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70 - Corpo, violência e poder na antiguidade e no medievo em perspectiva interdisciplinar

Coordenação:
Andréia C. L. Frazão da Silva (UFRJ), Mestre em História Antiga e medieval (UFRJ), Doutora em História Social (UFRJ), Professora do Departamento de História da UFRJ, co-coordenadora do Pem-UFRJ.

Rejane Barreto Jardim (UCS) - Mestre em História (PUC-RS), doutora em História (PUC-RS), professora da Universidade de Caxias do Sul.

Marcelo Pereira Lima (UFF) - Mestre em História Social (UFRJ), doutorando em História (UFF), pesquisador colaborador do Pem-UFRJ.

Dando continuidade ao trabalho iniciado no Fazendo Gênero 7, nosso propósito é, através do estudo do corpo, do poder e da violência nas sociedades antigas e medievais, aprofundar a reflexão teórico-metodológica e epistemológica sobre os Estudos de Gênero e a História das Mulheres e estimular a comunicação entre os que se dedicam ao tema, sejam pesquisadoras e pesquisadores em formação ou já experientes. Para que possamos fugir das abordagens meramente descritivas ou da repetição das conclusões já tradicionais, faz-se necessário adensar a discussão sobre as representações de gênero na Antigüidade e no Medievo e refletir sobre o processo de construção dos corpos e as diversas modalidades de expressão da violência, sempre atentos às relações de poder, tanto em nível micro quanto macro-histórico. Neste sentido, propomos não só um debate interdisciplinar, que permita a troca de experiências entre as pesquisadoras e os pesquisadores provenientes de diversas áreas do conhecimento, bem como de estudiosas e estudiosos de outros períodos históricos que desejem dialogar com a Antigüidade e o Medievo.  Acreditamos que o ST Corpo, Violência e Poder na Antigüidade e no Medievo em perspectiva interdisciplinar é estratégico para dar continuidade ao desenvolvimento dos estudos sobre a Antigüidade e o Medievo em nosso país, já que se propõe a suscitar temas de pesquisa ainda pouco explorados pelas e pelos especialistas brasileiros e proporcionar o enriquecimento das discussões teóricas, com o estabelecimento do diálogo entre pesquisadoras e pesquisadores de várias regiões, de diferentes campos do saber e em diversos níveis de formação. O ST também dará maior visibilidade aos Estudos de Gênero e às reflexões sobre a História das Mulheres ligados aos períodos antigo e medieval já produzidos ou em desenvolvimento em nosso país. A metodologia adotada será a apresentação de comunicações, agrupadas pela proximidade temática, e a promoção de debates.

Discriminação feminina no Edictum Rothari
Alexandre Ribas de Paulo (UFSC)

O Reino Longobardo desenvolveu-se na Península Itálica entre 568 e 774, e, no que concerne à cultura jurídica desse povo germânico, destacou-se o Edictum Rothari (de 643), elaborado por ordem do Rei Rotário. Tal compilação jurídica escrita em latim altomedieval continha alguns institutos jurídicos que faziam referência ao gênero feminino, e conforme se analisa suas disposições, pode-se perceber que o discurso jurídico longobardo servia predominantemente aos interesses do gênero masculino, sendo que as mulheres são mencionadas no Edito de maneira subsidiária aos interesses patrimoniais e pessoais de seus protetores masculinos. Neste Simpósio Temático serão apresentadas e comentadas algumas particularidades do Edictum Rothari, destacando-se alguns institutos que demonstram a discriminação de gênero contra as mulheres, como, por exemplo: o capítulo 166 diz que se um marido fosse acusado de matar a própria esposa, então ele devia [apenas] se desculpar do fato perante os sacramentos, pois seria absurdo que uma causa dessa natureza fosse resolvida com um duelo. Também o capítulo 180 dispunha que se uma menina [puella] fosse prometida em casamento e contraísse lepra, ou ficasse endemoninhada ou cega dos dois olhos [lebrosa aut demoniaca aut de ambos oculos excecata apparuerit], então seu prometido esposo deveria ficar com os bens dela, sem ser constrangido ao matrimônio contra a sua vontade, nem ser acusado injustamente por esse motivo, pois ele não a abandonaria por sua própria negligência, mas por uma doença resultante de um pecado causado exclusivamente pela menina.
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O papel da mulher na sociedade faraônica: a igualdade em discussão
Aline Fernandes de Sousa (UFF)

