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72 - Gênero e cinema

Coordenação:
Sandra Fischer, doutora, Programa de Mestrado em Comunicação e Linguagens da, Universidade Tuiuti do Paraná. 

Marcos Aurélio da Silva, mestre e doutorando do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal de Santa Catarina.

Joana De Conti Dorea, mestranda do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal de Santa Catarina.

Esse simpósio pretende reunir pesquisadores e pesquisadoras que estudem as questões de gênero a partir de um olhar sobre o cinema, bem como aqueles que estudam a linguagem e a produção cinematográfica a partir do campo das relações de gênero. Quais os lugares dos gêneros nos discursos cinematográficos? Como as sexualidades são apropriadas e negociadas nas produções cinematográficas? Se o cinema é um espaço de construção, crítica e reprodução, como a mulher ali se posiciona, como ela é posicionada? Como são projetadas as sexualidades não hegemônicas em produções comerciais e independentes? Os estudos de cinema e a crítica feminista têm se colocado, desde os anos 70, diversas perguntas sobre o lugar da narrativa fílmica na constituição dos olhares sobre os gêneros e, mais recentemente, o discurso fílmico tem sido apropriado como forma de contestação e problematização dos discursos que buscam normatizar e domesticar as sexualidades. Este simpósio reunirá reflexões que tenham como eixo norteador as linguagens cinematográficas comerciais, independentes, alternativas, ficcionais e/ou documentais, como produtoras de significados que não apenas refletem as relações de gênero e sexualidade, mas que também constituem essas relações em processos contemporâneos de subjetivação. Se o cinema porta um discurso sobre as socialidades humanas, performando críticas, questionamentos, dúvidas e afirmando verdades, esse simpósio pretende reunir trabalhos que permitem entender o cinema como um espaço habitável por esses sujeitos que se constituem e são constituídos na linguagem cinematográfica. O cinema ao longo de sua história se estabeleceu para além da técnica e quebrou os limites da arte, do recurso instrumental audiovisual, da ilusória neutralidade, o que ganha contornos especiais com os estudos de gênero e da crítica feminista, na medida em que trazem novos recortes questionadores da linguagem cinematográfica, em particular, e das relações humanas, em geral.

Masculinidades, gênero e poder na produção cinematográfica de Tomaz Gutierrez Alea
Adilson José Gonçalves (UNICAMP)

Thomaz Gutierrez Alea produziu uma obra vasta, cinematográfica, teórica e critica, que desde a sua mocidade até as últimas obras acompanhou em Cuba a trajetória histórica das lutas sociais do continente, das questões existenciais apontadas pela filosofia, das problemáticas da subjetividade identificadas na produção cultural e nesta, a temática da sexualidade e da expressão dos corpos em mutação, indicando inúmeras perspectivas de representações históricas e simbólicas das masculinidades. É recente nos estudos historiográficos e na critica da cinematografia latino-americana a avaliação e a busca do sentido das problemáticas das sexualidades, das questões de gênero, das micro-relações de poder e das construções das subjetividades. Objetiva-se com esta apresentação identificar as facetas das masculinidades nos corpos dos personagens de suas obras mais expressivas, e que na sua maneira peculiar de ver o cinema se configuram como: produtivas e espetaculares.
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Deusas da Fertilidade: percepções e sentidos ao redor da imagem da maternidade através do cinema
André Luiz Portanova Laborde, Paula Regina Costa Ribeiro (FURG)

A visualização da Maternidade através do processo histórico é o alvo do nosso estudo, uma vez que, abarca a imagem do feminino/materno através do cinema, como forma de perceber a representação de mulher/mãe em seus aspectos ficcionais e utilizando da obra em si com fonte de análise. Dessa maneira, amparados, no campo teórico, pelos estudos culturais, conseguimos junto ao universo das relações de poder e de identidade, reconhecer nas imagens da maternidade propostas pelo cinema questionar o papel da mulher, na sua sociedade e no seu tempo histórico. As obras que foram analisadas foram “Volver” de Pedro Almodóvar (2006), “Alexandre” de Oliver Stone (2004), “Anna Karenina” de Bernard Rose (1997), “Esquecidos” Joseph Ruben (2004) e “Memórias de uma Gueixa” de Rob Marshal (2005); nossa investigação não se ateve apenas no plano do reconhecimento dos estereótipos, mas sim, buscamos vislumbrar as identidades da maternidade através dos sentidos, dos elementos, ou seja, metáforas que expressassem uma “mãe” em suas múltiplas faces, sensações e épocas. Nesse sentido, nosso objetivo é ter a película como fonte, tendo em vista que a imagem é que dá suporte para a construção do imaginário sociocultural impingindo a influência/padronização/corpos para a sociedade em geral. Além disso, também foi fundamental estudar, a produção da obras, a escolha das atrizes, enfim, entender não apenas a personagem, mas o contexto ficcional, temporal e de realização que circundam essa mulher. A relação mãe e filho(a) nos interessou em um primeiro momento, as demais representações que emergiram também foram importantes para o estudo.
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Interseccionalidade de diferenças: Feminismo entre fronteiras e espaços de poder
Cleuza Maria Soares (UFSC)

