconhecimento se realize vale buscar caminhos variados. Para responder à pergunta “Quem sou eu?” que aparece em alguns de seus poemas, a poetisa busca diferentes caminhos. Na tentativa de cumprir com essa empreitada, Florbela passeia pela história, pelo mundo da imaginação e da fantasia, promove o encontro com o Outro, rasteja ao rés do chão, afunda no mundo de maldades e pecados, ascende ao espaço infinito e busca a divindade. Entretanto, percebe-se que o acesso a esses caminhos é dificultado por obstáculos insolúveis que frustram uma definição clara e objetiva do EU. Nesta comunicação, apresento a análise de poemas que tem como tema a composição do perfil do sujeito tendo como via de acesso a recuperação do passado.
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Do Jeito Delas: Vozes da Angústia na Poesia escrita por Mulheres
Márcia Cavendish Wanderley

Objetivo desta comunicação é a apresentação de algumas poetas entre as quais surpreendemos uma estranha cumplicidade, tanto na poesia quanto na vida. A coincidência de que nelas as relações dentre a vida e a morte estiveram muito mais no âmago de suas preocupações poéticas, do que as relações entre os gêneros. E também o fato de que tiveram vidas breves, angustiadas e interrompidas por vontade própria. Sylvia Plath (1932/1963) e Anne Sexton(1928/1974) ambas americanas , foram as representantes poéticas emblemáticas geracionais de tantas vozes que percorreram trilhas auto-destrutivas culminadas por desfecho trágico. Além destas, nos deteremos em duas poetas de geração posterior, Ana Cristina César e Alejandra Pizarnick , que representaram o Brasil e na Argentina nessa mesma sombria corrente simbólica da literatura escrita por mulheres. O fio negro que as enlaça, a lâmina tênue que as corta , também as define como portadoras de um tipo peculiar de angústia, não apenas de natureza metafísica ( como é próprio dos poetas) mas também de origem nas contingências sociais de gênero a que estiveram submetidas durante estes intervalos de tempo histórico.
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O confinamento doméstico de mulheres em Intramuros, de Astrid Cabral
Angélica Soares (UFRJ)

Propõe-se uma leitura de poemas de Astrid Cabral, através de uma perspectiva feminista de questionamento da ideologia de gênero, entendido este como organização social da relação entre os sexos. Breves reflexões sobre ideologia (Louis Althusser, Terry Eagleton, István Mészáros); sobre o sistema social de sexo-gênero e suas tecnologias de atuação (Teresa De Lauretis); sobre o patriarcalismo (Manuel Castells) e sobre a violência derivada da ordem patriarcal de gênero (Pierre Bourdieu e Heleieth Saffioti), em diálogo com referências crítico-literárias, permitirão abordar “armadilhas” e “demolição” do “império doméstico”, recriados astridianamente.
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Rompendo o silêncio do amor: subterfúgios discursivos em Hilst e Breyner Andresen
Ana Cláudia Félix Gualberto (UFSC)

A ausência/presença é uma dicotomia constante nos textos de autoria feminina. Para romper com a invisibilidade do corpo, da fala, da escrita das personagens, narradoras e autoras, muitas vezes, estas mulheres necessitam transgredir o lugar de alteridade que lhes foi destinado. Este trânsito, na maioria dos casos, é atravessado de dores, pois requer uma mudança subjetiva, ou seja, ocupar o lugar de sujeito de sua própria história. Neste sentido, estabelecer um diálogo da escrita do/eu entre a prosa da escritora portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen – através do conto O silêncio – e a poesia da autora brasileira Hilda Hilst – a partir de dois poemas extraídos do livro Do amor – é o objetivo desta comunicação.
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