A emergência de um campo voltado para os estudos da problemática feminina, estimulada pelo movimento feminista do século XX, resultou em um contínuo processo de reestruturação do papel atribuído às mulheres, que, retiradas de uma posição marginal, se tornaram objetos centrais de pesquisas históricas. Com relação ao desenvolvimento de uma história das mulheres para o Egito antigo, mesmo com a existência de análises teórico-metodológicas extremamente radicais que enfatizam uma posição privilegiada deste segmento na sociedade, estudos mais recentes apontam para presença de nuances no tema. Sem dúvida, as mulheres egípcias gozavam de uma situação jurídica mais vantajosa, se comparada a de outras civilizações antigas. Porém, ao levarmos em consideração que a construção de figuras femininas em textos e imagens foi, sobretudo, encomendada e executada por homens e que as fontes que chegaram até os dias de hoje foram produzidas por uma minoria privilegiada, algumas questões surgem: tinha a mulher egípcia realmente direitos iguais aos dos homens? Caso esta possibilidade esteja correta, esta igualdade era exercida da mesma maneira por todas as mulheres? Este trabalho, através de fontes iconográficas e textuais pertinentes ao assunto, tem por objetivo pensar a mulher na sociedade egípcia faraônica, enfatizando o período conhecido como Reino Novo (séculos XVI – XI a.C.).
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A plenitude da graça divina: transferência das graças místicas e amizade espiritual na narrativa hagiográfica brabantina do século XIII
Ana Paula Lopes Pereira (UERJ / FFP)

O objeto de nossa pesquisa é Amor de Deus e o Amor do Próximo nas narrativas hagiográficas produzidas na diocese de Liége, na primeira metade do século XIII. As experiências do divino feitas pelas beatas e sua união mística com Cristo são consideradas excepcionais pelos seus contemporâneos e são objeto de análise no discurso hagiográfico, que tem como fim compreender um novo tipo de santidade feminina. Pensamos que essa nova forma de piedade mística é fruto de uma determinada realidade social, por ser uma santidade urbana, voluntária e radical, que se estabelece em um circuito espiritual solidário, onde as relações interpessoais são fundamentais para o reconhecimento e o exercício dessa santidade. Assim, nas biografias espirituais, a amizade espiritual vivida entre as beatas pode ser abordada em três níveis : o amor absoluto por Deus, graça que dá a capacidade de amar universalmente (o dom da Caridade divina) e preferencialmente em Cristo (a concepção da amizade espiritual na antropologia cisterciense). Essa modalidade constitutiva da santidade beguinal e cisterciense feminina permite a exploração narrativa da transferência da plenitude da graça divina recebida pelas beatas aos amigos e amigas com os quais são estabelecidos programas de reforma do homem interior e de recuperação da imagem e semelhança divinas. Nesse sentido, consideramos que o dom e a transferência das graças recebidas pelas beatas às suas companheiras são elementos fundamentais na dinâmica da amizade espiritual tal como é percebida e praticada nos círculos beguinais e cistercienses, dos quais emanam os relatos hagiográficos analisados.
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O Fuero Real e o monacato feminino no século XIII
Andréia Cristina Lopes Frazão da Silva (UFRJ)