Nos anos 70, a presença de mulheres por trás das câmeras quase não existia no Brasil. Ana Carolina surge como uma cineasta vigorosa e radicalmente autoral com uma trilogia que colocava, de forma inédita no cinema, várias questões femininas, com humor cáustico e extremamente pessoal. Seus filmes: Mar de rosas (1977), Das tripas coração (1987) e Sonho de Valsa (1988) formam uma trilogia onde ela aborda os anseios e frustrações das mulheres para discutir o poder. Lançou ainda, Amélia (2000) ficção sobre a atriz francesa Sara Bernhardt quando esta esteve no Brasil em 1905 e Gregório de Matos (2003). No filme a atriz, em crise profissional e pessoal, é convencida por sua camareira brasileira, Amélia, a apresentar-se no Rio de Janeiro, porém, a partir do desembarque a atriz passa a conviver com as irmãs de sua auxiliar que irão ao Rio costurar para ela. O diálogo entre elas torna-se impossível já que Sara Bernhardt é francesa e não fala português, e as irmãs vêm de uma pequena localidade rural do interior de Brasil. Na relação entre elas surgem inúmeras dificuldades de comunicação. Este trabalho enfoca o filme Amélia, buscando perceber como são postas em cena relações cotidianas e experiências subjetivas das personagens femininas. Juntamente à análise do poder em suas múltiplas nuances, serão analisados temas como pós-colonialismo, identidade, eurocentrismo, transnacionalismo, hibridismo, dentre outros.
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Figuras femininas da desordem: notas sobre Rage (1975), The Brood (1979) e Dead Ringers (1986), de David Cronenberg
Debora Breder

O cinema constitui um discurso não apenas imagético e sonoro, mas também ideológico e simbólico que refrata, em suas imagens animadas, e projeta, nos seus interstícios, uma cosmologia. Constituindo produtos ou artefatos de uma determinada cultura e época, os filmes representam também e necessariamente uma determinada visão de mundo. Considerando tal fato, este trabalho propõe uma reflexão acerca das representações sobre o corpo e a diferença simbolicamente construída entre masculino/feminino, nas sociedades ocidentais modernas, a partir da análise do discurso cinematográfico. Tomando como ponto de partida três longas-metragens de David Cronenberg – cineasta canadense que, de seu próprio ponto de vista e segundo as avaliações da crítica especializada, teria conferido ao corpo um lugar central em sua obra – considera-se o estatuto contemporâneo do corpo e da diferença sexual, e o modo como a construção hierárquica desta diferença configura socialmente as relações de gênero. Em última instância, trata-se de analisar, nessas tramas que colocam em cena um corpo feminino mutante (Rage /1975), hiper-fecundo (The Brood/1979) e estéril (Dead Ringers/1986), os discursos simbólicos acerca do corpo feminino – um corpo concebido simbolicamente como aberto; caracterizado por uma hipersensibilidade dos órgãos e sentidos; mais propenso aos estados de dissociação com a alma, espírito ou razão; aos estados de confusão entre a vida e a morte; às doenças mentais e às forças ocultas, do que o corpo masculino – um corpo concebido como fechado, compacto.
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Lars von Trier e a representação da feminilidade em contraposição à masculinidade
Fábio Crispim de Oliveira (Universidade de Brasília)
A escolha do diretor dinamarquês, Lars von Trier, pela representação de personagens principais femininas acaba por demonstrar como os papéis socias se constroem em meio a uma sociedade permeada por discursos historicamente naturalizados, estereotipados, especialmente no tocante ao gênero.
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Mídia e Identidade: Sobre Construções Imagéticas do Feminino.
Fernanda Ferrari Pizzato (UFPE)