Como destaca Joan Scott, o gênero compreende quatro elementos que atuam juntos, mas não estão articulados mecanicamente: os símbolos; os conceitos normativos; as identidades genéricas e as noções, instituições e organizações políticas. Partindo dessa premissa, desenvolvemos desde janeiro de 2007, com o apoio financeiro do CNPq, a pesquisa intitulada A Vida de Santa Oria e o monacato feminino em La Rioja no século XIII: uma análise a partir da categoria gênero. Neste sentido, estamos relacionamos a Vida de Santa Oria, a única obra redigida em castelhano no século XIII que apresenta a biografia de uma reclusa, com textos normativos e documentos notariais sobre o monasticismo feminino elaborados no mesmo período. Nosso objetivo central é examinar como os aspectos constitutivos do gênero destacados por Scott atuaram nas relações de poder estabelecidas com e pelas religiosas riojanas no século XIII. Em nossa comunicação vamos apresentar algumas conclusões parciais dessa pesquisa em andamento. Nossa análise irá centrar-se no Fuero Real,, texto de caráter jurídico redigido em 1254 por ordem do monarca Alfonso X e utilizado no Tribunal do Rei. O código reúne 550 leis divididas em 4 livros e 72 títulos. Nossa análise visa destacar e discutir as normas direcionadas à vida monástica, em especial, a feminina, presente nesse conjunto de leis.
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A instrumentalização da figura feminina nas relações de poder político-diplomáticas na Antigüidade Tardia
Bruno Miranda Zétola (UFPR)

O objetivo desta comunicação é debater um dos poucos espaços de atuação na vida pública reservado às mulheres no período tardo-antigo: os matrimônios nobiliárquicos com fins políticos. Trata-se de uma prática que já se iniciara no período baixo imperial romano, associada à virtude romana da concordia, cujo objetivo era consolidar uma aliança e reforçar os recursos, materiais e simbólicos, de determinado grupo político. Evidentemente, as mulheres constituíam-se muito mais em objetos do que em sujeitos desses processos, acentuando relações de poder e demarcando os espaços de atuação no mundo da política. Pretendo demonstrar como a utilização dessa prática política tornou-se sistemática no período tardo-antigo, sendo utilizada pelos soberanos das monarquias tardo-antigas em diversas situações diferentes. Evidenciarei, em especial, a função da mulher nas relações diplomáticas do período, destacando a utilização política que se fazia de sua figura no âmbito dos objetivos de política externa do período.
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Os Dominicanos: relações entre masculinidade, feminilidade e a institucionalização da Ordem dos Pregadores no século XIII
Carolina Coelho Fortes (UFF)

A Ordem dos Irmãos Pregadores, idealizada por Domingos de Gusmão ainda nas primeiras décadas do século XIII, muito prontamente foi acolhida pela Santa Sé, em 1216. No entanto, passariam-se algumas décadas até que a ordem encontrasse os critérios exatos para sua institucionalização. Esse processo certamente passou pela definição de que pessoas poderiam se vincular à ordem, e de que maneira, estando em seu seio, deveriam agir. Em grande medida essa definição se vincula aos atributos de gênero, que recaíram tanto sobre os membros em particular como sobre a Ordem como um todo.
Para defender essa hipótese, nos basearemos em dois documentos. O primeiro deles são as chamadas Constituições, escritas em 1221 e reelaboradas em 1228, que agiram como o fio condutor da organização da Ordem, sendo uma espécie de regra elaborada pelos primeiros capítulos gerais e, portanto, de caráter coletivo. O segundo documento é um tratado sobre a pregação, o De eruditione predicatorum, escrito pelo quinto mestre geral dos pregadores, provavelmente na década de 60 daquele século. A partir deste corpus, buscaremos estabelecer que critérios fundamentados nas percepções das diferenças entre os sexos, nos níveis “prático” e simbólico, foram utilizados para instaurar o pertencimento àquele comunidade de religiosos, bem como a sua própria auto-imagem.
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A construção do ideal de masculinidade na sociedade ibero-castelhana do século XIII
Charles Roberto Ross Lopes (Universidade de Caxias do Sul)

A noção que determinada configuração social produziu em relação aos sexos, vincula-se a sua própria compreensão do que é ser homem e mulher. Assim, a construção das masculinidades deve ser compreendida como um processo cultural, condicionado por rituais específicos de cada cultura. Nesse viés, a proposta dessa pesquisa consiste em analisar o ideal de masculinidade elaborado pelo sistema simbólico da sociedade ibero-castelhana no século XIII. Essa investigação também irá examinar os esquemas, o habitus, o ideal viril e heterossexual que constroem e fortalecem a identidade e a dominação masculina no medievo. Para tanto, serão analisados, à luz da categoria gênero, alguns dos mais de 420 poemas que compõem as Cantigas de Santa Maria. Partindo da premissa que as representações das masculinidades refletem o sistema simbólico do contexto histórico em que foram elaboradas – nesse caso da sociedade castelhana do século XIII –, serão empregados alguns métodos e modelos explicativos da antropologia, a fim de compreender o universo simbólico que estrutura e legitima essas representações. Além disso, a compreensão da conduta masculina na Idade Média será respaldada teoricamente pelos estudos de gênero, especialmente pelas análises referentes ao gênero masculino.
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Ilusão e encanto nas Mil e uma noites
Cristiane Raposo Souza; Regina Coelli Gomes Nascimento (Universidade Federal de Campina Grande)

Nesta pesquisa analisamos a construção da imagem da mulher oriental como sedutora encantadora e fascinante através das histórias narradas por Sherazade e denominadas de As Mil e Uma Noites. Uma obra clássica da literatura árabe, consistindo numa coleção de contos orientais estruturados provavelmente entre os séculos XIII e XVI. São histórias em cadeia, em que cada conto termina com uma narrativa que está ligada a seguinte. Essa estruturação força o ouvinte curioso a retornar para continuar a história, interrompida com suspense no ar. Foi o orientalista francês Antoine Galland o responsável por tornar o livro conhecido no Ocidente. Assim, buscamos problematizar como Sherazade em suas narrativas foi elaborando uma narrativa entrelaçada por um saber (contar) histórias que surpreendem o seu próprio tempo. Entre outros contos, se destacam a história de Aladim e a de Ali babá e os Quarenta Ladrões. Do ponto de vista teórico e metodológico, analisaremos os atributos que tornaram possível tal compreensão referente à mulher oriental, destacando a influência do discurso como instrumento de domínio sendo este utilizado por Sherazade, e inclusive livrando-a da morte, tornando-se base para compreendermos as representações e as identidades femininas no Oriente.
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Poder e divisão do trabalho: a participação das mulheres no sucesso das famílias dirigentes
Cybele Crossetti de Almeida (UFRGS)

Como em muitas outras cidades medievais, também a cidade alemã de Colônia não permitia a participação política direta das mulheres. Por isso alguns autores, como Le Goff, afirmam que a situação das citadinas – no que diz respeito à independência, moblidade e prestígio – era significativamente inferior à de suas contemporâneas do meio nobiliárquico ou eclesiástico. Pois embora a importância econômica das mulheres como artesãs e comericantes nas cidades medievais esteja hoje em dia bem estabelecida, é inegável que elas não tinham direitos políticos plenos, já que não podiam ser eleitas para os cargos políticos. No entanto as mulheres das famílias dirigentes contribuiam para a construção destas carreiras políticas, na medida em que participavam, com o seu trabalho, de um esquema de divisão de tarefas que era, muitas vezes, um fator decisivo para a Abkömmlichkeit – e assim para o sucesso – de seus esposos. Assim, embora sem direito à participação política direta, as mulheres participavam indiretamente da vida política da sua cidade.
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Poder e violência em Hipólito de Eurípides
Fernando Crespim Zorrer da Silva

Eurípides tratou de distintos problemas do universo feminino, conseguindo, inclusive, inovar em relação a essa imagem apresentada na tradição clássica. Temas como o poder e a violência são discutidos nas tragédias, principalmente, no drama Hipólito, de 428 a. C, quando analisa os limites entre esses dois assuntos, ao tratar da personagem Fedra que contribui para a morte do enteado Hipólito. Indaga-se, neste texto, se as mulheres são desprovidas da capacidade de empregar a violência e se não possuem qualquer possibilidade de expressar o poder, comportando-se, deste modo, como vítimas ou como sujeitos de suas próprias ações.
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Narrativas civilizatórias e a formação da mulher no Ocidente
Gláucia Costa de Castro Pimentel (UFSC)