A pesquisa se inscreve no campo científico que busca compreender a maneira como a mídia de filmes (vídeos/DVDs) vem retratando as identidades femininas. Atualmente, essa mídia vem assumindo uma importância cada vez maior, não somente pelo mercado a que está atrelada, mas também por proporcionar e produzir valores éticos e morais. Seguindo essa idéia, faz-se necessária a compreensão do segmento feminino a partir desse meio formador de subjetivação e opinião visto que, deste são decorrentes interpretações e modos de agir específicos e partilhados dentro de nossa sociedade. Nessa linha, a investigação tem por base a perspectiva teórica que estuda o gênero como categoria analítica mutável, a qual nos oferece a possibilidade de desconstrução de estereótipos, bem como de espaços. Num plano mais amplo, busca-se pela interlocução entre as imagens cinematográficas com a realidade humana.
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Questões de gênero e identidade no cinema francês contemporâneo: o mundo cor de rosa de Ludovic
Flávio Pereira Camargo (IL/TEL/UNB), Adair Marques Filho (FAV/UFG)

Ma vie en rose trata-se de um filme que se insere na produção independente e, sobretudo, ensina o convívio com as diferenças. O filme, produzido em 1997, é dirigido por Alan Berliner e seu elenco principal é constituído pelos atores Michele Laroque (Hanna Fabre), Georges Du Fresne (Ludovic Fabre) e Jean-Philippe Ecoffey (Pierre Fabre). Ma vie en rose aborda, principalmente, a problemática da identidade de gênero, através da personagem principal da trama, o garoto Ludovic, membro de uma família de classe média do interior da França. O filme consegue refletir as angústias, as discriminações, os medos, as frustrações e as dúvidas comuns a tantos outros garotos em contextos diversos. Trata-se de um drama comovente sobre um garoto que pensa que é uma garota - e age como tal. O que lhe parece absolutamente normal é completamente bizarro para as pessoas que o cercam, entre as quais se inclui a família, que não sabe exatamente como proceder diante do comportamento estranho do filho e da reação indignada dos vizinhos. Aos poucos, no entanto, a vizinhança, que lança olhares e palavras recriminadoras para o menino de comportamento incomum, parece aprender a conviver com seu jeito “diferente”. Nosso objetivo, portanto, é evidenciar e examinar, no discurso da linguagem cinematográfica, particularmente, do cinema francês contemporâneo, as relações de gênero e, sobretudo, abordar questões diversas relacionadas à sociabilidade de Ludovic, i.e., às trajetórias e aos roteiros sociais do garoto em um contexto considerado tradicional.
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A 'mulher-sedutora' constituída pela linguagem cinematográfica.
Graciela Inés Presas Areu, Bruno Borges Kieling (Universidade Federal de Santa Maria)

O artigo apresenta alguns resultados da pesquisa realizada pelo co-autor durante os anos da graduação, e foi a base da sua monografia de conclusão do curso: Comunicação Social - Publicidade e Propaganda na UFSM no mês de janeiro de 2008. Objetiva-se compreender como ocorre a construção cinematográfica de uma imagem por si só paradigmática, no caso: a mulher como símbolo da sedução. Do ponto de vista metodológico o trabalho foi realizado a partir de uma pesquisa bibliográfica nas áreas de artes, cinema, comunicação, psicologia e antropologia com ao qual se construiu o contexto discursivo e as categorias de análise utilizadas. Também foi realizado um levantamento dos filmes nos quais as mulheres tiveram um papel protagônico, recortando em particular a produção cinematográfica de Hollywood desde o inicio do século vinte até os dias atuais. Nos filmes escolhidos, como paradigmáticos da construção discursiva buscada - a partir das categorias de analise estabelecidas desde a psicologia - para este trabalho, fora realizada uma análise empírica, discursiva e semiológica das formas como o cinema representa a “Mulher Sedutora”. Foi possível concluir que o cinema foi determinante na construção de um tipo de mulher que assinalou as mudanças, na maneira como a subjetividade das mulheres se constituíra e deixa observar como as mesmas foram constituídas a partir da linguagem cinematográfica.
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História e cinema: reprodução simbólica da masculinidade hegemônica e subversões do desejo.
Hilda Pívaro Stadniky (UEM)