Civilizações foram construídas sobre narrativas que, míticas ou históricas, serviram para manter e embalar justificativas de relações de poder.
Em um “Ocidente” hipotético, duas grandes narrativas fortaleceram o desejo de se prevalecer sobre a fêmea da espécie: Uma narrativa oriental fundamentalista religiosa, e uma concepção de Estado, dito democrático. Por caminhos diversos, ao longo dos séculos, as duas justificativas se ampararam para manter as mulheres alijadas do processo político decisório.
O estudo analisa, ainda que rapidamente, algumas idéias surgidas no judaísmo que, a despeito dos interditos teóricos do cristianismo em relação à misogenia, alegaram desejos divinos e, burlando as leis do chamado messias, se perpetuaram na nova igreja, responsável por redesenhar o continente europeu, assim que se fundiu com a estrutura bélica greco-romana.
Do lado grego, a justificativa foi oposta: surge do medo a uma religiosidade em que a instabilidade de seus rituais tornava a mulher indomável, e que, por uma pretensa racionalidade que viria fundar um estado autodenominado democrático, que na verdade se provou aristocrático, misógino, escravocrata e xenófobo, reduziu a mulher a reprodutora da espécie e da cultura. O estudo busca confirmar o recuo político das mulheres ao longo do século Va.C, através da análise de uma Tragédia que receberá tratamento diferenciado à morte feminina, pelos três grandes dramaturgos do período.
O que se vê é que, seja por suspeição de caráter, ou por suspeição emocional, as mulheres permaneceram na dependência direta dos homens por, no mínimo, vinte séculos.
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A mulher na Suma Teológica de Tomás de Aquino sob a ótica dos estudos de gênero
Igor Salomão Teixeira (UFRGS)

Esta comunicação apresenta conclusões das leituras realizadas sobre as mulheres na Suma Teológica de Tomás de Aquino (1224?-1274). Além da criação, da Virgem e da prostituição, este teólogo escreveu sobre a preservação da espécie quanto à geração. Perguntamos: há uma construção genderificada nesta transmissão? O que caberia à mulher e ao homem na transmissão de suas características à prole? Percebemos que o momento de redação da obra revela mudanças no entendimento dos pecados em geral e dos pecados das mulheres em específico. Um dos indícios considerados é o discurso de Tomás de Aquino sobre a Prostituição. Os estudos de gênero contribuem para esta análise na medida em que é pela atribuição de valores e características que as heranças do masculino e do feminino foram pensadas pelo autor da Suma Teológica.
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Os modelos femininos no Amadis de Gaula
Katiuscia Quirino Barbosa (UFF)

A partir do século XII a corte no Ocidente Medieval não se caracteriza somente pelo seu aspecto político, mas também por constituir um espaço social de ação aristocrática de onde irradiam modelos paradigmáticos de comportamento. À cavalaria agrega-se a noção de cortesia e observa-se o surgimento de uma literatura profana que exalta os ideais cortesãos. Destaca-se aqui o ciclo literário conhecido como matéria da Bretanha ou ciclo arturiano que chega a Península Ibérica ainda no século XII e será principal referência literária para a construção do Amadis de Gaula. Este se trata de uma novela de ficção cavaleiresca produzida na Península Ibérica cujos primeiros manuscritos datam do final do século XIV.
Considerando a função moralizante e pedagógica que a corte exerceu em todo o Ocidente medieval, a literatura cortesã desempenha um papel fundamental na consolidação de paradigmas de masculino (cavaleiro) e feminino (damas/donzelas) a serem seguidos pela aristocracia. Dessa forma o foco principal deste trabalho é a caracterização dos principais modelos femininos expressos no Amadis de Gaula, tendo em vista o contexto português do século XV e a relação desses modelos com o ideal feminino durante a dinastia de Avis.Quanto aos aspectos metodológicos utilizar-se-á metodos de análise do discurso.
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Vozes femininas da Idade Média: Autorepresentação, corpo e relações de gênero
Luciana Eleonora de Freitas Calado Deplagne (UFPB)

Apresentaremos nessa comunicação os primeiros resultados da pesquisa pós-doutoral, iniciada em 2007 na Universidade Federal da Paraíba, intitulada “Representações de Gênero na Literatura Medieval de autoria feminina: estudos e tradução”. O principal interesse da pesquisa é resgatar a memória feminina dessas primeiras escritoras ocidentais, identificando alguns aspectos recorrentes em seus escritos, tais como: autorepresentação, corpo feminino, relações de gênero. Utilizamos como categoria de análises as discussões teóricas do pensamento feminista contemporâneo, acreditando ser a via possível de compreensão das relações de poder e de gênero que estão inseridas nos escritos medievais, em particular, naqueles de autoria feminina.
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Questões de parentesco, família e gênero na realeza castelhano-leonesa, séc. XIII
Marcelo Pereira Lima (uff)

Com o surgimento da antropologia feminista nas décadas de 70 e 80, parte das reflexões sobre as relações de parentesco passou a adotar a perspectiva de gênero em suas análises. A “desnaturalização” das relações de parentesco e suas articulações com as diretrizes de gênero foram uma das marcas assumidas por estudos pioneiros como os de David Schineider, Gayle Rubin, Rayna Reiter, Merilyn Strathern, Françoise Héritier e Adriana Piscitelli. No entanto, os debates e críticas acumuladas por esse campo ainda não alcançaram efetivamente o medievalismo dedicado à península Ibérica, a despeito dos tradicionais vínculos entre histórica medieval e antropologia. Quando levamos em conta os estudos dedicados à realeza medieval castelhano-leonesa do século XIII a lacuna ainda é mais evidente. Assim, nosso objetivo principal é examinar criticamente as conexões entre gênero, parentesco e poder monárquico presentes nas Siete Partidas, em particular as leis da Segunda Partida, elaboradas pelo governo de Afonso X (1252-1284). Trata-se de um texto normativo e didático-propagandístico, que previa instruções, prevenções e determinações penais e imperativas, assim como máximas éticas e morais usadas especialmente para esclarecer, exortar e orientar uma diversidade de sujeitos sociais. Nossa análise, portanto, visa discutir se o gênero é um fator relevante para a compreensão das normas erigidas no período afonsino sobre as relações de parentesco associadas à família real, e aos seus dependentes, e à política monárquica.
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A construção social do corpo das atenienses enquanto veículo de comunicação e as relações de gênero na pólis
Maria Angélica Rodrigues de Souza (PPGHC/IFCS/UFRJ)

Trataremos, nesta comunicação, da construção social do corpo das atenienses no Período Clássico enquanto veículo de comunicação, das roupas e dos adereços e das relações de gênero que fizeram parte da vida dessas mulheres. Inicialmente, discutiremos diferentes visões teóricas sobre gênero, o corpo e a roupa, juntamente com tais reflexões aprofundaremos nosso assunto específico. Concebemos que através da linguagem das esposas dos cidadãos atenienses podemos verificar sua participação ativa na sociedade e que esta atuação diluía o modelo mélissa. Acreditamos que essa teia de informações se apresentava na dinâmica políade direcionando os rumos da Koinonía.
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Por que Chico Buarque e Paulo Pontes mataram Medéia?
Maria Cecília de Miranda Nogueira Coelho (PUCSP-COGEAE/USP)

Meu objetivo nesta comunicação é o de pensar as categorias de corpo, violência e poder na antigüidade por meio da personagem Medéia de Eurípides, comparando-a à personagem Joana, na releitura que foi feita desta tragédia por Chico Buarque e Paulo Pontes, na peça Gota d´água (1975).
Algumas alterações feitas por estes autores ajudam-nos, por comparação, a compreender diferenças significativas nas culturas grega antiga e na cultura brasileira contemporânea em relação ao papel da mulher. Destaca-se em Gota d´água o enfraquecimento do aspecto político da personagem grega, na medida em que Joana, além de ter abandonado o primeiro marido por um homem mais novo (o que reforça seu lado passional e facilita no espectador a aceitação de alguma punicação a ela) decide se matar com os filhos, o que retira dela a estatura trágica que encontramos no drama grego. Embora tenha havido helenistas que tenham defendido a peça de Eurípides como tragédia doméstica (Kitto) ou realçado (anacronicamente) características que aproximam Medéia ora da figura de feiticeira, ora da de feminista, meu interesse é o e mostrar como Eurípides construiu uma personagem na qual racionalidade e heroísmo são realçados e o diálogo com o teatro contemporâneo vem, justamente corroborar esta interpretação.
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Domínio do corpo, relações de poder, relações de gênero e atos de violência dentro da Família Favarone de Offreduccio
Maria Valdiza Rogério da Silva (PEM/UFRJ)