Nossa proposta se insere no campo dos estudos de gênero que tratam o cinema como fonte de reflexão acerca das representações da masculinidade e contempla uma discussão sobre heterossexualidade compulsória, naturalização do gênero, possibilidade de subversão da identidade e a relação entre prática e identidade sexual, através de O Segredo de Broke Back Mountain. Discussão obrigatória para a compreensão da atualidade pós-moderna de flexibilização, individualização, criação e recriação de identidades masculinas e femininas. A questão das masculinidades emerge com grande importância para a compreensão de fenômenos culturais e políticos. O desenvolvimento de pesquisas sobre masculinidades tem propiciado questões importantes ao debate sobre as identidades sociais. Tais interesses têm suscitado reflexões sobre as relações entre identidades hegemônicas e periféricas e sobre a (re)produção simbólica do modelo hegemônico de masculinidade. A desconstrução das bases naturalistas da dominação masculina cotejou questionamentos dobre a unicidade e a coerência das identidades de gênero e o foco de análise foi deslocado para a política de construção da masculinidade hegemônica, que permite a identificação das relações de poder que engendra as identidades. Consideramos o estatuto de fonte que o filme adquiriu no contexto de abertura da história para novos campos, para a compreensão dos comportamentos, das visões de mundo, dos valores, das identidades e das ideologias de uma sociedade ou de um momento histórico. O filme pode tornar-se um documento para a pesquisa histórica, na medida em que articula ao contexto histórico e social que o produziu um conjunto de elementos intrínsecos à própria expressão cinematográfica.
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Mãe, tia ou intelectual orgânica? (Análise de representações de professoras no cinema brasileiro de ficção, 1967-1998)
Júlio César Lobo (UNEB)

Essa comunicação visa analisar representações de professoras como personagens principais ou secundárias em oito filmes brasileiros de ficção realizados entre 1967 e 1998, partindo de aportes que priorizam as interrelações entre estudos de gênero, análise de estereotipia e identidade docente. Os filmes são esses: Todas as Mulheres do Mundo (RJ, 1967), Terra em Transe (RJ, 1967), São Bernardo (RJ, 1972), Das Tripas Coração (SP,1982), Parahyba, Mulher-macho (RJ, 1983), Anjos do Arrabalde – As Professoras (SP, 1986) Leila Diniz (RJ, 1987) e Central do Brasil (RJ, 1998). A montagem desse corpus e o ângulo dessa pesquisa levam em consideração recortes provenientes de estudos que vem sendo feitos atualmente na história da educação no Brasil e que buscam problematizar neles os seguintes aspectos: a) magistério primário: profissão feminina, carreira masculina; b) o mito da educadora nata na educação infantil; c) relações de classe e gênero na educação; e d) mulheres e educação política. A despeito da grande ocorrência, nesse corpus, de protagonistas ou coadjuvantes personificando docentes como mães substitutas ou tias “emprestadas”, notamos em três desses filmes a dramatização de aventuras e desventuras de professoras assumindo um importante papel político, ou seja aquilo que Gramsci chamava de “intelectuais orgânicos”. Isso pode ser verificado, com origens e desfechos diversos, mais pontualmente na professora e militante partidária Sara (Glauce Rocha), de Terra em Transe; na professora, dona-de-casa e militantes comunista Madalena (Isabel Ribeiro), de São Bernardo; e na professora, libertária e militante de uma política do corpo Anayde Beiriz (Tânia Alves), de Parahyba, Mulher-macho.
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Female Troubles: sexualidades periféricas e políticas de subjetivação em um filme de John Waters
Kaciano Barbosa Gadelha (Faculdades INTA / Universidade Federal do Ceará)

John Waters, um dos eminentes cineastas do cinema underground americano, introduziu a subversão dos gêneros em uma série de filmes protagonizados pela drag queen Divine, a qual encarnava papéis femininos, parodiando (no sentido definido por Judith Butler) o lugar compulsório do feminino em nossa sociedade: o lugar da mulher de classe média, desde sua formação como moça bem comportada até esposa dedicada. Neste filme de 1974, Divine encarna Dawn Daveport, e a narrativa fílmica é uma espécie de Bildungsroman (romance de formação) às avessas, uma biografia transfigurada do desenvolvimento normal da personalidade feminina dentro da sociedade heteronormativa. O problema feminino irrompe na paradoxal inadequação de Dawn, reeditando os lugares da mulher, evidenciando suas tensões: o incapturável do desejo, a relação entre sexo e poder e o fetiche pelo crime e pelo grotesco. Neste trabalho me deterei não somente na centralidade da figura de Divine, mas a todo o campo periférico, do qual sua subjetividade emerge como efeito. Esse campo definirei como o campo das sexualidades periféricas que não encontram seu lugar no sistema identitário dos gêneros hegemônicos e apontam para políticas de subjetivação minoritárias. No filme do Waters, o que me chama mais atenção é a ligação entre sexo e poder, prazer e crime. Como no seio das relações eróticas, as relações de poder estabelecem-se em uma política de subjetivação marcada pela possibilidade de incorporação daquilo que seria supostamente exterior ao erótico (o crime, o inanimado e a morte)?
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Questões sobre um possível ponto de vista heteronormativo no filme O Segredo de Brokeback Mountain
Luciana Hioka (UFSC)