No Ocidente, entre os séculos XII e XIII, o casamento era uma instituição que visava à estabilidade da sociedade, servindo, sobretudo entre os nobres, para a geração de herdeiros e a união de riquezas entre as famílias. Neste contexto, Clara de Assis e sua irmã Catarina romperam com as normas impostas ao feminino pela sociedade da época, recusando-se a serem mulheres casadas e devotadas aos filhos e aos maridos.
Entretanto, ao repudiarem o casamento terreno e optarem por uma vida religiosa, essas duas mulheres despertaram a ira de seus familiares, levando-os a praticarem atos de violência física na tentativa de resgatá-las e conduzi-las aos seus papéis sociais: o de esposa e o de mãe.
Ao frustrarem os planos de sua família Clara e Catarina desorganizaram as estratégias que se articulavam em torno delas, pois os ritos de casamento foram instituídos para assegurar dentro da ordem social medieval a repartição das mulheres pelos homens; para oficializar a procriação e refrear a sexualidade feminina. O casamento era um pacto entre as famílias, a mulher era um ser passivo que deveria ser submissa e obediente ao marido.
Dentro dessas relações de poder podemos perceber que o discurso masculino da suposta fragilidade feminina legitimava o controle e a tutela das mulheres. Dentro dessa tutela, podemos destacar, ainda, o sistema de parentesco patriarcal, que se constituiu como uma forma primária de controle sobre o corpo da mulher. Controle que se deu através de um contrato sexual em que a mulher perderia o domínio sobre si mesma, perderia o comando das funções que seu corpo tinha capacidade de desempenhar na sociedade.
Caberia somente ao pai estabelecer alianças com outras linhagens, propondo o casamento de sua(s) filha(s). O matrimônio seria a concretização do poder do homem sobre a mulher, evidenciando que ela não tinha domínio sobre o seu próprio corpo. Ou seja, relações de gêneros foram construídas.
Esta comunicação objetiva analisar os atos de violência que permearam, em um determinado momento, a vida de Clara e de Catarina pela perspectiva dos estudos de gênero.
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Logos gunaikos: sobre a injunção ao silêncio das mulheres nos textos da Atenas Clássica
Marta Mega de Andrade (UFRJ)

A comunicação visa discutir um aspecto dos ideais normativos sobre o comportamento das mulheres na Atenas Clássica, que podemos caracterizar como “injunção ao silêncio”. O modelo do silêncio das mulheres atenienses integra um conjunto de pares de valores opostos que constróem a “arquitetura” dos domínios masculino e feminino de relacionamento com a sociedade políade. Assim, o silêncio feminino está para a palavra masculina, assim como o frio está para o quente, o úmido para o seco, o interior para o exterior. Mas a questão aqui não é discutir o modelo em si, bastante estudado ao longo de algumas décadas de história social das mulheres aplicada ao mundo antigo. Trata-se de trazer à tona e debater as possibilidades de compreensão da tematização do silêncio e da fala: em que contextos se reitera a positividade do silêncio? Em que contextos os atenienses do período clássico “lembravam” da palavra feminina? Portanto, a questão proposta para um debate é, primeiro, a da contextualização dos discursos e, segundo, a sua tomada numa perspectiva prática, como estratégias ou atos enunciativos mobilizados nas interações sociais, nas negociações de gênero, nos conflitos políticos.
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Vozes e silêncio: o jogo de representações discursivas sobre o estupro no Eunuchus de Terêncio
Nahim Santos Carvalho Silva (USP)

Em nosso estudo, enfocamos os pontos de vista de algumas personagens da peça Eunuchus a respeito do estupro que constitui a ação central da peça. O Eunuchus, comédia latina do tipo paliata, ou seja, ambientada no mundo grego, foi escrita pelo comediógrafo latino P. Terêncio Afer, provavelmente no ano 161 a.C. O estupro é um ação extra-cênica, sendo apenas narrado por seu agente (o jovem Quérea). Analisamos a o ponto de vista de duas personagens – Quérea, o autor do crime, e Taís, a cortesã sob cujos cuidados estava Pânfila, a vítima – sobre o crime, bem como o posicionamento do autor, que tende a refletir-se na fala de Taís. Por outro lado, percebemos a força do silêncio da vítima, personagem muda, a quem em nenhum momento da peça é dada a palavra e a sua quase total ausência no palco, aparecendo uma única vez no palco. Remetemos estas vozes e silêncio a um posicionamento moral e estético do autor/enunciador inferidos pelo próprio enunciado dramático.
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Antígona e Medéia revisitadas: as mulheres e o exercício da razão no mundo do direito
Paulo Henriques da Fonseca (UFCG)

O direito e a administração da justiça proclamam a igualdade formal perante a lei, modo especial, homem e mulher. Porém o universo jurídico e judicial reproduz a conduta duelística, do embate interpessoal, um padrão de conduta arqueologicamente ligado ao masculino. O direito vigente no Ocidente baseado no duelo de razões, no exercício público delas, traz embutido um projeto jurídico sexista cujo assento é no patrimônio, do processo formal e autonomia na esfera pública em detrimento dos valores da esfera íntima, da intuição, da conciliação e justiça, por exemplo. Recorrendo às figuras-tipo de Antígona e Medéia, das tragédias de Sófocles e Eurípides, o exercício da razão por elas, no ambiente grego de estrita separação das esferas pública (Ágora) e privada (Oikia) foi desvantajoso para ambas: não conseguiram a realização da justiça que buscavam no mundo direito formal e... masculino. Analisando possibilidades e limites que o direito atual põe ou opõe ao exercício da razão pelas mulheres na esfera judicial, com breve percurso histórico, se buscará um ponto de partida seguro para pesquisa empírica futura. Nesta se investigará se os argumentos e as falas das mulheres repercutem na decisão dos julgadores, ou se estes, mesmo atendendo ao que as mulheres buscam, o fazem sem considerar suas razões e falas no processo. Constata-se que o feminino é ainda lugar problemático ao mundo do direito que, mesmo realizando as pretensões ajuizadas pelas mulheres, pode não dignificar a condição da mulher fora do padrão de argumento marcadamente masculino, tornando ambígua a administração do direito.
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O amor parental numa sociedade da guerra e da agressão na Península Ibérica do século XIII
Rejane Barreto Jardim (Universidade de Caxias do Sul)

A presente proposta de trabalho quer discutir como no contexto de uma sociedade, em geral, marcada por uma masculinidade hegemônica que nega traços de afeto e de cordialidade se davam as relações pai e filhos. Nessa perspectiva as Cantigas de Santa Maria de Afonso X apresenta alguns vestígios acerca dessa temática como, por exemplo, nas Cantigas de número 43 e 171, nas quais além da mulher, encontramos também o homem compartilhando do desejo em constituir família. Ambos os textos nos falam de um casal que amorosos e dedicados buscavam um milagre, pois que não conseguiam ter filhos. Chama a atenção do observador essa dedicação dos pais, que participam das preocupações em relação à constituição de laços de parentesco. O trovador da Virgem apresenta, ainda, cinco outras cantigas nas quais mãe e pai compartilham responsabilidades no trato com os filhos.
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Santa Teresa D'Avila: Mística e espaços de poder
Wiliam Alves Biserra (UnB)

Quais as estratégias utilizadas pelas mulheres para se inserir em instituições notadamente patriarcais? Santa Teresa D'Ávila (1515-1582) buscou meios próprios para afirmar sua identidade dentro da Igreja Romana, em plena Espanha inquisitorial. Como isso foi possível? Esta comunicação buscará entender algumas das táticas utilizadas por Teresa para driblar, e subverter, o patriarcalismo, tanto da Santa Sé, quanto da Espanha de seu tempo. A clausura como um lugar de resistência e de reflexão e a busca de uma nova espiritualidade, cuja sensualidade e erotismo intrigam místicos e pesquisadores. Amor carnal e amor espiritual quedam-se interligados e se tornam constituintes de uma identidade mística inovadora. O caminho aberto por Teresa muda a história da mística ocidental e transforma o carmelo em um lugar propício para que nele procurem abrigo outras mulheres questionadoras, como Sóror Juana de La Cruz e Edith Stein.
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