Este trabalho discute a possibilidade de o filme O Segredo de Brokeback Mountain (Paramount, 2005, direção de Ang Lee) trazer um ponto de vista heteronormativo, tanto na narrativa quanto no aspecto formal, sobretudo na edição das imagens. Isso se deveria por duas razões em particular. A primeira é que apesar de o filme trazer os protagonistas homossexuais Jack e Ennis, eles carregam uma série de atributos da masculinidade hegemônica. Tal masculinidade das personagens poderia de alguma maneira “legitimar” ou “naturalizar” a homossexualidade deles. A outra razão é a edição de imagens, que pode levar o espectador a se identificar com o ponto de vista heterossexual. Esse segundo aspecto será analisado em duas cenas emblemáticas do filme, em que o relacionamento homossexual dos protagonistas é visto através de tomadas de câmera subjetivas que se colocam no ponto de vista de personagens heterossexuais, no caso, da esposa de Ennis, Alma, e do empregador dos protagonistas, Joe Aguirre.
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Guerreiros perdidos — Antropologia política da masculinidade hollywoodiana
Luís Felipe Bueno Sobral (Unicamp)

Um hiato simbólico permeia o modo como os norte-americanos vêem a história de seu país: aquele entre a Segunda Guerra Mundial e a Guerra do Vietnã. Nesse processo, a narrativa nacional se escora em um caráter eminentemente épico, cuja força advém, em grande medida, de Hollywood, indústria cinematográfica na qual o herói ocupa posição incontornável. Este artigo consiste, assim, em uma análise comparativa entre dois modelos de heroísmo forjados através de filmes de guerra hollywoodianos: por um lado, o patriótico “soldado da liberdade” da Segunda Guerra; por outro, o soldado dilacerado da Guerra do Vietnã. O esforço analítico se resume em mobilizar fontes diversas — histórica, sociológica, antropológica — para elaborar uma interpretação que toma as duas representações heróicas como um processo de construção e desconstrução da masculinidade. Seguindo as pistas que os filmes indicam, tomo como eixo interpretativo o sacrifício heróico, momento narrativo e performático no qual o significado da masculinidade se delineia. Desenvolvo, portanto, uma antropologia política, na medida em que interessa entender que relações de força estão implícitas nas representações das masculinidades; em outras palavras, procuro investigar qual é o quadro sociocultural e histórico que, através da mediação hollywoodiana, se traduz pelo heroísmo de guerra.
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Inês é morta - Considerações sobre a representação do homem no fim do século XX e no começo do XXI
Marcelo Mendes de Souza (UFSC)

No séc. XX e no início do séc. XXI, a figura que melhor representou o homem é, sem dúvida, a do psicopata – se tomarmos como exemplo os filmes Psicose (1960, Alfred Hitchocock), Da vida das marionetes (1980, Igmar Bergman), Clube da Luta (1999, David Fincher) e Fale com ela (2002, Pedro Almodóvar). Nesses filmes, a figura do psicopata é construída à sombra da figura feminina/materna – ainda que esta se encontre sob a forma de um cadáver. A figura materna seria forte a ponto de continuar agindo de forma a dar valor a várias coisas que já não existem, mas que deixam vazios quando submergem. É uma espécie de acumulo de perdas, vazio sobre vazio, e a perda é tão maior quanto maior for a coisa sacrificada – e, paradoxalmente, esse valor é dado no ato do próprio sacrifício: sacralizar a figura feminina, no papel de amante, é, ao mesmo passo, consagrar-se com o poder materno de tornar sagrado. Além disso, o psicopata recria, a partir do vazio deixado pela própria figura do Homem – que estaria representado anteriormente na figura do Pai (de Deus, enfim) –, uma idéia de homem capaz de se incluir também através da força sacrificial, da violência. A partir desse fragmento, no qual se lê psicopata, temos a possibilidade de devolver potência a essa presença ausente do homem, despojo da catástrofe que transformou em dejeto a voz de Deus e em cadáver a figura Materna.
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Fazendo gênero com Almodóvar (Ou ressignificando para significar)
Maria Thereza Veloso (URI / UCPel)

Considerado por muitos como um outsider entre seus pares, o diretor espanhol Pedro Almodóvar é uma das vozes atuais a privilegiar as relações de gênero na cinematografia ocidental. Calcada recorrentemente na imagem materna, a obra almodovariana não apenas é uma recorrente homenagem ao universo feminino. Caracteriza-se, também, por tratá-lo distantemente de qualquer convencionalismo. Em Todo sobre mi madre, Almodóvar se supera no seu afã de dar voz e visibilidade aos que não ousam domesticar sua sexualidade e tampouco fogem ao seu destino de habitantes de um universo que os desconsidera por entendê-los estranhos ao estabelecido como norma do sexo social e culturalmente aceito. O pai de Esteban, o filho de Manuela que morre em um acidente sem saber quem é seu pai, é Lola, que se confessa, sem pruridos, ter sido alguém que nunca teve medidas: foi “demasiado alta, demasiado guapa, demasiado hombre, demasiado mujer!”. Neste trabalho, o foco é a construção dos personagens Lola, Manuela e Esteban como sujeitos-discursivos constituídos na falta e no desejo. A fundamentação teórica provém da AD, em interlocução com a psicanálise freudiano-lacaniana.
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As Bestas – Os estereótipos na obra de Cláudio Assis
Michael Peixoto, Carlos Guilherme Hünninghausen (Universidade de Brasília / Faculdades Energia)

Assim como afirmam Simone de Beauvoir, Michel Foucault e Margareth Rago, entre outros, a categoria “gênero” é construída, isto é, não existe a priori nas pessoas, mas sim é formada a partir dos posicionamentos sociais, sexuais e culturais. Nesse sentido, o cinema aparece como agente significante, produtor de sentido e comportamento ao oferecer mapas de classificação de identidades pelos quais nos guiamos (estereótipos). Neste artigo analisa-se personagens de dois filmes de Cláudio Assis (Amarelo Manga e Baixio das Bestas), com o objetivo de identificar os estereótipos de gênero presentes nesses filmes. Em especial, o estereótipo do feminino--tomado como norma ou desviante--seja na figura das mulheres (submissas ao homem versus “avançadas”, beatas versus adúlteras ou prostitutas) ou mesmo do homossexual afeminado, que forja um estereótipo do estereótipo. Cláudio Assis, em seus dois filmes, propõe o retrato de uma realidade sem adornos dos moradores do Nordeste do Brasil, seja no cenário urbano (Amarelo Manga) ou no rural (Baixio das Bestas). Identificou-se que o cineasta utiliza os estereótipos de forma diferenciada do cinema hegemônico, ao inseri-los na trama como forma de realizar uma crítica social. Assim, aparecem como um recurso fácil utilizado pelos personagens para obterem um mínimo de aceitação no meio em que vivem, como forma de adequação e conformidade. Sendo essas escolhas “voluntárias” as responsáveis pela frustração e destino trágico dos mesmos.
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Jamacy e os caçadores de veado
Muleka Mwewa (UFSC / Université Paris 1 – Panthéon Sorbonne)

A partir do filme Madame Satã de Karim Aïnouz (2002) problematizamos alguns aspectos da representação social do corpo de João Francisco dos Santos interpretado por Lázaro Ramos. Privilegiamos a violência pela qual este corpo é submetido em diferentes âmbitos para fazer emergir a transitoriedade identitária do Madame Satã como ficou conhecido. Este aspecto pode ser pensado no contexto da ordem subjetiva, ou seja, próprio do sujeito que se confronta com uma realidade interna e externa, porém adversa. O corpo que é pai, marido, capoeira, parceiro romântico, amante, ladrão, malandro da Lapa, detento, dançarino dentre outros trava com as representação sociais da época (década de 30 mais especificamente) um instigante jogo pautado na violência interna das diversas identidades com as autoridades legais que o considerava, por vezes, como um “…indivíduo de temperamento calculado e nocivo à sociedade”. Violência esta que explicitada na medida que os diferentes papeis se intercambiam de forma não mediadora e sim se sobrepõem num repertório que privilegia o que requerido pela situação que se apresenta.
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Le Fate Ignoranti: um filme que leva a sexualidade a sério
Patrícia Abel Balestrin (UFRGS/GEERGE/CAPES)

“Le Fate Ignoranti leva a sexualidade a sério.” comenta o crítico italiano Luca Prono que também se pergunta como o filme teve sucesso para além dos círculos gays e lésbicos: “que dispositivos narrativos foram desdobrados pelo diretor” para alcançar tamanha audiência? A partir deste excerto de crítica e inspirada em alguns aportes das teorias fílmicas feministas e dos estudos culturais numa perspectiva pós-estruturalista, pretendo analisar, neste trabalho, representações de gênero e sexualidade presentes na narrativa deste filme. O recurso metodológico utilizado aproxima-se do que Carmem Rial (2005) denominou “etnografia de tela”.
Na trama, temos uma mulher como protagonista e, após a morte de seu marido, uma revelação supreendente fará com que sua vida e a vida da comunidade gay com quem seu marido convivia não sejam mais as mesmas. Acredito que um dos dispositivos utilizados pelo diretor para marcar seu filme como politicamente interessado foi ter focado a questão da sexualidade sem deixar de lado questões de gênero.
Embora Um amor quase perfeito - título divulgado no Brasil - mostre possibilidades de transgredir a norma heterossexual, monogâmica, sexista, representações menos inovadoras também se fazem presentes. O filme nos leva a pensar sobre as normas que têm regido nossas relações afetivas e/ou sexuais, perturbando a ordem dos gêneros e das sexualidades. Mais do que levar a sexualidade a sério, Le Fate Ignoranti nos inspira e nos movimenta junto com as identidades que mostra, apresentando outras possibilidades de experimentar, desejar e viver as sexualidades na contemporaneidade.
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(Des)Construção da identidade feminina no filme Zuzu Angel
Regina Coelli Gomes Nascimento (Universidade Federal de Campina Grande)

O objetivo deste trabalho é problematizar a construção do Período Militar no cinema, para tanto recortamos para análise o filme Zuzu Angel dirigido por Sérgio Rezende produzido no ano de 2006. O cineasta constrói sua trama privilegiando o drama vivenciado por Zuzu Angel e seu filho Stuart Edgard Angel Jones, narrando a trajetória vivenciada pela estilista para localizar o corpo do filho e enterrá-lo. Assim, nesta pesquisa problematizamos algumas questões relacionadas ao filme, tais como: Quais espaços são apropriados para dar visibilidade à atuação de Zuzu Angel em um cenário marcado pelo autoritarismo? Quais espaços são instituídos para os militantes políticos? Quais os lugares foram construídos para problematizar a participação das mulheres na sociedade e no Estado. A partir dessas e outras questões pretendemos estabelecer um dialogo entre cinema e História. Para melhor compreensão do objeto, nos aproximamos dos pressupostos teórico-metodológicos relacionados aos seguintes autores: Michel Foucault com sua leitura metodológica da arqueologia do saber e Suart Hall discutindo a identidade e a cultura como processo de significação.
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Políticas de subjetividade: o caso de Brigitte Jones
Rosana Medeiros de Oliveira (Universidade de Brasília)

Pretendo apropriar-me da personagem Brigitte Jones, do filme “O diário de Brigitte Jones”, para meu percurso. Brigitte Jones comporá uma personagem conceitual na medida em que constitui uma forma-força-conteúdo da feminilidade contemporânea. Brigitte Jones encarna as forças de normalização no que diz respeito à construção da feminilidade na atualidade. Na produção serializada de subjetividades-mulher atuam sistemas hierárquicos, sistemas de valores, sistemas de submissão. Estes sistemas operam na produção de formas codificadas de pensamento e comportamento, construindo uma experiência feminina marcada pela constante sensação de inadequação corporal em que nenhuma parte do corpo está livre da correção-aprimoramento – caso Brigitte Jones. Interessa-me criar um sistema ótico que permita perceber as pedagogias da feminilidade nas práticas de construção de si (apresentadas no filme) e ao mesmo tempo explorar outras políticas da subjetividade que recusem as formas codificadas de vida e as existências fechadas aos devires, às transformações.
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Ver e Sentir: Experiências com imagens e narrativas de gênero, corpo e sexualidade no cinema.
Sandra Maria Nascimento Sousa (UFMA)

O Projeto de estudo Gênero e Imagens no Cinema, que vimos desenvolvendo tem dado lugar a uma variedade de produção de sentidos no contexto de uma cinematografia na qual identidades de gênero, papéis e práticas eróticas reproduzem significados legitimados como apropriados às normas de intelegibilidade de gênero e também mobilizam configurações que antes pareciam totalmente impróprias às mesmas normas. Compreendemos, dentre os vários sentidos atribuídos a tais papéis, identidades e outros definidores sociais, que modelos de corporalidade vão sendo trabalhados em imagens no sentido do encaixe e do (des)encaixe nessas referências, sendo assumidos pelos sujeitos em perspectivas tensas, conflituosas e, por vezes, prazerosas, à medida da aproximação ou do distanciamento de figurações sugeridas em todo o tipo de mídia. Pretendemos colocar em destaque recortes da pesquisa que estamos desenvolvendo com as interpretações de filmes, nos quais essas questões são tematizadas, e passam pelas opiniões e avaliações de pequenos grupos de expectadores dos mais diversos cursos, no âmbito da universidade. Nosso aporte teórico contempla estudos antropológicos sobre corpo, imagem e produção cinematográfica vinculados a teorias feministas que intencionam tornar representativas outras formas de intelegibilidade e produção de sentidos para a constituição de corpos, identidades e práticas de gênero.
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Otras mujeres en el nuevo cine argentino. Lesbianas y prostitutas en la imaginería cinematográfica contemporánea.
Santiago Morcillo, Florencia Gemetro (FOSC-UBA).

Las expresiones discursivas de la sexualidad femenina tradicional y sus disrupciones fueron ampliamente estudiadas por el Feminismo con la intención de arribar a una mejor comprensión de las relaciones genéricas de poder en las sociedades contemporáneas. No obstante, son raros los estudios que analicen los vínculos, la superposición y convivencia de la prostitución y el lesbianismo como metáfora de mujeres en los márgenes de su propia nominación en el imaginario contemporáneo argentino. Esas mujeres otras serían el horizonte de deseo y regulación en una dinámica compleja que constituye los vértices de una organización y normalización basada en modelos heterosexuales aún vigentes.
El presente trabajo se propone rastrear experiencias de construcción de sexualidades femeninas disruptivas, es decir, aquellas experiencias que resultan contraventoras de las pautas culturales que regulan prácticas e identidades sexuales de las mujeres en producciones cinematográficas que abordan el lesbianismo y la prostitución en las producciones del nuevo cine argentino. Las películas se abordarán desde un punto de vista sociológico orientando su examen a las construcciones, relaciones y jerarquías, actoras y actores vinculados como expresión de la realidad contemporánea, formas en que aparecen imaginadas o se proyectan y reflejan en los filmes argentinos.
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Caleidoscópios narrativos: lembranças de homens e mulheres
Tati Lourenço da Costa, Daniel Choma (UDESC)

Partindo da análise do documentário “Caleidoscópios” (DV, 07 min, 2007), o artigo reflete sobre relações de gênero em narrativas de memória. É possível identificar temas próprios às narrativas de homens e mulheres, definir semelhanças e diferenças do que e como se lembram? O audiovisual traz depoimentos de sete idosos, freqüentadores da UNATI na Universidade Estadual de Londrina. Realizado a partir de entrevistas de história oral com idosos e suas fotografias pessoais, sua produção foi resultante do projeto “Memórias da Cidade”, coordenado por nós autores no ano de 2007 na cidade de Londrina-PR. O artigo debate a diferenciação do modo de como homens e mulheres idosos constroem suas narrativas. Sobretudo, questiona a possibilidade de identificarmos diferenças de gênero em relação à natureza da memória, destacando desta alguns de seus principais caracteres. Em “Caleidoscópios” visualizamos homens recordarem a família, mulheres lembram do trabalho - temas que a princípio se relacionariam aos gêneros inversos. Sugere-se então que na experiência de observar fotografias pessoais as narrativas de memória construídas se relacionam mais fortemente às experiências do sujeito do que a possíveis “discursos de gênero”. Na utilização do vídeo como fonte e ferramenta de pesquisa, o texto sugere considerar aspectos subjetivos envolvidos no processo de realização de cada entrevista. O momento da tomada do depoimento, o gênero do entrevistado e do entrevistador, a relação depoente-pesquisador bem como a tecnologia empregada para o registro audiovisual, são alguns fatores que influenciam no conteúdo do que será contado ou omitido, lembrado ou esquecido por homens e mulheres. OBS: O vídeo Caleidoscópios está disponível para acesso em www.camaraclara.com.br
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“Sou feia, mas tô na moda” ou o funk e as novas regulações sobre corpo e sexualidade na contemporaneidade
Vera Lucia Pereira Brauner (PUC/RS)

O trabalho apresenta uma análise sobre o documentário chamado “Sou feia mas tô na moda”, título de uma das músicas da funkeira Tati Quebra Barraco. Foi lançado em 2005 com a direção da gaúcha Denise Garcia. O objetivo aqui é pensar sobre as representações de sexualidade e também sobre um outro lugar da mulher nas relações, que vem operando na subversão de seu papel submisso e dando visibilidade aos desejos femininos, vociferando pela liberdade, pela igualdade de direitos, especialmente os sexuais. No documentário, o uso do corpo no que diz respeito ao gênero e sexualidade nos ensina muito. Permite pensar que parece já existir alguns movimentos, talvez ainda incipientes, mas que caminham para novas formas de regular o ser mulher ou homem. O que vemos com as funkeiras é que a “norma” de uso do corpo (homem-desejante; mulher-desejada) é subvertida. Assim, interessa refletir sobre estes fenômenos sociais que vêm emergindo com força e que permitem estabelecer outras conexões, questionar o que está posto, pensar o antes impensável, refletir sobre estereótipos. Isto autoriza ver o corpo como lugar ativo, produto e gerador de marcas sociais, políticas, culturais, econômicas. O filme revela aspectos do universo do funk, dando visibilidade a novas formas de ser mulher e apresentando possibilidades de existência da diversidade nos usos e prazeres do corpo, em especial, da mulher.
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